«Educar para a sexualidade é fundamental para prevenir o abuso»

Janeiro 8, 2019 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do DN Life a Vânia Beliz no dia 4 de dezembro de 2018.

Entrevista de Ana Pago | Fotografia de Shutterstock

Porque temos tanta dificuldade em conversar abertamente sobre sexo com os mais novos?

Na maior parte das vezes, a dificuldade surge do que as famílias entendem por sexualidade, que ultrapassa em muito o falar de sexo. Numa sociedade marcada pelo conservadorismo e ainda muito religiosa, prazer e satisfação são temas complicados, o que torna difícil ter à-vontade para abordá-los com os mais novos.

Nem é só a questão do falar: é não saber, ao certo, como começar a fazê-lo…

As famílias educam para a sexualidade desde o nascimento, e mesmo antes disso já há uma série de fantasias que vão influenciar a forma como se educa meninos e meninas. A partir do momento em que aprendem a falar, a curiosidade infantil dispara perguntas muitas vezes difíceis, mas a idade para perguntar é também a idade para saber. De forma adequada à maturidade das crianças, as famílias devem responder-lhes e perceber se elas aprenderam o que lhes foi explicado. As perguntas vão-se tornando mais complexas à medida que crescem.

Escreveu o livro Chamar as Coisas pelos Nomes (ed. Arena) porque essa é outra dificuldade dos adultos. Que palavras ainda temos vergonha de usar?

Temos vergonha de falar, por exemplo, dos nossos genitais. De dizer pipi, pilinha, há temas que nos coram e nos deixam acanhados. Ainda existe muito medo, muito constrangimento. E a questão que se coloca é: porque temos vergonha de explicar como nos reproduzimos? De falar de menstruação? De prazer? Como podemos ignorar temas que são da área da saúde e chegam a comprometer a nossa felicidade?

Quando é que a criança está pronta, de facto, para falar de sexualidade?

Quando pergunta sobre isso. Os temas surgem de acordo com a idade e a curiosidade dela e devem ser respondidos de forma objetiva, sem metáforas.

Esta é uma função da escola, educar para a sexualidade? Dos pais? De ambos?

De ambos. A escola deve educar para o respeito do outro, para a proteção e para temas que respeitem os direitos humanos. A educação formal não vai contra os valores das famílias nem incentiva a prática sexual. É um complemento na educação para a saúde das crianças e jovens e deve ser feita também por profissionais habilitados, devidamente formados, com um perfil apropriado às exigências dos mais novos.

O mais importante é ensinar às crianças o que é amor, intimidade, respeito pelo seu corpo e o do outro?

As crianças aprendem muito cedo a expressão dos afetos pelas relações que são estabelecidas consigo e com quem as rodeia, por isso a forma como as famílias vivem a sua intimidade, como se relacionam com o corpo e com a diversidade sexual, transmite-se às crianças e jovens. Por exemplo, uma família que tenha comportamentos homofóbicos pode transmitir isso aos filhos. Aqui, a escola tem a oportunidade de desmontar esta realidade que não respeita a liberdade de quem é diferente.

No fundo, tem tudo que ver com o modo como os pais lidam com a sexualidade deles…

Um pai ou uma mãe que tenha problemas com a sua nudez e autoestima terá dificuldade em transmitir isso aos filhos. Mas depois há muitos temas em relação aos quais estará sempre lá alguém para sugestioná-los caso não tenham sido acordados para eles em casa, veja-se o acesso rápido à pornografia e a erotização precoce. As famílias precisam de compreender a importância que educar para a sexualidade tem em problemas graves da nossa sociedade, como a prevenção do abuso ou a violência sexual e de género. Não é só sexo: é estarmos a educar para a saúde, para o bem-estar e para a felicidade.

Vânia Beliz é mestre em Sexologia e doutorada em Estudo da Criança na especialidade de Saúde Infantil

 

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