Quando um filho morre, um pai é esquecido

Abril 2, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do Público de 19 de março de 2019.

Lee e Hannah perderam o filho recém-nascido. Foi em 2013. Lee sentiu que tinha de apoiar a mulher e percebeu que como pai a sua dor não parecia tão importante como a da mãe. Por exemplo, conta à BBC, Hannah recebeu uma carta do hospital a lamentar o sucedido e nem uma palavra para o pai, que também estava em sofrimento, também precisava daquelas palavras. Na hora do luto, a sociedade trata de maneira diferente a mãe e o pai? É esperado que um homem não chore? Hoje é dia de celebrar os pais, uma comemoração, nestes casos, com sabor a raiva, a impotência, a ausência, a melancolia, mas sobretudo, a saudade dos filhos ausentes.

“Há que desmistificar a ideia de que as mulheres sofrem mais do que os homens”, começa por dizer o psicólogo Céu e Silva, da Associação Laços Eternos, que acompanha pessoas em luto, confirmando que dias especiais ou datas festivas são momentos difíceis para quem perde um filho. “Se um pai estiver mais reprimido emocionalmente, é muito doloroso. É uma dor íntima, é a consciência da realidade”, acrescenta.

Os dias festivos são o “confronto com a realidade da ausência” do filho, responde José Eduardo Rebelo, professor universitário e fundador da Apelo, uma associação de apoio a pessoas em luto. São dias que se “vivem com angústia”, diz Maria do Céu Martins, conselheira do luto, com uma pós-graduação em Perda e Luto pela Universidade Católica. “Também há quem consiga viver com serenidade. Encontro pais que preferem ignorar, outros querem que se lembre e que lhe dêem um abraço. Ninguém lhes vai dizer: ‘Parabéns, hoje é dia do pai’, mas pode simplesmente dizer: ‘liguei-te para dar um beijinho’”, exemplifica a conselheira.

Todas as festividades são momentos difíceis. O Natal pode ser das mais complicadas, avança Céu e Silva. José Eduardo Rebelo aponta para a data da morte. Seja qual for, o primeiro ano será sempre o mais difícil de suportar. Nesse “a ausência é mais forte. A partir de determinada altura, a pessoa habitua-se a viver com a ausência, nunca aceitando, mas vive-a com nostalgia. A palavra ‘pai’ a partir daquele instante [da morte] fica ferida, amputada. Sempre que é referida, mexe connosco”, refere o professor da Universidade de Aveiro, que vai lançar o seu quarto livro a 13 de Abril, naquela cidade. Chama-se Luto – vivências, superação e apoio.

Liberdade para exprimir a dor

Este é um dia que se pode viver de muitas maneiras. Para Maria do Céu Martins, a forma mais saudável será ir a um sítio que o filho gostava e recordá-lo. A pior será ignorar. “Quanto mais [o pai] ignorar, mais mostra que não está resolvido”, alerta. “É melhor quando consegue chorar, zangar-se, revoltar-se, para que possamos ajudar a trabalhar as emoções. Quando se obriga a pessoa a pensar sobre o que se passou, consegue encontrar respostas”, justifica.

Os homens não choram porque a sociedade não lhes permite expressarem as suas emoções? José Eduardo Rebelo recorre à biologia para explicar: “Partimos do princípio que existimos para nos perpetuarmos e quem monitoriza a vida é a mulher, é ela que concebe. E isso deixa-nos algumas pistas para perceber como é vivido o luto.”

As mulheres choram, expressam as suas emoções, falam com a família, com amigos, procuram grupos de ajuda, procuram explicações para o que aconteceu. “São as protagonistas da dor”, classifica Céu e Silva. Os homens “são mais pragmáticos e focam-se em actividades concretas como uma forma dissimulada de desanuviar as tensões do próprio luto”, descreve José Eduardo Rebelo. O que não significa que seja uma forma saudável de viver a dor, refere Maria do Céu Martins, que avança que os homens são um grupo de risco – “parece que está tudo bem e, de repente, um dia, podem ter reacções muito complicadas”.

“Às mulheres é-lhes dada mais liberdade para exprimir a dor, para chorar, enquanto ao homem é-lhe praticamente proibido chorar”, identifica José Eduardo Rebelo. A sociedade não espera que os pais chorem, sublinha Maria do Céu Martins. E espera que eles apoiem as mães, guardando a sua dor para si próprios, acrescenta. De regresso ao Reino Unido, Lee confessa à BBC que após a morte do filho, todo o apoio foi para Hanna e para o seu bem-estar, deixando-o negligenciado. Ele sentia também esse peso, o de não sobrecarregar a mulher. “Não queria acrescentar à dor de Hannah a minha própria dor e guardei-a”, diz.

Céu e Silva conta que os pais, quando chegam aos grupos de apoio não é porque confessem precisar de ajuda, mas porque vão acompanhar as mulheres. José Eduardo Rebelo confirma. É raro um homem ligar para as linhas de apoio das associações a pedir ajuda para si. No Reino Unido, Lee criou um grupo informal online onde os pais falam uns com os outros sobre a sua perda.

Eles vão aos grupos e ficam na retaguarda, insiste Céu e Silva. “Eles vão sempre na perspectiva de que estão a apoiar a esposa, nunca nenhum me procurou a dizer que perdeu um filho”, insiste José Eduardo Rebelo. Mas isso não significa que não precisem de ajuda porque quando vão à consulta, sozinhos, “eles choram tanto como elas, sentem o mesmo, têm espaço para expressar a raiva, mas quando estão no grupo não partilham da mesma forma”, testemunha Céu e Silva.

Divórcio, educação e formação

A falta de diálogo entre a mãe e o pai leva, em metade dos casos, ao divórcio, referem os especialistas. “O casal não dá tempo a si próprio para construir, estão divorciados emocionalmente, elas choram e eles fecham-se no seu silêncio”, descreve Céu e Silva. “Há raivas, há culpas que se transformam em incriminações de um contra o outro. A morte é uma prova que degrada as famílias”, lamenta José Eduardo Rebelo.

A forma como os familiares e os amigos vivem a morte também condiciona a expressão das emoções. As pessoas lidam mal com as situações negativas e, por isso, evitam-nas, aponta José Eduardo Rebelo que há 15 anos que se dedica a estudar o luto e a trabalhar com pessoas enlutadas em grupo ou pessoalmente.

O que fazer nessas situações​? “Ouvir as pessoas, validar os seus sentimentos”, responde Maria do Céu Martins. “Os amigos pensam que estão a ajudar quando distraem a pessoa ou quando se afastam e o que é preciso fazer é estar por perto, dar afecto. O apoio faz-se por estar presente”, aconselha.

Enquanto o pai luta por manter o filho vivo dentro de si, há alguém que lhe diz, com a melhor das intenções, “deixa lá, tens outros filhos” ou “precisas de ter coragem”, exemplifica José Eduardo Rebelo – “essa é uma palavra que é proibido dizer a um enlutado, ‘coragem’”, diz contundente –, essas intenções contribuem para que o homem se isole porque os outros não o querem ouvir, não o compreendem. “A sociedade continua a ter dificuldade em ouvir o outro quando atravessa um momento difícil”, confirma Maria do Céu Martins. “A sociedade desvaloriza o luto e apressa-o”, acrescenta Céu e Silva.

Falta educação emocional para lidar com o luto, continua o psicólogo, e essa começa em casa. É preciso espaço para falar de temas que incomodam como a morte, sem o desvalorizar. Assim como é preciso falar na escola. Falta informação, continua. “Não há consciência sobre a morte. Sabemos que vamos todos morrer mas fugimos de falar [sobre o tema]. Não se fala e há dificuldade em lidar com a morte.”

Contudo, os grupos de apoio existem e recebem telefonemas diariamente de pessoas que procuram ajuda. Os médicos de família também já recomendam este apoio aos seus doentes, mas falta formação nesta área para os profissionais ligados à saúde, bem como para os da educação, aponta Maria do Céu Martins, revelando que, em média, cada pessoa experienciará 30 a 40 perdas com significado emocional profundo na sua vida. “A perda é um buraco negro na pessoa e pode ter implicações várias, por exemplo, perda de concentração, doenças, problemas laborais”, enumera, reforçando que é preciso mais reconhecimento do trabalho das associações e dos conselheiros.

Um filho nunca se esquece, terminam os especialistas. “Cada filho que tenhamos é sempre um filho único. Conformamo-nos com a ausência, habituamo-nos à sua ausência, mas o luto prolonga-se durante toda a nossa vida”, conclui José Eduardo Rebelo.

 

 

 

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