Sabemos onde andam os nossos filhos?

Agosto 10, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 28 de julho de 2019.

Esta semana os adultos passaram a conhecer a chamada “Team Strada”. Sim, os adultos, porque as crianças e jovens portugueses há muito que conhecem este adulto que terá 36 anos, angariador de miúdos que desejam ser youtubers (nome chique) e influencers. Que é como quem diz, alguém famoso que ganha dinheiro a fazer vídeos parvos e tem uma legião de seguidores.

Que os miúdos de hoje já não aspiram a serem astronautas, pilotos de automóveis ou futebolistas, isso já sabíamos. Vários estudos recentes têm comprovado isso mesmo. À célebre pergunta “o que queres ser quando fores grande?”, cerca de metade das crianças a partir da idade escolar responde youtuber. E é vê-los chatearem os pais para tirarem cursos de youtuber (sim, existem), gastarem rios de dinheiro em câmaras de filmar, luzes e todo um conjunto de parafernálias necessárias para conseguirem um vídeo perfeito.

Após diversas queixas, a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção de Crianças e Jovens (CNPDPCJ) expôs a situação ao Ministério Público, pedindo uma investigação para aquilo que considera poder configurar uma situação de perigo para as crianças e jovens envolvidos. Ao vermos os vídeos em questão, deparamo-nos com um tipo de proximidade física aparentemente muito intrusiva, com toques e comportamentos que parecem exceder aquilo que será adequado. É bem-vinda esta investigação.

No entanto, esta polémica deve fazer-nos reflectir a outro nível.

Em primeiro lugar, onde estão os pais ou cuidadores destas crianças e jovens que se deixam enredar nestes meandros, sedentos de fama? Ao ponto de poderem fazer qualquer coisa, aceitar qualquer coisa, calar qualquer coisa? Ou querem os pais, mais ainda do que os filhos, esta mesma fama fácil a troco do que tiver de ser?

Em segundo lugar, sabemos a influência gigante que os youtubers têm nas crianças e jovens. E sabemos nós, pai e cuidadores, a que vídeos assistem os nossos filhos? Que influencers influenciam a sua vida? Que comportamentos tentam eles imitar? Que fotos postam eles, na ânsia de receberem mais likes? Que conversas têm nos milhentos grupos de WhatsApp a que pertencem? Quais os conteúdos dos seus jogos preferidos?

Pois é. Às vezes pensamos que sabemos, mas não sabemos. Os maiores perigos há muito que deixaram de ser as más companhias e as drogas na rua. O maior perigo pode estar mesmo aí ao seu lado, aqui ao meu lado, em nossa casa. Debaixo dos nossos olhos. E este perigo é maior ainda porque é silencioso e não incomoda muito. Os miúdos até estão sossegados e entretidos entre quatro paredes, e acreditamos (ou queremos acreditar) que isso é o bastante para os proteger. Mas não é.

Numa era digital, as competências parentais têm de ser transpostas para o mundo online. O que equivale a dizer que é necessário comunicar abertamente com os filhos e conhecer as actividades digitais em que eles se envolvem, protegendo-os dos perigos que a Internet pode representar.

Dá trabalho? Dá.

Eles refilam porque detestam sentir-se controlados? Refilam.

Mas a supervisão é o único caminho seguro.

 

[Entretanto, o YouTube terá encerrado o canal do Team Strada, depois da abertura de um inquérito por parte do Ministério Público, na sequência das queixas que chegaram à CNPDPCJ.]

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