Quando uma mãe coloca um filho no lixo

Novembro 16, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 10 de novembro de 2019.

Quando uma mãe coloca um filho no lixo todo o país pára e desata a formar impressões e a tecer juízos de valor, com base na pouca informação disponível. Esticam-se dedos acusatórios e condena-se a mãe (a quem chamam monstro) em praça pública, antes ainda de serem conhecidos todos os contornos da situação. Outros há que se focam no facto de a mãe viver, alegadamente, na rua, o que remete para questões sociais, económicas e políticas associada à realidade das pessoas que vivem sem abrigo. Uma realidade que permanece ainda sem respostas suficientemente adequadas e que, sabemos, tantas vezes se cruza com problemas a nível de saúde mental e consumo de substâncias.

Naturalmente que este caso tem um forte impacto negativo em todos nós. Falamos de um bebé recém-nascido colocado num contentor do lixo, como se de lixo, realmente, se tratasse. É algo horrível e que activa emoções muito fortes. E ainda bem que assim é, sinal de que estamos perante um comportamento dissonante e que conseguimos empatizar com aquela criança. Sinal de que somos humanos. Sinal de que há alguma esperança no futuro.

No entanto, calma com os juízos de valor, as condenações a priori e as abordagens sensacionalistas. Antes de julgar e criminalizar, é necessário avaliar a situação para compreender. Sendo que compreender não significa desculpabilizar.

Onde estava ela nessa altura? Qual o seu percurso de vida? Apresentava já factores de risco ou alguma problemática em particular que não foi detectada a tempo?

É necessário avaliar a mãe do ponto de vista psicológico e perceber se estamos perante um quadro depressivo severo, no qual o próprio, os outros e o mundo são percepcionados de forma muito negativa. De acordo com a literatura, estas mães sentem-se sem recursos para enfrentar um mundo ameaçador e acreditam que o futuro será apenas o eternizar de uma situação de forte sofrimento. Ou se a mãe cometeu este crime no contexto de um surto psicótico, sem capacidade de avaliar, no momento em que o cometeu, da ilicitude do acto e das possíveis consequências do mesmo. Ou se esta criança é fruto de uma violação e o bebé percepcionado como a personificação do violador, a prova viva daquilo que aconteceu e deseja esquecer-se. Ou… ou… tantas hipóteses ainda em aberto, e tanta pressa já em julgar.

Esta mãe, jovem adulta numa situação de exclusão tão limite, foi antes uma adolescente. E antes, ainda, uma criança. Onde estava ela nessa altura? Qual o seu percurso de vida? Apresentava já factores de risco ou alguma problemática em particular que não foi detectada a tempo? Para a qual não existiu uma intervenção adequada? Se sim, onde falhou o sistema? Onde falhou a comunidade? Onde falhamos, portanto, todos nós?

Que este caso horrível sirva para várias coisas.

Que sirva para que a saúde mental e a intervenção social deixem de ser olhadas como questões de segunda categoria. E que isso se reflicta a nível das políticas públicas e consequentes medidas de intervenção.

Que possamos centrar-nos mais em abordagens preventivas e de redução do risco, ao invés de manter o foco na remediação e minimização dos danos.

Que possamos também olhar mais para dentro de cada um de nós. O que podemos fazer, enquanto cidadãos e profissionais, em prol dos outros e da comunidade? Quantas mães como esta vivem perto de nós, invisíveis aos olhos de quem as vê? Quantos de nós viram a cara quando passam por pessoas que vivem em situações de total degradação e miséria humana? Quantos de nós fingem não ver?

Que este bebé colocado no lixo traga visibilidade a tantas outras realidades invisíveis.

Seminário “30 Anos de Convenção: Que Cidadania para as Crianças” com a participação de Dulce Rocha do IAC, 21 novembro no Barreiro

Novembro 16, 2019 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Dra. Dulce Rocha, Presidente do IAC irá participar com a comunicação “O Olhar da Convenção nas questões da violência – 30 anos depois”.

mais informações nos links:

https://www.facebook.com/CPCJBRR/

Inscrições até dia 19 de novembro, através do link: https://forms.gle/fmotWqpuWqYjvDbm7


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