A morte vivida por uma criança
Novembro 12, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentárioEtiquetas: Crianças, luto, Morte, Vera Ramalho
Artigo de opinião de Vera Ramalho publicado no Público de 29 de outubro de 2019.
A morte de alguém que nos é querido assume-se como uma das experiências mais profundas de dor emocional que uma pessoa pode viver. Sim, vive-se a morte. E cada um vai viver a morte de cada pessoa que ama de uma forma distinta, como uma experiência singular, porque isto advém do contexto geral da sua vida e da relação única que tinha com aquela pessoa que morreu. Com as crianças não é diferente.
A morte tem sido um tabu na nossa sociedade, no entanto, falar sobre a morte nunca foi tão necessário. A dificuldade em abordar este assunto com as crianças está, muitas vezes, relacionada com a dificuldade que os adultos têm eles próprios em lidar com a morte.
Tal como acontece no adulto, o luto da criança é um processo de reconstrução de significados que, com a perda, foram postos à prova. Para a criança, os seus pais, avós, tios e outros entes queridos vão morrer muito velhinhos, ou seja, quando ela já for bem adulta. Até porque, quando tudo está bem na família, não se fala com as crianças na possibilidade de morte prematura e inesperada de alguém, e ainda bem, caso contrário, elas andariam sempre em sobressalto.
Como ajudar a criança a caminhar para a adaptação? Aquando do infortúnio da morte de uma pessoa que lhe é próxima, a criança terá de encontrar sentido para algo que não tem sentido, e, gradualmente, dar lugar à adaptação. Adaptar é ter de reorganizar a sua vida sem a presença física da pessoa que morreu, podendo falar e ouvir falar dela sem a ilusão de que não falar vai doer menos, porque deixar de falar em quem se ama é um pedido cruel e que não faz sentido algum; adaptar é ouvir dos adultos que ficaram a tomar conta dela que aquilo que sente é natural, não sendo vergonha senti-lo nem dizê-lo; adaptar é ter espaço no seu desenvolvimento para encontrar um novo “eu” sem aquela pessoa.
Com o tempo, a dor vai apaziguar e a criança, numa espécie de redefinição de si mesma, vai regular-se, reconstruir ligações com os outros e descobrir novas formas de satisfação e de alegria, mesmo perante a morte. Tudo isso custa muito e tanto a criança como quem está a tomar conta dela pode sentir medo, sobretudo quando se perdeu um conjugue. Medo de largar e ficar sem aquela pessoa para sempre: sem memórias, sem a sua voz, sem o seu cheiro e sem qualquer marca sua. Sem amor. O amor também morre? Não, mas gradualmente vai mudar, porque amar em vida é diferente de amar depois da morte. A criança vai aprender a continuar a amar aquela pessoa numa fase inicial, com uma imensa vontade de estar novamente com ela; depois, através do pesar e da saudade. Com o passar do tempo, desejavelmente, vai caminhar para a construção de um espaço próprio para aquela pessoa no seu coração.
Como ajudar a criança?
Ao invés de fazer um esforço para acabar com o sofrimento da criança, tarefa inexequível, poderá ser mais funcional acompanhá-la na expressão dos seus sentimentos, mostrar que os compreende e que a sua dor pode ser vivida livremente.
Tudo isto quer dizer que quem está à volta da criança tem um papel fundamental na sua adaptação. A forma como a criança suportará a morte de alguém importante para si estará ligada ao apoio que sente dos que lhe são próximos. Esforçar-se para ignorar e evitar qualquer lembrança da perda, ou deixar de falar sobre a pessoa que morreu ou mesmo deixar de vê-la em fotografias só vai tornar tudo mais penoso.
Quando surgem dificuldades de adaptação num membro da família, os outros podem ser induzidos ao mesmo. O isolamento e a culpa podem reduzir as suas vidas a um processo inadaptado, havendo um sério risco de se supor que se criarmos novos laços com outras pessoas ou nos divertirmos estamos a trair a pessoa que morreu.
Dê tempo à criança.
Todos nós temos o nosso tempo. Se hoje não apetecer à criança falar, pode apenas ouvir, sem obrigação de responder. Também pode acontecer haver dias em que não se vai calar com perguntas e outros em que vai parecer que não perdeu ninguém tão importante para si. Isto é frequente nas crianças, porque elas não estão a lidar com a morte através dos pensamentos, mas sim com as emoções. Muitas vezes, as pessoas ficam preocupadas e até chocadas porque no dia do funeral não chorou uma lágrima, ou não quer ir ao cemitério visitar o pai ou a mãe. Nada disso significa que a criança não esteja a viver a morte, mas simplesmente que é criança e na sua esfera desenvolvimental tudo pode ser diferente e ter outros tempos. Ela até pode rir e chorar no mesmo momento, pode ficar birrenta ou queixosa ou pode dormir tranquilamente sem qualquer problema. A crítica a estes comportamentos e à suposta ausência de lamento nunca é bem-vinda e pode simplesmente contribuir para a desadaptação da criança.
Deixe a criança sentir e chorar.
Num momento inicial, que irá ser diferente de criança para criança, os sentimentos predominantes são a tristeza e o medo. Além disso, sendo o luto um período de emoções à flor da pele, as reações podem, numa fase inicial, apresentar-se desreguladas, passando, gradualmente, a uma oscilação em que ora se está bem ora mal, até acontecer a regulação. A criança poderá passar rapidamente da tristeza para a apatia ou o isolamento ou mesmo para a alegria, bem como adoptar comportamentos que fazem parecer que a morte é-lhes indiferente. Todos estes comportamentos e sentimentos são naturais e a criança não deve ser pressionada a sentir tristeza. Respeite a escolha e o tempo da criança.
Cabe aos adultos que a acompanham tornar natural os sentimentos de saudade e pesar e encontrar o que fazer para os expressar e afagar, como ver fotografias ou falar sobre a pessoa que morreu. Vai doer? Sim, vai, e a criança vai chorar. Não diga “Não chores mais”. Porque é que a criança não pode lamentar a ausência de quem tanto amou? Chorar é tão simplesmente a expressão do amor que se transforma em saudade.
A autocompaixão pode ter um papel importante, dando lugar à expressão de sentimentos e ao direito de os sentir e de lamentar por si própria.
Mostre à criança que pode ser feliz com outras pessoas.
Por vezes, nós, os adultos, podemos ter dificuldade em seguir com a nossa vida porque pode parecer que estamos a relegar a pessoa que morreu para segundo plano e que esquecemos o que aconteceu, ou seja, que o nosso amor por ela acabou.
Aos adultos que acompanham a criança pede-se que manifestem os seus sentimentos de forma equilibrada, que os partilhem com as crianças e que sirvam de modelos de relacionamento, indo buscar apoio e conforto noutras pessoas.
Estar presente à medida que a nova história da criança se desenrola é uma forma de trazer a pessoa enlutada à vida, sem medo de falar e com bons ouvidos a escutar.
Rituais fúnebres.
Quando se trata de uma criança que perde alguém importante na sua vida tudo pode tomar uma proporção aumentada porque quem está à sua volta, perante a sua própria dor, pode, por simples preocupação, sentir-se inseguro sobre, por exemplo, levar ou não a criança aos rituais fúnebres.
O adulto deve poupar a criança aos detalhes duros sobre a morte para a sua compreensão e para o seu coração. De resto, dependendo da idade e compreensão da criança, tanto o velório como o funeral podem ter um papel fundamental na forma como se despede do seu ente querido e inicia o seu processo de luto. A presença nesses rituais pode ajudar a criança a tomar a verdadeira consciência de que a pessoa morreu e permite despedir-se dela. Assim, a criança, se tiver idade para tal, deve ser envolvida na tomada de decisão de assistir ou não ao funeral, havendo a possibilidade de não ficar até ao fim. Uma explicação simples e adequada à maturidade da criança sobre os rituais da cerimónia, o que irá acontecer antes e durante o velório e o funeral pode ajudar na decisão, além de preparar a criança para as diferentes respostas emocionais e comportamentais das outras pessoas presentes (choro, gritos, tristeza, silêncio).
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