Leve as crianças à rua: elas têm de brincar no exterior, sujar as mãos, cair no parque de diversões, correr, pular, nadar…

Abril 1, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , ,

Notícia do Vida Extra de 5 de fevereiro de 2019.

Estudos e mais estudos fazem o mesmo alerta mas são poucos os que lhes prestam atenção. Só depois de explorarem bem e com frequência o exterior é que devem pegar na consola, no tablet ou noutro dispositivo digital para distração. Está provado que a falta de interatividade com a realidade e com pessoas de carne e osso atrasa a mente e enfraquece o corpo

Vera Lúcia Arreigoso

Foi com manifesta surpresa que fiquei a saber que as provas de aferição que o Ministério da Educação faz às crianças não são apenas para avaliar o conhecimento. Incluem também a desenvoltura da motricidade. Mas haverá alguma criança que não saiba correr, saltar à corda, dar uma cambalhota ou equilibrar-se num banco? Pois, há e não são poucas. Como é que isto aconteceu?

Quando eu era criança, não só fazíamos toda a ginástica que agora parece difícil, como até ‘íamos aos céus’ a saltar ao elástico, dominávamos o equilíbrio com um amigo nas costas no jogo do alho, coordenávamos pés e mãos nas descidas velozes com o carrinho de rolamentos ou com destreza colocávamos os berlindes nas covas…e tudo mudou. São cada vez mais os pais que não levam os filhos à rua, preferindo o ambiente controlado da casa onde vivem. Fazem mal e a Ciência vem sucessivamente a provar porquê: menor exposição ao exterior, menor desenvolvimento, menor capacidade de reação do sistema imunitário.

O mais recente estudo sobre o tema, no caso dedicado à exposição aos ecrãs e publicado na revista JAMA Pediatrics, afirma que há uma relação direta entre problemas de desenvolvimento e o uso frequente de dispositivos digitais em crianças dos dois aos cinco anos, pois quando estão em frente ao ecrã, dificilmente estão a falar, a andar ou a brincar. Atividades que servem para desenvolver as habilidades básicas. Os investigadores não avançam tempos de exposição bons ou maus mas garantem que são as interações com os outros, desde logo com os cuidadores, que fazem o aperfeiçoamento físico e cognitivo.

Outro trabalho, do Instituto Nacional de Saúde dos EUA com adolescentes já nascidos com a Internet por perto, mostrou mesmo alterações morfológicas. Rapazes e raparigas, que passam várias horas com a atenção focada no tablet ou no smartphone, apresentam alterações na espessura da membrana que envolve o cérebro. Os cientistas desconhecem quais serão as consequências desta alteração, no entanto, não duvidam de que terá algum efeito.

E análises mais antigas acrescentam ainda outro malefício ao estar muito tempo em casa: a falta de estímulo do sistema imunitário. Sem a exposição ao meio envolvente – e aqui inclui-se também o contacto frequente com outras crianças – nos primeiros anos de vida, a resposta imunitária fica enfraquecida e anos mais tarde, na vida adulta, poderá traduzir-se numa saúde menos robusta, por exemplo com o desenvolvimento de doenças autoimunes.

Sabido tudo isto, e tantas vezes repetido, que parte é que ainda não foi entendida? A roupa suja lava-se, os resfriados passam, as feridas curam-se, os sapatos rotos substituem-se, mas a infância não volta. Nunca mais.

 

 

TrackBack URI


Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: