Portugal tem muitos alunos no secundário mas poucos chegam ao superior

Fevereiro 12, 2019 às 8:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , , , ,

Notícia do Público de 7 de janeiro de 2019.

Há mais estudantes no 12º ano do que nos parceiros da OCDE, mas os que ingressam numa universidade ficam aquém da média internacional. Modelo dos cursos profissionais e pouca diversidade de ofertas no superior ajudam a explicar o fenómeno.

Poucos países no mundo têm uma diferença tão acentuada quanto Portugal entre o número de estudantes inscritos no ensino secundário e aqueles que acabam por ingressar num curso superior. Mais de metade dos jovens de 20 anos não está a estudar e, para os atrair, o país terá que fazer mudanças nos cursos profissionais, mas também nas formas de acesso e nas ofertas do superior, defende Cláudia Sarrico, especialista da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que fará a conferência de abertura da Convenção Nacional do Ensino Superior, esta segunda-feira, em Lisboa.

Os dados do último Education at a Glance, o relatório anual sobre educação da OCDE, publicado em Setembro, mostram que, na população entre os 15 e os 19 anos, que é aquela que tipicamente está em idade de frequentar o ensino secundário, Portugal tem uma percentagem de alunos inscritos em instituições de ensino superior à média internacional – 89% contra 85% na OCDE.

No intervalo seguinte, dos 20 aos 24 anos, idade em que a maioria dos alunos que segue para o ensino superior está a frequentar uma licenciatura, a situação inverte-se. A percentagem de população inscrita numa instituição de ensino, em Portugal, é de 37%, ao passo que, na OCDE é de 42%. Se o paralelo for traçado em relação aos restantes parceiros da União Europeia, o país perde ainda mais na comparação: a média europeia é de 43%.

Um outro dado do Education at a Glance 2018 permite perceber a evolução deste fenómeno. Se, aos 16 e aos 17 anos, Portugal tem 98% da população inscrita em instituições de ensino – contra 95% e 92%, respectivamente para cada uma dessas idades, na OCDE –, a partir dos 18 anos o indicador cai de forma abrupta: 82% de inscritos aos 18 anos, 65% aos 19 e apenas 54% aos 20 anos.

Quando o país apostou em alargar a população inscrita no ensino secundário, “fê-lo sobretudo por via dos cursos profissionais”, que hoje representam cerca de metade dos inscritos do 10.º ao 12.º anos, contextualiza Cláudia Sarrico, analista de políticas de ensino superior da OCDE, que vai comentar estes dados na Convenção do Ensino Superior. “Só que os cursos profissionais foram concebidos a pensar na transição para o mercado de trabalho, e não no prosseguimento de estudos”, afirma.

Muitos dos alunos que vão para o ensino profissional estarão, por isso, previamente menos disponíveis para prosseguir estudos, “porque queriam um tipo de ensino diferente de modo a ingressar no mercado de trabalho”, admite Sarrico. Além disso, mesmo que a dada altura possam pensar em continuar a estudar no superior, terão dificuldades.

Desde logo porque o concurso nacional de acesso se baseia em larga medida nos exames do ensino secundário e, nos cursos profissionais, os alunos não têm algumas das disciplinas em que há provas nacionais ou, quando as têm, os currículos são diferentes. Para responder a esta dificuldade, o Governo comprometeu-se, em 2017, a fazer mudanças na forma de acesso ao ensino superior para os alunos do ensino profissional, que até agora não foram concretizadas.

Além disso, a especialista da OCDE questiona se estes alunos estarão, de facto, “preparados para ter sucesso no ensino superior”, tendo em conta a forma como os cursos profissionais foram desenhados. E dá o exemplo da Holanda onde os alunos do profissional têm licenciaturas mais longas (de quatro anos em vez de três) do que os alunos que chegam ao ensino superior vindos do ensino regular.

Diversificar os públicos

O que também resulta evidente da comparação internacional que Cláudia Sarrico vai apresentar na Convenção do Ensino Superior é que Portugal tem um défice de qualificações neste nível de educação. Entre a população que tem 25 a 34 anos só 34% tem formação superior. Na OCDE são 44%.

O país “precisa de mais gente no ensino superior” e o que aconteceu no ensino secundário pode servir de modelo, defende a investigadora. “Da mesma forma como, quando se fez uma massificação no secundário teve que ser feita uma diversificação da oferta, também no caso do superior terá que acontecer o mesmo”, propõe Cláudia Sarrico.

Um exemplo relativamente recente do que podem ser as novas ofertas de universidades e politécnicos são os cursos técnicos superiores profissionais. Portugal também tem margem para aumentar o número de estudantes em regime de tempo parcial – em que é um dos países com menos alunos inscritos, com 5,19% contra 19,65% de média da OCDE –, mas também públicos adultos que estejam já no mercado de trabalho.

“A oferta tem de se adaptar para que seja uma oferta de qualidade e os alunos não só entrem como também progridam e saiam com as competências”, defende a investigadora da OCDE.

A conferência de abertura da Convenção Nacional do Ensino Superior será partilhada por Cláudia Sarrico e Pedro Teixeira, do Centro de Investigação de Política do Ensino Superior. Na mesa de comentário a essa intervenção estarão a investigadora do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa Maria Mota, vencedora do Prémio Pessoa em 2014, o antigo Ministro do Desenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro, e o politólogo Pedro Adão e Silva, bem como o ministro dos Negócios Estrangeiros e antigo ministro da Educação, Augusto Santos Silva, em representação do Governo.

O Governo tem um elemento em cada um dos seis painéis de discussão previstos para esta segunda-feira, em que vão ser debatidos temas como o acesso ao ensino superior, a acção social e o financiamento do sector. Entre os participantes estão membros de todos os partidos com assento na Comissão de Educação da Assembleia da República, bem como representantes dos estudantes. O Presidente da República fará o discurso de encerramento.

A sessão desta segunda-feira da convenção é a primeira de seis de uma iniciativa com a qual os reitores vieram reclamar um pacto de dez anos contra “estagnação” no sector. A discussão prossegue em Março, na Universidade de Aveiro, onde o tema será a articulação do ensino com a investigação. A terceira sessão acontece no mês seguinte no Porto e vai debater a aproximação do ensino superior às empresas, administração pública e agentes culturais.

Esta iniciativa do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas vai parar durante o período eleitoral e será retomada, no final do ano, após a tomada de posse do Governo que resultar das próximas legislativas. Serão então debatidos outros três temas: o papel das universidades no combate às alterações climáticas, a modernização pedagógica do ensino superior e a coesão territorial do país.

Relatório Education at a Glance 2018

 

 

 

As novas tecnologias e os olhos das crianças: que perigos?

Fevereiro 12, 2019 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

thumbs.web.sapo.io

Texto do site Sapo Lifestyle

A visualização de imagens em ecrãs e o seu impacto na saúde ocular é um tema que preocupa os pais de crianças e adolescentes. Sabendo que existem algumas ideias pré-concebidas, que nem sempre correspondem à realidade, será importante que a informação sobre os reais efeitos de smartphones, tablets e computadores na saúde ocular seja a correta. As explicações são do médico Renato Silva, Oftalmologista no Hospital CUF Porto.

A síndrome visual do computador

Ao olhar fixamente para um ecrã ou um livro o reflexo de pestanejo fica diminuído, aumentando a evaporação da lágrima. Em utilizadores crónicos e prolongados de ecrãs, também as glândulas de Meibomius funcionam pior. Estas glândulas são responsáveis pela produção da camada lipídica da lágrima, que lhe dá estabilidade e diminui a sua evaporação. Estas alterações diminuem a quantidade e qualidade da lágrima, provocando sintomas típicos de olho seco tais como sensação de corpo estranho, ardor, olhos vermelhos, sensação de peso nas pálpebras ou necessidade de pestanejar ou fechar os olhos.

Por outro lado, ao olhar para um objeto ao perto, o olho precisa de fazer esforço para focar, um mecanismo que é conhecido como acomodação. A manutenção da acomodação por períodos moderados provoca cansaço ocular originando sintomas como visão enevoada, dores de cabeça, dificuldade de focagem ou sensação de peso nos olhos.

As crianças e adolescentes não sabem exprimir tão bem como um adulto aquilo que sentem. Apesar das alterações oculares observáveis serem iguais às que estão presentes nos adultos, o sintoma que as crianças mais descrevem é a visão desfocada, sendo raro referirem outros sintomas. Muitas vezes as crianças apresentam-se apenas com pestanejos frequentes ou com necessidade de coçar os olhos, não conseguindo nomear quaisquer outros sintomas.

Estes sinais e sintomas, apesar de surgirem para todas as atividades de perto, tais como a leitura de livros ou trabalhos de precisão, são mais frequentes na visualização de ecrãs.

Estes sintomas são transitórios e desaparecem algum tempo após a ausência de visualização dos ecrãs.

O desenvolvimento de miopia

Apesar do principal fator de risco para o desenvolvimento de miopia ser a existência de história familiar, existem fatores ambientais que têm influência no aparecimento e evolução desta patologia.

Alguns estudos recentes vieram mostrar que a visão prolongada ao perto poderá ter um impacto relativamente pequeno no desenvolvimento de miopia, apenas em idades mais precoces, até aos 12 anos. Em nenhum estudo foi demonstrado que a utilização de ecrãs tivesse um risco superior no desenvolvimento da miopia do que a leitura de livros.

Nos últimos anos tem sido comprovada a importância da exposição à luz natural como fator preventivo do aparecimento e progressão da miopia. Esta associação é hoje clara, sabendo-se que quanto menor a idade, maior a importância da exposição à luz natural. No entanto, o benefício na prevenção da miopia está demonstrado pelo menos até aos 18 anos.

Tendo em conta o conhecimento atual é recomendada, para crianças e adolescentes, uma utilização de ecrãs inferior a 2 horas por dia, com a realização de intervalos de, pelo menos, 5 minutos a cada 30 minutos. Os ecrãs deverão estar afastados dos olhos para o esforço de acomodação ser menor.

Recomenda-se também a exposição à luz natural, com uma duração igual ou superior a 2 horas por dia, devendo a realização de atividades ao ar livre ser preferida à utilização de ecrãs dentro do portas.

As explicações são do médico Renato Silva, Oftalmologista no Hospital CUF Porto.

 

 

O pesadelo das birras alimentares

Fevereiro 12, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Texto do site Sapo Lifestyle

O processo de alimentação deve ser encarado como um processo dinâmico e interativo entre pais e/ou cuidadores e criança. Os profissionais da PIN deixam algumas dicas para pais.

A alimentação é fundamental para a sobrevivência, crescimento e desenvolvimento das crianças. Por este motivo, desde cedo os pais preocupam-se com o tipo e quantidade de alimentos que as crianças ingerem diariamente.

Todos os comportamentos integrados no processo de alimentação (e.g., preferências alimentares, uso dos utensílios adequados, quantidade de alimentos) são essencialmente aprendidos. Esta aprendizagem é visível logo nos primeiros dias de vida da criança. É na interação com a mãe que o bebé aprende a distinguir os primeiros sinais de fome, descobre os alimentos, as diferentes texturas e sabores e, consequentemente, desenvolve as suas preferências alimentares.

Estas primeiras interações com os alimentos são muitas vezes fonte de ansiedade para pais e cuidadores. Nem sempre é fácil perceber os sinais que a criança transmite! Consequentemente, os momentos das refeições acabam por parecer autênticos campos de batalha, onde os pais tentam de todas as formas alimentar os seus filhos e os filhos tentam, da melhor forma que conseguem, mostrar aos pais o que estão a sentir nesse momento. Daqui surge o que comumente é conhecido como a “birra alimentar”.

Comecemos por desconstruir este termo, uma “birra” consiste numa explosão de fúria ou frustração por parte da criança que normalmente se traduz em períodos de choro, gritos e/ou agressividade. As “birras” são estratégias usadas pelas crianças para expressarem e gerirem as suas emoções. Neste sentido, quando temos uma “birra” é porque algo se passa no mundo desta criança, e esta é a forma encontrada para demonstrar essa inquietude.

Uma “birra alimentar” é uma manifestação comportamental que ocorre concretamente durante os períodos de alimentação. Mais uma vez, a criança está a tentar dizer-nos que algo não está bem durante estes momentos. Podem traduzir medo em experimentar novos alimentos (neofobia), dificuldade em lidar com a textura e/ou sabor dos alimentos, alterações sensoriais, orgânicas, entre outras. As causas destas birras particulares são diversas e, normalmente confundem pais e cuidadores. Com frequência os pais relatam que as refeições são longas e conflituosas, as crianças recusam comer ou não ingerem alimentos muito específicos ou cozinhados de uma determinada forma.

Por outro lado, são igualmente de considerar outros fatores, nomeadamente as expectativas dos pais e cuidadores quanto ao processo de alimentação e as práticas adotadas pelos mesmos. A aprendizagem do processo de alimentação exige tempo e paciência que, num mundo tão exigente, acaba por se tornar uma tarefa árdua para quem alimenta.

O processo de alimentação deve ser encarado como um processo dinâmico e interativo entre pais e/ou cuidadores e criança. Muitas vezes implica ter um espaço adequado para alimentar, livre de estímulos exteriores (e.g., tv, telemóveis, computadores, brinquedos), onde a criança possa tocar na comida, sujar-se a si própria e, muitas vezes, até aos próprios pais!

Para além disso, os pais devem estar disponíveis e atentos ao longo do processo. A atenção total dos pais é importante na resolução das birras alimentares. Os pais focam-se nos comportamentos e reações das crianças, percebem as suas preferências e os sinais de fome e saciedade. As refeições em que os pais se mostram focados na tarefa demoram menos tempo e levam à ingestão alimentar considerada adequada à criança.

A intervenção na área do comportamento alimentar é efetuada por uma equipa multidisciplinar que pretende ajudar pais e cuidadores a perceberem e lidarem com as “birras alimentares” e outros comportamentos alimentares mais graves, despistar possíveis causas orgânicas e, auxiliar na adoção de estilos de vida saudáveis.

Da nossa experiência junto de pais e respetivas crianças, deixamos algumas dicas:

– analise os sinais que a criança transmite durante o processo de alimentação: respeite sempre os sinais de fome e saciedade que a criança transmite;

– ofereça um novo alimento pelo menos 8 vezes: deve sempre incentivar a provar, se após cada exposição a criança recusar o alimento, então é porque não gosta por algum motivo;

– não force a criança a comer;

– estabeleça um horário para cada refeição e procure segui-lo;

– as refeições devem ser feitas num ambiente agradável e interativo;

– as crianças são os nossos maiores fãs, se quer que ela coma um determinado alimento, mostre que também o come e aprecia!

Texto: Joana Fernandes e Andreia Leitão

 


Entries e comentários feeds.