Nestas 5 escolas portuguesas o telemóvel é proibido (ou limitado). E os miúdos voltaram a brincar

Novembro 3, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Gaelle Marcel

Notícia e imagem do MAGG de 23 de outubro de 2019.

Ana Luísa Bernardino

Há limitação de horas, proibição total, restrição em sala de aula e ainda locais específicos para os guardar. Falámos com 5 pais e a opinião é unânime: os filhos ficam a ganhar.

A Escola Secundária Rainha D. Leonor, em Alvalade, Lisboa, está no centro de uma polémica depois de um professor ter alegadamente agredido violentamente um aluno do 8.º ano na sequência de este estar a mexer no telemóvel na aula da apresentação.

Em qualquer estabelecimento de ensino, os princípios mais básicos ditam que a utilização do telemóvel em ambiente de aula é proibido, tal como acontece com outros objetos que potenciem as distrações e prejudiquem o aproveitamento do aluno. Mas nem sempre a regra é suficiente para impedir as crianças e adolescentes de cederem à tentação — com o telemóvel na mochila ou nos bolsos, às vezes a curiosidade (ou vício) é mais forte.

O estabelecimento de ensino em que o incidente ocorreu não prevê, até ao momento, regras oficiais que controlem a utilização dos smartphones na escola. No entanto, há outras que começam a adaptar-se ao fenómeno recente das tecnologias nas mãos dos jovens.

Cinco encarregados de educação explicam isso mesmo à MAGG. Há escolas que proíbem terminantemente o uso dos telemóveis dentro da escola em todos os anos, outras que apenas aplicam estas regras a alunos de anos mais vulneráveis ao vício dos ecrãs. Há locais que cingem a sua utilização aos recreios, outros que impõem horários específicos para o seu uso. Alguns estabelecimentos de ensino até têm zonas específicas onde os smartphones devem ser guardados, enquanto outros preferem que estes se mantenham desligados dentro da mochila, no cacifo ou em casa.

Sejam quais forem as diferenças no modus operandi da proibição, a opinião dos pais é unânime: concordam com as regras que limitam o uso dos aparelhos e garantem que os telemóveis não fazem falta aos miúdos no decorrer do tempo de aulas. Além de um aproveitamento melhor dentro das salas, os alunos fazem aquilo que se fazia nos tempos pré-touch: correm, saltam, jogam à bola, conversar, interagem. E dão-nos pormenores sobre como tudo funciona.

Nesta escola, nem nas aulas nem nos recreios

Nos Salesianos de Manique, um colégio privado em Alcabideche, os alunos de 5.º 6.º ano estão autorizados a levar o telemóvel, mas não podem ser vistos com eles na mão. Caso sejam apanhados a utilizá-lo, “o [aparelho] é-lhes retirado, entregue à direção da escola e devolvido no final do período escolar”, explica à MAGG Bárbara Chef, 33 anos, mãe de um aluno que frequenta o 5.º ano.

Foi numa reunião no início do período letivo — que juntou num auditório os pais dos alunos do segundo ciclo — , que os encarregados de educação tomaram conhecimento da posição deste colégio em relação aos smartphones. “Nos recreios, os miúdos já não socializavam”, conta Bárbara. “Ponderaram e decidiram que, pelo menos para os alunos de 5.º e 6.º ano, não seria permitida a utilização dos telefones, de forma a que nos intervalos os alunos interagissem mais uns com os outros.”

É também assim no Colégio de Santa Doroteia, em Lisboa, explica Sofia Mourão, mãe e encarregada de educação de um aluno de 8.º ano. Mas aqui há uma nuance, que se traduz numa implementação de horários: “Eles não podem ter os telemóveis à mão, nem ligados, nem desligados, no período de aulas, que decorre 8h30 e as 16h30 — incluindo a hora de almoço. Se  forem apanhados, mesmo com o telefone desligado, os professores e auxiliares podem retirá-los.” Já aconteceu ao seu filho de 13 anos: “Já lhe tiraram duas vezes o telemóvel, que foi depois entregue aos pais.”

“Eles notaram que havia miúdos nos intervalos que estavam agarrados aos telefones, que se isolavam e que não se integravam”

Maria Cabanas, diretora pedagógica deste colégio, corrobora a informação dada pela encarregada de educação, explicando que “os professores e vigilantes estão avisados de que devem retirar os equipamentos e entregá-los aos responsáveis de turma, que só os devolverão após conversa com os pais.”

“Eles [o colégio] não são contra os telemóveis”, ressalva Sofia. Mais uma vez, em causa estará a socialização e integração das crianças, especialmente relevante para os alunos que entram no 5.º ano, que, como vêm de outras escolas, estão menos ambientados ao novo estabelecimento de ensino. “Eles notaram que havia miúdos nos intervalos que estavam agarrados aos telefones, que se isolavam e que não se integravam”, conta. “Julgo que tenha resultado.”

Maria Cabanas, que adianta que os telemóveis podem ser utilizados como ferramentas de apoio às matérias, quando os docentes assim o entendem, confirma: “Após uma reflexão pedagógica ponderada sobre a utilização que os nossos alunos fazem das novas tecnologias da informação e comunicação no colégio, constatámos que, maioritariamente, não fazem um uso responsável e adequado, potenciando situações de isolamento e de dependência desfavoráveis e condicionadoras do seu processo educativo e formativo“, diz. “Desejamos que os nossos alunos possam adquirir, futuramente, a capacidade de saber fazer escolhas seguras e adequadas na utilização destes novos equipamentos.”

A regra funciona assim para os alunos até ao 9.º ano. A partir do ensino secundário, os miúdos já têm autorização para mexer nos smartphones, nos intervalos e durante a hora de almoço. Durante as aulas, explica a diretora pedagógica, colocam os equipamentos na sala, num local próprio.

Mas nem sempre as normas no colégio do Campo Grande funcionaram nestes moldes. A fórmula tem vindo a ser adaptada àquelas que são, de acordo com a escola, as necessidades dos alunos. Há quatro anos, a regra da proibição destas tecnologias era apenas aplicada ao 5.º e 6.º ano, tendo sido depois alargada para o 7.º e 8.º e, por fim, ao 9.º. 

“No final do primeiro ano em que esta medida foi adotada, apenas para o 5.º e 6.º anos, constatou-se, pela avaliação feita por todos os envolvidos, nomeadamente pelos alunos, que deveria ser alargada aos alunos do 3.º ciclo, uma vez que lhes permitiu um maior conhecimento e uma relação mais próxima com os colegas nos recreios”, explica Maria Cabanas.

Nem em contexto de visita de estudo a regra é levantada. “Os miúdos não olhavam para os caminhos, não viam nada, estavam sempre agarrados aos telefones. Passou a ser proibido”, conta Sofia Mourão. A diretora pedagógica adiciona mais locais em que os telefones são proibidos: na capela do colégio, no refeitório ou ainda na biblioteca.

Para esta mãe, só há aspetos positivos no modelo adotado. “É muito bom. Eles não precisam do telemóvel para nada”, garante, referindo que, desta forma, as crianças brincam e interagem mais. “Se for preciso entrar em contacto com os pais, a secretaria faz isso, como explicaram agora na reunião de pais de início de ano.”

No Colégio do Vale, na Charneca da Caparica, os telemóveis são quase um não-assunto. “Sempre foram proibidos”, conta Rita Cardoso, mãe de dois gémeos de 12 anos, que frequentam este estabelecimento desde a pré-primária.

“Deixámos de os ter nos corredores agarrados às fichas por causa dos carregadores. Voltaram a ir para a rua”

Mas o tema foi ganhando especial relevância. “Antes, no início do ano, não era obrigatório falar nisto, mas agora isto é comunicado em todas as reuniões de início do ano. A proibição do uso do telemóvel, para todos os anos, está nas regras do colégio.”

“Os telefones foram formalmente proibidos há três anos, está no regulamento do aluno”, explica Magda Gonçalves, diretora geral do Colégio do Vale. “O que notámos foi que os alunos voltaram a brincar, a praticar desporto, a ocupar os recreios. Deixámos de os ter nos corredores agarrados às fichas por causa dos carregadores. Voltaram a ir para a rua.”

Como acontece nas outras escolas referidas, também aqui o telefone pode ser utilizado como ferramenta nas aulas. Quando assim é, o professor comunica aos pais que em dado dia o aparelho será utilizado e que, por isso, os alunos os podem trazer consigo.

Mas há muitas crianças que, apesar de terem um telefone, preferem não os levar consigo. É o que acontece com os filhos de Rita Cardoso: ao invés de levarem os seus, preferem pedir emprestado ao colega para fazer o trabalho que o professor solicita. É assim que funciona, por exemplo, com as crianças que ainda não têm smartphone.

“Eles partilham e safam-se”, diz a mãe. “[A regra] é ótima, porque não há se dão aquelas situações de exclusão, porque uns têm e outros não. Os miúdos brincam, jogam à bola, jogam matrecos, conversam.”

Como todos os outros encarregados de educação do Colégio Nuno Álvares Pereira, da Casa Pia, Patrícia Dinis, 38 anos, teve de assinar um documento que mostrava que tinha tomado conhecimento das normas relativas a este tópico: os telemóveis naquela escola são proibidos e são confiscados aos alunos que, dentro ou fora das salas de aulas, sejam vistos a mexer neles. O secretariado deste estabelecimento confirmou a informação à MAGG.

Em causa, mais uma vez, está a interação dos miúdos nos recreios. “No ano passado verificou-se muito que os miúdos estavam constantemente agarrados ao telefone, muitas vezes a conversar por WhatsApp, em vez de estarem a comunicar uns com os outros diretamente. Isto foi discutido em reuniões, até porque no ano passado caíram no erro de ter rede wi-fi aberta em toda a escola, o que fazia com que os miúdos não largassem os telefones”, conta Patrícia, que é mãe de uma aluna de 15 anos, a frequentar o 9.º ano. “Os próprios professores viam-nos nos corredores e resolveram tomar esta medida este ano.”

“É necessário que os miúdos estejam atentos à aulas e respeitem as regras. E é necessário que no recreio possam conviver para que não estejam só em grupo a enviar mensagens uns aos outros e a jogar. O recreio deve servir para eles saltarem, jogarem à bola e fazerem outros jogos mais didáticos”, termina.

As colmeias da Escola Secundária Pedro Nunes

Na Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa, a restrição aos telemóveis é aplicada a todos os estudantes, apenas dentro das salas de aula, como nos explica Ana Câmara Pereira, 42 anos, mãe de dois alunos a frequentar este  estabelecimento no 7.º e o 12.º ano.

“Eles têm uma coisa que se chama colmeia. Quando entram na sala de aula, deixam lá o telemóvel e só usam se for necessário fazer uma pesquisa, autorizada pelo professor”, conta. “Não fui à reunião da escola, mas avisaram-me. Ninguém [encarregado de educação] estranhou a regra.

“Sentimos que [o telemóvel] é prejudicial tanto para a saúde física como psíquica, mas ainda não conseguimos vislumbrar nenhuma medida equilibrada e eficaz”

Carlos Grosso, subdiretor desta instituição de ensino público, confirma à MAGG a regra descrita pela encarregada de educação: “Sim, confirmamos que desde há dois anos que adotamos essa medida de melhoria, uma vez que havia alguma incidência de faltas disciplinares associadas à utilização indevida do telemóvel nas aulas”, explica.

“A direção da escola desenhou uma protótipo de estante apropriada para a colocação de 30 telemóveis, a que costumamos chamar ‘colmeias’ — investimos na respetiva produção e colocámos, aparafusada à parede, na entrada de cada sala de aula, do lado de dentro, naturalmente.”

De acordo com este responsável, o registo de faltas disciplinares associadas à utilização indevida do telemóvel “diminuiu drasticamente” com a aplicação desta regra. No entanto, não deixa de lamentar o facto de muitos alunos preferirem dedicar o tempo de recreio ao telemóvel, em vez de estarem a brincar com os colegas. “Sentimos que é prejudicial tanto para a saúde física como psíquica, mas ainda não conseguimos vislumbrar nenhuma medida equilibrada e eficaz.”

A regra da proibição total não é aqui aplicada por uma questão de logística, considerada “fundamental”. Segundo Carlos Grosso, o Pedro Nunes não tem “condições para assegurar a guarda dos telemóveis durante o recreio, até porque em algumas horas as turmas têm que mudar de sala e outras turmas utilizam as salas vagas — quando vão ter Educação Física ou aulas em laboratórios”. Além disso, a escola também não quer que os alunos “fiquem, durante todo o dia escolar, proibidos de efetuar comunicações privadas.”

O método adotado pelo Agrupamento de Escolas António Sérgio, no Cacém, é semelhante ao da Escola Secundária Pedro Nunes, explica Ana Dias, 38 anos, mãe de um aluno de 5.º ano.

Há colegas do meu filho que estão a jogar ao telemóvel o tempo todo”

“Os alunos podem levar telemóvel para o recinto escolar, podem usá-lo no recreio, mas quando entram na sala têm de o ter desligado. Caso contrário, se o professor vir e reparar que o aluno está a infringir a regra, fica com ele [o smartphone], entregando-o à direção, para só ser devolvido aos encarregados de educação no final do ano letivo. Isto está no Estatuto do Aluno”, explica, ressalvando que o filho não leva a tecnologia para a escola, utilizando-a apenas na presença dos pais.

Na opinião desta mãe, a realidade descrita por Carlos Grosso, aquela que levou outras escolas a proibirem o uso de telemóveis nos recreios, faz sentido: “Há colegas do meu filho que estão a jogar ao telemóvel o tempo todo.”

A regra, na opinião das duas encarregadas de educação, é fundamental não só para um bom aproveitamento escolar, mas também para o desenvolvimento de uma consciência sobre o respeito pelas regras. “Eu concordo com a proibição dentro da sala de aula. Tem de haver limites e regras. Eles vão ter regras para o resto da vida”, considera Ana Câmara Pereira.

A MAGG contactou também os Salesianos de Manique e o Agrupamento de Escolas António Sérgio, mas não obteve resposta em tempo útil para a publicação do artigo.


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