Mais de duas mil crianças acompanhadas nas comissões de protecção por faltarem à escola

Junho 2, 2019 às 6:41 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 23 de maio de 2019.

Falhas no direito da criança à educação representam a terceira situação de perigo mais frequente depois da negligência e dos comportamentos anti-sociais graves, de indisciplina ou de consumos.

Ana Dias Cordeiro

Menos processos instaurados em 2018, menos medidas aplicadas e menos crianças acompanhadas pelas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ). Mesmo assim, o universo de menores em perigo continua a atingir dezenas de milhares. Houve 60.493 acompanhados (entre os que entraram no sistema de protecção no ano passado e os que já eram objecto de acompanhamento e continuaram a ser). Só em 2018, mais de 13 mil novas situações de perigo foram diagnosticadas. Entre estas, mais de duas mil crianças (2422) estavam em situação de abandono escolar ou faltavam às aulas.

O número desceu comparativamente a 2017 quando havia 2643 crianças e jovens nessa condição. Já quando se faz a comparação com anos anteriores, verificamos um aumento. Por exemplo, em 2014, havia 1764 casos confirmados e em 2015 eram 1451. Por vezes, o direito à educação é posto em causa pela própria família – seja por negligência ou outro motivo. São dados do relatório divulgado nesta quarta-feira relativo à actividade das CPCJ em 2018.

Foi em 2014 que esta problemática, que afecta sobretudo crianças e jovens a partir dos 11 anos, passou a ocupar a terceira posição nas situações de perigo mais comuns. Hoje, a negligência representa 43,1% dos casos diagnosticados em 2018; em segundo lugar surgem os comportamentos anti-sociais graves do próprio jovem, indisciplina, consumos ou outros (18,7%); em terceiro lugar está a violação do direito à educação (17,4%). Em valor absoluto, houve 5999 situações de negligência em 2018, ano em que 2606 novas crianças foram acompanhadas por comportamentos anti-sociais graves, de indisciplina, de consumos, entre outros.

Violência doméstica

O relatório assinala ainda 1661 novos casos confirmados de crianças expostas à violência doméstica, das quais 12 também foram agredidas fisicamente nesse contexto. Na apresentação do documento, o ministro da Segurança Social, José António Vieira da Silva, defendeu justamente que uma maior atenção seja dada a casos de violência doméstica, para proteger as crianças. “Conhecemos alguns casos recentes em que os problemas de violência doméstica se traduziram igualmente em problemas de risco para as crianças envolvidas nesses ambientes familiares”, disse o ministro citado pela Lusa. “O problema da violência doméstica é, cada vez mais, um problema a que devemos estar atentos, e estar atentos desde a sua detecção até à execução das medidas de promoção e protecção.”

Além destas problemáticas, o mau trato físico foi confirmado em 384 casos — que incluem duas meninas vítimas de mutilação genital em 2018 (há registo de outros dois casos este ano que poderão justificar a retirada definitiva destas crianças à família, por estar em causa uma situação de perigo para a integridade física das crianças).

Houve ainda 239 situações de mau trato psicológico, 138 casos de abuso sexual e nove situações de exploração infantil. Dez bebés foram abandonados com menos de seis meses de vida, mais dois do que no ano anterior.

O relatório citado na notícia é o seguinte:

Relatório Anual de Avaliação da Atividade das CPCJ do ano de 2018

Celmira Macedo: A professora que criou um alfabeto inclusivo

Junho 2, 2019 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Notícias Magazine de 17 de maio de 2019.

Criou uma nova ferramenta de alfabetização para crianças com necessidades educativas especiais, abriu uma escola de pais, fundou uma associação, reatou contactos entre avós, filhos e netos. O EKUI é uma estratégia pioneira.

Texto de Sara Dias Oliveira

É um baralho de 26 cartas fora do comum. Cada carta representa uma letra do alfabeto que se apresenta de várias formas: escrita à mão, em língua gestual portuguesa, em braille, em símbolos do alfabeto fonético. O projeto EKUI (Equity/Equidade, Knowledge/Conhecimento, Universality/Universalidade, Inclusion/Inclusão) está em várias escolas para que crianças com e sem necessidades educativas especiais aprendam a ler sem barreiras de comunicação. Esta nova metodologia de ensino inclusivo conquistou o Prémio Maria José Nogueira Pinto, entre 125 projetos inovadores apresentados no ano passado, e a distinção de Personalidade do Ano do Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio, que homenageia quem se destaca em áreas relevantes para a economia social.

Tudo começou letra a letra, sílaba a sílaba, palavra a palavra, num grupo de crianças autistas. A natureza inovadora do EKUI de acrescentar e conciliar a componente visual e fonética na aprendizagem teve e tem impacto ao ajudar crianças a ler e a escrever, ensinando simultaneamente fonética, braille, língua gestual e o alfabeto. O EKUI chega a mais de três mil crianças, a mais de 230 escolas. “Sou teimosa, estou atenta, gosto de trabalhar projetos que transformam a sociedade e acredito que é possível mudar o Mundo.”

Celmira Macedo é professora de Educação Especial e, certo dia, tomou uma decisão que mudou a sua vida. “Resolvi estudar e investigar mais para trabalhar mais e melhor com os pais e com os filhos de famílias com necessidades educativas especiais”, recorda. Estava a dar aulas no distrito de Bragança e a tirar o doutoramento na Universidade de Salamanca, em Espanha, sobre competências emocionais das famílias das pessoas com deficiência. O trabalho de campo deu-lhe que pensar. “Tinha dois caminhos: continuava a tese de doutoramento ou ia para o terreno ajudar as pessoas.” Optou pela segunda, ao perceber que havia famílias sem rede, sem suporte.

Criou a Escola de Pais NEE (Necessidades Emotivas Especiais) para trabalhar competências parentais, educação emocional e educação para a diferença, e escreveu um livro sobre o projeto e as estratégias a desenvolver com pais. Criou a Leque – Associação de Pais e Amigos de Pessoas com Necessidades Especiais em Bragança, conseguiu abrir uma colónia de férias para que os pais deixassem os filhos com necessidades especiais no mês de agosto, criou um centro de reabilitação e atendimento de pessoas com deficiência em Alfândega da Fé, arrancou com um programa para que os mais velhos restabelecessem o contacto com filhos e netos espalhados pelo Mundo através do Facebook e do Skype, para combater o isolamento em aldeias do interior. E o EKUI foi ganhando formas neste percurso. “Se 10% dos alunos repetem o 1.º ciclo é porque as estratégias não se ajustam aos alunos que têm uma forma de aprender diferente”, considera. Entretanto terminou o doutoramento com nota máxima dez anos depois do seu início.

Celmira Macedo tem 47 anos e continua a ensinar, agora na Escola Secundária Inês de Castro, em Vila Nova de Gaia. Sofreu dois AVC, recuperou, voltou ao trabalho. “Tenho de devolver ao Mundo e à vida aquilo que a vida me deu.” “Dar a volta a desafios faz bem à alma”, garante.

 

 

 

 

 


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