A residência alternada é a melhor opção para todas as crianças?

Fevereiro 3, 2020 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Artigo de opinião de António Castanho publicado no Diário de Notícias de 24 de janeiro de 2020.

A grande maioria das crianças quer um relacionamento com os pais depois da separação, e a maioria dos pais quer e pretende manter um relacionamento pleno com os filhos/as.

Nesta fase da discussão, já não existe espaço para questões como a vinculação, se a mãe ou o pai tem ou não mais ou menos capacidade para cuidar de uma criança ou se a criança tem direito à presença dos pais na sua vida. A ciência já respondeu a isto e não deve existir lugar a dúvidas.

Após o divorcio/separação dos pais, a família da criança continua a existir e a residência única é um modelo por vezes desadequado e sempre que possível devem ser dadas às crianças as condições necessárias para possam passar tempo de qualidade com mãe e pai depois da separação ou divórcio, e sempre que possível através de um modelo justo para ambos os progenitores e para a criança. Os estudos comprovam isso.

Existem, contudo, neste mundo ideal, alguns problemas de partida que se podem acentuar se o Estado assumir a condição de regulador único do Superior Interesse da Criança partindo do princípio que o melhor para todas as crianças e famílias é aplicar sempre a mesma bitola e decretar para todos os casos, a residência alternada e a guarda partilhada.

Com o pressuposto, de que a residência alternada é o melhor para todas as crianças, esquecemo-nos que pode ser a melhor ou a pior de todas as opções. É a melhor opção quando os pais se centram na criança e cooperam e poderá ser pior das opções quando existe um conflito que coloca no meio de uma guerra e que a criança funciona como arma de arremesso.

A minha experiência profissional permite-me assegurar que:

– Os pais devem continuar a decidir, como sempre o fizeram, sem a intervenção do tribunal ou de outras instituições do Estado.

– Pais que não estão em conflito resolvem, frequentemente, a guarda das crianças sem recorrer ao tribunal.

– Em regra, os pais não necessitam que o Estado assuma o seu papel, decretando medidas como a residência alternada e quando o fazem é por existe um conflito.

– Em casos em que o conflito é de baixa intensidade, o papel regulador do Tribunal é pontual e resolve a situação com intervenção mínima.

– Mais importante que o tempo passado com os filhos, é a qualidade desse tempo.

– Pais em conflito esquecem-se das crianças tornando-se estas um meio para atingir um fim e que estas são completamente ignoradas e tornam-se, tristemente, objetos divididos ao meio.

– Agressores/as controladores/as, mesmo sem registo de violência, utilizam as crianças como uma extensão do seu controlo sobre o outro utilizando o sistema para o perpetuar.

– A residência alternada requer grande coordenação logística por parte dos progenitores (seja a 50%, 40% ou 30%) e muitos pais vivem a dezenas ou centenas de quilómetros e/ou trabalham por turnos, sem rede de suporte.

– A residência alternada em casos de conflito grave é, e quem trabalha com crianças sabe, a pior das opções.

No entanto, para qualquer opção, incluindo a guarda partilhada ou residência alternada, é importante perceber se estão garantidas:

  1. as necessidades físicas, emocionais, sociais e educacionais, incluindo a necessidade de estabilidade e segurança, tendo sempre em conta a idade e o estágio de desenvolvimento da criança;
  2. a disposição de cada progenitor/cuidador para apoiar o desenvolvimento e a manutenção do relacionamento da criança com o outro;
  3. o histórico de cuidados e os planos propostos para o cuidado e educação, levando em consideração as necessidades físicas, emocionais, sociais e educacionais da criança;
  4. as opiniões e preferências da criança sempre, que possível;
  5. a natureza, força e estabilidade do relacionamento entre a criança e cada um dos progenitores/cuidadores e outras pessoas significativas na vida da criança;
  6. a capacidade de cada progenitor/cuidador de comunicar e cooperar em questões que afetam a criança;
  7. o impacto de qualquer violência, abuso ou intimidação, independentemente da criança ter sido diretamente exposta ou ter experimentado a situação;
  8. a natureza da violência, abuso, intimidação, frequência e há quanto tempo aconteceu;
  9. os danos causados à criança pela violência, abuso ou intimidação;
  10. A opção de residência/guarda exigirá cooperação entre os pais/cuidadores e avaliação se esta cooperação ameaça a segurança da criança, do outro progenitor ou outra pessoa.

Aqui chegados, reafirmo que defendo a residência alternada sempre que se confirme como o melhor, assegurando o Superior Interesse da Criança e não de outros interesses e que a residência alternada é uma boa opção, mas existem outras igualmente boas. Para que o Superior Interesse da Criança seja garantido, a criança e a família devem ser vistas como únicas e não incluídas em tabelas decisórias.

Os/as decisores/as, nos casos em que são chamados a intervir, têm de dedicar energia, atenção, sensibilidade que cada criança merece, não arriscando medidas tabelares para todos os casos.

Não devemos esquecer que os pais já se articulam e decidem o melhor para os seus filhos e quando tal não acontece o regime legal já prevê e aplica a medida considerada a melhor ao caso concreto, cada vez mais, a residência alternada.

Assim, a residência alternada pode constituir a melhor opção, mas pode também constituir um limbo para a criança, se for aplicada forma tabelar ignorando a especificidade de cada caso e a singularidade de cada criança.

Psicólogo Clinico/Psicoterapeuta (ex-OPC e ex-Comissário numa CPCJ)

Sabia que, num choque a 50 km/h, o seu filho pesa uma tonelada?

Fevereiro 3, 2020 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , ,

Texto do Facebook da GNR:

Sabia que, num choque a 50 km/h, o seu filho pesa 1 tonelada?

Os acidentes são a maior causa de morte de crianças e jovens em Portugal. A maior parte das consequências podem ser evitadas, usando o correto Sistema de Retenção para Crianças (SRC).

As crianças não são adultos em miniatura e têm caraterísticas específicas, que as tornam mais vulneráveis num acidente de automóvel! O tamanho e peso da cabeça, combinados com um pescoço ainda frágil e a coluna que, durante os primeiros anos de vida, ainda está em processo de ossificação, torna-as muito mais frágeis que os adultos.

Por esse motivo, é recomendado que instale a “cadeirinha” em sentido contrario à marcha do veículo, em idades até aos 3 ou 4 anos.

Privação do sono: Socorro, o meu filho não me deixa dormir, o que fazer?

Fevereiro 3, 2020 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Texto do Público de 24 de janeiro de 2020.

A chegada de um bebé é um momento de alegria na família, mas também de mudanças nas rotinas, incluindo a do sono.

Diana Vilas Boas

Exaustos. Desorganizados. Irritados. Frustrados. Desesperados. Perdidos. Assim são os pais quando privados do sono. A chegada de um bebé é um momento de alegria na família, mas também de mudanças nas rotinas, incluindo a do sono. Os bebés choram, têm o sono desregulado e, por consequência, os pais tentam acalmá-los, adormecê-los e também descansar. A privação do sono tem consequências? Sim, “pode desencadear depressões, divórcios, desemprego e, em alguns casos, pais arrependidos de serem pais”, enumera Carolina Vale Quaresma, coach familiar. A neurologista Teresa Paiva desdramatiza e declara que se não estiver doente, o bebé dorme bem. O problema pode estar nos pais, alerta.

É preciso educar os bebés para dormir? ​Teresa Paiva, neurologista e especialista do sono, defende que o acto de dormir não precisa de ser educado. “O grande problema é quando o bebé acorda e choraminga e os pais vão logo a correr, seja para lhe dar de mamar, dar a chupeta ou o levar para a cama deles e o bebé habitua-se”, diz, criticando também a ideia que todos os bebés têm, por natureza, problemas para adormecer.

Constança Cordeiro Ferreira, terapeuta no Centro do Bebé, em Lisboa, considera que na maior parte dos casos não existem problemas com o sono dos mais pequenos. O problema é que os pais estão exaustos. “É muito importante haver um trabalho de adaptabilidade com os pais para a realidade de que vão ter de mudar alguns hábitos, para garantirmos que não vão estar privados de sono. O sono tem de ser uma prioridade para todos”, defende.

Hábitos como adormecer o filho ao colo, embalado ou na “maminha” levam à criação de uma dependência que, mais cedo ou mais tarde, é difícil de combater. Por isso, é importante habituar a criança a adormecer sem ajudas externas, aconselha Carolina Vale Quaresma. Para Constança Cordeiro Ferreira não há problema que a criança adormeça a mamar. “O leite materno tem componentes como triptofano, melatonina, endorfinas e uma composição variável consoante o dia e a noite, que vai favorecer o sono, ao contrário do que é muitas vezes dito aos pais”, justifica. “O silêncio da casa e o sono dos pais criam a atmosfera para [o bebé] dormir”, recomenda, por seu lado, Marina Fuertes, docente na Escola Superior de Educação de Lisboa (ESEL). Além de se habituar a estar na cama, a calma e o silêncio também ajudam a criança a regular as suas emoções, acrescenta.

Pais sobrevivem

“Educar o sono” pressupõe que a maneira de adormecer ou de dormir está errada e que é necessário corrigi-la, começa por dizer Constança Cordeiro Ferreira. O que acontece é que essa é uma ideia errada, continua. “Parte do problema vem daí [desse pressuposto]. Um bebé nos primeiros meses procura as condições óptimas para descansar e os pais têm a cabeça cheia de medos, que lhes foram colocados, e, logo aí, têm medo de dar a mama, dar colo ou conforto”, aponta. Além disso, as mães mudam de hábitos, as “mulheres têm dificuldade em quererem arranjar-se, em estar com os amigos, em viver. E tudo se resume a isso: com a privação de sono os pais nem sempre vivem, sobrevivem ao dia-a-dia”, nota Carolina Vale Quaresma.

“Muitas vezes, os bebés não ficam tão mal como os pais. A privação de sono tem um impacto enorme nos adultos, mais ainda nos pais”, avisa Constança Cordeiro Ferreira. E não descansar pode levar a algumas complicações de saúde, alerta Teresa Paiva: os pais podem vir a ter problemas de saúde mental como depressão, ansiedade, dores de cabeça e insónias crónicas; mas também doenças físicas, como as cardíacas, cardiovasculares ou aumento de peso. Quanto aos filhos, dormir pouco ou com muitas pausas pelo meio pode afectar a memória, baixar a imunidade às bactérias e a regulação do apetite, tal como a capacidade dos bebés em gerir emoções, refere Carolina Vale Quaresma, acrescentando que, a longo prazo, as crianças podem vir a ter dificuldades de aprendizagem, falta de concentração e agitação elevada.

A agitação e o choro constante, a dependência da criança para ser alimentada e os “cuidados frequentes” são os grandes causadores da privação do sono dos pais. Então, como conseguir que toda a família descanse? De acordo com Carolina Vale Quaresma, para o bebé não sentir que estão “com truques para o enganar”, deve ir acordado para o berço e ter noção do que está a acontecer. “Nada melhor para um bebé ser seguro que sentir que pode confiar na mãe no pai”, defende.

Para Marina Fuertes não se deve forçar a criança a dormir, com o risco de criar tensão, tensão que levará o bebé a resistir ao sono por o considerar algo “indesejável”, ficando assim mais rabugento e, consequentemente, com mais dificuldade para adormecer. Não interromper o descanso do bebé para o alimentar, ou simplesmente por medo de ele não dormir quando os pais desejam, são actos importantes que ajudam o bebé a desenvolver a “aprendizagem biológica do dormir”, fundamentaCriar uma rotina de sono, juntamente com uma rotina para alimentação e banhos, ajudará o bebé a “antecipar a hora do sono”, aconselha.

Dormir pouco ou muito?

Segundo Carolina Vale Quaresma, os bebés não dormem tempo suficiente. Por exemplo, até aos 6 meses de idade deveriam dormir cerca de 12 horas nocturnas e 4 horas diurnas. Constança Cordeiro Ferreira diz que existem fases em que o descanso infantil poderá ser mais afectado como, por exemplo, quando os bebés começam a gatinhar, iniciam a alimentação complementar ou quando a mãe ou o pai regressam ao trabalho. “Os pais devem saber isto e não ficarem aflitos”, lembra.

Com o intuito de ter uma “boa noite de sono” e também de evitar o uso de tecnologia, tablets ou smartphones, para adormecer, a professora Marina Fuertes aconselha a criar o “momento da leitura” após o primeiro ano de vida do bebé, inicialmente com livros apenas com imagens, depois com pequenas histórias e, após os 3 anos, uma história real ou imaginada pelos pais. A escolha não deve recair sobre histórias “com monstros ou excesso de estímulos”, pois podem despertar a criança.


Entries e comentários feeds.