Polícias não conseguem investigar os 45 milhões de imagens de pornografia infantil que circularam na internet em 2018

Outubro 6, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 29 de setembro de 2019.

Uma investigação do “The New York Times” põe a nu a negligência com a qual Governo, autoridades e as próprias plataformas digitais trataram este assunto quando o número de imagens e vídeos ainda era controlável. Agora é praticamente impossível apanhar todos os criminosos.

As companhias de tecnologia não estão a conseguir lidar com o volume de fotografias de pornografia infantil que todos os dias têm de impedir que sejam publicadas, e que circulam nos confins da internet não acessível ao “navegador comum” e não têm meios para identificar todos os perpetradores. Segundo uma investigação do “The New York Times” só o ano passado foram identificadas 45 milhões de imagens ilegais, trocadas, por exemplo, através do Messenger, a aplicação de mensagens instantâneas do Facebook.

A investigação do “Times” chegou a seis conclusões principais, e a mais assustadora é que apesar de as crianças utilizadas nestas fotografias serem cada vez mais novas e as imagens em si cada vez mais violentas, as autoridades não têm capacidade para investigar os crimes porque, potencialmente, cada imagem representa um crime, um perpetrador.

A pornografia infantil existe há anos mas a facilidade em gravar, fotografar, armazenar qualquer tipo de conteúdo que a internet e os smartphones hoje nos permitem, torna quase impossível parar a enorme corrente de partilha destas imagens e vídeos. Em 2008, o Congresso norte-americano passou uma lei que antevia muitos dos problemas que hoje estamos a viver mas a investigação do diário nova-iorquino descobriu que capítulos inteiros desse dessa lei nunca foram implementados. Por exemplo, cerca de 60 milhões de dólares foram disponibilizados, por ano, para a investigação destes casos mas desde 2008 apenas foi aprovado, por ano, metade desse valor. O senador Richard Blumenthal, que na altura foi um dos nomes na lei, disse ao NYT que não há qualquer desculpa para não se distribuir o valor completo” e que, neste momento, “nem esses 60 milhões são suficientes para atacar o problema”.

Outro problema identificado: o Departamento de Justiça devia ter escrito relatórios bianuais sobre estratégia, problemas e sucessos da luta contra este crime mas nunca o fez. A coordenadora do programa, Stacie Harris, disse não ter explicação para a falta de dados e um porta-voz do departamento disse que os relatórios afinal só vão começar a sair em 2020, a cada quatro anos.

A existência da “internet secreta”, chamada “dark web”, também dificulta muito o trabalho das autoridades. Muitos destes criminosos escondem o seu material em redes que não são acessíveis a um utilizador “normal” da internet, apenas a quem saiba penetrar numa espécie de segunda câmara da internet, protegida por linguagem encriptada e códigos complexos. Estas pessoas normalmente sabem como esconder a localização dos seus computadores, têm os discos protegidos com passwords praticamente impossíveis de descodificar por agentes da autoridade sem uma formação em engenharia informática ao nível dos “hackers” mais experientes. “Como o uso de tecnologia baixa as barreiras de inibição das pessoas, as pessoas partilham fotos de vítimas cada vez mais novas, e formas cada vez mais extremas de abuso”, lê-se no artigo.

“Antigamente ninguém chegava ao mercado negro, onde já circulava conteúdo pornográfico, e pedia imagens de sexo ‘hard-core’ com crianças de três anos”, disse ao NYT Yolanda Lippert, procuradora do estado do Illinois que lidera a investigação ao abuso sexual de crianças.

As empresas de tecnologia, ao atualizarem os seus sistemas de vigilância, descobriram recentemente que esse tipo de conteúdo é muito mais prevalente na internet, e nas suas plataformas, do que antes se pensava mas podem demorar meses a responder aos pedidos das autoridades para que libertem conteúdo. Por outro lado, com tantas queixas a chegarem às autoridades, os departamentos de polícia não conseguem dar seguimento a todas.

Alguns focam-se unicamente nos casos com as vítimas mais novas. “Vamos para casa a pensar que, meu Deus, quando temos de escolher o que investigamos segundo a idade das crianças é mesmo perturbador”, disse Paula Meares, detetive em Los Angeles.

Uma das plataformas destacadas pelas más práticas nesta investigação é a rede de blogues Tumblr, que foi identificada pelas autoridades com as quais o “Times” falou como “uma das menos cooperantes”. O Tumblr chegou a avisar vários utilizadores que publicaram conteúdo gráfico que as contas iam ser denunciadas às autoridades, o que levou essas pessoas a destruir o material.

A maioria do material foi identificado na aplicação de conversas instantâneas do Facebook, o Messenger. A maioria das imagens alvo de identificação o ano passado tinham origem em outros países, o que prova que o problema é global, mas é nos Estados Unidos que estão as sedes das principais companhias que permitem a troca deste conteúdo.

Os planos das várias plataformas digitais para encriptarem cada vez mais as mensagens trocadas entre os utilizadores, por um lado protegem a liberdade de expressão, por outro tornam muito mais complexo identificar criminosos que as utilizem para difundir este tipo de conteúdo profundamente perturbador. Muitas das vítimas, por saberem que forem gravadas, nunca conseguem ultrapassar o abuso por medo de que as imagens surjam na internet.

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