“Tenho um pai-telefone”

Março 19, 2019 às 6:20 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 19 de março de 2019.

Hoje é o “Dia do Pai” e muitos pais e filhos aproveitam este dia para brincar, passear ou conversar. A esses pais e filhos apenas posso dizer, “aproveitem, aproveitem, aproveitem”. Porque muitos outros pais e filhos não estão juntos.

Alguns não estão juntos porque um deles já morreu. É o meu caso. Aí, restam-nos as memórias, que perduram através do tempo. Essas ninguém nos tira.

Alguns não estão juntos porque o pai se desinteressou e afastou. Na vida destas crianças, as mães são super-heroínas, mães e pais e tudo o mais. Que tentam compensar a rejeição e os sentimentos de abandono que estas crianças sentem, virando-se do avesso quando preciso for.

Alguns não estão juntos porque o pai foi violento e obrigado a afastar-se. Para estas crianças, povoadas de memórias más, as mães vestem uma capa com super-poderes, protegendo-as contra tudo e contra todos.

Por fim, alguns pais e filhos não estão juntos porque alguém os impede. Falo das inúmeras situações de conflito parental em que os filhos são injustamente privados do convívio regular com os seus pais. Acontece com pais e mães, é certo, mas atendendo ao dia de hoje, falarei dos pais homens.

O conflito parental no contexto dos processos de separação ou divórcio é uma realidade que não podemos negar. E no meio da confusão, são as crianças quem mais sofre, usadas tantas e tantas vezes como trunfos e armas de arremesso. A privação do contacto da criança com o pai surge, assim, como muito frequente (demasiado frequente). As mães elevam vozes que reclamam mais direitos sobre as crianças, quase como se de uma propriedade sua se tratassem. Afirmam que o amor de mãe é mais forte e importante do que o amor de pai e o mais grave é que, muitas vezes, a sociedade acaba mesmo por legitimar esta pretensão.

São as escolas que validam estas vozes, aceitando sem questionar que uma mãe determine que o pai não deve ser informado sobre as questões escolares do seu filho e que não o pode ir buscar. Aceitam sem qualquer documento judicial que o justifique.

São os profissionais que validam estas vozes, aceitando sem questionar que uma mãe exclua o pai de assuntos tão importantes como a saúde física ou mental. Aceitam sem qualquer documento judicial que o justifique.

São também os tribunais que ainda demoram em perceber o direito que a criança tem. O direito a conviver com ambos os pais, de forma regular e equitativa.

“O amor de mãe é inato”, ouve-se muitas vezes dizer. Nada mais errado. Pensemos em quem são os principais responsáveis pelos maus tratos e negligência junto das crianças. Pensemos ainda nas mães que matam os filhos e nas mães que, inclusive, abusam deles sexualmente. Não, o amor de mãe não é inato, tal como o amor de pai também não é.

“A vinculação da criança faz-se apenas com a mãe”, ouve-se muitas vezes dizer. Nada mais errado. Se, tradicionalmente, a mãe está associada ao papel cuidador, actualmente o pai está mais investido nos cuidados e educação da criança e, tal como a mãe, o pai aprende e constrói a sua parentalidade. A literatura indica que os pais podem ser cuidadores sensíveis dos seus filhos e que as crianças estabelecem relações de vinculação seguras, quer com as mães, quer com os pais nos primeiros anos de vida.

Por tudo isto, neste “Dia do Pai”, desejo apenas que todas as crianças possam efectivamente estar com os seus pais. E os pais com os seus filhos.

Perante todas estas questões, desde os pais mortos, desaparecidos ou agressores, existem ainda as crianças que não têm pai. Têm, sim, duas mães. Ou avós. Ou tios. Ou não estão perto da família e vivem em acolhimento. O que fazem estas crianças no “Dia do Pai”? Será que já pensámos nisto como deve de ser? Pois, não pensámos…

Ainda sobre os escassos contactos que mantinha com o seu pai e, na maior parte das vezes, apenas à distância, dizia um menino de nove anos1, “sabes, acho que não tenho um pai-homem… tenho um pai-telefone”.

Queremos “pais-abraços”, “pais-mimos” e “pais-beijos”, a par de “pais-rotinas” e “pais-limites”.

Não queremos “pais-telefone”.

1 No contexto de uma consulta com o colega psicólogo Luís Fernandes.

 

 

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