Uma geração de inábeis sociais

Outubro 11, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Mafalda Anjos publicado na Visão de 4 de abril de 2019.

Esta semana, descreveram-me um cenário que me causou arrepios: o recreio de um colégio de Lisboa, daqueles no topo dos rankings nacionais, repleto de miúdos, mas, em vez do rebuliço normal das crianças a brincar, o cenário era de paz. Uma paz podre. Os muitos miúdos que ocupavam o pátio estavam sentados pelas escadas, nos bancos corridos ou no chão, agarrados ao seu smartphone. Era cada um por si, cérebros abstraídos e dormentes, isolados do mundo à sua volta, tão sozinhos entre uma multidão de colegas – pequenos e tristes zombies digitais.

Não é só nas escolas. Basta ver os encontros de famílias com crianças pequenas ou os grupos de teenagers quando se juntam –, algo que acontece com muito menos frequência do que na minha geração, em que passávamos horas perdidas à conversa nas esplanadas ou nos jardins. É ver cada um no seu telefone, um dedinho a deslizar para ver o vídeo, a foto ou a storie seguinte, dois dedinhos de cada lado para jogar ao jogo da moda: mata este, atira sobre aquele.

Estamos longe de perceber exatamente como estes nativos digitais vão ser no futuro, por mais estudos que se comecem agora a fazer ao impacto da tecnologia nos cérebros destes miúdos. Terão com toda a certeza competências extraordinárias que nós não temos, vão inventar maravilhas que nos hão de deixar boquiabertos e pôr-nos a pensar como é que vivemos sem isso até àquele dia. Sei que teremos computadores excecionais capazes de fazer coisas que não conseguimos sequer ficcionar – cálculos mirabolantes, matchs perfeitos entre ofertas e vontades cada vez mais caprichosas, velocidades estonteantes para tudo e mais alguma coisa. Mas tudo indica que, ao fim do dia, vamos continuar a ser esta amálgama de matéria e de sentimento, com algumas necessidades e instintos básicos de algumas centenas de milhares de anos: sobreviver, socializar, amar e ser amado. Continuaremos a ser, assim espero, apenas humanos. E é precisamente isso que nos vai distinguir cada vez mais das máquinas e dos robots, que serão anos-luz mais competentes do que nós nas coisas, para usar uma expressão simplista, mecânicas ou, pelo menos, não emocionais.

Voltando ao recreio e aos dedinhos nos ecrãs… Não sei como serão daqui a uma ou a duas dezenas de anos estes nativos digitais, mas uma coisa não é difícil de antecipar: serão muito mais socialmente inábeis. E isso é inquietante, porque estamos, afinal, a falhar em formar as novas gerações no que garantidamente mais vamos precisar no futuro: melhores seres humanos, com o que, na verdade, nos distingue na nossa humanidade – a capacidade de ouvir, ler ou tocar o outro, de interagir em sociedade. Uma criança que não aprendeu a brincar num recreio não sabe criar empatias, gerir conflitos e emoções, ultrapassar frustrações. Como vão estas crianças trabalhar em equipa, integrar-se num grupo ou empresa? Que caminho das pedras tardio terão de fazer para desformatar um cérebro de sinapses condicionadas pelos ecrãs que nós – pais, educadores, adultos – lhes enfiámos à frente?

Isto não são apenas considerandos gerais de ordem filosófica. O caso é sério, não podemos encolher os ombros. Todos os dias saem novos estudos que dizem que a dependência de jogos eletrónicos e das redes sociais causa verdadeiros distúrbios emocionais, e a Organização Mundial de Saúde já propôs inseri-la como doença mental na próxima revisão do manual de classificação de patologias. Um estudo da Ordem dos Médicos, a crianças portuguesas de 11 anos, conclui que um terço está em risco de dependência. Muitos passam quatro horas por dia, todos os dias, a jogar. Além de inábeis sociais, estamos a criar uma geração de viciados numa droga tão ou mais aditiva do que as que conhecíamos até agora.

Escrevo com sentimento de culpa, note-se. Também eu coloco tablets e smartphones à frente dos meus filhos. Mas é mesmo preciso pararmos todos para pensar no que estamos, coletivamente, a fazer aos nossos miúdos. Daqui a uns anos, pode ser tarde demais.

ONU quer que Portugal acabe com excepções legais que permitem casar antes dos 18 anos

Outubro 11, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 4 de outubro de 2019.

No seu relatório sobre os direitos das crianças em Portugal as Nações Unidas recomendam também que as touradas sejam apenas para maiores de 18 anos. A organização incentiva o país a pôr fim aos castigos corporais e a garantir que a pobreza nunca é motivo para retirar um menor à família.

Lusa e PÚBLICO

O comité das Nações Unidas para os Direitos das Crianças publicou o seu relatório sobre os Direitos das Crianças em Portugal no qual faz várias advertências e recomendações. A ONU quer que Portugal acabe com os casamentos antes dos 18 anos, com os castigos corporais e que garanta que a pobreza nunca é motivo para retirar um menor à família.

No seu mais recente relatório periódico, divulgado na quinta-feira, sobre a aplicação em Portugal da Convenção dos Direitos das Crianças, o comité das Nações Unidas para os Direitos das Crianças destaca que a Lei de Protecção de Crianças e Menores dá preferência às medidas de protecção em meio natural de vida, ou seja, com elementos da família, para as crianças a partir dos seis anos.

Por outro lado, mostra preocupação pelo facto de a institucionalização continuar muito difundida, incluindo para crianças com menos de três anos “e por razões atribuídas a pobreza ou deficiência”.

Portugal “deve garantir que as políticas e práticas são guiadas pelo princípio de que a pobreza material ou financeira, ou condições directas e unicamente atribuídas à pobreza, nunca podem ser a única justificação para retirar uma criança dos cuidados parentais, para receber uma criança em cuidados alternativos ou para prevenir a reintegração social de uma criança”, refere o comité.

 O relatório defende que Portugal adopte uma estratégia de desinstitucionalização geral e garanta a existência de famílias de acolhimento por todo o país, e tome todas as medidas necessárias para evitar a retirada de crianças da família, desde logo garantindo os apoios adequados para os pais e famílias vulneráveis, para que as crianças com mais de seis anos estejam numa família de acolhimento e nunca numa instituição.

Ainda em matéria de pobreza, o comité diz estar preocupado com as “persistentes desigualdades salariais” e com as elevadas taxas de risco de pobreza e taxas de pobreza efectiva entre as crianças, sobretudo as que vivem em habitações não convencionais, as das comunidades ciganas e afrodescendentes. Por outro lado, sugere que Portugal avalie o impacto das políticas de austeridade aplicadas no período 2011-2014 nos direitos das crianças.

No seu relatório, o comité insta o país a alterar a sua legislação e retirar “todas as excepções que permitem o casamento antes dos 18 anos”, aumentar o número de casas abrigo para crianças vítimas de violência doméstica, abuso ou negligência e garantir a “completa proibição dos castigos corporais, por muito leves, seja nas famílias, na lei ou na prática”.

Touradas para maiores de 18 anos

O Comité das Nações Unidas volta também ao tema das touradas para sugerir que “deve ser estabelecida a idade mínima de 18 anos para participar e assistir a esses eventos, sem excepções”. E vão mais longe falando directamente em violência que deve ser afastada das crianças, dizendo que deve ser aumentado “o conhecimento dos representantes do Estado, meios de comunicação e população sobre os efeitos negativos nas crianças, mesmo como espectadores, da violência associada as touradas”.

Pede que Portugal garanta que todos os profissionais que trabalhem com crianças, em particular os assistentes sociais, polícias, profissionais de saúde, entre outros, tenham formação obrigatória sobre direitos das crianças e quer ver o superior interesse das crianças reflectido em todas as legislações e políticas.

O comité das Nações Unidas para os Direitos das Crianças disse ainda estar preocupado por Portugal continuar sem uma Estratégia Nacional para as Crianças, e critica os “atrasos desnecessários” na aprovação, apontando que põe em causa a monitorização da aplicação da convenção.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Committee on the Rights of the Child, Concluding observations on the combined fifth and sixth periodic report of Portugal, 27 September 2019

Mais informações na CRC – Convention on the Rights of the Child 82 Session (09 Sep 2019 – 27 Sep 2019)

1 em cada 3 crianças tem excesso de peso

Outubro 11, 2019 às 10:05 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto da DGS de 11 de outubro de 2019.

A Direção-Geral da Saúde, no âmbito do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), destaca no Dia Mundial do Combate à Obesidade a problemática da obesidade infantil em Portugal, assinalando os principais erros alimentares das crianças portuguesas que continuam ainda a ser das mais obesas da Europa.

Os dados mais recentes do estudo COSI (Childhood Obesity Surveillance Initiative) confirmam a diminuição da prevalência de excesso de peso nas crianças portuguesas entre 2008 e 2019. Dados que podem ser o resultado do conjunto de medidas que a Direção-Geral da Saúde tem vindo a implementar no contexto da promoção da alimentação saudável.

Contudo, as prevalências de excesso de peso e obesidade infantil são ainda muito elevadas em Portugal. O excesso de peso (incluindo a obesidade) atinge 29,6% das crianças analisadas e a obesidade está presente em 12% das crianças analisadas neste estudo com idades compreendidas entre os 6 e os 9 anos.

E porque conhecer a realidade será determinante para um combate efetivo à obesidade, no âmbito das comemorações do Dia Mundial do Combate à Obesidade, a Direção-Geral da Saúde destaca os principais hábitos alimentares inadequados das crianças portuguesas:

  • Segundo dados mais recentes, cerca de 25% das crianças dos 1 aos 3 anos tem um consumo de lacticínios superior ao recomendado diariamente.
  • No que respeita ao consumo de hortícolas 52% das crianças não consome diariamente hortícolas no prato e 55% não atinge a recomendação para a ingestão diária destes alimentos.
  • O consumo elevado de produtos açucarados é outro comportamento que destacamos. Cerca de 17% das crianças dos 1-3 anos, e 52% das crianças em idade pré-escolar ingerem diariamente bebidas açucaradas (néctares e refrigerantes). O mesmo acontece com a categoria das sobremesas doces, no qual 10% das crianças dos 1-3 anos consome diariamente sobremesas doces. Na categoria dos snacks doces e salgados verifica-se, igualmente, um elevado consumo, no qual estes representam 5% dos alimentos ingeridos pelas crianças diariamente.
  • Por último, destacamos a elevada ingestão de sal pelas crianças, onde o consumo em crianças dos 1-3 anos é 87% acima do limite superior para a ingestão de sódio e 99% para crianças em idade pré-escolar.

 

Os dados que aqui apresentamos resultam do Estudo do Padrão Alimentar e de Crescimento na Infância Portugal 2012 (EPACI Portugal 2012) (estudo representativo nacional com crianças pequenas (0-3 anos) e da coorte Geração XXI (crianças em idade pré-escolar).

Portugal tem ainda um longo caminho a fazer na obesidade infantil, no entanto todos estes dados destacam um conjunto de comportamentos que nos dão pistas sobre as principais áreas de intervenção no combate à obesidade infantil.

EPACI Portugal 2012

Geração XXI

Centro de acolhimento para crianças refugiadas em Portugal está sobrelotado e não há alternativas

Outubro 11, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 3 de outubro de 2019.

A denúncia é feita pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, que alerta ainda para mais casos nos aeroportos nacionais que apontam para possíveis situações de tráfico de menores: crianças acompanhadas por adultos que dizem ser pais ou terem relação de parentesco, mas não apresentam documentação que o comprove.

O centro de acolhimento para crianças refugiadas está sobrelotado e não existem respostas alternativas para as crianças não acompanhadas, o que atrasa a entrada imediata em Portugal, denunciou esta quinta-feira o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.

Num colóquio, em Lisboa, sobre se “Portugal cumpre os direitos das crianças”, uma responsável do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) denunciou a atual “situação de sobrelotação” em que se encontra o centro de acolhimento para crianças refugiadas, gerido pelo Centro Português para os Refugiados (CPR), e para a inexistência de respostas alternativas.

“Gostaria que este assunto fosse repensado porque o SEF nem que queira agendar entrada imediata para o menor tem de esperar que haja disponibilidade de acolhimento deste menor”, apontou Maria Emília Lisboa, inspetora coordenadora superior e assessora técnica na Direção Nacional do SEF.

De acordo com a responsável, o centro de acolhimento até uma certa altura teve essa capacidade, mas “atualmente e pontualmente vai tendo dificuldades”.

“E aí (…) temos dificuldade em conseguir arranjar um alojamento alternativo e adequado para estas crianças que não falam a língua e precisam de um tratamento diferenciado”, adiantou, ressalvando que a exceção é no caso das crianças em que se suspeita serem vítimas de tráfico e para as quais há imediatamente uma resposta de acolhimento.

Maria Emília Lisboa apontou que têm sido detetadas nos aeroportos nacionais mais casos que apontam para possíveis situações de tráfico de menores, em que aparecem crianças acompanhadas por adultos que dizem ser pais ou terem relação de parentesco, mas não apresentam documentação que o comprove.

Nestes casos, as crianças são sinalizadas como potenciais vítimas de tráficos, separadas do adulto e encaminhadas para centros de acolhimento especializado, normalmente uma instituição de acolhimento indicada pela segurança Social, já que precisam de uma proteção acrescida.

Posteriormente é feita participação ao Ministério Público relativamente ao adulto pelos indícios de tráfico, cabendo depois aos tribunais determinar e avaliar se o adulto é de facto ou não o progenitor da criança.

“Estas situações têm-nos preocupado muito nos últimos anos porque é uma realidade que não era comum apresentar-se em Portugal. Às vezes apareciam indocumentados, mas isso devia-se às circunstâncias em que saiam do país”, apontou, acrescentando que o SEF se tem deparado com circunstâncias, como a destruição propositada de documentos, que indiciam que há o objetivo de induzir as autoridades em erro e utilizar indevidamente a sistema de asilo.

Maria Emília Lisboa referiu ainda que o SEF está “particularmente atento e preocupado” com as crianças não acompanhadas com idade até aos 16 anos porque o centro de acolhimento do CPR, para onde são encaminhadas, é um centro aberto e elas muitas vezes abandonam as instalações, dirigindo-se “possivelmente para outros países da União Europeia”.


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