“A minha família é esta com quem vivo”

Junho 5, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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João Silva

Reportagem do Diário de Notícias de 13 de maio de 2019.

Céu Neves

Crianças e jovens em perigo. Filhos de famílias com vidas marcadas por dependências, abandono e negligência estão a construir um caminho novo. Aprendem a ser independentes para serem lançados para o mundo real. Mas a habitação é um problema.

Quem é a tua família? “A minha família é esta com quem vivo”, responde Catarina. Partilha casa com a Vanessa, a Núria e a Beatriz. Estão num apartamento de autonomia da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), destinado a quem já tem maturidade e vai deixar a instituição. No coração está ainda gravada a “família amiga”. A biológica ficou lá atrás, aos 7 anos, quando foi viver para um centro de acolhimento, e ainda hoje, aos 23, não consegue perceber as razões. “Acho que não foi possível viver com a minha mãe, mas não tenho a certeza.” O pai morreu tinha ela 8 anos.

É a segunda mais velha de seis filhos, os irmãos vivem em Inglaterra, com a mãe. Sem compreender o que lhe estava a acontecer, Catarina foi para um centro da SCML gerido por freiras. Aos 16 mudou-se para uma casa de pré-autonomia, para se preparar para o apartamento de autonomia (AA), para onde foi em janeiro.

As casas de autonomia são mistas, na SCML destinam-se a quem tem entre os 16 (15 na Casa Pia) e os 21, e têm um educador em permanência. Os AA são femininos ou masculinos, os residentes podem ter até 25 anos e são eles que se organizam, com a supervisão de uma equipa técnica. A idade limite para a proteção legal são os 18 anos, que podem ser prorrogados até aos 25 se o jovem estiver a estudar ou a trabalhar.

Catarina está no 1.º ano do curso de Animação Sociocultural, quer trabalhar com crianças. Ri-se, talvez “dos nervos”, é divertida e faz poses para a foto, como Vanessa Sanches, 19 anos, que também reconhece nas companheiras a sua família.

Vanessa deixou a família diretamente para o apartamento. É acompanhada desde os 10 anos pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), aos 17 pediu para sair de casa. “Havia negligência por parte dos meus pais, pedi ajuda à CPCJ e à SCML e, passados uns anos, deram-me esta resposta por já ter idade para me candidatar.” É a filha do meio de um agregado com cinco crianças, a mais velha também viveu na SCML, os outros ficaram com os pais. Conta que a mãe está grávida.

Inaugurou o apartamento no dia em que fez 18 anos, a 22 de dezembro de 2017. As técnicas reconheceram-lhe “competências pessoais para ter um futuro melhor, que ficando com a família ficaria muito comprometido”. Vanessa trabalha desde os 17 anos, está numa ação de formação de uma cadeia de alimentação saudável que vai abrir um novo espaço na segunda-feira, onde irá trabalhar. Entra na picardia com as colegas da casa, em especial com Catarina.

A terceira habitante é a Núria, 19 anos, que prefere não dizer o apelido nem tirar fotos. É mais recatada, também por causa da família com que se tem dado ultimamente. Tem quatro irmãos, o mais novo vive com a mãe, dois vivem na Alemanha e um em Londres.

Diz a Catarina e a Vanessa: “A minha família é a minha mãe e o meu irmão, vocês são colegas de casa com quem tenho uma boa relação.” Contra-argumenta Vanessa: “É o teu caso, eu não tinha bom ambiente familiar.” Concorda Catarina: “Posso dizer que tive uma boa infância na instituição e tenho a ‘família amiga’, levavam-me nas férias, no Natal, nos anos, eu adorava.” É um casal de Sintra, com os filhos crescidos, e que se voluntariou para apoiar diretamente uma criança de um centro de acolhimento.

Adoção perdeu-se na espera

Núria foi viver aos 6 anos para uma instituição em Fátima, da qual não guarda boas memórias. “Éramos 24 crianças, era muito complicado.” Esteve indicada para a adoção – o pai não estava contactável e a mãe estava impedida de a contactar -, mas o processo judicial demorou tanto tempo que só aos 11/12 anos ia concretizar-se – nesta altura foi Núria a dizer “não”.

“Não quis ser adotada porque não poderia falar com a minha mãe. Durante muito tempo não falei com ela e eu queria saber muitas respostas.” Teria sido uma vida diferente, seguramente, mas também não seria a pessoa que é hoje e admira. “Sou uma pessoa com juízo, é complicado viver numa instituição, não é fácil sair sã. Só dependemos de nós, não há ninguém em quem possamos confiar, só as pessoas da nossa idade.” Está a terminar o 12.º ano para tirar um curso superior, talvez Fisioterapia se a nota de exame a Matemática ajudar.

A quarta residente, Beatriz, não está presente, ainda está na escola.

Vivem numa casa de cinco assoalhadas, numa praceta com jardim em São Domingos de Benfica. Têm um quarto para cada uma, paredes em tom pastel e tetos altos brancos, camas decoradas com peluches.

É uma vida autónoma, com o apoio dos educadores Marisa Roque e Paulo Tavares, além de uma psicóloga, que ajudam também a gerir a bolsa mensal, de 388,50 euros.

A SCML deposita o dinheiro na conta bancária ou entrega por parcelas, depende das características do jovem. As contas são fáceis de fazer mas difíceis de gerir; a estratégia de Catarina é anotar todas as despesas.

Contribuem com 50 euros para a renda e as despesas da casa, mais dez para o fundo comum, e cem vão para poupança. O resto é para o passe, alimentação, roupa e gastos pessoais. Catarina acompanha as crianças da Orquestra Geração da Santa Casa, o que lhe rende mais 111 euros por mês. E prepara-se para a profissão que quer abraçar.

Casas que é difícil ter na vida real

A SCML tem dez apartamentos de autonomia em Lisboa – três femininos e sete masculinos, onde vivem 32 jovens. “É uma resposta que está em crescimento e, até ao final do ano, vamos inaugurar dois. Há muitos jovens que estão em centros de acolhimento e que, pela idade, faz mais sentido estarem em projetos de autonomização. E também há quem tenha vindo diretamente da família [o caso de Vanessa]”, explica Margarida Cruz, diretora dos AA da SCML.

Podem candidatar-se os jovens que trabalham ou estudam, “que tenham maturidade e capacidade de autocontrole e estejam centrados no seu futuro”. O que, nas palavras de Catarina, “não quer dizer que não tenhamos conflitos, temos é a capacidade de os resolver. Acrescenta Vanessa: “Temos a nossa vida e a que partilhamos, refeições, saídas, compras, consultas, etc.”

A Casa Pia é outra instituição com AA, oito (um para mães com filhos), onde vivem 23 jovens. Tem ainda duas casas de acolhimento com programa de pré-autonomia, agora com 24 residentes. Uma delas é a Casa João José de Aguiar, uma vivenda ao lado do Palácio da Ajuda, branca por fora e colorida por dentro, com quatro raparigas e oito rapazes, além dos cinco educadores. Tal como o apartamento da SCML, é uma boa casa.

É cada vez mais difícil para quem sai de um apartamento de autonomia ou de pré-autonomia obter um espaço habitacional com condições dignas e a um preço que consiga suportar.

“A situação habitacional é o maior desafio. É cada vez mais difícil para um jovem que sai de um apartamento de autonomização ou de um programa de pré-autonomia encontrar um espaço habitacional com condições dignas e geograficamente compatíveis com o seu enquadramento escolar/laboral a um preço que consiga suportar”, diz Leonor Fechas, diretora executiva do Centro de Educação e Desenvolvimento Santa Catarina, da Casa Pia. Há quem tenha de “desistir dos estudos e regressar a agregados familiares que apresentam grandes riscos psicossociais”. São os valores das rendas mas também o facto de muitos senhorios “negarem o arrendamento devido à inexistência de fiadores, a questões raciais e por serem jovens ao abrigo do Estado”.

A autonomia conquista-se

O DN foi recebido na Casa João José de Aguiar, com mesa posta para jantar: salada de polvo, de alface e queijos, bacalhau com natas como prato principal, salada de fruta, brigadeiro e bolo de cenoura para sobremesa. Educadores e residentes confecionaram. Têm entre 16 e 19 anos. O compromisso é não fotografar os menores. Estão num programa de 20 meses, mas podem ser mais, até concluírem as quatro fases: integração, desenvolvimento, consolidação e autonomização. Cada uma concede uma bolsa, que se inicia nos 90 euros mensais e acaba nos 145.

Érica Oliveira, 18 anos, está na residência há dois anos, frequenta o 1.º ano do curso de Animador Sociocultural. Entrou para a instituição com 6 anos, com uma irmã, tem mais quatro irmãos. Mas, sublinha, “a minha família são algumas pessoas da Casa Pia e alguns irmãos. Viver aqui é igual a uma família, só que não é a família de sangue.”

Aprendeu a “não ser tão exigente com os outros, nem tão direta”. Tem um quadro no quarto com a data da fundação do Benfica: 28/2/1904, um trabalho de artes plásticas realizado na Fundação Berardo, com a qual a Casa Pia tem um projeto de cooperação.

Miriam Reis, 19 anos, criou um quadro com a data de entrada na Casa Pia: 10/8/2012. Termina o curso profissional de Cozinha e Pastelaria, está a acabar um estágio profissional, quer ir para a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Ganhou um prémio empresa de 300 euros.
A mãe faleceu e o pai não teve condições para a criar. “Fui perdendo o contacto”, mas ainda assim é a pessoa de referência. E ela é uma referência para os colegas. “Viver aqui é como viver em família, mas com pessoas diferentes, tento ter boa relação com todos.”

Márcio Fachadas, 19 anos, teve de sair da mesa, quando regressa tem uma fatia de bolo brigadeiro que uma colega lhe reservou, o que é alvo de piadas sobre namoricos. Tinha 10 anos quando ali chegou, vivia com a avó paterna, que teve um AVC. “Foi ótimo vir para aqui. Quando penso no que fazia em criança, não tinha horários, regras, a minha avó não tinha condições.” Não foi difícil a adaptação, “só estranho”.

Vive na residência há dois anos, está no 12.º ano, a concluir um curso profissional de Informática. É o segundo ano em que estagia numa televisão, tem esperança de que isso signifique um emprego no futuro.

Quem viveu nesta casa de pré-autonomia foi Murilo Matias, 20 anos, agora convidado para jantar. Passou com êxito todas as fases, vive num AA vai fazer um ano sem setembro. “É fácil concluir, desde que se respeite as regras, não percebo por que razão há pouca gente a terminar”, comenta.

Entrou para a Casa Pia com 13 anos, ele e a irmã, dois anos mais nova. Viveram no Centro de Acolhimento Temporário da Casa Pia e ele, dada a sua idade e maturidade, seguiu para a pré-autonomia. Está a terminar o 12.º ano, “quer estudar Animação Sociocultural na Universidade de Vila Real, quer sair Lisboa. Recebe 419,22 euros, dos quais entrega 160 euros para as despesas da casa e 100 para poupança. O resto é para passe, alimentação e despesas pessoais.

Trabalhou nas atividades praia-campo, da Junta de Belém, juntou dinheiro para ir até Auschwitz com os amigos. Com isso desenvolveu um projeto escolar, apresentado na última quarta-feira, onde esteve o embaixador de Israel. E, tal como Miriam, esteve no ano passado na ilha francesa da Reunião no âmbito de um projeto de intercâmbio. E os franceses vieram a Portugal.

Murilo mantém contacto com a mãe, com altos e baixos. Agora estão numa fase menos boa. Quando se lhe pergunta quem é a sua família, responde: “É a Casa Pia, que sempre me apoiou, passei Natais com os educadores. Os dois últimos estive com a família do meu melhor amigo, o Bernardo, que conheci no 7.º ano. É o oposto de mim, tem tudo, família, rendimentos …”

 

 

 

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