O meu filho ainda não se adaptou à escola. E agora?

Novembro 6, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e foto do DN Life de 25 de outubro de 2019.

Acontece no pré-escolar, na entrada para o primeiro ano e na mudança de ciclo de ensino. Por diferentes razões, há crianças que, por esta altura, ainda não se adaptaram à escola. O que pode estar na origem dessa resistência? E como é que os pais podem ajudar? Foi o que tentámos perceber junto de duas especialistas.

Joana Capucho

Nas vésperas dos testes, Lucas, de 11 anos, ficava muito ansioso: “Chorava, dizia que não queria ir à escola, que queria morrer”. Aconteceu há cerca de um ano, quando mudou de escola, na transição do quarto para o quinto ano. Sempre que se aproximava uma prova, ficava “ofegante, a suar das mãos, com alterações do sono e do apetite”. “Apresentava um padrão de ansiedade forte”, recorda Cristina Valente, psicóloga e coach parental, que acompanha o caso. Fala-nos de uma criança “sensível e muito inteligente”, que hoje está perfeitamente integrada, mas que “teve muitas dificuldades de adaptação à escola”.

Um mês após o início do ano letivo, haverá muitas crianças que ainda não se habituaram à mudança. Situações como a de Lucas (nome fictício) são “muito normais”, diz Cristina Valente, destacando que “temos de perceber a verdadeira causa do comportamento”. Ou seja, duas crianças podem manifestar a resistência à escola da mesma forma, mas “as causas podem ser diferentes”.

Segundo a autora do livro O que se passa na cabeça do meu filho?, “para alguns miúdos regressar à escola é como para muitos adultos voltar ao trabalho após as férias”, pois há crianças que “gostam muito mais do lúdico do que do trabalho”. Para outras, prossegue, “tem a ver com os desafios que a família pode estar a passar na altura”. Foi o que aconteceu com Lucas: “Havia excesso de trabalho na família. Não havia tempo de qualidade para estarem juntos, portanto tivemos que ajustar algumas rotinas”. Além disso, o rapaz sentia “uma pressão exagerada da escola e dos pais”, que o fazia estar constantemente com medo de falhar.

Para Cristina Valente, as dificuldades de adaptação das crianças prendem-se também com “a forma como a escola está desenhada”, nomeadamente com “excesso de tempo curricular, falta de tempo livre não estruturado, foco mais direcionado para a aprendizagem cognitiva e académica do que emocional”. Ao DN, recorda os resultados de um estudo feito em Portugal, cujos resultados serão apresentados em breve, que concluiu que a principal razão pela qual as crianças gostam da escola é porque estão com os colegas. “Zero por cento disse que é porque gostam de estar com os professores”. E muitos queixam-se dos horários extensos.

Ao consultório da psicóloga chegam “muitos pedidos de ajuda até dezembro com miúdos que têm dificuldade em ir para a escola”, nomeadamente crianças que entram para o primeiro ano do ensino básico. “Há três meses estavam no pré-escolar. Tinham rotinas completamente diferentes. Agora têm de estar sentadas e focadas o dia todo, com mais matéria e menos tempo de brincadeira. Isso é mau? Não, é ótimo”. Mas nem todas reagem bem. “Se não se adapta no primeiro mês, calma”.

Há três meses estavam no pré-escolar. Tinham rotinas completamente diferentes. Agora têm de estar sentadas e focadas o dia todo, com mais matéria e menos tempo de brincadeira.

É difícil definir qual o período normal de adaptação escolar, porque “cada criança tem o seu ritmo”, diz a psicóloga Cátia Teixeira, que trabalha no Colégio Vasco da Gama, em Belas. “À partida, ao fim de um mês, a maioria das crianças estará adaptada, mas pode não acontecer”. E, muitas vezes, não acontece. “O mais comum é as dificuldades de adaptação surgirem no jardim-de- infância e no primeiro ano”, sublinha.

Há casos, como um que acompanha, em que as crianças passam diretamente da casa dos avós ou das amas para o pré-escolar, e sentem muito a mudança. Recorda uma criança de três anos que “chorava o dia inteiro”. Não dormia a sesta e até durante o almoço chorava. “Foi muito difícil. Estava sempre a perguntar quando é que a mãe voltava”. Para resolver a questão, a psicóloga sugeriu que a criança passasse para uma adaptação progressiva. Deixou de ir o dia todo, como no início, para passar a ir só meio-dia. “E, aos poucos, foi-se adaptando. Agora fica o dia todo sem chorar, tranquila”.

As dificuldades nos relacionamentos com outras crianças também podem complicar a integração na escola. “Quando isso acontece, é natural que a criança resista ou não se sinta bem naquele contexto”, refere a psicóloga clínica, que intervém na área infantil.

Noutras situações, os problemas são reflexo da ansiedade dos adultos em relação à mudança: “A ansiedade dos pais passa para as crianças, que não se conseguem tranquilizar. Pode não ser nada com elas, mas o facto de sentirem que os adultos que são significativos para elas estão ansiosos, faz com que fiquem ansiosas, o que dificulta a adaptação”.

Existem ainda situações que resultam de acontecimentos externos como o nascimento de um irmão, a morte de um familiar, o divórcio dos pais ou a ida de um dos progenitores para o estrangeiro. Situações que fazem com que a criança “não esteja bem emocionalmente”, dificultando o processo de entrada na escola.

Mesmo quando as primeiras semanas decorrem com normalidade, pode haver regressão. “Com o passar do tempo, deixa de ser novidade”. E a rotina pode fazer com que as crianças percam o interesse na escola. “É importante que os pais percebam qual é o problema. Se for esse, devem tentar que haja novidade, que não seja aborrecido” ir à escola, afirma a psicóloga.

Dependendo das idades, diz Cátia Teixeira, as crianças vão manifestar o stresse de diferentes formas. “Nas crianças mais pequenas, o choro e o não querer largar os pais na hora da despedida são o mais evidente”, adianta. Nos mais crescidos, o choro pode também ser um sinal, mas costumam aparecer outros: dores de barriga e cabeça sem justificação médica, tendência para o isolamento, alterações de sono, perdas de apetite e verbalizações (“Não quero ir, não gosto da escola”).

Para facilitar a adaptação à escola, ​​​​​​as duas psicólogas deixam algumas sugestões aos pais:

Promover a articulação com a escola
O momento da separação dos pais pode ser muito difícil, mas, por vezes, a criança deixa de chorar ao fim de poucos minutos. Em alguns casos, os educadores do jardim-de-infância enviam fotografias aos pais para os tranquilizar. Essa articulação com educadores e professores é muito importante. Se os pais não estão tranquilos, as crianças também não vão estar.

Dar espaço à criança para falar
Sem pressionar demasiado a criança, os adultos devem dar-lhe espaço para falar, perceber o que sente, o que lhe passa pela cabeça. Só é possível resolver o problema se souber o que está a causar dificuldades na adaptação.

Fazer mudanças na família
A causa dos problemas na escola está muitas vezes em casa. Por isso, é importante que a família perceba se precisa de fazer alterações nas suas rotinas. Passar mais tempo em casa é, por vezes, uma das soluções.

Não pressionar demasiado a criança
A pressão para os resultados pode fazer com que as crianças vivam estados de extrema ansiedade, que tornam a ida para a escola num pesadelo. Por isso, é importante não exigir demasiado dos filhos na obtenção de bons resultados.

Fazer perguntas concretas
Para perceber melhor o que a criança está a sentir, faça-lhe perguntas concretas: “Que brincadeiras fizeste hoje na escola? Com quem é que brincaste? O que é que gostaste mais de fazer?”.

II Congresso Mundial sobre a Infância e Adolescência – com a participação de Dulce Rocha do IAC, 6,7,8 novembro em Coimbra

Novembro 6, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Dra. Dulce Rocha, Presidente do IAC irá participar no dia 7 de novembro com a comunicação “A criança e o adolescente como sujeito de direitos na família e na escola”.

Mais informações no link:

https://www.esenfc.pt/event/event/home/index.php?target=home&defLang=1&event=371

“Alguns pais olham para os filhos e vêem um porquinho-mealheiro”

Novembro 6, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 10 de outubro de 2019.


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