Uma criança superprotegida é uma criança desprotegida

Dezembro 19, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Up to Kids

Cátia Pereira

Uma criança superprotegida é uma criança desprotegida

Quantos de nós vimos de uma educação superprotegida, em que a premissa máxima era “o mundo é um lugar inseguro” ou “não podemos confiar em ninguém”? Quantos de nós fomos avisados vezes sem conta com palavras como “atenção”, “cuidado”, “vê o que estás a fazer”, “não faças isso”, “eu disse-te”, “é perigoso”, entre muitas outras?

Palavras que marcam o nosso estado de alerta ao expoente máximo. Que aumentam os níveis de stress e cortisol, que nos impedem de conectar como os outros de uma forma saudável, logo danificando a nossa auto-estima.

Uma criança superprotegida sente que é necessário fazer de tudo o que pode e o que não pode para sobreviver. O seu estado é de constante alerta, o seu corpo está maioritariamente tenso e contido, vivendo num medo que a pode rapidamente paralisar.

Uma criança superprotegida vem de uma história de vinculação insegura. De pais ausentes física ou emocionalmente que acreditavam que a criança aprende melhor se se salvar sozinha ou então que não pode ter contato com o mundo. Vive num contexto que é pouco estimulante, poucas palavras, pouco ou nenhum toque, que é muito controlado. As regras são de tal forma exigentes que a criança não pode dar um passo em falso. Estas crianças acabam por não conhecer o mundo, não sabem o que é sentirem-se seguras, nem sabem como pedir ajuda. A superproteção paternal  até pode ter uma ótima intenção, evitar a dor e o sofrimento, já que o mesmo não é tolerado pelos seus cuidadores.

Qualquer mãe e pai quer proteger o seu filho, sem dúvida. A questão é: como o fazem.

A superproteção advém da nossa necessidade de controlo e de segurança. Contém muitos dos nossos medos enraizados que nos impedem de sentir o que está acontecer e aquilo que é realmente importante na relação com a criança.

Proteger não passa apenas por dizer o que fazer e o que não fazer, proibir ou negar acesso a determinados eventos ou esconder ao máximo comentários alheios e desagradáveis que lhes magoem a auto-estima. A criança irá, inevitavelmente, passar por momentos que lhe trarão dor. A perda de um ente querido ou do seu animal de estimação. O seu primeiro desgosto amoroso ou a traição de um amigo. Estes acontecimentos surgirão, e irão passar ao fim de um tempo. Aqui, entra o nosso papel de cuidadores que querem proteger os seus filhos.  Proteger não significa salvar, mas sim que sejamos adultos responsáveis, para que possamos lhes dar um sentido de segurança, demonstrar-lhes que estamos lá para eles e que vamos fazer o que está ao nosso alcance.

Se quer realmente criar um vínculo seguro com o seu filho, reflita:

  • em que medida as suas ações estão a permitir que ele conquiste a sua própria independência?
  • em que medida confia realmente no seu filho?
  • quanto espaço lhe dá para que ele possa vir ter consigo sempre que precisar?
  • questione-se se os limites estão bem claros para todos.

Um vínculo seguro é encontrarmo-nos a meio caminho entre a liberdade e a segurança, entre a independência e a dependência, entre pertencer a um todo e estarmos bem sozinhos.

Regras para vencer as birras. Aprenda a lidar com o seu filho

Dezembro 19, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Up to Kids

Centro Catarina Lucas

Regras para vencer as birras

Birras: como lidar com elas

É domingo à tarde, estamos a fazer compras no nosso supermercado favorito. Neste momento encontramo-nos a escolher qual o jantar especial de logo à noite… quando de repente ouvimos gritos. Ao olharmos nessa direção apercebemo-nos de uma criança irritada e chorosa a apontar para um qualquer brinquedo da moda. Ao seu lado a sua mãe, envergonhada ao reparar nos olhares de desaprovação das pessoas ao seu redor. Sabemos que os olhares não falam, mas ela ouve-os perfeitamente: “tens de agir, tens de controlar o teu filho”.

Bom, este é um cenário comum. Mas porque é que isto acontece?

As birras infantis não são simplesmente um indicador de mau comportamento, podem significar muitas coisas. A criança não tendo grandes competências de gestão emocional, vai utilizar os meios ao seu alcance para se expressar. Faz birras, seja por tristeza, desconforto, sono, medo. Choram, gritam, empurram, atiram-se para o chão, dão pontapés, atiram objetos. Por vezes pelas razões mais simples: “não quero vestir essa camisola”, “não quero comer”, ”não quero ir dormir”, “não consigo fazer isto”…

As birras são normais e todos já passamos por elas. Sabemos que são diferentes de criança para criança, pois a forma de expressão vai diferir entre elas. Contudo, a forma da birra não é o mais importante. O mais importante é sim, como os adultos reagem a ela.

Regras para vencer as birras:

1- Não ceder

Muitas vezes, parece que somos “obrigados” a ceder às birras das crianças, principalmente se, tal como no exemplo inicial, estivermos num sítio público. A verdade é que, ao ceder, só estamos a piorar a nossa situação. Quando cedemos à birra de uma criança estamos a dizer-lhe várias coisas e a ensinar aspetos importante acerca das interações com os adultos. Em primeiro lugar, que as birras são aceitáveis. Em segundo lugar, que esta é uma boa forma de obterem o que querem. Ceder dará início a um ciclo vicioso difícil de controlar.

2- Não se deixar levar pelas próprias emoções

No seguimento da regra número 1, o controlo emocional pela parte do adulto é a estratégia mais eficaz para lidar com a birra da criança. Imaginemos: A criança chora porque quer levar um brinquedo do supermercado, os pais dizem que não pode ser, aí a criança chora mais (Obviamente! Talvez os vença pela vergonha ou cansaço.) e aí os pais dão-lhe uma palmada para a punir pelo comportamento. Por um lado, mostramos à criança que bater quando nos zangamos é algo que podemos fazer. Por outro, se inicialmente havia 1 elemento emocionalmente descontrolado e agora existem 2.

Nunca esquecer: as crianças aprendem muito bem por observação e imitação.

3- Dê-lhe espaço para se acalmar.

Tudo o que poderá dizer enquanto a birra estiver a ocorrer não terá grande efeito, até esta se acalmar. Pode optar por tirar a criança do sitio onde ela está e esperar que esta se acalme ou simplesmente esperar que ela naturalmente abrande quando perceber que não está a ter o efeito desejado.

4- Não faça ameaças que sabe que não vai cumprir

Frases como “Se não paras de chorar vamos embora daqui” ou “se não paras com isso nunca mais vens ao parque infantil” poderiam resultar, mas a verdade é que não têm qualquer influência no comportamento da criança porque ela sabe que o mais provável é que não aconteça.

5- Atuar no pós-birra

Após a birra acalmar, converse com a criança. Faça-lhe perguntas sobre a forma como se sentiu e ensine-lhe algumas regras que sejam importantes.

Quando diz “não” à criança, explique-se o porquê do “não”. Respostas como “porque eu é que mando” não resultam, só vão gerar mais frustração na criança cujo principal desejo é ser ouvida.

6- Evitar as birras

A solução para evitar as birras, por exemplo, no supermercado, não é deixar de levar a criança. Muito pelo contrário. É importante ela ir, e aprender aos poucos a comportar-se. Poderá haver uma conversa antes de saírem de casa: “vamos às compras, mas não podes pedir brinquedos nem doces”, ou “se te portares bem (explicar o que isso implica para si) podemos jogar um jogo quando chegarmos a casa”. Poderá também dar-lhe um papel mais importante nesta ida às compras, por exemplo, dar-lhe a escolher entre 2 tipos de bolachas que quer comprar, sendo as opções dadas pelos pais.

Mais do que punir o mau comportamento, é reforçar a boa conduta quando esta acontece. Desta forma os comportamentos desejados tenderão a ser repetidos com mais frequência porque a criança se sente valorizada ao ser “premiada” com elogios.

Remédios milagrosos para meninos ansiosos que choram na escola

Dezembro 19, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Armanda Zenhas publicado no site Educare de 28 de novembro de 2019.

D.ª Flávia trabalha na receção de uma escola básica. Conhece quase todas as muitas centenas de alunos que a frequentam, desde o 1.º ciclo ao 3.º ciclo. Conhece igualmente os pais deles. Com todos fala, a todos atende, com a paciência e disponibilidade que a caraterizam, cativando muitos de imediato, serenando exaltados, acalmando ansiosos, informando os que querem e, com muita subtileza, aqueles que pensam que tudo sabem.

Havia uma menina que, terminado um teste, recorria chorosa aos seus carinhos, porque achava que lhe tinha corrido mal. Normalmente, a nota acabava por ser boa, e a Susana (assim se chamava a menina) vinha mostrar-lha sorridente. Ia poder mostrar à mãe, que ia ficar satisfeita. Quando a nota era mais baixa, embora sempre positiva, a mãe ralhava-lhe e dizia que ela precisava de estudar mais. D.ª Flávia prometeu arranjar-lhe um remédio milagroso, que lhe ia tirar o medo de fazer testes. Era um remédio muito caro que ela mandava vir do estrangeiro e só dava a meninos especiais. E era um remédio mágico que não fazia mal a ninguém. Com esse remédio, a Susana deixaria de ter medo de fazer os testes. E assim foi. Antes de cada teste, a Susana ia ter com a D.ª Flávia, que lhe dava um comprimido branco, muito caro e especial, próprio para meninos especiais. O suposto comprimido não era mais do que uma bolinha de adoçante. Susana ia para o teste tranquila e confiante e, no fim, vinha contar à D.ª Flávia como lhe tinha corrido, sempre de sorriso nos lábios.

Artur era um menino que não conseguia habituar-se à nova escola. Tinha medo de ir para o recreio, porque tinha passado a ser um dos meninos mais pequenos e tinha medo dos grandes. Nos intervalos, procurava ficar a um canto e escapar das ordens de ir para o recreio. D.ª Flávia não deixou de reparar nele e abordou-o. Perante as confidências do menino, prometeu-lhe um chá milagroso. Era um chá muito caro que ela mandava vir do estrangeiro e que só dava a meninos especiais. Ia fazê-lo sentir-se mais calmo e confiante. Ela iria trazê-lo de casa e entregá-lo no bufete, dando instruções à sua colega para só o servir ao Artur. Artur passou a ir ao bufete tomar o tal chá milagroso, que D.ª Ilda, a assistente operacional aí em serviço, só lhe servia a ele. E resultava! Ficava mais contente, mais calmo e mais confiante. Não deixou de conversar e confidenciar com D.ª Flávia, que o aconselhava a juntar-se aos meninos da sua turma nos intervalos. Com o chá e os conselhos da D.ª Flávia, o Artur foi-se afoitando no recreio e na sua exploração. As lágrimas e os receios foram ficando para trás. O suposto chá estrangeiro era um comum chá de cidreira.

E as histórias que D.ª Flávia me conta sucedem-se. Pode ser um chá, pode ser um remédio. Mas é sempre caro, comprado no estrangeiro e dedicado por ela a meninos muito especiais. São estes os ingredientes que ela considera importantes para, em conjunto com as conversas entre ela e as crianças, estas ganharem confiança em si próprias. Já lhe aconteceu ser abordada por mães de algumas destas crianças a quererem saber como comprar o chá, pois notam as melhorias que provoca nos filhos. E D.ª Flávia conta-lhes a verdade e explica-lhes como é importante incutir confiança e curiosidade e evitar e eliminar fatores ansiogénicos. Esta assistente operacional só fez a escolaridade obrigatória, porque a família não tinha posses para mais. Sem estudos adicionais mas com competências pedagógicas advindas da sua experiência de vida e da sua enorme sensibilidade, tem, contudo, vindo a desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento e na escolaridade de muitas crianças que passam pela sua escola. A sensibilidade, a atenção individualizada a cada criança, o carinho e a criatividade são alguns dos ingredientes que permitem aos educadores – pais ou profissionais da educação – encontrar formas eficazes de lidar com crianças em situações de stress e de as ajudar a desenvolver confiança em si próprias e a encontrar em si mesmas meios de ultrapassar as dificuldades com que se defrontam.

Armanda Zenhas Doutora em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQA do grupo 220 no agrupamento de Escolas Eng. Fernando Pinto de Oliveira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.


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