Construir a resiliência desde a infância: qual o papel do adulto?

Março 22, 2019 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Luciano Lozano Getty Images

Artigo de opinião de

A resiliência não é uma qualidade inata que se detém ou não ao nascer. É algo que se desenvolve através de um processo dinâmico entre fatores individuais e do ambiente e da interação entre estes dois.

A física refere-se ao termo “resiliência” como “propriedade de um corpo de recuperar a sua forma original após sofrer choque ou deformação” (in Priberam). Nas ciências sociais, apesar de encontrarmos múltiplas aceções, a mais comum é aquela que define a resiliência como a capacidade ou o conjunto de capacidades que permitem ao ser humano lidar e adaptar-se de forma positiva às circunstâncias adversas. Porém, ao contrário dos corpos a que a física se dedica, sabemos que no ser humano as experiências, sobretudo na infância, permanecem connosco e modificam a forma como pensamos e sentimos.

Apesar de vivermos uma era em que a adversidade é frequentemente abafada pelo aparente estado contínuo de felicidade que as redes sociais promovem, a verdade é que, em determinados momentos, todas as famílias vivem situações difíceis e stressantes. Divórcios, problemas de saúde física e mental e experiências escolares negativas estão talvez entre as mais frequentes, mas não nos esqueçamos de uma parte significativa da nossa população (e das nossas crianças) que vive em grande desvantagem social, na pobreza e/ou exposta à violência. Neste sentido, a ciência tem demonstrado que exposição sistemática e prolongada a experiências adversas na infância está associada a um maior risco de desenvolvimento de doença mental, abuso de substâncias, abandono escolar e perturbações de ansiedade.

Perante isto, devemos questionar-nos: porque é que há crianças que superam melhor a adversidade do que outras? Como podemos ajudá-las a desenvolver o seu sentido de resiliência e prepará-las para as dificuldades que poderão enfrentar durante a adolescência e a vida adulta?

Para tal, importa entender que a resiliência não é uma qualidade inata que se detém ou não ao nascer. É algo que se desenvolve através de um processo dinâmico entre fatores individuais e do ambiente e da interação entre estes dois (Beyond Blue Ltd., 2017). Imagine uma balança com dois pratos: a resiliência manifesta-se quando a saúde mental e o desenvolvimento de uma criança se encontram numa direção positiva, apesar do peso que os fatores negativos exercem no outro lado (Center on the Developing Child, 2015). E, ainda que o acompanhamento adicional e especializado não deva ser descurado em crianças que passam por eventos traumáticos ou por experiências negativas continuadas, a literatura aponta para várias estratégias e abordagens consideradas universais e ajustáveis a todas as crianças. Vejamos algumas delas.

Fale sobre resiliência 
Leia livros e conte histórias que abordem a superação de situações difíceis. Incentive a criança a falar sobre casos que conheça. Explique-lhe onde e a quem pode recorrer quando necessitar de ajuda.

Construa e fomente relações de suporte
Crie uma relação próxima e afetiva. Faça com que a criança ganhe um sentido de pertença. Dê atenção e afeto, brinque, conforte, ouça os seus interesses e mostre empatia, o que não significa que concorde sempre com ela, mas que é capaz de se pôr no seu lugar e entender os seus sentimentos.

Promova o autocontrolo e a autorregulação 
A criança aprende a autorregular o seu comportamento através das interações diárias com os cuidadores. Por isso, garanta bons hábitos de sono e de alimentação. Ajude-a a acalmar-se, através da respiração ou a imaginar algo que lhe dê prazer. Ensine-a a saber esperar desde cedo: recorra a rimas e lengalengas enquanto espera por algo; defina rotinas e momentos próprios para determinadas ações; elogie sempre que se mostra paciente. Encoraje a perseverança perante os desafios e a frustração.

Fomente a autonomia e a responsabilidade 
Dê oportunidade para que a criança tome decisões relevantes sobre os contextos em que está envolvida e que possa ser ela própria, e não o adulto, a encontrar formas de resolver os seus problemas. Permita-lhe correr riscos saudáveis, adequados à sua idade e fase de desenvolvimento.

Ajude a gerir emoções 
Nem todas as adversidades são traumáticas e muitas delas podem ser positivas. Ao experienciar dificuldades, criam-se oportunidades de crescimento. Ser resiliente não é estar sempre bem ou ter menores reações emocionais. É saber lidar e gerir essas emoções de forma saudável e positiva. Por isso, valide os sentimentos da criança, incentive-a a nomear o que sente, fale com ela sobre situações que a deixam ansiosa e ajude-a a encontrar formas de se sentir mais segura.

Em conclusão, a construção da resiliência na infância deve iniciar-se no seio de relações afetivas, através de modelos positivos em casa e na comunidade, em que pais, cuidadores e educadores assumem um papel de máxima importância na promoção da saúde mental.

 

 

Ação de Informação Violência Doméstica “O que se passa na infância não fica na infância” 3 abril, Peso da Régua

Março 22, 2019 às 2:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Meninos ciganos trocam ruas de bairro em Matosinhos pela escola

Março 22, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 10 de março de 2019.

“Temos de ser nós, ciganos, a mostrar que mudamos, que nos capacitamos, porque o conhecimento vai dar capacidade e, assim, mostrar que a nossa cultura mudou”, acentuou Élia Maia, falando de uma luta para “dar autonomia ao povo cigano”.

LUSA

No bairro da Biquinha, em Matosinhos, todas as crianças ciganas frequentam a pré-escola, graças a um projeto e uma mediadora social daquela etnia que estão a mudar a tradição.

Junto à Estrada da Circunvalação, num bairro onde vivem quatro mil pessoas, 270 das quais de etnia cigana, incide sobre estas um projeto iniciado em 2004, chamado 100 + Preconceito, e uma aposta, a da criação de uma mediadora social, Élia Maia, para facilitar o passar da mensagem à comunidade.

O sossego é a primeira sensação ao entrar no bairro rumo ao local onde está o Gabinete de Apoio Individualizado da Associação para o Planeamento Familiar (APF), palco da conversa de Nuno Teixeira e Élia Maia com a agência Lusa, num espaço de duas salas, no rés-do-chão de um dos blocos habitados por ciganos.

Distribuído por áreas de atendimento públicas e privadas, a APF desenvolve ali o seu trabalho de sensibilização e de ajuda à comunidade cigana.

Atualmente com 27 anos, Élia ligou-se ao projeto logo após ter saído da escola, aos 12 anos, numa fase, explicou à Lusa, em que era encarada pela comunidade “não como um objetivo, mas como uma obrigação imposta pela sociedade”.

Apesar da renúncia aos estudos, a jovem cigana “chamou a atenção pelo seu perfil”, explicou Nuno Teixeira, começando a participar em “cada vez mais ações” do projeto.

Um compromisso fez o resto e aos 20 anos ingressou nas Novas Oportunidades e completou o 12.º ano, tornando-se então na “primeira mediadora social cigana do país” e com um “projeto muito bem definido: fazer a ponte entre o projeto e a comunidade e ser também a voz cigana nas sessões de esclarecimento promovidas pela APF”, revelou Nuno Teixeira.

Élia quer formar-se em psicologia e vai candidatar-se à faculdade ao abrigo do “Mais 23” mas, enquanto isso não acontece, frequentará “formações complementares como mediadora social” promovidas “pelo Alto Comissariado para as Migrações que recentemente lançou um projeto para mediadoras municipais”, disse o coordenador.

Desde novembro de 2018 em funções, Élia fala “na primeira pessoa de e para os ciganos”, o que não impede alguns, disse, “de continuarem a pensar que sair do seu percurso é deixar de ser cigano” resultado de viverem “em famílias com mentalidade mais fechada”.

Reiterando “sempre” ter mostrado que queria fazer “um percurso diferente” e de por vezes “ouvir coisas” de que não gosta e que “são mentira”, afirmou como seu “maior objetivo conseguir chegar aos ciganos” e, também, fora da comunidade, utilizar o seu exemplo “como desmistificador do que se pensa da cultura cigana”.

“Temos de ser nós, ciganos, a mostrar que mudamos, que nos capacitamos, porque o conhecimento vai dar capacidade e, assim, mostrar que a nossa cultura mudou”, acentuou Élia Maia, falando de uma luta para “dar autonomia ao povo cigano”.

Sobre a evolução registada na comunidade, a colaboradora da APF falou das crianças que “já frequentam a pré-escola”, mas também das “mães que os incitam a estudar”, numa espécie de herança de um centro comunitário da APF que “retirou as crianças da rua, ensinando-os a brincar, ao mesmo tempo que fez a transição para o meio escolar”, revelou Nuno Teixeira.

Mas se há crianças no pré-escolar, o não às creches continua a pontificar, assumindo Nuno Teixeira que “o valor dado pelo cigano à criança, tornando-a no centro da família, torna difícil confiar em alguém para cuidar dela, numa cultura em que a mãe fica em casa a cuidar dos filhos”.

Élia Maia reconhece estar a viver a “sua missão” e, disse à Lusa, daqui por dez anos imagina-se num projeto seu, uma associação, auxiliando o seu povo.

Parceiro importante no projeto, a Câmara de Matosinhos rotula de “sucesso o que está acontecer no bairro”, acentuando a presidente Luísa Salgueiro que “todas as crianças frequentam o I e II Ciclo do Agrupamento de Escolas Óscar Lopes”.

“Temos uma comunidade muito bem integrada, que consegue apresentar níveis de formação idênticos aos da restante população, quebrando um certo estereótipo que persiste em relação à comunidade cigana”, disse Luísa Salgueiro.

 

 

13 ou 16? Qual a idade mínima para o consentimento informado?

Março 22, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Snews

Texto e imagem do Educare de 8 de março de 2019.

Um grupo com vários investigadores, especialistas e profissionais de diversas áreas defende os 13 anos. Um grupo político avança com os 16. A violência digital e o fosso entre gerações fazem parte deste assunto.

Sara R. Oliveira

Dois terços dos pré-adolescentes, dos 11 aos 13 anos, e quatro em cinco adolescentes, com menos de 16 anos, usam diariamente as redes sociais e estão preocupados com a possibilidade da informação pessoal – nome, idade, morada, número de telemóvel, endereço de email, entre outros elementos – ser usada para receberem publicidade e serviços que não pediram ou ser partilhada com empresas ou entidades governamentais sem autorização. Estes são alguns dados do inquérito nacional EU Kids Online, realizado em 2018.

A idade mínima para o consentimento informado está em análise e as opiniões dividem-se: 13 ou 16 anos? Cerca de uma centena de especialistas, investigadores e profissionais de diversos domínios de atividade – do direito à educação, passando pela pedagogia, sociologia, psicologia, psiquiatria, pediatria, comunicação, multimédia, tecnologias e informática – defendem os 13 anos como idade mínima para o consentimento, no âmbito do Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD). Daniel Sampaio, professor catedrático jubilado de Psiquiatria, Margarida Gaspar de Matos, professora catedrática da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, José Afonso Furtado, antigo diretor da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, e Rui Cruz Martins, presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação, estão neste grupo.

A posição surge depois do artigo de opinião publicado no jornal Público, a 21 de fevereiro do ano passado, assinado por Tito de Morais, fundador do Projeto MiudosSegurosNa.Net (iniciativa que ajuda famílias, escolas e comunidades a promover a utilização ética, responsável e segura das tecnologias de informação e comunicação por crianças e jovens), e por Cristina Ponte, investigadora da Universidade Nova e coordenadora da equipa portuguesa na rede europeia EU Kids Online. E coincide com uma proposta de lei sobre o assunto, que se encontra numa fase final de apreciação na Assembleia da República e que contraria a postura, tomada no grupo de trabalho RGPD, por parte do PS, PCP e CDS-PP, que defende os 16 anos como a idade mínima para esse consentimento.

Cristina Ponte resgata os dois dados do EU Kids Online para vincar a sua visão. “Ambos os valores revelam a importância de capacitar mais cedo os adolescentes portugueses sobre como lidar com a vigilância digital que tem vindo a crescer nos últimos anos, impulsionada pelas redes sociais. Essa capacitação, de resto, tem vindo a ser trabalhada nos currículos escolares a partir dos 13 anos”. Para Tito de Morais, se a posição do PS, PCP e CDS se mantiver,  “corremos o risco de ser confrontados com uma situação que em muito prejudicará os jovens portugueses”.

Perpetuar desigualdades
O grupo de especialistas sustenta que aprovar os 16 anos conduzirá a várias situações. A lista está feita. Na sua perspetiva, aprovar os 16 anos “ignora a ineficácia das restrições etárias”, “contribui para que mais crianças mintam quanto à idade para aceder aos serviços da sociedade de informação”, “ignora os direitos da criança e dos pais”, e “esquece que a autonomia se desenvolve preparando as crianças, não limitando as suas escolhas”. E não é tudo. “Aprofunda o fosso digital entre jovens, desperdiça oportunidades de inclusão digital, agrava a discriminação cultural, contribui para o perpetuar de desigualdades”, realça o grupo.

O artigo de opinião de Tito de Morais e de Cristina Ponte, no jornal Público, fala no consentimento parental. “Aumentar para 16 anos a idade do consentimento poderá contribuir para agravar um problema, em vez de o resolver”, alertam. “Aumentar para 16 anos de idade o requisito do consentimento parental para recolher e tratar dados pessoais pode resultar em mais jovens a dar informação falsa sobre a idade, contornando possíveis resistências parentais e uma cultura de protecionismo. Essa ilusão etária impede os operadores de adequarem medidas e ferramentas de segurança e proteção da privacidade à idade real dos utilizadores mais novos”, acrescentam.

O assunto vai entrar em discussão no Parlamento e Tito de Morais e Cristina Ponte esperam que Portugal siga o mesmo caminho da Dinamarca, Espanha, Irlanda, Letónia, Polónia, Reino Unido, República Checa e Suécia. “Com essa decisão por parte das autoridades portuguesas e reforçando a sua literacia digital comercial, adolescentes de 13 ou mais anos de idade poderão usufruir da proteção dos seus dados pessoais e da sua privacidade, continuando a usufruir das oportunidades e dos benefícios proporcionados pelas TIC no domínio do acesso à informação, comunicação, comércio, educação, formação e desenvolvimento pessoais, lazer e entretenimento, expressão da sua criatividade e afirmação de uma cidadania ativa e participativa”, escrevem no mesmo artigo.

Em setembro de 2017, Tito de Morais já abordava a questão num texto publicado no site VER com o título “Proteção de dados: no melhor pano cai a nódoa”. Alertava para a perpetuação de desigualdades e para incongruências e contradições. “O requisito do consentimento parental para a recolha e tratamento de dados de menores de 16 anos vai obrigar as empresas a recolher mais informação de crianças e jovens, nomeadamente dados de localização e dados relativos aos pais, o que se revela ser uma incongruência do RGPD, contradizendo um dos objetivos declarados, que é proteger e reduzir a recolha de dados pessoais dos menores de idade”, escrevia o fundador do MiudosSegurosNa.Net.

 

 


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