Os ecrãs impedem os jovens de desenvolver empatia. E as sociedades tornam-se “brutais”

Março 26, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 2 de fevereiro de 2019.

A resiliência constrói-se. Num ambiente de segurança, o cérebro de alguém que sofreu um trauma regenera-se “muito mais rapidamente do que imaginamos”. Mas, atenção, avisa o psiquiatra Boris Cyrulnik, uma criança que cresce a olhar para ecrãs não consegue desenvolver empatia.

Alexandra Prado Coelho

A nossa capacidade de resistência à adversidade – a chamada resiliência – não está inscrita nos genes. Não nascemos com uma determinada predisposição, antes somos moldados pelo ambiente desde o útero materno e pela vida fora, e é isso que nos torna mais ou menos resilientes.

O defensor desta ideia, o neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik – que esteve em Portugal esta semana para fazer uma conferência na Noite das Ideias, iniciativa da Embaixada de França e do Instituto Francês, dia 31 de Janeiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa – sabe do que fala. Ele próprio é um exemplo de resiliência e tornou-a o tema principal das suas pesquisas e do seu trabalho de toda a vida.

Hoje com 81 anos, este sobrevivente do Holocausto tem trabalhado com pessoas, sobretudo crianças e jovens, que passaram por situações traumáticas. “A resiliência”, diz, “é uma construção constante, é um fenómeno de desenvolvimento e nós desenvolvemo-nos o tempo todo, a nível biológico, psicológico, afectivo, social.” E acrescenta, com um sorriso de garoto: “Só paramos de nos desenvolver aos 120 anos. Depois disso, é possível, mas é difícil.”

Muito do processo de regeneração de um cérebro que sofreu um trauma passa pela segurança mas também pela empatia com os outros. Ora, actualmente, com a presença constante da tecnologia nas nossas vidas, é precisamente a capacidade de criação de empatia que começa a estar em risco. E que consequências isso tem para uma sociedade?

“Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma”

Antes de entrarmos por aí, vamos começar por perceber o que pode afectar, positiva e negativamente, o nosso cérebro desde o início da vida. O poder dos genes, ou seja, o determinismo genético, tem o seu momento alto “no encontro do espermatozóide com o óvulo”, depois disso é o meio que começa a agir sobre o jovem feto. “Há meios que orientam [a criança] para a aquisição de factores de protecção e outros para a aquisição de factores de vulnerabilidade. Se a mãe está stressada, segrega substâncias que passam no líquido amniótico e o bebé adquire esses factores de vulnerabilidade. Se a mãe se sente segura e feliz, o bebé desenvolve-se bem e tem factores de protecção.”

A forma como, por exemplo, essas substâncias segregadas pela mãe alteram o cérebro do bebé pode ser observada em exames neurológicos. As crianças afectadas pelo stress materno “nascem com uma alteração dos dois lóbulos pré-frontais e do sistema límbico e a amígdala do cérebro reage muito fortemente”. Isto significa que “chegam ao mundo com uma alteração cognitiva pela situação de precariedade social da mãe”.

Um ambiente onde a criança se sinta protegida é, por isso, essencial. A boa notícia é que “o cérebro regenera muito rapidamente”. Mesmo um trauma profundo pode curar-se “muito mais facilmente do que imaginamos”. A consciência disso deve-se, em grande parte, ao trabalho que Cyrulnik desenvolveu. “Antes dizíamos sobre estas crianças, é genético, não vale a pena preocupar-nos com elas. E não nos ocupávamos. Hoje rodeamo-las de segurança e a resiliência regressa. Em 48 horas começam a segregar hormonas de crescimento e hormonas sexuais, sejam masculinas ou femininas. Mas se não os rodearmos de segurança passam a vida toda em sofrimento.”

Boris Cyrulnik tinha sete anos quando perdeu os pais, levados pelos nazis para Auschwitz, onde morreram. Antes de ser detida, a mãe confiou o rapaz a uma família, que acabou por o entregar também aos alemães. Conseguiu escapar, escondendo-se numa sinagoga, da qual acabou por conseguir fugir, tendo trabalhado numa quinta para conseguir sobreviver até ao final da guerra. Só aos dez anos é que foi entregue a uma família que o criou.

Depois disso, as tentativas que fez para falar da sua situação depararam com um muro de indiferença. Os franceses não queriam ouvir, da boca de uma das vítimas, a história de como tinham abandonado e condenado à morte crianças judias. Num país também ele profundamente traumatizado, Boris Cyrulnik percebeu que não valia a pena insistir em contar a sua história. Mas foi também esta experiência que o fez perceber que queria ser psiquiatra.

A ideia de que uma criança, por maior que seja o trauma que sofreu, não pode ser ajudada a ultrapassá-lo é o que mais o indigna – e, trabalhando com órfãos na Roménia, vítimas de genocídio no Ruanda, ou crianças-soldado na Colômbia, foi reforçando essa convicção. “Uma pessoa nunca pode ser reduzida ao seu trauma”, costuma dizer.

Há, contudo, outros factores que devem ser tidos em conta – a diferença entre rapazes e raparigas, por exemplo, que se nota logo no desenvolvimento nos primeiros anos de vida. “As raparigas começam a falar cerca de cinco meses antes dos rapazes. Porquê, não sei. Mas é um factor de protecção, porque quando estão infelizes podem dizê-lo, podem pedir ajuda, enquanto os rapazes não sabem dizê-lo e passam à acção mais rapidamente.” Passagem à acção que vão manter como característica de comportamento ao longo da vida.

Quando chegam à adolescência, “as raparigas, que têm uma biologia mais estável, têm um avanço neuropsicológico de cerca de dois anos relativamente aos rapazes”. Não só falam melhor, como são “mais estáveis emocionalmente” e já terminaram a sua “fadiga de crescimento”.

Nas décadas seguintes, nota-se que as raparigas e as mulheres “aprendem os rituais de interacção melhor que os rapazes” e continuam a “dominar a palavra” – se isso ainda não parece ser evidente no espaço público, onde a visibilidade das mulheres continua a ser menor, Boris Cyrulnik acha que é apenas uma questão de tempo: “Há aí [nessa invisibilidade] um grande determinismo social. Mas penso que isso vai desaparecer em dez anos”.

O domínio masculino no espaço público está ligado à força física e à violência. “A violência foi um factor adaptativo em todas as culturas. Muitos sociólogos dizem que é pela violência que a sociedade se constitui. Se os homens não fossem violentos, a espécie humana teria desaparecido”.

Na sua infância e juventude, durante a II Guerra Mundial, “o trabalho era uma forma de violência, 15 horas por dia, seis dias por semana”. Recorda as vidas duríssimas dos mineiros em França ou dos operários dos estaleiros navais. “Era um trabalho de uma violência extrema, os operários tinham as costas feridas pelos pedaços de carvão que lhes caiam em cima, as mulheres tinham que os lavar para evitar as infecções e para que eles pudessem ir trabalhar no dia seguinte, senão, não haveria dinheiro nem comida.”

A força e a violência eram, portanto, essenciais e isso fazia com que os homens fossem “vistos como heróis”, sendo, por isso mesmo, “sacrificados na mina ou na guerra”. Esta violência adaptativa não faz sentido nas actuais sociedades ocidentais como a europeia, por exemplo, mas continua a fazer sentido em países em guerra. A diferença é clara: “A violência é destruição num contexto de paz mas é construção social num contexto de guerra”. Daí que no Médio Oriente “um rapaz que não é violento, é desprezado, pela mãe, a mulher, os outros rapazes”.

“No mundo actual [ocidental], o sector terciário desenvolveu-se, a escola também, as mulheres têm desempenhos iguais ou superiores aos homens e a violência já não tem valor de construção da sociedade, é apenas destruição”, explica. “Mas isso só acontece desde os anos 60 do século XX. Eu nasci em 1937, faço parte de uma geração na qual apenas 3% das crianças estudavam. Os outros iam trabalhar, com 12, 13 anos, os rapazes para a mina, as raparigas para casa, e a maternidade acontecia aos 16, 17 anos. Hoje isso é impensável.”

E, no entanto, mesmo que desadaptada ao contexto actual, a violência contínua de certa forma inscrita na nossa “memória transgeracional” – pronta a renascer assim que for necessária. “Acontece nas sociedades que se afundam, por exemplo, o Brasil, a Venezuela, que estavam numa curva ascendente e a violência era muito combatida, sobretudo pelas mulheres, porque se manifestava apenas na destruição do casal, da família, da sociedade.” Quando a crise económica faz afundar o país, “a violência reaparece e torna-se um valor adaptativo e nesse contexto um homem que não é violento é imediatamente eliminado”.

Ao longo da sua carreira, Cyrulnik viu muitas situações nas quais esses instrumentos de adaptação da espécie humana vinham ao de cima, tanto a violência como, por outro lado, a solidariedade. E percebeu que são valorizados de forma diferente conforme o contexto. No entanto, nota, a solidariedade que surge nessas circunstâncias é geralmente “de clã, de grupos com as mesmas crenças religiosas, a mesma cultura, a mesma cor de pele, o mesmo nível social”.

Quanto à violência, “nas guerras decoramos os psicopatas quando matam um adversário, e em alturas de paz colocamo-los na prisão – eles são sempre psicopatas, é o meio que valoriza, ou não, a passagem ao acto”.

Esta presença da violência, que “atravessa todas as culturas”, ajuda a perceber também a vitimização da mulher. “Elas sofreram, foram massacradas, porque são menos dotadas para a violência”. Por outro lado, quando a situação piora e a violência se torna novamente adaptativa, “as mulheres valorizam os homens violentos e querem estabelecer laços com eles”. O que acontece hoje, em contextos de paz, é que “as mulheres, que foram de facto vítimas, e algumas ainda são, servem-se da noção de vítima para tomar o poder e legitimar a própria violência, que não é física, mas verbal”.

O bebé “precisa do cheiro” da mãe

Está também a surgir nas nossas sociedades outro fenómeno que preocupa o psicanalista: a dificuldade de desenvolver empatia, que afecta sobretudo os mais jovens. A empatia é algo que implica interacção humana, sublinha. E quando grande parte da relação com o mundo é feita não através de outros seres humanos mas sim de ecrãs de televisões, computadores ou telemóveis, é muito mais difícil aprender a empatia.

E, no entanto, esta é algo que um bebé recém-nascido adquire com uma surpreendente facilidade. “Os bebés compreendem imediatamente a menor variação da mímica facial da mãe, desde muito pequenos. Somos uns virtuosos, únicos entre as espécies vivas a lidar com a mímica facial.” Daí que seja difícil criar um robot que possa realmente substituir uma pessoa.

Mas, relativamente à tecnologia, Cyrunik não tem uma posição redutora. “Tinha um amigo com uma clínica de hemodiálise e duas ou três vezes por semana as pessoas dormiam na clínica e criavam laços com a máquina, queriam sempre a mesma porque já conhecia as reacções deles. Como na psicanálise, havia uma relação transferencial.”

Por outro lado, “quando as crianças são criadas com ecrãs, são privadas da interacção, das palavras, do piscar de olhos, dos sorrisos; com um ecrã não há rituais de interacção”. Isso faz com que “tenham um atraso no desenvolvimento da linguagem quase como uma criança autista, não sabem descodificar as interacções, se alguém lhes sorri não compreendem, não aprendem os pequenos gestos que nos permitem viver juntos, socializam mal, tornam-se impulsivos”. Um bebé, frisa Cyrulnik, “precisa do cheiro, do calor dos braços da mãe”.

Se um bebé “é isolado antes de adquirir a palavra, o que acontece até aos 21 meses, há uma atrofia dos lóbulos pré-frontais e dos anéis límbicos”. São crianças que crescem “com um cérebro moldado pelo fracasso social e cultural” e “não conseguem controlar as suas emoções”.

Por isso, a ligação que muitos jovens (e não só) estabelecem hoje com esses ecrãs omnipresentes preocupa-o. “Já há consequências. Os jovens que passam mais de três horas por dia em frente a ecrãs mexem-se menos, encontram-se menos com os outros, têm mais depressões e, sobretudo, param o desenvolvimento da empatia – a aptidão a descentrarem-se de si próprios para conseguir a representação do mundo mental dos outros”.

A ausência de empatia manifesta-se, diz Cyrulnik, na forma como muitas pessoas “não estão atentas aos outros”. “No metro de Paris, por exemplo, isso é flagrante. Estão no meio da porta e não se mexem quando os outros querem entrar ou sair. Estão centrados neles mesmos porque a escola centrou-os sobre eles mesmos, os ecrãs também e aprenderam mal os rituais de interacção”.

O exemplo do metro pode ser menor, mas Cyrulnik confirmou esta constatação noutras situações mais graves. Recorda um rapaz que, no hospital e quando uma pessoa da família acabara de morrer e os outros familiares choravam, ria a olhar para alguma coisa no telemóvel. Ou outro que assaltara uma senhora que caíra acabando por morrer em consequência de uma pancada na cabeça e que respondia apenas que “se ela tivesse largado a mala, não teria morrido”.

“Sociedades brutais”

Uma sociedade com menores níveis de empatia é necessariamente mais perigosa, conclui. “Os psicopatas podem matar, roubar, violar, sem culpabilidade”. Por isso defende a necessidade de se desenvolver uma “pedagogia da empatia”, que deve começar nas escolas, para explicar que “não nos podemos permitir tudo”. Tal como é preciso perceber que “se um rapaz tem um desejo sexual não pode permitir-se tudo”, também uma rapariga que não esteja interessada nele “não pode permitir-se tudo, não pode humilhá-lo”.

Conseguirmos colocar-nos no lugar do outro – é isso a empatia e também, segundo Cyrulnik, a base da moralidade – ajuda a perceber que nem tudo é possível. “Temos, como sociedade, que ter uma maior consciência disso”. Em França, após a I Guerra Mundial havia um enorme número de órfãos e “praticamente todos conseguiram rapidamente uma família de acolhimento”. Hoje, nessa mesma França, em paz, “passam 16 meses entre o alerta de que uma criança está em risco e o momento em que vai encontrar uma família, e são 16 meses em que a criança é infeliz”. A ausência de empatia, avisa, “faz sociedades brutais”.

 

 

 

Tertúlia “Crianças Maltratadas” com a participação da Presidente do IAC, Dra. Dulce Rocha, 28 março na Biblioteca de Belém

Março 26, 2019 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Biblioteca de Belém
Data: 2019-03-28 às 17:30
Contactos: Tel.: 218 172 580
bib.belem@cm-lisboa.pt
Observações: Entrada livre.

Carlos Neto: “A brincadeira pode ser a resposta para a maioria dos males”

Março 26, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Carlos Neto ao site Delas no dia 25 de fevereiro de 2019.

Carlos Neto, Investigador da Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa, explica por que razão é brincar é a melhor prescrição para um desenvolvimento saudável das crianças. Até porque não queremos adultos infantis, doentes e com falta de iniciativa.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já considera a obesidade infantil uma epidemia e um problema de saúde pública. Segundo dados desta entidade do ano passado, existem no mundo cerca de 200 milhões de crianças com excesso de peso e a Diabetes tipo 2 afeta faixas etárias cada vez mais jovens.

As principais causas? A má alimentação e a falta de exercício. 90% das crianças portuguesas consome fast food e 57% das que moram perto da escola deslocam-se de carro. Aliás, em 2014, Portugal era dos países da Europa que tinha mais crianças obesas (5%), logo atrás da Grécia (6,5%), Macedónia (5,8%), Eslovénia (5,5%) e Croácia (5,1%) de acordo com a OMS. Por outro lado, há cada vez mais petizes diagnosticados o síndrome de Défice de Atenção e Hiperatividade.

O que estará a acontecer? São os miúdos sedentários ou elétricos ao ponto de quem os rodeia entrar em parafuso Pode ser só falta de brincadeira e de uma alimentação mais equilibrada. Quem o afirma é Carlos Neto, Professor da Faculdade de Motricidade da Universidade de Lisboa, que trabalha com os mais jovens há cerca de cinco décadas: “Estamos a criar uma geração de crianças doentes, afastadas da sua fisicalidade, da realidade e que dificilmente serão adultos empreendedores”.

O Delas.pt falou com o especialista e procurou saber que medidas podem e devem os pais e a sociedade tomar para tornar as nossas crianças mais saudáveis, expeditas, interventivas, ativas e equilibradas, pelo menos no que diz respeito aos tempos livres. A escola, como veremos, terá um papel fundamental. Porque para Carlos Neto, de entre todos os segredos pedagógicos, “a brincadeira e o tempo a ela consagrado é fundamental. Pode ser a resposta para a maioria dos males”.

Há uma frase sua que li há algum tempo e me marcou: “Passeamos mais os cães do que as crianças…”

(Risos) Não será tanto assim, mas de facto neste país quem tem um cão leva-o a passear e a brincar pelo menos duas vezes por dia, faça chuva ou sol. O mesmo já não acontece com as crianças. Basta estar um pouco mais frio que coitadinhas, correm o risco de apanhar uma constipação! Ficam em casa agarradas às consolas – não é que tenha algo contra as novas tecnologias – e não se mexem durante horas, não interagem, não brincam uns com outros e nem desenvolvem competências sociais…

Brincar parece uma palavra um pouco perdida no léxico contemporâneo.

Sim, a partir do momento em que vão para a escola, as crianças perdem o tempo que tinham para brincar. Os intervalos são curtos, por vezes de apenas 15 minutos para quase 5 horas de estudo na sala de aula, quando nem um adulto trabalha tanto tempo seguido. E todos os estudos apontam para que as crianças ativas tenham mais capacidade de aprendizagem de concentração, além de, a longo prazo, maior probabilidade de terem sucesso.

Então é altura de rever a importância da brincadeira e da duração e qualidade dos intervalos escolares?

Claro. Brincar permite adquirir instrumentos fundamentais para a resolução de problemas, tomada de decisões e permite também e desenvolvimento de uma capacidade percetiva em relação ao espaço físico e em relação aos outros. Além de que muitos estudos evidenciam que, quanto mais tempo a criança tem de atividade lúdica e física no recreio, maior capacidade de concentração tem na sala de aula. Já para não dizer que manter o corpo ativo é uma forma de combater o flagelo dos nossos tempos que é o sedentarismo.

Que contribui para doenças tão graves como a obesidade e até a Diabetes tipo 2?

Para não falar nas questões psicológicas. Há uns tempos eu defendia que as crianças saudáveis eram aquelas que tinham os joelhos esfolados. Hoje penso que elas têm é a cabeça esfolada.

Porquê?

Porque brincar não é só manipular brinquedos, é estar em confronto com a natureza, com o risco, com o imprevisível e com a aventura. E uma criança que não o faz, dificilmente no futuro assumirá riscos, enfrentará adversidades com segurança…

A falta da brincadeira não as torna menos sensíveis aos riscos? Recordo-me que quando era pequena não nos atirávamos a um poço, muito menos se não soubéssemos nadar. Tínhamos noção do risco…

Exato. As crianças aprendem através de situações inesperadas. Ainda há pouco num jardim assisti a duas situações distintas: um pai lia o jornal descansado enquanto o filho trepava uma árvore, descia, subia e às vezes caía. O outro estava sempre a controlar o pequeno e a dizer-lhe “não faças isto, cuidado com aquilo…”. Ora o miúdo nem conseguiu descer…

O que se vai refletir no futuro.

Estamos a criar totós, dependentes, inseguros e sem qualquer cultura motora. Vemos crianças de 3 anos que, ao fim de dez minutos de brincadeira dizem que estão cansadas, outras de 5 e 6 anos que não sabem saltar ao pé-coxinho. Já as de 7 não sabem saltar à corda e algumas de 8 anos não conseguem atar os sapatos. É o que chamo de iliteracia motora.

Estamos a falar de sedentarismo, ileteracia motora, mas então porque se discute tanto a hiperatividade?

Na realidade, os currículos hoje estão a ser demasiado exigentes quanto ao número de horas em que as crianças têm de estar sentadas. Devemos ter um plano para tornar a sala de aula mais ativa. Já estamos a preparar, com o Ministério da Educação, programas alternativos que passam, por exemplo, pela colocação distinta das mesas escolares de forma a tornar a aula mais ativa. É inaceitável que 220 mil crianças estejam medicadas em Portugal. Temos crianças de 8 anos que não sabem atar os sapatos…

Esta super proteção não será consequência da baixa de natalidade? Se só temos um filho há que o preservar… Já os nossos avós tinham 5, 7 ou mais…

Talvez. Mas é sobretudo cultural. Sabemos que famílias com poucas crianças são mais protetoras, mas de forma geral todas as crianças têm poucas oportunidades para desenvolver a sua identidade territorial. Instalaram-se medos nas cabeças dos adultos. Medos das crianças serem autónomas. Há uma relação muito direta entre risco e segurança. Quanto mais risco, mais segurança e quanto mais risco, menos acidentes.

Devemos, então, ser pais mais duros?

Sim e não. Todos os estudos têm vindo a demonstrar que na infância, até aos 10/12 anos de idade, é absolutamente essencial brincar para desenvolver a capacidade adaptativa. E hoje não é isso que estamos a fazer. Estamos a dar tudo pronto, tudo feito, e não a confrontar as crianças com problemas que elas têm de resolver. Sejam eles com a natureza; sejam eles com os outros. Os pais necessitam desenvolver empatia com os filhos, mostrar autoridade, mas fazê-las sentirem-se seguras.

O risco tem de ser um ritual de passagem, então?

Claro. A ciência demonstra que, no ciclo da vida humana, o pico maior, onde há mais dispêndio de energia, é entre os cinco e os oito anos. Temos de ter muito respeito por isso. Não podemos confundir tudo e achar que essas energias são anormais. São naturais e por isso temos de olhar para elas como naturais e não patológicas e medicá-las.

Então qual deverá deverá ser o papel dos pais?

Na verdade, existe muito pouca harmonização do tempo de família. E é preciso perceber que as crianças não devem brincar apenas entre elas; precisam de tempo para experimentar e brincar com os pais também. Assim sentem-se mais seguras.

Mas os pais podem pensar: o meu filho anda no ténis, e no futebol e na natação, pratica muito desporto…

Isso não resolve nada. Uma boa alimentação e o exercício físico apenas resolvem o problema da iliteracia motora ou o excesso de gordura.

Os nossos horários não facilitam. Em algumas empresas o último a sair é o primeiro a ser promovido.

Pois, tem que haver coragem política para mudar este estado de coisas. Em países como a Holanda ou a Austrália entra-se no trabalho às 8h e sai-se às 16. Os pais vão buscar os miúdos de bicicleta e depois brincam no parque ou em casa.

Cá encaminham-se os pequenos para os ATL ou similares…

É por isso que digo que a escola tem de ajudar, proporcionar a brincadeira enquanto a sociedade como um todo não mudar. Neste momento, com a rua em vias de extinção, os recreios são a única alternativa que as crianças têm. E os ATL não têm que ser necessariamente negativos. Só não se pode pedir que essas horas sejam passadas a fazer os trabalhos de casa. E então os jogos, o teatro, a dança, a música?

Não será outro tipo de sobrecarga, tantas atividades extracurriculares?

Não, desde que sejam encaradas de forma lúdica e não como complemento à formação escolar, do género “o meu filho vai ser o melhor violinista, a minha filha a melhor bailarina…” Há que reorganizar as escolas, os recreios e as atividades extracurriculares.

Além de brincar, não é importante o espaço para a contemplação? Ver as nuvens a passar, os rios a correr, os pingos da chuva a cair?

Olhe nunca tinha pensado nisso, mas as palavras são como as cerejas. E, pensando, bem, é a dinâmica da sobrevivência. Tão importante quanto a ação. O tempo para refletir e usufruir, estarmos connosco e com o mundo…

Sara Raquel Silva

“Sem vacinas, não há escola”: acabou o ultimato para os pais italianos vacinarem os filhos

Março 26, 2019 às 6:00 am | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 12 de março de 2019.

Escolas italianas passam a ter de exigir certificados de vacinação e podem recusar crianças com menos de seis anos.

Sofia Lorena

A ministra da Saúde italiana confirmou o fim do prazo dado aos italianos para vacinarem os filhos, depois de meses de aceso debate. “Agora toda a gente teve tempo”, diz a ministra, Giulia Grillo, citada pelo diário La Repubblica. A regra é clara, acrescentou: “Sem vacinas, não há escola”.

As escolas e os infantários podem recusar crianças com menos de seis anos. Já os que têm entre seis e 16 não podem ser impedidos de frequentar a escola mas os pais enfrentam multas até 500 euros se não puderem certificar que os filhos têm todas as vacinas obrigatórias e gratuitas – sarampo, rubéola, poliomielite, difteria, tétano, hepatite B, tosse convulsa, hemofilia de tipo B, varicela e papeira.

A introdução deste pacote de vacinas obrigatórias, proposto em 2017, seguiu-se a um aumento de casos de sarampo e meningite. Segundo um relatório apresentado em Novembro pelo Centro Europeu de Controlo de Doenças, Itália foi um dos países com maior número de casos de sarampo no período analisado (mais de 2500 entre Outubro de 2017 e Setembro de 2018).

De acordo com a imprensa italiana, dois pais estão já acusados de terem apresentado falsos certificados numa escola pública de Florença. Em Bolonha, sabe-se que as autoridades enviaram cartas de suspensão aos pais de 300 crianças, de um total de 5000 que ainda não apresentaram documentos a confirmar que estão vacinadas. Há zonas do país onde o prazo dado aos pais para entregar a documentação, e que acabou na segunda-feira, foi alargado mais uns dias.

A lei que agora entra em vigor, Lei Lorenzini, nome do ministro da Saúde dos dois governos anteriores, de centro-esquerda, foi aprovada para tentar fazer subir os níveis de vacinação que em Itália estavam abaixo dos 80% – o alvo da Organização Mundial de Saúde são os 95%, patamar a partir do qual se considera que há uma quantidade suficiente da população vacinada para se tornar improvável que uma doença se espalhe, protegendo assim os que não podem ser vacinados.

No mês passado, uma criança de oito anos a recuperar de cancro não pôde ir à escola em Roma: tinha passado oito meses a receber tratamento para leucemia e estava em risco de infecção porque uma grande quantidade de alunos na sua escola, incluindo alguns da mesma turma, não tinham sido vacinados.

A lei deveria ter entrado em vigor antes do arranque do actual ano lectivo, mas o ultimato foi sucessivamente adiado por vontade dos dois partidos no poder em Roma.

Quando a actual coligação chegou ao poder, em Junho do ano passado, os dirigentes da Liga, de extrema-direita, e Movimento 5 Estrelas, anti-sistema, prometeram que iam deixar cair a obrigatoriedade da vacinação, mas acabaram por mudar de posição. “A vacinação deve ser uma escolha livre e não uma imposição soviética”, defendeu na altura o actual vice-primeiro-ministro e ministro do Interior, o líder da Liga, Matteo Salvini.

Segundo a imprensa italiana, a ministra Grillo, do Movimento 5 Estrelas, resistiu a intensas pressões de Salvini para adiar ainda mais o prazo concedido aos pais.

Dados estatísticos actualizados:

Monthly measles and rubella monitoring report, February 2019


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