Sim às papas, não à repetição do prato: 25 recomendações para bebés e crianças

Outubro 20, 2019 às 7:11 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Público de 16 de outubro de 2109.

A DGS lançou um manual recheado de recomendações. Diz, por exemplo, que não deve forçar a criança a comer mais, mas também que não deve deixar repetir. E que as refeições não devem ter mais de 30 minutos. Ou que as papas “normais” compradas podem ter benefícios em relação às bio e às caseiras.

Patrícia Jesus

Sabia que o primeiro ano é a fase em que mais se cresce durante toda a vida? Daí a importância da alimentação logo nos primeiros meses, mas também porque estas primeiras experiências moldam as preferências e a saúde/doença para a vida.

E depois do primeiro ano? Um novo manual da Direcção-Geral de Saúde (DGS) traz uma série de recomendações para uma alimentação saudável do nascimento aos seis anos, que valem para as famílias e para as creches e infantários. O objectivo é aplicar “a evidência científica mais recente” num documento de fácil leitura, que até tem propostas práticas.

Sabia, por exemplo, que não deve forçar a criança a comer mais quando não quer, mas também que não deve deixar repetir? Que as refeições não devem ter mais de 30 minutos? Ou que as papas “normais” compradas podem ter benefícios em relação às biológicas e às caseiras? Que não deve dar bolachas aos bebés com menos de um ano?

Bebés até um ano

O leite materno, em exclusivo, é o ideal para o bebé nos primeiros seis meses. O bebé deve ser alimentado quando pede.

– A mãe que amamenta deve ter uma alimentação variada e equilibrada e não precisa de excluir qualquer alimento da dieta.

– Quando os bebés não são amamentados, os pais devem optar por fórmulas pelo menos até ao final do primeiro ano, idealmente até aos 2-3 anos. E não deve ser excedido o volume de 180-210 ml por cada refeição.

– A partir dos seis meses de vida é essencial a introdução progressiva de outros alimentos, para treinar o paladar para novos sabores e texturas. Mas nunca sumos ou chá.

O bebé deve alimentar-se sentado, inicialmente à colher (sopas, papas, purés) e depois com colher e quando possível sozinho.

– A “auto-alimentação” (baby lead weaning) só deve adoptada quando exista comprovada segurança (neuromotora e nutricional) e sempre sob controlo do cuidador e vigilância médica.

– Deve ser respeitado o apetite da criança: logo, deixe a criança gerir a quantidade e respeite os sinais de auto-regulação do apetite. Esteja atento aos extremos, quando come sempre de mais ou de menos.

Sal e açúcar são proibidos no primeiro ano, o que exclui alimentos como sumos, sobremesas, bolos, doces e enchidos.

– No primeiro ano nada de alimentos processados, nem doces nem salgados – isto inclui, por exemplo, bolachas.

– Deve ser feita a suplementação com vitamina D pelo menos durante o primeiro de vida.

– Embora seja importante começar com a sopa, as papas são uma importante fonte de hidratos de carbono e, pela sua suplementação, são um importante veículo de vitaminas e minerais (ferro). E as comerciais “normais” até têm benefícios em relação às biológicas que não são enriquecidas e às caseiras, que “não são nutricionalmente seguras”.

– A proteína animal (carne ou peixe) não deve exceder as 30 g/dia, devendo oferecer-se carne quatro vezes e peixe três vezes por semana. O ovo pode ser introduzido a partir dos 8-9 meses de idade, até três vezes por semana, em vez da carne ou do peixe.

– Os alimentos devem ser progressivamente menos moídos, de forma a permitir a mastigação de alimentos moles aos oito meses.

– O iogurte natural pode ser introduzido aos 8-9 meses.

– Num bebé filho de mãe vegetariana, a realizar aleitamento materno, deve ser rigorosamente vigiada a suplementação materna em vitaminas e minerais e também ao bebé.

Depois de um ano

No final do primeiro ano de vida a transição para a alimentação da família deverá estar completa. Os pais são exemplos e esta é uma boa altura para melhorar a alimentação de toda a família.

Não permita repetições, incentive a comer devagar, respeite o horário das refeições e não mantenha a criança à mesa mais de 30 minutos.

Não substitua por outros alimentos aqueles que a criança não gosta e incentive à autonomia na mesa.

– É importante a alimentação ser variada — se houver uma recusa inicial de um alimento não desista e encoraje a experimentar coisas novas.

– Ofereça à criança apenas alimentos incluídos na roda dos alimentos.

O pequeno-almoço é importante, mas dê “cereais de pequeno-almoço” apenas de vez em quando, e não dê bolachas ou “pães doces” e embalados.

– As merendas devem integrar produtos lácteos (leite/iogurte/queijo), hidratos de carbono complexos (pão de cereais variados) e frutos. Bolachas e sumos apenas de vez em quando.

– Mantenha a sopa ao almoço e ao jantar.

– Ofereça água durante o dia e às refeições e deixe os sumos para os dias de festa – o leite não deve ser confundido com uma bebida, já que é um alimento.

– Por fim, a “criança pequena” tem necessidades alimentares “pequenas” e volumes “de adulto” estão totalmente desajustados das necessidades nutricionais desta idade, contribuindo para obesidade. Porções pequenas e variedade da oferta são fundamentais. E tudo completado com actividade física, aproveitando todas as oportunidades para pôr as crianças a mexer.

O manual citado na notícia é seguinte:

Alimentação Saudável dos 0 aos 6 anos : Linhas de Orientação para Profissionais e Educadores

O lugar onde menina veste azul e menino veste rosa

Outubro 20, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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A escola é o lugar ideal para questionar as desigualdades de gênero
(© Keystone / Christian Beutler)

Notícia e imagem do site Swissinfo de 11 de outubro de 2019.

“Quando eu estava na escola, a aula de economia doméstica só era feita por meninas, elas aprendiam a costurar meias ou cozinhar”, lembra uma suíça de 60 anos. Uma aluna de 15 anos, que mora no mesmo bairro da senhora suíça, não consegue imaginar tal segregação: “Com a gente, nas aulas de economia doméstica, meninas e meninos cozinham e aprendem a trocar lâmpadas juntos”.

No entanto, a igualdade de gênero na educação ainda está longe de ser alcançada na Suíça. O desenvolvimento ainda depende muito do fato de você ser uma menina ou um menino. No final da escolaridade obrigatória, as mulheres tendem a escolher empregos que pagam menos e oferecem menos oportunidades de carreira.

Na verdade, o modelo de família tradicional, onde o homem trabalha e a mulher cuida das crianças, ainda é bem popular. Os dados do Departamento Federal de Estatística mostram que, em 2018, entre a população ativa com filhos menores de 25 anos, a proporção de mulheres que trabalham a tempo parcial atingiu 78,8%, contra apenas 11,7% para os homens.

Estereótipos implícitos

Como em todos os outros lugares onde as crianças são socializadas, a escola também transmite mensagens sobre a diferença de gênero. De acordo com uma pesquisa realizada em escolas primárias nos cantões da Suíça francesa, o 2e ObservatoireLink externo, um instituto suíço de pesquisa e formação sobre relações de gênero, constatou que os professores nas escolas tendem a se concentrar em:

  • dar mais voz aos meninos
  • ser mais tolerante com o barulho dos meninos
  • chamar os nomes das meninas com menos frequência do que os dos meninos na sala de aula
  • disciplinar menos as meninas do que os meninos

Em seu Guia de PrevençãoLink externo publicado no ano passado, o instituto observa que “os profissionais da primeira infância, como os professores, têm expectativas diferentes e atribuem certas características às meninas e outras aos meninos”.

Na escola, os estereótipos de gênero estão geralmente implícitos na linguagem. “Por exemplo, quando falamos de tudo relacionado à família, como almoço, aventais para trazer para a escola etc., muitas vezes nos referimos a ‘sua mãe’ ao invés de ‘seus pais'”, observa Seema Ney, responsável pelo projeto Escola da IgualdadeLink externo.

Na Escola da Igualdade

“Certamente, as escolas reproduzem certas desigualdades, mas acima de tudo são também um lugar onde essas desigualdades podem ser questionadas”, continua Seema Ney. Um dos objetivos da Escola da Igualdade, uma nova ferramenta pedagógica lançada no início deste ano, é sensibilizar os alunos para os estereótipos de gênero, a fim de lhes permitir identificá-los e ultrapassá-los.

“Com este material didático fácil de usar, esperamos encorajar os professores a introduzir considerações sobre a igualdade de gênero de tempos em tempos, seja através das aulas de francês, matemática, geografia ou história”, enfatiza o professor.

Uma das sequências pedagógicas da primeira cartilhaLink externo, por exemplo, abre a discussão em torno de um e-mail. “Olá vovô, estamos preparando na escola as fantasias para o desfile de fim de ano. O tema é o esporte. Na minha turma, as meninas vão se vestir de bailarinas e os meninos de jogador de futebol. Você sabe que adoro futebol… Mas não me atrevi a dizer que queria me vestir de jogadora… Beijos! Zora”.

Ao ler o texto, e entrando no papel do avô para respondê-lo, os alunos aprendem a escrever um e-mail e a se questionar: por que Zora está frustrada? O que eu poderia dizer para ela? O que eu faria no lugar dela?

O objetivo é abrir a discussão sobre estereótipos para permitir que os alunos, meninas e meninos, façam suas próprias escolhas. Não se trata de incentivar as meninas a se vestirem de jogadoras de futebol, mas de fazê-las entender que elas podem se vestir como jogadoras ou bailarinas, desde que as escolhas não sejam feitas só para combinar com os papéis tradicionais de gênero.

O pátio da escola no centro das questões

As meninas que gostam de futebol não são deixadas de fora só no desfile, mas também na hora do recreio. “Isso me irrita, que os meninos na escola não nos deixam jogar futebol… não é legal… O problema é que eles têm muito espaço no pátio e às vezes eles saem do espaço deles e por isso temos ainda menos espaço…”, diz uma menina de 9 anos no curta “Espace”:

Os estereótipos e desigualdades de gênero são frequentemente expressos em interações entre meninas e meninos. O 2e Observatoire ressalta que as meninas tendem a brincar em espaços restritos, enquanto os meninos se espalham por todos os lados, invadindo o espaço ocupado pelas meninas.

“O pátio da escola é muitas vezes considerado um espaço livre para os alunos e os professores não vão discutir com eles o que pode ser feito durante o recreio”, diz Seema Ney. “Ser capaz de intervir adequadamente levaria, sem dúvida, a uma partilha de espaço que seria mais apropriada para todos”.

Para meninas, mas também para meninos

De fato, no pátio da escola, não só os meninos proíbem as meninas de jogar futebol, mas também as meninas proíbem os meninos de brincar de elástico. Na escola, os meninos também são envolvidos por normas de gênero, que exigem, por exemplo, que eles provem sua masculinidade. “É muito difícil para alguns. E pode levar a consequências graves, como assédio, se não prestar atenção”, diz Seema Ney.

Além disso, de acordo com um relatórioLink externo publicado em 2014, os meninos devem enfrentar mais pressão social do que as meninas se estiverem interessados em profissões “atípicas”. Quando uma menina diz querer ser pilota de caça ou bombeira, sua família e amigos, mesmo que pareçam surpresos à primeira vista, apreciarão a particularidade e a coragem de sua escolha. Ao contrário, se um menino diz querer trabalhar em uma creche, ser enfermeiro ou florista, ele risca de ser considerado uma pessoa sem virilidade ou mesmo sem futuro profissional.

Na Suíça, a maioria dos jovens deve escolher a orientação profissional antes dos 15 anos de idade. Para meninas e meninos, ansiosos para serem aceitos por seus pares e sensíveis a gênero, não é fácil ir contra a definição rígida da sociedade. Portanto, é particularmente importante estabelecer a capacidade de identificar e resistir aos estereótipos de gênero desde a infância.

Na escola da igualdade, a princesa trabalha com madeira, o super-homem leva o bebê para passear. Nas aulas de ciências, os alunos aprendem que “nos pinguins, é o macho que choca o ovo e a fêmea que vai longe para procurar comida”; nas aulas de matemática, os alunos ajudam Rosie, uma garota apaixonada por máquinas de inventar, a contar suas ferramentas ou ajudam o florista Oscar a calcular o número de buquês vendidos.

“As desigualdades de gênero são prejudiciais para meninas e meninos”, diz Seema Ney. “As nossas cartilhas visam promover a igualdade entre meninas e meninos em formação e alcançar uma melhor igualdade de gênero.”


Adaptação: Fernando Hirschy, swissinfo.ch


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