Depressão na adolescência: quando o fundo do poço começa cedo

Maio 16, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Texto e imagem do DN Life de 6 de maio de 2019.

Está associada a dificuldades nas relações interpessoais, comportamentos agressivos, quebras no desempenho académico e aumento do consumo de álcool e drogas. A depressão na adolescência é um problema grave, que provoca elevada mortalidade. Geralmente por suicídio.

Texto de Joana Capucho

Não se lembra quando surgiram os primeiros sintomas de ansiedade, mas terá sido ainda na escola primária, quando começou a ser vítima de bullying por ser considerada “betinha”. “Era muito certinha, tímida e tinha poucos amigos”. Embora não fosse “muito agressivo”, era o suficiente para lhe “causar desequilíbrios psicológicos”. Com a morte do pai, no final de 2016, Luísa (nome fictício) entrou num estado de “tristeza constante”. “Havia sempre qualquer coisa que me puxava para baixo. Faltava sempre alguma coisa. Sentia que ninguém me percebia. A ira também não ajudava. E tudo isso levou ao isolamento”, conta a adolescente de 16 anos.

Luísa tinha “ataques de ansiedade e de pânico com frequência, insónias constantes, mais baixos do que altos”. Sentia um vazio enorme, embora “a cabeça estivesse cheia de coisas”. Desenhava e escrevia, porque as folhas a “percebiam melhor do que os seres humanos”. Tornou-se mais distraída, o que se refletiu nos resultados escolares. Com o desânimo, pensava desistir de viver. “Tinha pensamentos suicidas. Sentia e pensava tudo, mas nunca cheguei a fazer nada.” Há um ano e meio, foi diagnosticada com depressão e ansiedade e está neste momento a receber acompanhamento psicológico e psiquiátrico. “Continuo bastante ansiosa. A depressão está mais fraca, mas continua aqui. Há dias em que vou mesmo ao fundo do poço e tenho pensamentos muito maus, mas já não são tão frequentes.”

Não são conhecidos dados nacionais, mas várias investigações indicam que a depressão afeta um número considerável de adolescentes e que tem vindo a aumentar nesta faixa etária. De acordo com um estudo da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, realizado no ano letivo 2017/2018, um em cada quatro alunos do 7.º ao 12.º ano apresenta sintomas de depressão. José Carlos Santos, enfermeiro especialista em saúde mental, diz que 26% dos 6.100 alunos que responderam aos questionários manifestaram sintomatologia depressiva de moderada a grave.

O estudo foi realizado no âmbito do programa +Contigo, que desde 2009 se dedica à promoção da saúde mental e à prevenção de comportamentos suicidários nas escolas de todo o país, com maior incidência na região Centro. Segundo o coordenador da investigação, a percentagem de adolescentes com sintomas depressivos situava-se entre os 15 e os 20% quando o projeto começou. Não tem uma explicação objetiva para o aumento registado nos últimos anos, mas aponta algumas hipóteses. “As equipas dizem que são sobretudo questões de índole familiar: problemas de comunicação e desorganização do sistema familiar”.

Nos últimos anos, a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos tem vindo a aperceber-se de “um aumento dos estados depressivos na adolescência”, muitas vezes diagnosticados “erradamente como hiperatividade, pois, no início da adolescência, podem mostrar a capa de hiperatividade ou agitação psicomotora e não se manifestar com os sinais” típicos da depressão, nomeadamente “tristeza, apatia, falta de motivação, ideias pessimistas”. Segundo a especialista, as depressões juvenis “aparecem com tentativas de suicídio, jovens que se cortam, com dificuldades de aprendizagem, desmotivação para a escola”.

São também cada vez mais frequentes “os casos de adolescentes da linha depressiva”, ou seja, oriundos de famílias com baixos níveis de serotonina – o neurotransmissor responsável por regular o humor e os estados mentais.

Diana Quintas, 25 anos, sabe o que é fazer parte dessa linha. “Há um grande estigma, ainda, relativamente à depressão, à necessidade de acompanhamento psicológico. É uma doença. É um desequilíbrio de químicos no cérebro e é para tal que precisamos de medicação. E é também uma doença hereditária. O meu pai sofre de depressão e é medicado há bastante tempo. Da mesma forma que há diabéticos que precisam de tomar insulina, eu e o meu pai precisamos, por agora, de tomar antidepressivos.”

Diana teve os primeiros sintomas depressivos aos 19 anos, depois de ter trocado de área no ensino secundário, o que a obrigou a ficar mais dois anos na mesma escola. “Há um sentimento de revolta, de tristeza, de desespero. Há um buraco, uma nuvem escura e parece não haver forma de sair de lá”. Aos 20, começou a estudar Direito. Estava no curso que queria, mas começou a “adquirir comportamentos obsessivos como forma de lidar com a ansiedade e com todo o trabalho” que o curso exigia.

Com a morte do avô, tudo se agravou. Surgiram os problemas para dormir e a falta de apetite. “Tomava café e comia chocolates para me manter acordada e para ingerir calorias.” Começou a afastar-se dos que a rodeavam, ao ponto de se isolar “de tudo e de todos”. No verão do ano passado, “chorava todos os dias, estava constantemente cansada, continuava sem conseguir comer”. Quando recebeu o diagnóstico de depressão, sentiu-se aliviada. “Finalmente, há explicação” para o que a atormenta há anos.

A perda é uma das situações que pode causar depressão na adolescência. “Pode ser de um familiar, mas também de um animal de estimação”, diz o enfermeiro José Carlos Santos, destacando que as roturas afetivas também são muito relevantes. Definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o período entre os 10 e os 19 anos de idade, a adolescência é “a fase das sensações, muito da componente afetiva e pouco da cognitiva. O desenvolvimento neuronal – no córtex transfrontal– atinge maturidade por volta dos 24 anos de idade”. Desta forma, “não podemos exigir que os adolescentes tenham um pensamento de um adulto, se não têm estrutura a nível cerebral para o poder fazer”.

Os sentimentos de tristeza fazem parte da adolescência – tal como da idade adulta. Mário Cordeiro diz que “é difícil definir o que é ‘depressão’, ou onde acaba a sensação de ‘estar na fossa’ e começa a verdadeira crise depressiva”. Provavelmente, refere o pediatra, “não há limites e uma será a continuação da outra”. Mas enquanto a tristeza é passageira, a depressão instala-se e afeta a forma como a pessoa se relaciona consigo e com os outros.

Pode ser difícil perceber quando começa a depressão, pelo que há alguns sinais aos quais os pais devem estar atentos, como “a sensação de desespero e abandono, de que o futuro só traz coisas desagradáveis, de não conseguir fazer nada com sucesso”. Não raras vezes, a doença está também associada a uma sensação “de cansaço seguido, durante dias e dias”, a problemas de sono, dores de cabeça ou abdominais sem causa aparente, perda de apetite e de peso ou o contrário.

Além da morte e da separação, Mário Cordeiro refere outros fatores que podem estar por detrás dos quadros depressivos, nomeadamente “a sensação de insegurança quanto a si próprio, separação ou divórcio dos pais, os conflitos familiares, a incapacidade de responder às solicitações do dia-a-dia, a depressão num dos pais, as doenças graves, o alcoolismo ou o consumo de drogas, os problemas com os amigos ou na escola”.

Quando ocorrem vários destes fatores ao mesmo tempo, “pode ser impossível aguentá-los: a depressão aparece e avoluma-se e o jovem debate-se, inclusivamente, com a questão de saber se vale a pena continuar a viver”. Por isso, alerta, “num adolescente, um estado depressivo franco nunca deve ser considerado uma ‘coisa natural’”.

À escala global, o suicídio é a terceira causa de morte na faixa etária entre os 15 e os 24 anos. José Carlos Santos fala numa taxa de suicídio de quatro em cada cem mil habitantes. Não existem dados sobre os comportamentos autolesivos – cortes ou toma de medicamentos sem ideação suicida ativa – mas estima-se que “por cada suicídio haja 100 a 120” ações deste tipo. “É um problema com uma dimensão grande”.

Luísa sofreu em silêncio até ao dia em que um artista que admirava se suicidou. “Os pensamentos maus que tinha triplicaram”. Quando a mãe lhe perguntou o que se passava, teve “um ataque de choro” e contou-lhe o que a atormentava há meses. E foi depois disso que procurou ajuda médica. Diana também contou com o apoio da família: “Dizem que é uma doença silenciosa. Até certo ponto, é, mas os meus pais viram, a minha irmã e o meu cunhado viram, o meu namorado viu. E foram eles que me deram a mão e me ajudaram”.

Mas nem sempre é assim. Ana Vasconcelos diz que “a depressão passa muitas vezes despercebida, sobretudo porque, neste momento, os adultos julgam mais do que tentam compreender”. Segundo a pedopsiquiatra, “muitas vezes, os sintomas da depressão incomodam os adultos, porque os adolescentes são mal educados, impulsivos, muito argumentativos e, por vezes, falta-lhes a capacidade de empatia”. Comportamentos disruptivos e desajustados que podem ser mal julgados.

Os estudos sobre a depressão revelam que quem sofre mais com a doença é o sexo feminino. De acordo com uma investigação recente da Faculdade de Medicina do Porto, a prevalência de sintomas depressivos nas raparigas aos 13 anos é duas vezes mais elevada do que nos rapazes da mesma idade. Segundo o estudo, 18,8% das raparigas sofrem de sintomas depressivos aos 13 anos, enquanto nos rapazes a percentagem é de 7,6%.

“Todos os estudos apontam para uma maior vulnerabilidade nas raparigas e para mais comportamentos de risco nos rapazes”, indica José Carlos Santos. O especialista em saúde mental diz que, perante um problema, os rapazes “tendem a uma maior externalização” e a manifestar mais consumos, nomeadamente de álcool e drogas, enquanto nas raparigas “há mais uma ruminação e uma maior internalização do problema”.

No Reino Unido, as redes sociais têm vindo a ser acusadas de instigar a depressão e o suicídio. Em janeiro, o secretário de Estado para a Saúde britânico, Matt Hancock, alertou os responsáveis por estas plataformas para a necessidade de apertar a malha aos conteúdos que induzem estes comportamentos. Uma chamada de atenção que surgiu depois o pai de uma jovem de 14 anos que se suicidou em 2017 ter afirmado publicamente que as redes sociais contribuíram para a morte da filha.

A questão é antiga e tem vindo a ser alvo de alguns estudos: será que os adolescentes que usam mais as redes sociais e os videojogos ficam mais deprimidos? “O grande risco nas investigações é o facto de as duas coisas acontecerem ao mesmo tempo, o que não quer dizer que as duas tenham que estar associadas ou que uma é causadora da outra”, diz o psicólogo clínico João Faria.

Na opinião do coordenador do Núcleo de Intervenção no Uso da Internet e das Telecomunicações do Pin [Centro de Desenvolvimento Multidisciplinar], as redes são “meios que podem potenciar” sentimentos negativos, mas não será correto relacionar “experiências menos positivas nestas plataformas ou nos videojogos com o aparecimento de sintomas depressivos”. Para o psicólogo, estes estão associados sobretudo aos “desafios que se colocam às novas gerações”, que muitas vezes “não sabem o que desejam em relação ao futuro e sentem-se perdidas”.

Em alguns casos de depressão, as redes sociais servem até para os jovens conversarem com outros, o que pode proporcionar algum alívio do sofrimento. Tal como as artes. Segundo a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos, para muitos jovens “a criatividade é uma saída para estados depressivos”. “Há adolescentes com depressões graves que escrevem livros, poemas, pintam”.

Oito sinais aos quais os pais devem estar atentos:

  • Tristeza permanente e choro fácil
  • Irritabilidade e frustração
  • Isolamento social
  • Sentimentos de culpa e de incompreensão por parte dos outros
  • Não conseguir dormir bem durante muitas noites seguidas
  • Sensação de cansaço seguido, durante dias e dias
  • Dores de cabeça ou no corpo sem razões aparentes
  • Ideias ou comportamentos suicidas, bem como autolesivos

O estudo mencionado no texto é o seguinte:

Prevenção de comportamentos suicidários: contributos da investigação

 

Dia da Família – INE

Maio 16, 2019 às 5:17 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Tiago entrou numa instituição aos 5 anos, mas hoje pode ter duas famílias

Maio 16, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Diana Quintela

Notícia e imagem do Diário de Notícias de 4 de maio de 2019.

Ana Mafalda Inácio (Texto) Diana Quintela (Fotos)

Ana Gama e Francisco Caldeira conheceram Tiago numa instituição. Tinha 7 anos, começou por ir passar os fins de semana, as férias e há um ano que vive em casa da família. Passaram a ter quatro crianças, dos 13 aos 8 anos. Tiago, continua ligado à mãe biológica. Ana e Francisco querem ser padrinhos civis.

Aos 5 anos entrou numa instituição. Depois de ele próprio ter chamado o 112 para socorrer a mãe de uma situação de saúde grave. Tinha pai, irmãos e avós mas não chegaram para cuidar dele durante o longo tempo de internamento da mãe. Teve de ser retirado à família e encaminhado para uma casa de acolhimento no Estoril. Foi aí que conheceu Ana Gama e Francisco Caldeira e os filhos, Gonçalo, Vasco e Duarte. A família com quem poderá viver, sem nunca deixar a ligação que tem à mãe. “Ele fica feliz quando a vê, sente-se pacificado. Sabe que ainda está lá”, contam ao DN Ana e Francisco, que há três anos, quando começaram a recebê-lo em sua casa para fins de semana e férias, não imaginavam que poderiam chegar à situação de apadrinhamento civil – o regime jurídico criado em 2009 para tirar mais crianças das instituições, mas que tem sido ignorado por técnicos, instituições e magistrados. “Há um grande desconhecimento sobre esta providência e o impacto que pode ter”, confirmou ao DN Isabel Pastor, diretora da Unidade de Adoção, Acolhimento Familiar e Apadrinhamento Civil da Santa Casa.

A Lei n.º 103 de 11 de setembro de 2009 foi criada a pensar que poderia prevenir e combater a institucionalização, mas gerou resistências logo à partida, porque “foi entendida como um atalho para o encaminhamento para a adoção, quando não é. É para as crianças que nunca terão uma medida de adotabilidade”, sublinhou Isabel Pastor. E como nem todas as crianças vivem da adoção, esta foi a hipótese que os técnicos da instituição onde Tiago estava propuseram a Ana e a Francisco, ao fim de três anos de relacionamento e de integração familiar, e já depois de lhes ter sido entregue no regime de confiança a pessoa idónea e de estar a viver com eles há um ano.

Ana e Francisco aceitaram e entregaram a candidatura para apadrinhamento civil em janeiro na Segurança Social. Já foram a duas entrevistas, mas todos, incluindo os filhos e Tiago, terão de ser ouvidos sobre este projeto de vida. Só depois saberão se foi aceite pelos serviços do Estado ou por um juiz.

Tiago, um nome que não é o seu, mas que protege a sua identidade, tem hoje 10 anos, um corpo esguio, já a caminho de 1,60 metros de altura, e um rosto redondo, afável, onde se destacam os olhos verdes, grandes, entre todos os traços da sua origem africana. Está no quarto ano do primeiro ciclo, gosta de futebol e já é do Sporting como todos na família de Ana e Francisco. “É um miúdo meigo, obediente, educado, muito reservado ao mesmo tempo. Na escola não há queixas dele, não tem problemas disciplinares, poderia ser meu filho”, confessa Francisco. Para Ana, “é ótimo”, fazendo sobressair alguma admiração pelo facto de se ter sempre “disponibilizado a vir connosco, embora saiba que o processo de entrega dele não era igual ao nosso, mas é normal nestes casos, porque nem tudo é logo uma história romântica. Ele vinha, mas isso não significava que nos tivesse adorado desde o início. Para ele, nós éramos a família que o tirava aos fins de semana e nas férias da instituição. Era uma aprendizagem para ele, e para nós também”.

Ana escolheu para profissão o serviço social, é técnica num bairro problemático, não trabalha a área da infância, e tem um valor que quer passar aos filhos: “Não se desiste das pessoas.”

Mudar o mundo ajudando alguém

A história de Ana, Francisco e Tiago começa muito antes de se conhecerem. Talvez mesmo quando ainda não tinham filhos e tantas vezes conversavam sobre “o ajudar alguém, mas até mais de outra forma, nunca pelo apadrinhamento civil, que nem conhecíamos bem esta figura”. Para Ana, e pela área em que trabalha, sempre foi grande a vontade de “poder contribuir para melhorar o mundo. É claro que cada um à sua medida, e não com a ideia de que podemos mudar tudo, mas acredito que se cada um puder contribuir com uma migalha que poderemos viver num mundo melhor. E a área das crianças era aquela em que me sentia mais capaz para o fazer”. Francisco confessa que vem de uma família numerosa. “Tenho seis irmãos e sempre tive esta coisa de casa cheia e pensava muito: “Bolas, com tanta criança em instituições, porque que não ajudar alguma? Foi este sentimento que me levou a isto, nada de muito transcendente. Falámos e quando nos pareceu que era a altura certa avançámos.”

Ana e Francisco já tinham os três filhos quando decidiram inscrever-se num programa de Famílias Amigas da Santa da Casa da Misericórdia. “Basicamente era um programa em que nos voluntariávamos para receber crianças ao fim de semana e durante as férias.” A ideia começou por ser de “ajuda temporária, não era um projeto que passasse por uma escolha para a vida”, relembra Francisco. Mas esta primeira tentativa não foi bem-sucedida. Foram rejeitados por terem ainda um filho com menos de 5 anos. “O Duarte tinha uns 3 anos e fomos imediatamente recusados porque tínhamos três filhos e não íamos ter tempo para uma quarta criança”, contam.

Para Ana, a ideia ficou em suspenso. Francisco diz que deixou de pensar no assunto. Mas mal Duarte fez os 4 anos e meio, Ana ligou à Santa Casa a perguntar se naquela altura já reunia as condições necessárias. E, à segunda, foi de vez. “Aceitaram-nos e fomos fazer um curso de voluntariado na Santa Casa, em que nos deram várias perspetivas, mas posicionámo-nos imediatamente na área da infância e com o projeto de família amiga. Era aquilo em que achávamos que poderíamos ajudar melhor e que se integrava na nossa família. Os miúdos são pequenos. É padel aqui, futebol ali e tantas outras atividades e achávamos que uma criança poderia integrar-se bem nesta rotina.” Acabaram a formação. Ficaram como família amiga, mas a resposta que receberam da Santa Casa foi a de que “não havia nenhuma criança com perfil para nós”. Este foi o primeiro desapontamento. Ana recorda: “Não tínhamos posto qualquer restrição a não ser a da autonomia. Poderia ter deficiência, mas que fosse autónomo, até pelas nossas condições, vivíamos num segundo andar sem elevador. Depois, pelos miúdos para que pudesse acompanhá-los.” Francisco interrompe para comentar: “Não encontraram ninguém para o nosso perfil. Como é possível, com tanto miúdo institucionalizado? Ficámos dececionados. Compreendemos que haja uma triagem rigorosa, estamos a falar de crianças, mas às vezes é demasiado e torna-se uma barreira.” E da Santa Casa nunca foram chamados para apoiar uma criança.

Num mundo ideal, o apadrinhamento deveria ser a medida mais usada

Tiago surge na vida deles porque a família conhecia esta intenção e, um dia, uma cunhada envia-lhes a newsletter do colégio onde andam os filhos, com uma reportagem sobre um projeto de famílias amigas da associação Amigos Pra Vida. “Eu falei logo com uma das pessoas. Fomos a entrevistas e um mês depois estavam a ligar-nos a dizer que tinham uma criança que se encaixava na nossa família e se a quereríamos conhecer”, contam. Foram conhecê-lo à casa de acolhimento onde estava, a Mimar, no Estoril, e levaram os filhos, com quem tinham falado sobre este projeto.

Tiago tinha 7 anos, estava no segundo ano do primeiro ciclo. As primeiras vezes correu tudo bem, depois “começaram os problemas”, riem-se, mas “próprios de uma família, tal como quando nasce um irmão e é preciso tempo para digerir essa realidade”. Ana admite: “Foram tempos difíceis. Às vezes pensava: “No que me fui meter. Tinha a minha vida tão organizada””, riem-se de novo. Mas foi sempre preparando-os: “Não se desiste das pessoas. Sempre tive isto muito presente na minha cabeça e dizia-lhes que, a partir do momento em que nos envolvemos num projeto, fosse com uma criança ou até com um animal, não se desiste, não se devolve.”

Tudo foi passando e Tiago começou a ficar mais tempo. E há um ano deixou a instituição para viver lá em casa. Os técnicos da Mimar consideraram que este poderia seria o percurso mais adequado para ele. “Acharam que não fazia sentido ele continuar na instituição e propuseram-nos se queríamos recebê-lo e apostar numa situação de entrega com medida de confiança a pessoa idónea.” Aceitaram, e sempre com a família biológica por perto.

Ana e Francisco são de opinião que, num mundo ideal, “todas as situações deveriam ser assim”. “Nem todas as crianças têm de viver da adoção. Há as que têm mesmo de ter esta medida, mas as outras, as que têm ligação à família, e desde que não haja nada em contrário, não faz sentido afastá-las. São elas, mais tarde, que terão de avaliar e de pensar na relação que têm. É um caminho delas”, argumenta Ana. Por isso, aceitaram e sempre estiveram disponíveis para levar Tiago de 15 em 15 dias a ver a família, quando ainda estava na Mimar.

Depois, a certa altura, a instituição considerou que a família biológica teria de se envolver mais e que deveria ser ela a ir buscá-lo. “Pensamos que foi para os responsabilizar mais”, dizem-nos. Mas a mãe não o poderia fazer, era o irmão mais velho que tinha de assumir essa tarefa, e não queria. Passou a ir a mulher dele, até ao ponto de se tornar um problema e de o deixarem de ir buscar. Ana e Francisco propuseram várias vezes serem eles a ir levá-lo lá a casa, que esperariam por ele, mas nunca o aceitaram. “Esteve oito meses sem ver a família.” Por medida aplicada pelos serviços do Estado, Tiago não podia ficar a dormir em casa da mãe, ia e vinha e as visitas teriam de ser na presença de alguém. No último Natal, decidiram levar Tiago a ver a mãe e só depois informaram os serviços técnicos. “Notava-se que ele não andava bem. Percebia-se na escola. E quando foi ficou feliz. Veio tranquilo. Sabe que ela está lá e vai quando quer. É capaz de ir uma semana e se lhe perguntamos na semana seguinte se quer ir é capaz de dizer que não, mas sentimos que está bem.”

Nos serviços do Estado não conhecem a medida

Ana e Francisco entregaram a candidatura para apadrinhamento civil. Sabem que são poucas as famílias que avançam para um processo assim. E perceberam que há técnicos e serviços do Estado que não sabem sequer que a medida existe e o que implica. Foi assim no Instituto de Registos e Notariado, quando teve de pedir certidões de nascimento de todos para a candidatura. “Não sabiam o que era a medida e que tínhamos direito à isenção de custas. Tive de fazer uma exposição ao ministro da Segurança Social e, mesmo com o documento na mão com o carimbo do ministro, não queriam aceitar”, lembra. Para o inscrever na escola, foi o mesmo. Teve de fazer uma exposição ao Ministério da Educação para conseguirem uma vaga numa escola junto à residência deles. “Como não é irmão, não tem qualquer tipo de prioridade e estavam a mandá-lo para uma escola quase do outro lado da cidade”, contam.

Em 2017, das mais de sete mil crianças institucionalizadas, apenas 34 tinham o apadrinhamento civil como projeto de vida. Em cinco anos, de 2013 a 2017, a Procuradoria-Geral da República registou apenas a entrada de 122 ações de apadrinhamento. Da Segurança Social, não conseguimos saber se há famílias candidatas à medida, apesar de quem está no sistema garantir: “São muito poucos.”

Ana e Francisco já foram a duas entrevistas na Segurança Social. Os filhos têm de ir também. São as regras, que impõem também que os filhos faltem às aulas para serem ouvidos, porque os técnicos não trabalham em horário pós-laboral e não está a ser possível acertar os horários de todos. “Pensámos que se poderia encontrar um horário, até lá em casa, para verem a dinâmica da família, pós-escolar e pós-laboral. Disseram-nos que não. Perguntei se poderíamos levar uns de manhã e outros à tarde, conforme os horários. Também nos disseram que não, queriam ver a rotina. Como? Num gabinete e a faltarem às aulas?”

O comentário surge em jeito de desabafo, sabem que são situações destas que tantas vezes levam famílias a desistir. Sofia Marques, advogada e diretora do projeto Amigos Pra Vida, diz sem receios que “as famílias são maltratadas pelo Estado. Não são acarinhadas e deveriam ser”. Diz ainda que esta é a solução para muitas crianças. É neste sentido que os Amigos Pra Vida têm trabalhado. E, hoje, têm mais de 20 famílias encaminhadas para esta situação.

No meio do jardim do Campo Grande e enquanto se conversa, Tiago joga com Duarte. Gonçalo e Vasco treinam padel. No final, todos têm já muita fome. Querem hambúrgueres. “Tia, quando é que comemos?”, pergunta Tiago. Para ele, Ana e Francisco são tios. É preciso pôr ordem nos rapazes. Tiago abraça Ana, empurra um dos irmãos ou primos, como tantas vezes lhes chama. Outras são Gonçalo, Vasco ou Duarte. Tiago chorou quando lhe disseram que também teria de ir à Segurança Social dizer o que sentia e o que queria. “Está feliz”, como dizem, “poderia ser um filho nosso”, passaram três anos e há afeto, mas “há sempre uma relação de dualidade. Ele não quer sentir que está a deixar a mãe. Não está, mas para uma criança não é fácil. Há que perceber tudo isto”, explicam.

Ana e Francisco têm hoje a família aumentada. Assumiram um compromisso, passaram de três a quatro filhos. Esperam uma decisão, mas estão tranquilos. Hoje, Tiago está muito mais solto. Mas eles sabem que há uma parte da vida dele de que não fala. “É muito reservado.” Mas a vida, essa já mudou…

* Trabalho inserido numa investigação Especial – Crianças em Perigo, a ser publicado durante o mês de maio no Diário de Notícias

 

Horário em que as crianças ingerem refeições influencia o seu peso

Maio 16, 2019 às 6:00 am | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Notícia do ISUP de 29 de abril de 2019.

As crianças que concentram o consumo de alimentos durante o período da tarde ou depois do jantar (ceia) estão em maior risco de desenvolver excesso de peso ou obesidade, segundo um estudo do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP). A investigação, recentemente publicada na revista “Journal of Biological Rhythms”, mostra que é mais benéfico para o peso das crianças distribuir o consumo alimentar ao longo do dia e com maior proporção energética nas refeições principais: pequeno-almoço, almoço e jantar.

Sabe-se que práticas como saltar refeições e ingerir alimentos de forma irregular, podem provocar alterações no nosso relógio biológico interno. Tal pode conduzir a uma disfunção metabólica e, em última instância, a ganho de peso não saudável. Alguns estudos relacionaram o consumo alimentar numa altura do dia específica, como, por exemplo, a ceia, com o risco de desenvolver excesso de peso ou obesidade.

Contudo, “nenhum tinha mostrado até agora uma relação entre a distribuição do consumo alimentar pelas diferentes refeições, ao longo do dia, com o ganho de peso. Com este artigo, quisemos perceber se a distribuição de ingestão nutricional ao longo das várias refeições teria alguma influência no peso das crianças”, refere Sofia Vilela, primeira autora da investigação.

A investigação envolveu 1961 crianças da coorte de nascimento Geração XXI, um estudo longitudinal que acompanha, desde 2005, mais de 8600 crianças da Área Metropolitana do Porto. Foram analisadas as refeições praticadas por estas crianças, aos 4 anos de idade, e o índice de massa corporal que apresentavam aos 7. O objetivo era perceber de que forma os padrões alimentares aos 4 anos influenciavam o peso aos 7 anos.

Segundo Sofia Vilela, “as crianças que têm um padrão alimentar, caracterizado por saltarem o pequeno-almoço, terem o almoço mais tarde e comerem depois do jantar, estão em maior risco de desenvolverem excesso de peso ou obesidade. De facto, existe a ideia errónea de que saltar o pequeno-almoço poderá ajuda a perder peso, mas, na verdade, poderá ter o efeito contrário, já que quem não toma esta refeição acaba por depois comer mais, porque não está tão saciado. E isso foi o que vimos nestas crianças”.

Além disso, a ingestão de alimentos no horário da ceia também parece ser um fator diferenciador. Isto porque, “estudos anteriores sugerem que o nosso organismo não utiliza tão eficazmente as calorias ingeridas durante o período noturno, o que pode ser um dos fatores que provoca um distúrbio no nosso relógio biológico interno. Os períodos diurnos parecem ser os mais eficazes para o organismo gastar energia”, explica.

A investigação sublinha que, para além do perfil nutricional da dieta das crianças, a hora da refeição também é relevante para a prevenção do excesso de peso e obesidade. É aconselhável que estas consumam a maior proporção dos alimentos ao pequeno-almoço, almoço e jantar e que vão diminuindo as quantidades ao longo do dia. A ceia poderá ser dispensável.

O estudo intitula-se Chrono-Nutrition: The Relationship between Time-of Day Energy and Macronutrient Intake and Children’s Body Weight Status (DOI: 10.1177/0748730419838908) e é também assinado pelos investigadores Carla Lopes, Andreia Oliveira e Milton Severo. O artigo pode ser consultado, aqui.

Imagem: Pixabay/pixel2013

 

 

 


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