A explicação é cultural?

Março 3, 2019 às 10:30 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Texto de Luísa Lobão Moniz

A explicação é cultural?

Acontecimentos nas nossas vidas fazem-nos mergulhar num mundo incompleto, só com um habitante, Eu.

O viver para dentro faz do ar que respiramos uma tristeza que nos tolhe e nos isola.

Há um passarinho que pia, uma criança feliz que corre atrás dele, tão brincalhão que surpreende a nossa criança!

A criança pinta-nos em telas de lágrimas feitas uma realidade bela e inocente.

Onde está o passarinho dos milhões de crianças, feitas heroínas, que teimosamente vão sobrevivendo perante a indiferença dos que as deviam proteger?

Onde está o passarinho da criança que é assassinada, tão pequena que ainda não sabe falar, mas tão grande que não pode sobreviver, a sua morte é o castigo para uma mãe que quer a sua custódia, para um pai poderoso que acaba com vidas que lhe são próximas, tão próximas que acaba por se suicidar.

Quem sabe explicar à jovem mãe todas estas mortes?

Não há explicação para ela, para ele nem para a criança!

A explicação é cultural?

A cultura vigente confere ao homem poderes que a mulher, ou seja, todos os que são tidos como mais fracos, não têm.

Já lá vai o tempo em que a mulher tinha que ser submissa porque era o homem quem sustentava a “casa”, hoje a submissão continua com novas nuances, mas a mulher continua a ser um dos  elos mais fracos na estrutura familiar, laboral, social.

Não há quem não se emocione com  imagens de meninos e de meninas que fogem da guerra e da fome, que choram porque o pai bateu na mãe, porque são maltratados, porque não são de ninguém, porque pensam que são a causa de todos os problemas familiares e até escolares…”pois, tinha que ser eu…”

Muitas crianças fogem de casa porque já não aguentam mais.

Muitas crianças são agressivas, violentas, autodestrutivas; agressivas, autodestrutivas são as famílias, as guerras, as fomes, as pessoas…as instituições, de repente é quase o mundo todo que está dentro e fora de cada um.

A Humanidade foi dando passos importantes para ir sobrevivendo, e assim parte dessa Humanidade criou um certo modo de vida em que só uma minoria tem acesso ao conhecimento, ao poder, ao bem-estar.

O bem-estar começa por dominar o Outro, o que é diferente e não tem poder.

Que poder tem a Criança?

Que poder têm os elos mais fracos das famílias e das sociedades: o diferente, a mulher, a criança, os idosos, os deficientes…?

A sensibilidade de algumas pessoas fez com que fossem criadas associações que se viram do avesso para existirem no dia-a-dia, não há verbas, não há recursos humanos, não há agilidade inter-institucional, não há formação para quem trabalha na inclusão dos sem poder.

Fazem-se estudos dos quais se extrai a realidade em que vivemos e da qual os meios de comunicação social mostram até à exaustão.

A sociedade indigna-se e não compreende os factos.

A sensibilidade de outras tantas pessoas faz com que se interessem pela não vida da Criança e dos mais fracos.

Espantam-se com os resultados, como?! Porquê?

Ainda não se reconheceu que os adultos querem ser donos, querem subjugar quem julgam ser menor em idade, em origem cultural, em função e papel na sociedade.

É interessante saber que o Tribunal de Menores (menores em quê?) passou a chamar-se Tribunal de Família.

Andamos escandalizados porque há crianças escravas a fazer bolas de futebol, a trabalhar sem condições, há crianças com fome, frio, dores, doentes que caminham fugindo da violência. Pelo caminho perdem-se da família, são milhares…e algumas morrem.

Há crianças que vão com nódoas negras ensanguentadas pela pancada que levam em casa, pela violação que sofreram caladas “então era amigo do meu pai…”

Na primeira década do século XXI rapazes e raparigas generosamente adoptam animais maltratados e devolvem-lhes a saúde e o bem-estar, dão-lhes nomes de pessoas, falam com eles como se fossem crianças traquinas…passam a vida a ir ao veterinário (ainda bem). Adoram mostrar aos amigos as gracinhas dos seus cães.

É por falta de dinheiro que não querem ter filhos?

Serão imaturos emocionalmente? Porque têm medo da responsabilidade, porque recusam o contacto emocional com o outro ?

O que fizemos, o que transmitimos depois da Revolução de Abril?

É preocupante? Por onde andam as emoções, os sentimentos interpessoais? Estamos a desejar uma sociedade onde o trabalho comanda a vida, onde não há tempo senão para as novas tecnologias, para o outro virtual?

Já esquecemos quantos e quantas morreram, foram torturados para que a liberdade fosse um valor que estivesse sempre presente e nunca posto em causa?

Já nos esquecemos do que é a dignidade humana?

Ninguém tem poder para decidir a morte ou o desgosto “eterno” de ter visto um homem a assassinar uma mulher indefesa, medrosa, submissa…quantas vezes tendo como testemunha os seus próprios filhos.

O mundo dos duelos já acabou e, mesmo assim, era de igual para igual, usavam as mesmas armas, eram do mesmo género, melhor dito, eram sempre homens, as mulheres não tinham honra para defender.

Nascemos e morremos todos da mesma maneira, mas o intervalo chamado vida deixa crescer, à medida que convém à sociedade, os pequenos ou grandes poderes nas mãos de quem se sente, apoiado em leis, com mais poder por ser macho, rico, influenciável socialmente, numa sociedade injusta que divide para reinar criando, ela própria, as circunstâncias para que o lado mais “selvagem” do ser humano se revele.

A crença cultural de que os pais podem e devem bater nos filhos para os educar, a dependência do álcool, o não conseguir gerir as frustrações, o saber que socialmente a violência contra as mulheres não tem sanção pedagógica criam as circunstâncias para que haja violência dentro das famílias. As vítimas desta violência, os que não têm voz nem poder são quase sempre a mulher, a criança, o idoso, quando, por acaso, é outro homem a vítima é porque os machos lutam pela posse da mulher.

 

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