Bullying na maternidade. “Como é que consegues ter uma carreira e ser mãe?”

Junho 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do MAGG de 4 de junho de 2019.

por Marta Cerqueira

Os amigos questionam como conseguem viajar em trabalho e as educadoras interrogam as ausências. Assim é a vida de uma mãe que trabalha.

Quando Romain levou a Luísa ainda bebé a uma consulta na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, e entrou no consultório sozinho, a primeira pergunta da enfermeira foi: “A menina não tem mãe?”. A mãe, bem viva e a trabalhar, dá a volta a este tipo de bocas incentivando o namorado a brincar com o assunto. “Gostava que ele respondesse ‘Sim, morreu no parto’, só para ver a reação das pessoas”.

No que diz respeito à maternidade, toda a gente tem uma opinião a dar. Seja sobre a alimentação, sobre a hora a que a criança vai para a cama, quais as melhores fraldas e toalhetes e também sobre quem será o melhor cuidador. Tudo. Pelo menos é essa a opinião das três mães com quem a MAGG falou e que em comum têm o facto de manterem uma carreira ativa e dividirem de forma totalmente igualitária com o marido a educação dos filhos.

Em comum, estas mães têm também uma espécie de bolha que tentam manter impermeável a todos os comentários quanto ao facto de delegarem no pai da criança tarefas que a sociedade tende a ver como competência exclusiva da mãe.

“Eu sou uma boa mãe porque essa é a minha obrigação. O Romain é um bom pai e isso, para quem vê, é algo de fabuloso”, conta Nelma Viana, 34 anos, que já perdeu a conta às vezes que lhe lembram “da sorte que tem” em ter um namorado que “não se importa” de partilhar as tarefas.

Quando vão a uma consulta, por exemplo, o médico fala diretamente para si, ignorando completamente a presença do pai. “Cada vez que ele faz uma pergunta, há sempre uma pausa dramática e aquele olhar de ‘Uau, ele está mesmo interessado’”.

Mas nenhuma bolha é forte o suficiente para que Nelma não sinta “uma culpa gigante” sempre que alguém põe em causa a sua competência enquanto mãe. “Parece que, de repente, falhamos no desígnio que a sociedade nos impôs”.

Margarida Vaqueiro Lopes, também de 34 anos, partilha desta vulnerabilidade. “Mesmo sendo uma mulher muito bem resolvida, é claro que os comentários afetam sempre e já foram muitas as vezes em que duvidei de mim e do que era capaz”, conta à MAGG. Mas são dúvidas que se dissipam em segundos, assim que olha para Catarina, de quase 3 anos, e a vê a crescer bem, saudável e “uma menina do papá”.

Antes de serem pais, as tarefas em casa já eram totalmente igualitárias. Quando foram pais, Margarida e João acordaram que nenhuma carreira era mais importante do que a outra.

Margarida, jornalista, trabalha até mais tarde e, por isso, até há pouco tempo era o João que a ia pôr e buscar à escola. “A primeira vez que fui eu buscá-la, a educadora perguntou-me quem eu era e até achei isso bem, por questões de segurança. Mas depois, fez questão de, por várias vezes, frisar o facto de nunca me ter visto lá, já com aquele tom de condenação”. Margarida duvida que alguma vez dissessem aquilo ao pai de Catarina, tal como também não questionam se o João não pode estar presente em alguma atividade da escola. “Eu, que estive fora em trabalho no Dia da Mãe, levei logo com um: ‘Não vai?’”, dito com aquele tom condenador com o qual já se habituou a viver.

O mesmo aconteceu num dia em que Margarida ficou de ir buscar Catarina à escola mas ficou presa no trânsito. Ligou a avisar que ia atrasar-se 15 minutos e da escola responderam que a escola fechava às 18 horas, ponto. “Quando o João se atrasa e, às vezes, nem avisa, nunca ninguém lhe diz nada”, lembra.

A mãe é mãe, o pai é incrível

Margarida nunca tinha pensado na pressão social que as mães vivem antes de se tornar uma. “É suposto sermos incríveis”, garante, numa tarefa que, ainda por cima, nota que é pouco valorizada quando comparada com o apreço dado ao esforço masculino da parentalidade. “O João é um pai extremamente elogiado e eu sou constantemente relembrada sobre a sorte que tenho em tê-lo. Já eu, mãe, não faço mais do que é suposto”.

Esta categorização tem tudo que ver com o que é esperado do papel de um homem e de uma mulher na sociedade. Bernardo Coelho, investigador do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (CIEG), lembra que são esses preconceitos face à dualidade homem/mulher que fazem com que se criem preconceitos quanto ao papel de pai e de mãe. “É suposto a mãe ser cuidadora em primeiro lugar. O pai, espera-se que seja o provedor, o trabalhador”, explica à MAGG.

Quando esses papéis se invertem, ou quando apenas se fundem, deixam de corresponder às expetativas criadas para essas pessoas — e é daí que nascem os comentários negativos. “Nunca esquecer que as instituições são feitas de pessoas com esses mesmos preconceitos”, refere, numa tentativa de justificar as reações que estas mães já receberam tanto nas escolas como em hospitais.

Mas o pior, lembra Margarida, é quando os comentários chegam de pessoas próximas, muitas vezes de mães. “Ainda na semana passada, uma amiga da minha idade perguntou-me, com estas palavras : ‘Como é que consegues ter uma carreira e ser mãe?’”. E ainda que este tenha sido um comentário recente, os julgamentos à conjugação que faz entre carreira e maternidade começaram pouco depois de Catarina nascer.

“Fui numa viagem de trabalho para o Brasil quando a Catarina tinha 8 meses. Claro que me custou imenso, não vou negar, mas sabia que ela estava bem, com o pai”, conta. Mas não se safou de ouvir uma amiga, também ela mãe, mas que não se separou da filha até que fizesse 3 anos, a usar a palavra “coitadinha” ou de lhe perguntar várias vezes se a separação estaria a custar muito. “Eu percebo que há famílias diferentes, dinâmicas diferentes, mulheres diferentes. Mas só peço uma coisa: não me julguem”.

Maternidade pouco apoiada

Bernardo Coelho lembra que ainda que cada uma dessas mães tenha o poder de mudar as mentalidades ao seu redor, não é essa a sua função. “Este é um problema coletivo e deve ser tratado como tal”, refere o sociólogo, que lembra que só as políticas públicas têm o poder de mudar alguma coisa.

“A licença parental devia ser mais alargada e mais bem paga”, reforça. Ainda assim, de acordo com um novo diploma, os pais passam a ter 20 dias úteis de licença obrigatória (e não os atuais 15 que constam na lei) após o nascimento do bebé. Dias que podem vir a ser gozados de forma seguida ou interpolada, e até às primeiras 6 semanas de vida do recém-nascido. Além disso, na Assembleia da República discute-se o alargamento do período de licença por nascimento de filho, graças a uma petição com mais de 21 mil assinaturas que pede o alargamento da licença até um ano e paga a 100%.

Outro dos problemas identificados pelo especialista em questões de género está na diferença salarial entre homens e mulheres. “Se um casal tiver que abdicar de um ordenado para que um dos pais fique em casa com o filho, é a mulher que abdica uma vez que, ganhando menos, a perda global é menor”, explica.

Além disso, Bernando Coelho lembra que a sociedade não pode demorar tanto tempo a adaptar-se às novas realidades. É o caso dos horários das escolas. “A escola pública fecha às 15 horas e, com sorte, têm atividades extra curriculares, pagas à parte, até às 17 ou 18 horas. E quem não sai a essa hora? Ou quem vive na cidade que demora imenso tempo em deslocações?”, questiona, ainda que as respostas tenham tendência a demorar a surgir.

Joana Pratas, consultora de comunicação, mudou-se de Lisboa para o Douro antes dos filhos nascerem, mas não é por viver no campo que tem a vida facilitada. “Como viajo bastante em trabalho, eles andam sempre atrás de mim. É isso, ou ficam com o pai”.

E se nem nas grandes cidades esta dinâmica é visto com a normalidade esperada, imaginemos isso numa aldeia do Tabuaço. “Sinto que sou muitas vezes olhada de lado, não só porque sou freelancer e as pessoas acham que eu não trabalho, mas também porque veem o meu marido João a fazer aquilo que, aparentemente, não é suposto”, conta.

É João quem vai muitas vezes buscar a Teresa, de 6 anos, e o António, de 4, à escola ou à natação. “De tal maneira que há uns tempos, quando fui eu levar a Teresa à natação, uma das mães disse, várias vezes: ‘Olha a mãe da Teresinha’, com aquela entoação do “Afinal a Teresinha tem mãe’”.

Joana já brinca com a situação e, para evitar comentários, é ela que se chega à frente e conta às vizinhas que, por exemplo, é o João quem cozinha em casa ou que é ele quem fica com os miúdos quando sai em trabalho. “Com menos de um mês de vida, a Teresa ficou com o pai uma noite porque eu tive que estar fora e ainda hoje isso é algo comum na nossa rotina”, explica.

O que não quer dizer que para os outros seja normal. Esta semana, Joana tem um jantar e é João que vai ficar com o António e a Teresa em casa. Num post do Facebook sobre o evento, Joana marca a sua presença e um amigo comenta: “Casal moderno, o marido fica em casa com as crianças”, com três pontos de exclamação, a dar aquela entoação dúbia entre a surpresa e a crítica.

 

Apresentação do livro “Fátima Campos Ferreira Entrevista Manuela Eanes” 28 junho no El Corte Inglés em Lisboa

Junho 26, 2019 às 2:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Mais informações sobre o livro no link:

https://paulus.pt/fatima-campos-ferreira-entrevista-manuela-eanes

Violência sexual: desocultar a endemia – 19 de julho, no British Council em Lisboa

Junho 26, 2019 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/2032720030183413/

A nossa ideia de sucesso torna os adolescentes infelizes – Eduardo Sá

Junho 26, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Eduardo Sá publicado no Observador de 27 de maio de 2019.

Um adolescente de sucesso é um “tecnocrata de mochila” aos 15 e um “ídolo” antes dos 30. É uma ideia gananciosa e vaidosa de sucesso; que não devíamos reclamar para os adolescentes.

Noutro dia, perguntaram-me como se educa um adolescente para o sucesso. E eu fiquei embaraçado. “Ter sucesso é eleger um sonho e lutar por ele” — respondi. “Em que mundo é que anda?”, perguntou-me o pai. “Neste”, respondi. Mas, muitas vezes, tenho a sensação de que quem anda “na lua” talvez não seja eu.

Porque aquilo a que se vai chamando sucesso parece supor que não se tenha derrotas, nem dúvidas, nem vitórias “a safar”. E que se tenha, invariavelmente, boas notas, claro. Que se saiba (quase sempre) aquilo que se quer. Que se passe por todas as mudanças da adolescência sem sobressaltos. Que se seja quase indiferente aos diversos momentos maus duma família e aos solavancos que o mundo dá, dentro do corpo e fora da escola. Que se ponha, em primeiro lugar, os estudos e só depois o namoro. Que se seja sossegado e se tenha “bom comportamento”. Que as grandes causas sociais ou a política não passem de “distracções”. Que, mal se terminem os estudos, se comece a trabalhar. Que se seja “bom” naquilo que se faz. E que se ganhe muito dinheiro, de preferência, muito depressa. Mesmo que o sucesso resulte dum “casamento de conveniência” e não de um grande amor.

A nossa ideia de sucesso torna os adolescentes infelizes! Porque “robotiza” a adolescência. E transforma miúdos saudáveis, que entram na escola a perguntar “Porquê?”, em “produtos normalizados”. E faz com que, contra a sua vontade, se tornem, um ror de vezes, exemplos infelizes de “inteligência artificial”. A nossa ideia de sucesso é muito pouco amiga dum pensamento livre, interpelante e “escutador”. Porque não lhes dizemos que não se chega ao sucesso sem fazermos perguntas, sem nos pormos em causa, sem hesitações e sem contradições. Que as escolhas são sempre uma renúncia à omnipotência. E que o sucesso não se constrói à margem do desejo. Sem “um sonho” pelo qual se lute. E sem paixão!

Mais grave, ainda, é que esta ideia de sucesso (que vamos alimentando de forma preguiçosa) pressupõe que os nossos filhos escolham aos 14 ou 15 — sem que vacilem — uma “carreira de sucesso” que vigore pelos próximos 55 anos. E que, tendo os adolescentes o “azar” de terem notas muito altas, eles “só” tenham que optar entre os cursos de medicina, de engenharia bio-médica, de gestão, na Universidade Nova, ou engenharia aero-espacial, no Técnico.

Mas será que os mesmos pais que esperam todo este “sucesso” dos seus filhos são, eles próprios, um exemplo de sucesso em todas as áreas das suas vidas? E não estarão a exigir-lhes aquilo que os próprios pais fazem — hoje, inclusive — com imensa dificuldade como, por exemplo, escolher? E será que lhes dizem que ter sucesso é escolher não uma ou duas ou três mas inúmeras vezes, ao longo da vida?

O que se passa, então, nesta ideia de “sucesso”? Não será que associamos — por vezes, perigosamente — o sucesso às boas notas (independentemente do “pó de arroz” que muitos lhes põem, da adolescência que se hipoteca para as ter e do facto de termos passado a conviver com naturalidade com as equipas de “explicadores” a trabalhar para os adolescentes), como se, em todos os momentos, fosse sempre assim. E como se ter-se vida, autonomia, afoiteza, garra, tolerância à frustração, um pensamento próprio e convicções não fossem componentes indispensáveis para que eles se construam de forma mais saudável?

A nossa ideia de sucesso torna os adolescentes infelizes! Porque transforma miúdos saudáveis em “crianças de estufa”. Porque presume que um adolescente de sucesso é um “tecnocrata de mochila” aos 15 e um “ídolo” antes dos 30. A nossa ideia de sucesso torna os adolescentes infelizes porque presume que quanto maior for a notoriedade e mais dinheiro se ganhe, muito depressa, mais poderoso se seja e mais sucesso se tenha.

É uma ideia solitária, gananciosa e vaidosa de sucesso; que não devíamos reclamar para os adolescentes. E de fórmulas do género: “O importante não é viver; é saber viver; muito próxima do modo como “os outros” se transformam em “utensílios descartáveis”. Como se, à escala duma escolha de sucesso, a “fórmula” fosse: “Escolhe uma namorada rica. E, depois, faz como se faz com a água tónica da Schweppes; aprende a gostar”. Ao contrário, se os adolescentes pegarem em tudo aquilo que os encante e interesse, se uma escolha for a síntese de tudo aquilo que tenha a ver com eles, se juntarem sonho e paixão, e fizerem escolhas muito mais baseadas nisso do que, unicamente, nas notas que tenham, tornam-se singulares e inimitáveis em tudo o que fazem. Destacam-se, claro; quase sem quererem. E serão pagos para “brincar”. Não seria mais fácil para os adolescentes se déssemos todos um saltinho “à Terra”?

 


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