Leitores de berço: um guia nada definitivo de como ler para bebês

Abril 5, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Lunetas de 26 de fevereiro de 2019.

por Renata Penzani

Ler é sempre um ato de poder“. A afirmação é do escritor argentino Alberto Manguel. Quando imaginamos um leitor adulto, fica fácil compreender o que ela significa: a potência do conhecimento para ampliar repertórios e transformar a noção de si mesmo e do ambiente; o poder, aqui, aparece no sentido de potência, de possibilidade para questionar e subverter o mundo como ele se apresenta.

Mas e quanto às crianças? E os bebês? O que a leitura representa na primeiríssima infância? No período que vai do zero até os três anos, quais experiências um livro pode oferecer?

O que ler para bebês e por que ler para bebês são assuntos que aparecem com frequência aqui no Lunetas. Mas, afinal, como ler para bebês? Como ganhar sua atenção com livros, dentre tantos estímulos que o mundo oferece? Mas e se o bebê morder, babar e estragar o livro? Considerando que estas são perguntas que chegam com frequência dos nossos leitores, e a pedido deles, convidamos especialistas no assunto leitura e primeiríssima infância para refletir sobre o assunto.

Conversamos com Pierre André Ruprecht, diretor executivo da SP Leituras – Associação Paulista de Bibliotecas e Leitura, que gerencia a Biblioteca Villa-Lobos e a Biblioteca de São Paulo.

Entrevistamos também a pesquisadora e professora Cássia Bittens, psicóloga especialista em psicanálise, autora do projeto Literatura de Berço, que desenvolve conteúdos, vivências e formações relacionadas ao universo literário na primeira infância.

A ideia, aqui, não é esgotar o assunto nem apontar receitas prontas, e sim assumir a sua complexidade, pensar junto sobre as questões que o tema contempla, e sugerir caminhos de como começar a trilhar um caminho de livros desde o berço.

O que é ler para bebês?

Essa pergunta talvez seja o único ponto de partida possível. Antes de pensar sobre a importância da leitura para qualquer público, e sobretudo para os bebês, é bem-vindo pensar primeiro no que é ler, afinal.

Quando falamos em leitura, ultrapassamos a ideia de apreender códigos e interpretar uma linguagem. Ler é também ler o mundo, as pessoas, o círculo social onde vivemos e a sociedade como um todo. Ou seja, leitura também se refere ao entendimento de um código social, cultural e histórico. Partindo desse princípio, chegamos à importância da leitura na primeira infância.

“Existe o código escrito e sua apreensão, mas também outras leituras. Por exemplo, a leitura de imagens. A criança muito pequena está atenta ao mundo e já consegue ler imagens. A primeira imagem que ela lê são os olhos da mãe, depois o rosto, e vai ampliando o escopo de percepção”, defende Cássia.

Por que ler para os bebês, se eles não estão alfabetizados e não podem ainda interpretar palavras e imagens? Essa é uma pergunta que muitos adultos costumam se fazer. Por que, então, estimular o contato com a literatura neste primeiro período da vida?

Essa questão realmente é a chamada pergunta de 1 milhão de dólares. A constatação da qual a gente parte é que crianças que, na primeira infância, são colocadas em contato com narrativas, músicas, sons estimulantes e não redundantes, tendem a ser crianças mais curiosas, interessadas e felizes”, diz Pierre.

Além disso, vale a pena considerar também que bebês são pesquisadores e, até os dois anos principalmente, experimentam o mundo com os cinco sentidos. Por isso, eles leem com o corpo todo – as mãos, a boca, o nariz e os ouvidos. Os livros serão, então, parte desse processo de investigação do mundo. Para a pesquisadora Denise Guilherme, do nosso parceiro A Taba, os primeiros livros dos bebês são o corpo, o rosto e a voz de seus pais – leia mais sobre isso.

Outra questão diretamente relacionada ao porquê da leitura para bebês e crianças é o envolvimento dos pais em torno das suas próprias histórias que transmitem, criando um momento de qualidade dentro das famílias que certamente determinam um convívio mais feliz com as crianças.

Então, podemos pensar que a literatura na infância é mais a construção de uma relação afetiva entre a criança e quem lê com ela do que aprendizado ou apreensão de linguagens do livro? De acordo com os especialistas em desenvolvimento infantil, sim.

A leitura como vínculo

Desde 2016, a Biblioteca Villa-Lobos oferece todos os finais de semana um momento de mediação de leitura com bebês. É o Lê no Ninho. O objetivo do projeto é oferecer a oportunidade de adultos e crianças se encontrarem a partir da leitura, sem o intuito de ensinar a ler, e sim de estimular o encanto pela potência da leitura como construtora de vínculos. “Não existe um pressuposto no Lê no Ninho de que a gente vá ensinar coisas, e sim oferecer oportunidades de contato”, explica o diretor.

O programa foi criado com a proposta de estimular o gosto pela leitura entre crianças de seis meses a quatro anos, e se baseia em quatro pilares principais: cultura leitora, vínculos afetivos, conteúdo adequado e atitudes inspiradoras.

“O que não nos interessa quando se fala em ler para bebês? Antecipar a alfabetização, fixação de códigos. Acreditamos que há um momento para isso. Ler para bebês para nós é uma oportunidade de criar um momento de qualidade entre cuidadores e crianças em torno das histórias da comunidade, da cultura e da linguagem”, explica Pierre.

“Crianças de seis meses e de quatro anos também se relacionam com o legado cultural. Por isso, não nos centramos somente na leitura literária. A criança não faz essa distinção, mas ela percebe e se relaciona com a cultura da sociedade”, diz Ruprecht.

Literatura como arte afetiva

Lendo para bebês, favorecemos um processo poético. É o que Cássia Bittens defende e pratica em seu trabalho. Além da clínica em consultório, ela atua como pesquisadora na área de leitura e infância no curso de mestrado em Literatura e Crítica Literária na PUC de São Paulo.

É desse cuidado com o que significa apresentar os códigos – escritos e falados, mas também gesticulados, ouvidos e sentidos – de uma cultura que vem uma defesa constante do valor da literatura como arte.

“Antes de a gente aprender a falar, aprendemos (e apreendemos) o som das palavras. E isso a poesia traz, que a é palavra de forma sonora. A música da palavra. E o bebê primeiro apreende essa música, para depois atribuir um significado”, explica.

Cássia reforça também o lugar da leitura como espaço de segurança emocional para o bebê. Quando leem com e para o bebê, os pais e cuidadores transmitem uma mensagem de disponibilidade e afeto que ultrapassa – e muito – os limites do livro, defende a pesquisadora.

“A música da palavra traz conforto, psiquicamente falando. Além de ter os braços, que aninham e representam o ‘holding materno’, segundo Whinnicot”, explica Cássia, referindo aos estudos de Donald Woods Winnicott, pediatra e psicanalista inglês que pesquisou a relação entre a função materna e o desenvolvimento do bebê.

De acordo com a Psicanálise, a função materna é aquela que aninha e dá colo, preparando as bases emocionais da criança. Já a função paterna representa a ampliação de mundo da criança, que passa do colo para o ambiente externo, expondo-se a riscos e novas experiências. Essas não precisam ser necessariamente funções fechadas em uma única figura – pai, mãe, avó, avô ou qualquer outro cuidador podem exercê-las.

Considerando quais são os receios e inseguranças mais comuns dos adultos quando se trata de leitura e bebês, levamos algumas perguntas frequentes dos leitores para os dois pesquisadores.

Qual a diferença entre contar uma história e ler um livro?

Pierre André Ruprecht: “Aí tem várias nuances. Estamos falando de contar histórias e de como o livro entra nisso. Aqui no Lê no Ninho, descobrimos que ele entra como objeto cultural, que é algo extremamente interessante. Trabalhar livros-imagem com crianças, por exemplo, é fascinante.

Gostamos muito de uma ideia nutrida pela Geneviève Patte, uma bibliotecária francesa que trabalhou a vida toda com crianças e leitura, que algo que deve acontecer em um projeto como esse é simplesmente oferecer livros silenciosamente, e deixar que as crianças os explorem da maneira como elas podem explorar. E aí, claro, se vamos oferecer, é claro que deve ser algo de extrema qualidade.

E ‘qualidade’ significa aí oferecer possibilidades para que as crianças possam se relacionar e criar; não tem nada a ver com didatismo, e nem ensinar comportamentos.”

Cássia Bittens: “Essa é uma questão muito preciosa. Meus estudos vêm se pautando nela. Porque existe, sim, uma diferenciação – penso que até fundante – entre ler histórias e ler livros.

Quando contamos uma história, há todo um universo emocional e cultural em torno da contação da história, porque estamos contando do seu jeito. Transmissão cultural não necessariamente está ligada à capacidade de compreensão do bebê. Pelo contrário: muito possivelmente, ela está ligada à vinculação com o bebê. Não só vinculação amorosa, mas de vida mesmo, em que o bebê fica curioso pela vida. Ele quer ouvir mais, sentir mais. O bebê está na cultura; quer ser humano e fazer parte dela. A contação de história está muito ligada à transmissão da cultura.

Por um lado, temos livros para bebês, que têm narrativas mais curtas, com rimas, repetições, cores sólidas, textos mais simples (no sentido de ter menos camadas). São textos importantíssimos porque trazem autonomia pensante para o bebê. Se o bebê só ouve o que o adulto quer, ele perde capacidade de escolha. Mas, se ele consegue ter autonomia de abrir e fechar, e entender como o livro funciona é importantíssimo pra desenvolver o processo do pensamento.

E se o bebê estragar o livro?

Pierre André Ruprecht: Para nós, essa não é uma questão. Achamos que alguns livros têm que ser lambidos. Pelo próprio cuidado que se tem com o livro no programa, a criança vai percebendo a importância daquele objeto e vai aprendendo a se relacionar com ele. Deixamos isso acontecer de modo muito natural.

Quando falamos de qualidade, ela vai até aí. Qualidade de conteúdo, de forma e também do ponto de vista do uso que vai ser dado. Então, faz parte do processo, não é um desvio e nem pode ser um obstáculo. Isso faz com que o bebê consiga no futuro desenvolver sua capacidade de interpretação autônoma.

Cássia Bittens: Se um livro estimula o leitor a ser ativo naquela leitura, ele provavelmente vai ser mais resistente, porque o design faz parte da narrativa. Quando estamos na outra parte da linha, que é a contação de histórias, são capas menos resistentes, materiais mais finos, etc, o que realmente deixa os adultos preocupados. Então, se for um livro muito precioso para os pais, não é para estar no acesso da criança, que com o tempo vai entender o significado do livro, e que livro não é brinquedo. Agora, existem os livros próprios para bebês aos quais eles podem ter acesso dia e noite.

Qual o maior desafio de ler para um bebê?

Pierre Ruprecht: Ficamos muito ansiosos com a atenção do bebê, mas não é necessário que ele esteja prestando atenção a todo momento. A atenção do bebê é a escolha que ele faz a partir do que é oferecido a ele. Por isso, a gente insiste muito nisso: a oferta tem que ter muita qualidade. E deve ser uma oferta calma, no sentido de que não se deve construir um ambiente excessivamente estimulante, com muito ruído, por exemplo.

Estamos ali para oferecer experiências e as condições para que elas aconteçam de um jeito tranquilo, saboroso e surpreendente. Tanto é que, no final da mediação, as famílias que participam levam para casa um kit de leitura, com livros, fantoches e brinquedos para que a experiência possa ser reproduzida em casa.

Temos como missão alcançar não só a criança, mas os pais. Queremos mostrar aos adultos que ler, se envolver com jogos de palavras, histórias, parlendas e afins é uma experiência rica que traz muita felicidade, boas possibilidades para o futuro e que pode ser reproduzida todos os dias. O kit existe para isso.

Cássia Bittens: “Eu penso que o maior desafio é ser respeitoso com o bebê. Muitos parecem que não estão focados, mas estão ali e aqui ao mesmo tempo. Então, é preciso estar entregue ao bebê no momento da leitura. Tem algumas dicas: rimas e repetições sempre funcionam. Quando contamos uma história, o literário é apreendido pelo bebê por meio do corpo. Se o livro provoca pela sonoridade, ele vai se transformar naquele personagem, esse é o principio da alteridade.”

 

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