Disortografia – O que é? O que fazer?

Abril 15, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Up to Kids

Neste artigo iremos explorar em que consiste a Disortografia, respetivos sinais de alerta, como se realiza o diagnóstico e qual a intervenção mais adequada para crianças que manifestam esta perturbação da aprendizagem.

O que é a disortografia?

A Disortografia deriva das palavras “dis” (desvio) + “ortho” (correto) + “graphos” (escrita), isto é, a dificuldade em escrever corretamente. Assim sendo, a Disortografia é uma Perturbação da Aprendizagem Específica com Défice na Expressão Escrita que afeta a precisão ortográfica, a precisão gramatical e da pontuação e a clareza ou organização da expressão escrita.

Apesar de a Disortografia poder ser uma perturbação por si só, é frequente coexistir com a Dislexia, isto é, com a Perturbação da Aprendizagem Específica com Défice na Leitura.

Sinais de alerta de disortografia?

São vários os sinais indicadores de uma possível Disortografia. Num texto típico, escrito por uma criança com disortografia podemos observar:

1. Incorreções ortográficas diversas:

– Omissões de letras/sílabas (e.g. banco-baco);

– Adições de letras/sílabas (e.g. comer-comere);

– Inversões de letras/sílabas (e.g. barco-braco);

– Substituições de letras com sons semelhantes (e.g. verde-ferde);

– Substituições de letras com formas semelhantes (e.g. bola-pola);

– Aplicação incorreta das regras gramaticais (e.g. ajudam-ajudão);

2. Dificuldades ao nível da pontuação:

O mais habitual é os textos das crianças com Disortografia apresentarem pouca ou nenhuma pontuação. Em outros casos, pode ocorrer uma tentativa por parte da criança, nomeadamente quando são mais velhas, de utilizarem os diferentes sinais de pontuação, no entanto nem sempre os aplicam da forma mais adequada, tornando o texto confuso.

3. Dificuldades na precisão gramatical:

É frequente estas crianças saberem explicar com precisão as diferentes regras gramaticais de forma isolada. Contudo, no momento em que as têm de aplicar de forma autónoma (pois têm de escrever a um ritmo que não lhes permite refletir com calma nas diferentes regras), acabam por cometer esses mesmos erros de precisão gramatical.

4. Dificuldades no encadeamento/organização das ideias:

É crucial ensinar estas crianças a planear os textos antes de os escrever. Uma das características desta perturbação da aprendizagem é exatamente a dificuldade em produzir um texto escrito com uma sequência lógica e bem estruturada ao nível das ideias (mesmo quando bem estruturadas oralmente).

5. Ritmo lento na escrita:

Uma vez que estes alunos necessitam de recorrer a diferentes estratégias, para conseguirem escrever sem erros, para saberem qual a regra gramatical a ser aplicada, para saberem qual o sinal correto de pontuação adequado, isto ao mesmo tempo que tentam elaborar um texto com uma boa construção frásica, acabam por revelar um reduzido ritmo de produção textual.

Como diagnosticar a disortografia?

Tal como a Dislexia, também a Disortografia deverá ser avaliada por um técnico especializado em Dificuldades de Aprendizagem (Psicólogo, Psicopedagogo, Neuropsicólogo), em estreita colaboração com os pais e professores.

Como em qualquer Perturbação da Aprendizagem Específica, a criança só poderá ser formalmente diagnosticada após dois anos de estimulação formal da leitura e da escrita (o que não significa que não seja possível despistar sinais de alerta previamente) e se o seu desempenho nas competências de escrita for significativamente abaixo do esperado para o seu nível escolar (avaliado através de provas formais e informais) e não consequentes de uma deficiência auditiva/visual, de uma Perturbação Específica da Linguagem ou de uma fraca estimulação escolar.

Qual a intervenção mais adequada?

A intervenção ao nível da Disortografia consiste na reeducação e treino das competências fonológicas (características desta dificuldade de aprendizagem) e visuo-espaciais, tendo como foco principal o processamento fonológico. As sessões de intervenção ao nível da estimulação das referidas competências deverão, sempre que possível, privilegiar uma estimulação multissensorial.

É importante referir que o sucesso da intervenção será tanto maior quanto mais cedo estas dificuldades forem detetadas e intervencionadas. Tal como na avaliação, também a intervenção deverá ser realizada em colaboração com o contexto familiar e escolar.

Centro SEI

Participação da Dra. Dulce Rocha, Presidente do Instituto de Apoio à Criança no Fórum TSF “Precisamos de leis mais duras para combater a violência doméstica?”

Abril 15, 2019 às 4:12 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Participação da Dra. Dulce Rocha, Presidente do Instituto de Apoio à Criança no Fórum TSF, de 15 de abril de 2019, sobre as alterações legislativas à violência domestica.”.

Ouvir as declarações da Drª Dulce Rocha entre os minutos 1h,12,00 m e 1h, 21,20 m no link:

https://www.tsf.pt/programa/forum-tsf/emissao/forum-tsf-precisamos-de-leis-mais-duras-para-combater-a-violencia-domestica-10797325.html?autoplay=true

As bebedeiras instantâneas dos miúdos

Abril 15, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Maria João Gala

Reportagem do Notícias Magazine de 6 de março de 2019.

Os miúdos portugueses bebem menos do que a média dos miúdos europeus – é uma boa notícia. Outra: o consumo de álcool entre menores tem vindo a diminuir paulatinamente há 12 anos. Mas há dois problemas: a iniciação nas bebidas alcoólicas fortes aos 13 anos é mais acentuada entre os portugueses e os casos das bebedeiras episódicas extremas, o célebre “binge drinking” em que bebem compulsivamente, estão a aumentar – e aqui há um número grave: em 2017, o INEM atendeu no país 1 270 menores em coma alcoólico, ou seja mais do que três por dia, todos os dias. Como bebem eles?

Texto de José Miguel Gaspar | Fotos de Maria João Gala/GI

As duas irmãs loiras começaram a beber juntas há cinco ou seis anos e continuam a beber juntas agora. São de Aveiro, são ambas bonitas, têm hoje 17 e 18 anos, a mais nova é mesmo muito bonita, tem a cara da supermodelo inglesa Rosie Huntington-Whiteley, que já foi a Splendid Angharad, uma personagem incontaminada de “Mad Max – Estrada da Fúria” (2015) em que a Imperatriz Furiosa conduzia com determinação de ferro e um só braço uma caravana motorizada de mulheres pelo apocalipse adentro em direção ao nascer do sol e à libertação do tirano Immortan Joe.

Foi no ano da estreia desse filme de George Miller, tinha a rapariga mais nova 14 anos e a irmã 15, que aconteceu o episódio da bebedeira no mar que só não acabou em desgraça porque não calhou, ainda hoje a mais velha recorda a tremer, olha, já estou toda arrepiada, diz ela a arregaçar um braço e a parar para o olhar.

Foi num dia de verão normal, tinham ido de férias com os pais para o Algarve e passavam grande parte do dia, e depois as noites também, horas seguidas sem os ver, casa, praia, piscina, às horas que cada um quisesse.

Nesse dia que acordou com algum tédio, começaram a beber as duas à tarde, o céu estava nublado, não havia grande coisa que fazer, o bar da casa estava bem nutrido. Começaram com vinho branco, depois passaram às cervejas, depois safaris-cola, variaram as bebidas sem beber muito só de uma para depois ninguém notar, havia de tudo na casa de férias, até copos pequeninos e tequila.

Os pais não estavam, tinham ido a uma expedição com outros pais, elas não, a música crepitava alta na sala branca de estar e elas riram-se que se fartaram, acabaram a tarde aos shots e a desfilar da sala para a varanda, a fazer poses, a voltear, a imitar as passarelas com os páreos a esvoaçar, a língua de fora, desfeitas no sofá a rir muito, a música muito alta, a barriga a doer de tanto rir.

Não se lembram quanto isto durou, nem quanto entornaram, mas adormeceram e quando acordaram já era noite e tinham as barrigas a roncar. McDonalds para as duas, batatas a dobrar, colas XL – McDonalds é o melhor cura ressacas, a nossa mãe também diz, dizem elas -, comem em casa, comem depressa, depois arranjam-se e vão sair.

Cruzam-se logo com um grupo de quatro miúdos ingleses que conheceram vagamente na piscina no dia anterior, eles eram mais velhos, 16 ou 17 anos, não tinham 18, nenhum, já traziam bebidas na mão, vinham tocados, e um deles uma mochila carregada a tilintar. Bebem na rua, a luz da lua abriu, a noite está quente, passeiam, correm, fingem que fogem, voltam a rir, gozam uns com os outros, os rapazes tinham as caras incendiadas do sol, riem agora todos muito, já estão na praia, vamos lá abaixo ver o luar.

Corre tudo lindamente, a noite rodava, o álcool rodava, o céu todo a estrelar, amanhã vai estar um rico dia de praia, e estão todos sentados em roda na areia a jogar ao penálti com copinhos de vodka preta e o absinto que saiu da mochila a tilintar.

E caiu de chapa na água, a cara para baixo e ficou ali

Eu lembro-me de estar muito bem, mesmo bem, diz a rapariga muito bonita de 17 anos que na altura tinha 14, lembro-me de estar maluca, eu sou tímida, estava alegre, solta, ria-me com tudo e com nada, maluca, e disse que queria ir ao mar. Não sei o que eles disseram, estávamos bêbados, todos bêbados, os ingleses estavam sempre a dizer penálti! e quando alguém diz penálti todos têm de beber o que tiverem no copo de uma vez, e eu levantei-me, ninguém me impediu, e fui.

Não me lembro de caminhar, não me lembro de chegar à água, lembro-me só que a água me dava pelos tornozelos e era quente, quentinha, e depois lembro-me, mas aqui lembro-me muito mal, de cair de chapa na água.

E ela ficou assim, diz agora a abrir muito os olhos a irmã que tem 18 anos e na altura tinha 15, caída de cara para baixo na água, não se mexia ou parecia que não se mexia, eu só via o vestido branco dela a ondular no mar. Também eu agora não me lembro bem, não sei se passou um minuto ou se passaram dez, mas lembro-me de repente de saltar na areia, parece que me passou logo a bebedeira, e já estou de pé na água com ela, já estou a levantá-la pelos braços, ela toda molhada, a virá-la, a tirar-lhe o cabelo da cara, a chamar por ela mas ela não respondia, pesava muito, caía, abria e fechava logo os olhos, não dizia nada, nada de nada.

Devo ter entrado em choque térmico e fiquei inconsciente, diz a primeira virada para a segunda ligeiramente envergonhada enquanto desenha círculos invisíveis no tampo da mesa do café onde as duas se vieram sentar. Não conseguia falar, não conseguia andar, eles disseram-me depois que tiveram que me arrastar até casa, a minha irmã e os ingleses, arrastaram-me mesmo, eu não mexia as pernas nem os pés, fui a arrastar como se estivesse desmaiada, e conseguiram subir comigo e deitar-me na cama sem que os pais, eles já tinham chegado e já se tinham deitado, dessem por nada, eram férias, deviam ser umas duas da manhã.

No dia a seguir quando acordei, continua ela a contar, tinha os lençóis pretos, todos pretos. Acordei bué de tarde, toda baralhada, só fazia perguntas à minha irmã, estava à toa, mas o que é que aconteceu? Vomitei-me toda, não me lembro, os lençóis ficaram assim por causa da vodka que era preta. E depois passei o dia a vomitar, inclusive no almoço de família, levantei-me duas vezes para ir à casa de banho gregar, disse aos pais que tinha comido fritos, eles dizem que os fritos fazem mal, os pais nunca souberam, ainda hoje não sabem que aquilo aconteceu.

Beberam dentro da sala de aula aos 14 anos

E ela e a irmã acendem mais um cigarro – não é bem acender, é mais dar um clique, ambas fumam dos cigarros curtos Oikos ou Heets que se enfiam numa maquineta que parece uma lapiseira gorda mas é só uma boquilha gorda -, há mais miúdos ali na mesa do café, uma outra rapariga loira de 17, outra de 18, morena, também muito bonita, parece uma jovem Jaclyn Smith dos “Anjos de Charlie”, os anjos originais de 1976 onde também estava a áurea Farrah Fawcet – a Farrah já morreu, ninguém se lembra porque ela morreu no mesmo dia do Michael Jackson -, na mesa também estão rapazes, um de 19 e outro de 20, e eles e elas, todos, também estão a fumar.

Também começaram a beber com 12, com 13 ou com 14, que são as idades com que dizem ter começado a sair livremente à noite. E a outra rapariga loira que é mais tímida e pareceria a Farrah se não tivesse o cabelo todo entrançado até à nuca a apertar, conta que ela e a morena uma vez, tinham 14 anos, andavam no 9.º ano, e a meio da tarde de uma segunda-feira resolveram comprar uma garrafa de vodka num minimercado, aqui compras na boa, a mulher da caixa nem olhou para mim, e desafiaram-se a beber, com mais quatro rapazes, dentro da aula de matemática. Foi na boa, a prof nem topou, diz a menina loira a cintilar orgulho ou pundonor ou um inchaço excêntrico desconjuntado do ego.

A prof de matemática não topou, mas a professora da aula a seguir, a de educação física, topou-os a todos à légua. Foram os rapazes que deram barraca, dizem elas, entraram no ginásio todos a abrir, a abandalhar, nós só nos ríamos, ela parou logo a aula, separou-nos dos outros e fomos ao diretor de turma. Tivemos que dizer tudo o que se passou e tivemos depois que escrever tudo e entregar uma folha cheia. E chamaram os nossos pais.

Dos rapazes não sei, dela, e aponta para a morena parecida com a Jaclyn, não a encontraram, a mãe dela não veio, e a minha deu-me um sermão, que seja a última vez, estás a ouvir?! Mas acho que ela não se chateou muito, diz a miúda, tanto foi que nem tocou mais no assunto no dia a seguir. Mas nesse ano eu chumbei, confessa ela a baixar os olhos, mas não foi do álcool, eu não queria nem gostava de estudar, também não preciso de estudar muito para passar, quero ir para a universidade, claro, a não ser que me saia o Euromilhões.

E a outra menina loira, a mais bonita de todas que parece a Splendid Angharad do “Mad Max”, a que esteve para se afogar com água pelos tornozelos, sente vontade de dizer: eu sou boa aluna, aliás sou a melhor aluna, tirei sempre as melhores notas da turma. E com isso clica mais um cigarro.

Há três crianças em coma alcoólico todos os dias

É impossível não termos visto as manchetes, em 2017 o Instituto Nacional de Emergência Médica atendeu 1 270 menores em coma alcoólico nos vários hospitais do país, são mais do que três por cada dia, são 3,4 casos registados em cada um dos dias do ano, “e isso é apenas a ponta do iceberg”, sublinhou na altura a secretária de Estado Adjunta e da Administração Interna, Isabel Oneto, enquanto a tutela lançava mais uma campanha de sensibilização que expunha os riscos das crianças enfrentarem consequências mais sérias do que uma ressaca.

Há miúdos muito novos que bebem muito, mesmo muito, o fenómeno “binge” veio como uma moda, ficou e ainda não passou, “binge drinking” é uma nova forma social de beber em grupo, muito popular entre os menores, é o epíteto moderno da bebedeira instantânea, bebe-se pesada e compulsivamente num período muito curto de tempo, como por exemplo engolir em cinco minutos cinco ou seis ou dez shots de vodka – há vodkas com 40% e há vodkas com 80% de álcool, como a Devil Springs de New Jersey, ou de 95%, como a Everclear, a mais forte do mundo, diz o Guinness, uma vodka sem odor, sem aroma, sem cor, o “intoxicante invisível”.

E entre o primeiro e o último shot não se sentiu nada, só um leve ardor interior, mas depois há uma súbita deflagração etílica, uma coisa de movimento vulcânico, e quando a bebedeira chega ferra imediatamente como um arpão, é uma moda perigosa o “binge”, é uma forma suicida de beber, diz Luís Almeida Santos, o diretor da Urgência Pediátrica do Hospital de S. João, no Porto.

O médico, que nunca mais esqueceu os quatro miúdos de 11 e 13 anos que atendeu na Urgência num domingo há muito tempo às oito da manhã – estiveram a vazar dezenas de fundos de garrafa do vidrão atrás de uma discoteca que havia no Shopping Dallas e a média alcoólica deles era superior a três gramas de álcool por litro de sangue, coma alcoólico, portanto, em crianças de 11 e 13 anos -, está agora a compilar e destrinçar os episódios brutos atendidos na Urgência de S. João em 2018. Foram 74 mil casos, falta separar os que são de menores de idade e, dentro desses, os que são episódios alcoólicos. Não espero uma diminuição, diz o especialista, e não me espantaria que houvesse um aumento.

Mas Luís Almeida Santos já desenredou os 348 mil episódios brutos atendidos na Urgência do hospital central do Porto que ocorreram entre 2014 e 2017. Entre esses todos, apontou 407 casos com menores em coma ou à beira desse estado patológico em que há perda de consciência, ausência ou redução das reações a estímulos e alteração nociva de funções vitais. E desdobrou os casos pelos quatro anos em que aconteceram. Sem surpresa, sublinhou o arco crescente: 90 casos em 2014, 95 em 2015, 112 em 2016 e 109 em 2017.

Aos 13 anos, um em cada três já começou a beber

Os consumos entre os jovens têm vindo a diminuir, tanto em Portugal como na Europa, é o que nos dizem os estudos da Organização Mundial de Saúde do ano passado com inquéritos feitos entre 2002 e 2014 a adolescentes de 15 anos. Nessa dúzia de anos, o consumo regular ao longo da semana desceu para metade, com 16% registados em 2002 e 8% registados em 2014.

A média europeia era de 28% em 2002 e desceu para 13% em 2014. Os nossos miúdos estão melhor do que os espanhóis (21% e 9% nos anos respetivos), do que os franceses (15% para 10%), do que os ingleses (47% para 9%, é uma das mais abruptas descidas na UE) e sobretudo muito melhor do que os miúdos gregos de 15 anos, que em 2002 registavam 30% de bebedores e em 2014 ainda têm 23% que admitem beber álcool ao longo da semana.

Mas os estudos do SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências) e os exames do ESPAD (European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs) feitos por diversos especialistas em 35 países europeus não são sossegadores. Ambos centraram-se em miúdos de 13 anos e no ano de 2015.

No primeiro estudo, só com portugueses, 31% admitia já ter experimentado álcool, sendo essa a substância mais consumida pelos adolescentes nas escolas públicas – é um número gravoso, praticamente um em cada três. No segundo, 47% dos miúdos europeus de 13 anos admitia já ter experimentado álcool – e um em cada 12 estudantes relatou já ter tido um episódio comatoso com essa tenra idade.

Evidentemente preocupado, muito preocupado, tanto como médico como cidadão, até porque não sabemos bem da realidade total, que há de ser pior do que a dos números das Urgências, diz o pediatra Luís Almeida Santos, tudo isto é altamente alarmante, muito preocupante.

Os números são uma avalancha e João Goulão, diretor do SICAD, concorda. Cita: em 2015, 48% dos menores de idade admitia já ter experimentado beber pela modalidade “binge” e em 2016 e 2017 esse número subiu e chegou aos 50%. É grave, gravíssimo, continua a aumentar. E há mais números que atestam uma evolução paulatina e lenta mas segura: em 2015, 83% de jovens com 18 anos admitia ter consumido álcool nos últimos 12 anos. Em 2016, o valor subiu para 84% e em 2017 para 85%.

A lei existe, mas a lei é contornada

A lei portuguesa que proíbe os menores de beber é recente e entrou em vigor em duas fases, ambas sob a regência do XIX Governo Constitucional liderado por Pedro Passos Coelho e pelo PSD/CDS-PP. A primeira foi adotada em 2013 e trancava a porta das bebidas alcoólicas aos menores, mas deixava duas janelas abertas. Dizia a lei que até aos 16 anos todo o álcool estava proibido, mas a partir dos 16, a idade com que se pode entrar numa discoteca, os menores podiam comprar dois tipos de bebidas: cerveja e vinho.

Na altura, a exceção foi enquadrada pelos nossos brandos costumes culturais – “Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”, dizia o marketing oficial dos tempos de Salazar – e pelo poder de lóbi das cervejeiras, que conseguiram impor junto do Governo a sua exceção. Seguiram-se dois anos de debate de uma lei pouco eficaz, discutiu-se por que é que havia um álcool bom e um álcool mau e dois anos depois concluiu-se que não, todo o álcool é nocivo. E a lei de 2015 proibiu tudo, cerveja, vinho, licores, aguardentes, brancas e espirituosas, tudo trancado em proibição até aos 18 anos e à maioridade. Fim de discussão.

Fim de discussão? João Goulão, que há duas décadas dirige o SICAD, diz: há ainda muita complacência social relativamente ao álcool entre menores, há adultos que passam álcool a crianças, facilitam, fecham os olhos, recalcam erros e valores culturais. E diz mais: em Portugal, o álcool é extremamente acessível, todas as casas têm álcool e os preços na rua descem cada vez mais; hoje é muito mais barato beber do que era há dez anos; há discotecas e bares em que o álcool custa tanto como a água! É preciso, evidentemente, mudar isto, e condicionar mais a oferta, conclui Goulão. Mas os miúdos riem-se da lei, sabem da lei e riem-se.

ASAE só identifica 12 menores por mês a beber

Os dados oficiais da Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE) estão cheios de icebergs de que só vemos a ponta. A lei de 2015 que proíbe a venda e consumo de álcool aos menores de 18 anos fará este ano quatro anos, mas a ASAE só consegue identificar, em média, 12 jovens por mês a beber em locais públicos. Em 2017, o número de menores identificados aumentou superficialmente quando comparado com o ano anterior: 108 em 2016, 133 em 2017.

O aumento está longe de representar a realidade, as violações são flagrantes, diz a associação sindical que representa a ASAE, admitindo ser muito difícil fiscalizar por exemplo em discotecas quando a idade para entrar é de 16 anos mas a idade para beber é de 18. E o sindicato sublinha que tem menos de 200 inspetores para ir à rua em todo o país e que aos fins de semana e à noite ainda tem menos operacionais a trabalhar.

Porto, Lisboa, Aveiro, só não vê quem não quer reparar

Os miúdos riem-se. São 11 da noite, eles são seis, dois rapazes, o resto raparigas, três delas falam brasileiro, o mais velho tem 19, o mais novo 16, estão juntinhos todos sentados numa ponta da escadaria do Palácio da Justiça, na Baixa do Porto, que fica nas costas do jardim de plátanos e grandes sombras da Cordoaria, onde tombam também os homens estatuificados de Juan Muñoz, “13 Que Riem Uns dos Outros”.

O que ali se vê e que se estende aos cafés do canto depois de se passar a colossal estátua esverdeada que segura a balança e a espada pousada, e ao Campo dos Mártires da Pátria, do outro lado do jardim onde há sempre juventude aos magotes e fumo azulado de haxixe no ar, não é diferente do que todos veem, mas muitas vezes sem ver realmente, isto é sem reparar, não é diferente do que se vê ao fim de semana em Lisboa, no Largo de Santos, nas ruas junto à cerca das mimosas do Jardim Nuno Álvares ou no Largo Vitorino Damásio ou, mais à frente, no Cais do Sodré, ou mais acima no Bairro Alto.

Como não é diferente daquilo que se avista nas ruas de luz branda amarela e calçada branca da Praça do Peixe em Aveiro ou na zona Red que fica encostada à Antiga Fábrica Jerónimo Pereira Campos com a sua enorme fachada de tijoleira de cor vulcânica com parques vermelhos abertos no miolo dos prédios de classe média. O que se vê em todos eles, à vista desarmada, é o mesmo: a maioria são maiores de idade, mas há sempre dezenas, centenas, de menores a passar, a parar, com copos e garrafas na mão, a continuar a beber.

Eu estou beeeem, diz o rapaz a cair nas escadas de cu

Eles empinam na pedra da escadaria do Palácio da Justiça as garrafas que saíram do saco largo de supermercado, duas de vodka Eristoff branca, duas de vodka Misss preta, duas de plástico de litro e meio de sumo sem marca cor de laranja luzente, e riem-se. Foi o mais velho que comprou, zero stress, diz ele, ou vão ao supermercado ou às lojas dos indianos ou trazem de casa, quem quer beber bebe sempre, não há cá stress, repete ele a rir.

Jantaram cada um em sua casa e só depois vieram para cá, só agora, 23 horas, uns vieram de Matosinhos, outros são do Porto, começaram a beber, mas o mais novo, o de 16, que já chegou todo quente e tem a cara e os olhos pretos parados de um Anthony Perkins imberbe, está claramente embriagado, espalma-se pelas escadas, retorcido, e é o centro das atenções. Vai beber o quinto shot, ou o 15.º, diz ele, não sei bem, os outros repetem o seu nome, repetem-no animadamente em crescendo, ele bebe de um só trago, levanta-se ou tenta levantar-se para fazer aquilo que parecia que seria uma vénia, mas cambaleia e cai de cu.

Eu estou bem, eu estou bem, diz ele a afastar desajeitadamente os braços das raparigas que o iam segurar, estou beeeem, deita a língua de fora e a língua é negra, toda negra da vodka pastosa Misss que parece mercúrio e sabe a amora traçada com álcool etílico. Estás bem, estás, diz o amigo mais velho a estender-lhe um chocolate para ele repor os níveis de açúcar, enquanto uma das miúdas brasileiras, elas as quatro trazem saias curtinhas, a que fala com sotaque do Porto também, unhas coloridas, afiadas e compridas, e começa a dar-lhe um sermão que ele não vai ouvir.

Logo a seguir há uma rodada para todos, roda a garrafa da Misss pastosa a tingir os copinhos plásticos brancos e uma das raparigas que está a segurar o copo com a mão esquerda diz de repente: direita é penálti, direita é penálti! E todos eles emborcam a vodka viscosa de supetão enquanto ela bebe a bebida aos golinhos engasgada a rir.

É meia-noite, passam no sopé das escadas e do granito do Palácio dois miúdos de skate a zarpar, do outro lado há um grupo ruidoso que está a brindar e a prolongar muito alto um bramido de éééééé, ouvem-se dois cavaquinhos a desafinar e o rapaz mais velho do primeiro grupo diz para o mais novo que está a cair de bêbado, é pá, tu bêbado és muito chato!

Depois alça-lhe um braço pelo pescoço, os dois descem as escadas da Justiça a bambolear, mais o mais novo do que o mais velho, anda, vamos mijar. E atravessam a estrada sem olhar, sobem o pequeno morro muito verde do jardim da Cordoaria, põem-se ao lado de uma das esculturas dos homens que tombam a rir uns dos outros do madrileno Muñoz, e acenam vigorosamente do outro lado para o grupo de cá, os dentes tingidos a sorrir pretidão.

 

 

 

Videojogos colocam um terço das crianças em risco de dependência

Abril 15, 2019 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Magnus Froderberg

Notícia da Rádio Renascença de 2 de abril de 2019.

Pensar nos jogos quando não se está a jogar, jogar mais quando se está triste ou zangado, ficar chateado ou inquieto quando não se pode jogar são comportamentos a que os pais devem estar atentos.

Um terço das crianças corre risco de dependência dos videojogos. A conclusão é de um estudo feito pela Cuf Descobertas, publicado no mês de março na revista “Acta Médica Portuguesa” e citado na edição desta terça-feira do jornal “i”.

O estudo tem uma amostra reduzida, 152 alunos do sexto ano de duas escolas do concelho de Cascais, mas permite ter uma primeira noção do problema em Portugal, lê-se no jornal.

A iniciativa para a realização partiu do grupo de pediatras do centro da Criança e do Adolescente do Hospital Cuf Descobertas, depois de constatarem que os videojogos são um fator cada vez mais frequente de conflito na família.

Hugo Faria, pediatra e um dos responsáveis pelo estudo, refere que é muito frequente ouvir “queixas de pais que não conseguem que os filhos joguem menos, que dizem que há discussões quando dão instruções para interromperem a PlayStation”.

De acordo com o pediatra, após análise dos resultados, um dos aspetos mais relevantes é o risco de dependência, se as crianças mantiverem o mesmo padrão de jogo. Pensar nos jogos quando não se está a jogar, jogar mais quando se está triste ou zangado, ficar chateado ou inquieto quando não se pode jogar e a tendência para jogar quando ninguém está a ver são comportamentos a que os pais devem estar atentos.

Segundo o estudo, a maioria das crianças recebe o primeiro aparelho eletrónico entre os seis e os 10 anos. A maioria das crianças indicou passar menos de duas horas por dia a jogar, mas 19,2% reportaram uma utilização diária entre duas a três horas e 9,9% jogavam mais de quatro horas por dia durante a semana.

Ainda de acordo com este documento, ao fim-de-semana 17,1% das crianças jogam duas a três horas diárias e 24,3% mais de quatro horas por dia.

A “Acta Médica Portuguesa” é a revista científica da Ordem dos Médicos.

Artigo citado na notícia é o seguinte:

Dependência de vídeojogos : um problema pediátrico emergente?


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