Morre mais uma criança sob custódia dos EUA após passar fronteira do México Não foi divulgada a causa da morte de rapaz de oi

Dezembro 27, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 26 de dezembro de 2018.

Não foi divulgada a causa da morte de rapaz de oito anos da Guatemala, apenas que fora hospitalizado.

Uma criança de oito anos, natural da Guatemala, morreu esta terça-feira enquanto estava à guarda do serviço de fronteiras dos Estados Unidos após ter passado ilegalmente a fronteira com o pai – é a segunda criança a morrer sob custódia da guarda fronteiriça.

A criança foi internada num centro médico em Alamogordo, Novo México, e teve alta depois de ter recebido um diagnóstico de constipação. Mas horas depois de ter tido alta, começou a vomitar e foi levada de novo para o hospital, onde acabou por morrer. A causa não é conhecida.

O rapaz e o pai entraram nos EUA através de El Paso, Texas, a 18 de Dezembro, e entregaram-se às autoridades. Foram transferidos para Alamogordo a 23.

Um congressista do Texas disse que a criança se chamava Felipe Alonzo-Gomez e apelou para uma investigação à sua morte.

“Temos de nos assegurar de que tratamos migrantes e requerentes de asilo com dignidade humana e damos os cuidados médicos necessários a qualquer pessoa sob custódia do Governo dos Estados Unidos”, disse o congressista Joaquin Castro, citado pela emissora britânica BBC.

“A política da Administração afastar as pessoas dos pontos legais de entrada está a pôr as famílias e as crianças em risco.”

A força encarregada das fronteiras anunciou que irá fazer algumas alterações após esta segunda morte, segundo a estação de televisão americana CNN, incluindo check-ups médicos a todas as crianças sob sua guarda, com especial foco nas menores de dez anos.

A primeira criança que morreu foi Jakelin Caal, de sete anos, também da Guatemala, depois de ter sido detida junto com o pai numa zona remota do Novo México. Oito horas depois, a criança começou a ter convulsões e morreu.

A Administração de Donald Trump, que tenta desencorajar a entrada ilegal nos EUA, e classificou a caravana de migrantes que se juntam para fazer a viagem até à fronteira como um perigo para a segurança do país, culpa o pai pela morte da criança.

Activistas dizem que o aumento de patrulhas leva os migrantes a correr mais perigos em zonas mais remotas, e a associação de defesa dos direitos ACLU acusou os serviços de fronteira de “cultura de crueldade e falta de responsabilidade”.

 

 

Ação de Curta Duração – Cidadania Digital, 28 janeiro em Coimbra

Dezembro 27, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://www.facebook.com/events/295942554374481/

Não se adopta uma criança por pena

Dezembro 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no DN Life de 9 de dezembro de 2018.

Pensar em adoptar uma criança porque sentimos pena das crianças maltratadas e abandonadas é quase um crime. Um crime na medida em que não deve, nem pode ser essa, a motivação para um processo de adopção.

Existem crianças maltratadas, sim, de diversas formas, e que carecem de uma família que lhes dê aquilo que os seus progenitores não conseguiram ou não quiseram dar. Estas crianças têm, naturalmente, uma história e um passado. Vivências, mais ou menos traumáticas, que podem recordar, também de forma mais ou menos consciente. Estas memórias e consequente impacto no processo de ajustamento da criança dependem, não apenas da natureza das mesmas, mas também da idade, recursos psicológicos e suporte da criança.

Quando as crianças têm definido um projecto de vida com vista a adopção, significa que outras alternativas prévias foram esgotadas. Que se considera que os seus pais biológicos ou outros familiares não conseguem satisfazer de forma adequada as suas necessidades.

O que esperam, então, estas crianças?

Esperam uma família que, independentemente da sua composição, lhes dê aquilo que não têm. Exactamente isso, uma família. Alguém que as ajude a experienciar a sensação indescritivelmente boa de pertencer a um todo. Sentirem-se parte de um “nós”, amadas e cuidadas de forma incondicional. Ou seja, que esse amor e cuidados não dependa nunca da sua aparência, origem, comportamento ou habilidades.

Mas estas crianças também precisam de alguém com especiais competências para conter as suas angústias e receios. Alguém que saiba lidar com as dificuldades, e desengane-se quem pense que num processo desta natureza são tudo rosas. Não são.

Estamos, assim, perante um nível de exigência muito elevado. Porque se exige a quem adopta uma criança que apresente, não apenas uma sólida e adequada motivação para adoptar, como também recursos, internos e externos, que lhe permitam fazer face aos desafios que vai enfrentar. E este ou estes candidatos a adopção começam por enfrentar um processo de selecção e candidatura que é, em si, exigente. E assim tem de ser, sob pena de as crianças poderem ser entregues a quem não está devidamente preparado para as proteger e amar.

Volvido este processo, moroso, e estabelecido o chamado «matching» – a correspondência de características, desejos e necessidades de ambas as partes -, inicia-se um caminho que se quer sem retorno. Um caminho nem sempre linear, com obstáculos tantas vezes sentidos como intransponíveis, mas também com tantas gratificações e emoções positivas.

Percorrer todo este caminho não é fácil. Exige motivação, dedicação, empenho, resiliência, suporte e muito, muito amor.

Pena, não. Não se quer, de todo, esta pena. Porque a pena remete para uma visão assistencialista e remediadora de um problema (redutora, portanto), quando aquilo que se precisa é tão mais do que isso. Quem adopta tem de se assumir, necessariamente, como um suporte para a criança, ajudando-a a crescer segura e a explorar o meio que a rodeia. «Pais-trampolim», que amparam e, ao mesmo tempo, impulsionam para a frente. Que ajudam a crescer de forma ajustada e saudável.

E quando dizemos que o caminho da adopção é um caminho que se quer sem retorno significa que é proibido fazer marcha atrás. Uma vez filho, para sempre filho. E os filhos não se devolvem, só porque afinal são portadores de uma deficiência, não são tão inteligentes como gostaríamos, portam-se mal ou não correspondem aquilo que idealizamos. Pois é. A eterna questão da diferença entre o filho ideal e o filho real… uma questão que se coloca, não apenas aos filhos adoptados, mas também aos filhos biológicos.

Não, não se pode adoptar uma criança por pena. Adota-se por amor e com amor. É assim que os filhos nascem dentro do coração de cada um.

 

 

Ler às crianças ao deitar desenvolve o cérebro

Dezembro 26, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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A psicóloga clínica Clementina Pires de Almeida é especializada em bebés
Foto: FILIPA BERNARDO/GLOBAL IMAGENS

Notícia do Jornal de Notícias de 8 de dezembro de 2018.

O hábito de contar histórias aos mais novos na hora de dormir tem um grande impacto na vida futura, pois não só influencia a saúde física e mental, como a capacidade intelectual. Por essa razão, o Lidl decidiu chamar a atenção para esta temática na campanha solidária de natal que promove este ano.

A tradição dos pais contarem histórias aos filhos na hora de dormir está a perder-se. O tempo de qualidade com as crianças é cada vez menor e, na altura dos mais novos irem para a cama, tudo é muito rápido – um simples aconchego da roupa e um beijo de boa noite a serem os únicos momentos de partilha afetiva. De forma a chamar a atenção para a importância de ler aos mais novos ao deitar, o Lidl direcionou a angariação de verbas da campanha solidária de natal de 2018, que se prolonga até ao próximo dia 30, a favor da Associação Nuvem Vitória, cuja missão é contar histórias a crianças hospitalizadas na hora de dormir.

“Há alguns estudos associados a crianças com cancro que demonstram que o cortisol, a hormona do stresse, é nefasto à perceção da dor, à dificuldade do organismo em defender-se e altera negativamente a capacidade imunitária. A leitura promove também uma melhor qualidade do sono e quando as crianças estão hospitalizadas há despertares obrigatórios que acabam por atropelar as áreas mais profundas do sono, o que pode alterar a plasticidade cerebral e a capacidade do cérebro se regenerar pode ser menor e abrandar, para além do impacto na recuperação da própria doença”, explica a psicóloga clínica Clementina Pires de Almeida, a única em Portugal especializada em bebés.

O impacto na saúde física e mental dos bebés é muito mais vasto. “O número de palavras que ouvem no primeiro ano de vida está diretamente relacionado com o vocabulário que elas vão ter aos dois anos e com o sucesso académico até aos 10 anos”, assegura a especialista, explicando que “as crianças cujos pais lêem mais têm uma maior atividade geral”, sendo-lhes estimuladas as áreas do processamento da associação visual e da competência lógica.

“Por isso pedem para se ler a história várias vezes, pois à primeira não conseguem captar tudo e há pormenores aos quais precisam de prestar mais atenção e isso faz com que reconheçam padrões que existem na realidade, consigam perceber as sequências em termos da história e da realidade e possam prever os acontecimentos. Outra parte muito estimulada é a imaginação. Como fazemos sons e damos entoação, a criança está, automaticamente, a processar o que está a ouvir em formato de imagem e consegue associar as palavras à imaginação que vai criando da história. Isso ajuda na compreensão e no processamento da linguagem”, salienta a psicóloga.

Protege da doença mental

Outro benefício apontado por Clementina Pires de Almeida é a diminuição da propensão para a doença mental das crianças, ou seja, dos défices de atenção e da ansiedade, em cerca de 20 por cento. “Os cérebros ficam mais ativos com o hábito de ler e mergulhar nas histórias e isso ajuda o cérebro a proteger-se da doença mental”, anota a especialista, referindo que quando nascemos o cérebro só está desenvolvido 25 por cento, percentagem que aumenta para 70 por cento ao fim do primeiro ano e para 85 aos três.

“As crianças têm uma perceção do Mundo como se de um cientista se tratasse, estão a tomar notas de todos os eventos. No primeiro ano, os bebés fazem cerca de um milhão de sinapses [impulso nervoso de um neurónio a outro] por segundo. Cada sinapse anda a mais de 400 quilómetros por segundo, isto é, mais rápido que o 4G. E as competências a que isto se refere são brutais”, frisa.

Por tudo o descrito, a psicóloga espera que esta iniciativa do Lidl consiga chamar a atenção para o tema da leitura às crianças antes de dormir. “É um momento de contacto, porque, naquele momento de segurança, a criança pode verbalizar os medos e receios, pois sente-se segura ao colo da mãe ou do pai, e pode diminuir os despertares noturnos, com os tais sonhos maus e pesadelos”, finaliza a psicóloga.

Nuvem Vitória escreve contos

No âmbito da campanha solidária de Natal do Lidl, na revista “Notícias Magazine” de 16 a 30 deste mês, serão publicados quatro contos da autoria da Nuvem Vitória, associação premiada este ano, que receberá um euro por cada bolo-rei da marca “Favorina” vendido nas lojas da empresa alemã em Portugal. A primeira história será “O segredo da Bela Adormecida”, seguindo-se “Onde está o Pai Natal”, a 23, e, no último domingo, os contos “Bolo-Rei” e “A Cortina”.

 

 

Em Lousada, os alunos também governam a escola e os professores agradecem

Dezembro 26, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e fotografia do Observador de 9 de dezembro de 2018.

Ana Kotowicz

O projeto chama-se República dos Jovens e faz com que esta escola funcione de forma semelhante à Assembleia da República. Todos têm voz e a opinião dos alunos influencia as decisões da direção.

O Código de Conduta dos Alunos, tal como estava redigido, não convencia os estudantes da Escola Básica e Secundária de Lousada Oeste. Noutro estabelecimento de ensino, os descontentes teriam de encolher os ombros, pois poucas ou nenhumas ferramentas teriam para convencer a direção a fazer mudanças. Aqui, porém, não foi o caso. Os cerca de 700 alunos da escola não só foram ouvidos, como conseguiram levar a sua avante e mudar o Código de Conduta para uma versão mais próxima do que defendiam.

Como? Graças a um projeto chamado República dos Jovens, que faz com que esta escola funcione de forma semelhante à Assembleia da República. Todos têm voz, todos estão representados, todos têm direito a voto e a opinião dos alunos influencia a tomada de decisões de Luísa Lopes, diretora do agrupamento.

Essa iniciativa valeu-lhes o primeiro prémio do concurso Escola Amiga da Criança, uma parceria entre os pais da Confap e a editora Leya, que distingue estabelecimentos de ensino com projetos educativos inovadores. A cerimónia decorreu no final de novembro.

As diferenças na organização começam logo dentro das salas de aula: não há delegados de turma, ao contrário do habitual — há antes guias e guias dos guias. O primeiro passo para construir esta pirâmide democrática é reunir a Assembleia de Turma, o seu órgão máximo, onde o diretor de turma é o presidente. O único adulto presente tem poder de veto sobre todas as decisões, tal e qual como o verdadeiro Presidente da República sobre as leis que saem do Parlamento.

“A Assembleia de Turma é um momento formal, estão todos os alunos, há um secretário e um moderador, que são estudantes, e onde se podem colocar todas as questões”, explica o professor Alexandre Reis, coordenador do grupo de projetos do agrupamento e responsável pela República dos Jovens em Lousada Oeste.

Nesse momento alto, a turma é dividida — consoante as escolhas dos alunos — em vários grupos, cada um com 5 a 8 estudantes. A seguir, dentro de cada uma dessas equipas, é eleito um guia, que é o líder daquele pequeno grupo. No final da eleição, cada turma terá vários guias e, entre esses, é escolhido o guia dos guias.

É esse o cargo de Sofia, no 9.ºA, depois de dois anos a ser guia. “O que é ser guia dos guias? É tentar manter a turma unida, conseguir pôr todos a trabalhar em grupo, conseguirmos fazer coisas que sejam para o bem de toda a gente. A diferença em relação a ser guia é que temos muito mais responsabilidade. Em vez de controlar e gerir um grupo, temos de controlar e gerir a turma toda.”

Se as diferenças ficassem por aqui, a República dos Jovens não seria uma verdadeira república. Mas a pirâmide tem mais degraus.

“Neste movimento vertical, o órgão que aparece a seguir é o Conselho de Guias, que serve para o diretor de turma se reunir com todos os guias daquele grupo de alunos. Estas reuniões têm caráter confidencial e o que se fala lá dentro não vem cá para fora. Os guias tornam-se os braços direitos do diretor de turma: podem fazer todo o tipo de propostas, discutir o comportamento dos alunos ou propor colegas para o quadro de valor”, explica Alexandre Reis, que é professor de música e está no agrupamento desde 2001, dizendo que nestes momentos se criam relações de proximidade entre docentes e alunos.

Depois de estar assegurado que a opinião de cada estudante chega ao diretor de turma através dos guias, falta garantir que a voz dos alunos chega à direção.

“Periodicamente, reúne-se a Assembleia Geral dos Guias, um dos órgãos mais importantes que temos aqui na escola, e onde está presente a diretora. Foi num desses momentos que foi alterado o Código de Conduta”, explica Alexandre Reis. Nesses encontros, há 30 guias que representam as 30 turmas da escola de Nevogilde. Se, ao início, quando tudo era novidade, os alunos nem sempre estavam à vontade por estarem frente à direção, Alexandre Reis diz que agora tudo é diferente.

“Os alunos já discutem entre eles e estão mais responsáveis pelas decisões que tomam. Aconteceu, por exemplo, um guia estar a pedir para a sala de informática estar aberta para além do horário que já existe e outro alertou logo para o risco de o material informático poder ser roubado. Com tudo isto, eles sentem que são ouvidos. A grande diferença em relação ao tempo em que tínhamos delegados de turma é que eles limitavam-se a aparecer nas reuniões com uma lista de queixas. Agora, a postura é diferente, é construtiva, os alunos sentem que têm de ajudar a resolver os problemas da escola”, sublinha o coordenador do projeto.

“É um voto de confiança que nos dão”

Sofia, Pedro, Rafael, Viviana, António, Lana, Rita, Tatiana e, de novo, Rafael. Todos os nove alunos, com idades compreendidas entre os 13 e os 14 anos, são guias ou guias dos guias das respetivas turmas.

Qual é a diferença? “Quando se é guia dos guias, temos mais responsabilidade porque temos de ajudar a turma toda, temos de resolver todos os problemas e manter toda a gente unida”, explica Pedro, guia dos guias do 8.ºA, e que foi guia durante 3 anos consecutivos, desde que entrou para a escola no 5.º ano.

Quando a pergunta é o que é que a República dos Jovens fez de mais significativo na escola, todos apontam o Código de Conduta e o facto de terem conseguido avançar com algumas das suas reivindicações. “Há coisas que os professores, e até mesmo a direção, não conseguem perceber que estão mal. Nós, alunos, porque convivemos mais com os espaços, notamos quando as coisas estão erradas. Com a República dos Jovens, deu-se mais voz aos alunos para apontar essas coisas”, defende Lana, guia do 8.º A.

António, guia do 9.ºA, concorda. “Com a República dos Jovens sinto-me mais parte da escola e, nós, alunos, podemos ajudá-la a melhorar e a fazer a diferença. Este projeto ajuda os alunos a sentirem-se valorizados e a valorizarem as ideias que têm para a escola.”

Entre algumas das coisas que conseguiram através da República dos Jovens, há questões tão diferentes como serem autorizados a comer nos pisos superiores da escola — era proibido porque isso gerava muito lixo nos corredores –, terem conseguido ter o cartão eletrónico dos alunos e a recolha seletiva do lixo.

“O cartão eletrónico era uma coisa que queríamos muito porque nos permite não trazer dinheiro para a escola. O cartão é carregado e depois usamos na cantina e no refeitório sem termos de nos preocupar mais”, explica Pedro.

O lixo também era há muito um problema grave na escola e a iniciativa para resolver a questão partiu dos alunos. “Há muito tempo que queríamos resolver este problema”, diz Lana. Agora, os estudantes estão envolvidos na recolha e na separação do lixo da escola. “É um voto de confiança em nós”, acrescenta a jovem.

Acima de tudo, todos concordam que ganharam voz na governação da escola. Serem ouvidos pelos professores e pela direção faz toda a diferença: “Quando há coisas que achamos que estão erradas na escola, nós propomos soluções na turma; se a turma aprovar, levamos o assunto à República de Jovens onde vai ser discutido e exposto à direção. Isso faz com que seja mais fácil sermos ouvidos quando nos estamos a bater por melhores condições da escola”, diz António.

Alunos mais bem preparados e com espírito democrático

“Os nossos alunos saem desta escola com uma preparação que, provavelmente, os de outras escolas não têm.” A frase parece tirada da boca de um professor, orgulhoso do caminho académico que os seus estudantes seguiram. Mas não. Francisco Torres tem 17 anos, estuda Direito na Faculdade de Coimbra, mas é da sua antiga escola secundária, em Nevogilde, que fala com entusiasmo.

O que faz com que os alunos saiam da escola de Lousada Oeste mais bem preparados do que outros jovens é exatamente o projeto que começou em 2015. Através da República dos Jovens, explica Francisco Torres, os alunos conseguem influenciar a forma como a escola é governada e perceber como funciona a democracia.

“Ter participado neste programa foi bastante benéfico para aquilo em que estou agora a focar as minhas atenções. Estou a estudar Direito e posso dizer que a República de Jovens deu-me alguns instrumentos que estou a utilizar”, conta o jovem. Um deles foi conseguido através do projeto Justiça para Todos, que permite que os finalistas da escola conheçam melhor o mundo dos tribunais, através de simulações in loco.

Mas esse não foi o único ponto positivo. No último ano que passou na escola de Lousada Oeste, Francisco Torres foi moderador de várias assembleias, o que o ajudou a desenvolver competências sociais, que considera fundamentais para ultrapassar obstáculos que vão surgindo no seu caminho.

“Nas assembleias era necessário interagir com o público, puxar pelos alunos mais novos — eles são a base e são eles quem vai dar continuidade a este projeto. Eu, como aluno mais velho, tinha a obrigação de transmitir os valores e a dinâmica do projeto. Foi a partir desta dinâmica que consegui desenvolver diversos métodos de comunicação, de que neste momento preciso na faculdade”, explica o estudante de Direito.

Hoje, o antigo aluno da escola de Nevogilde acha que os objetivos da República dos Jovens foram alcançados. “No início, o projeto servia para dar voz aos alunos, para ser uma escola governada pelos alunos, dentro do seu campo de governação. Temos uma direção que vê nos estudantes um pilar que sustenta as vontades da comunidade escolar e isso trouxe melhorias estruturais, humanas e sociais. O grande ganho deste projeto é a forma como os alunos se entregaram. Temos um antes e depois nesta escola. Mais do que bons alunos, estamos a projetar grandes cidadãos capazes de enfrentar as questões do futuro. A responsabilidade que adquirem aqui vai ser fundamental para interagirem no mundo social e laboral que é muito agressivo. E percebem melhor a democracia porque ela é o ponto fulcral deste projeto.”

Objetivo: combater a indisciplina

“A República dos Jovens surgiu em 2015 como medida do Plano de Promoção para o Sucesso Escolar, e visava combater a indisciplina. A ideia base era que quanto mais o aluno se sentisse como elemento ativo da escola, quanto mais sentisse espaço para partilhar as suas ideias, mais este sentimento de pertença reduziria os comportamentos desviantes”, explica Alexandre Reis. E foi isso que aconteceu. Mas à medida que o projeto cresceu, tornou-se muito mais do que isso.

Se uma república define o modo de vida dos seus cidadãos, as regras e os princípios fundamentais da sociedade, “uma república na instituição escola define a forma como os seus alunos participam na vida da escola, nas decisões, na necessidade de desenvolverem projetos e de fazerem parcerias com os colegas, de mudarem algo que deve mudar”, sustenta o professor de música. E foi essa característica das democracias, em que todos contam e todos são ouvidos, que mudou a face da escola.

Alexandre Reis acredita que ouvir os alunos não é uma característica exclusiva de Lousada Oeste. “Em todas as escolas, os professores e os diretores ouvem os alunos, a diferença é que nós aqui fazemos isso de uma forma estruturada, de uma forma que nos permite incluir o contributo dos alunos nas nossas práticas educativas. O melhor exemplo é o Código de Conduta ter sido negociado com eles. Havia aspetos com os quais eles não concordavam, propuseram alterações e negociaram-nas com a direção da escola.”

Francisco Torres lembra que os alunos também contribuem para o orçamento participativo da escola, e que no seu tempo de estudante em Nevogilde se bateram, por exemplo, pela melhoria das casas de banho e conseguiram. “Os estudantes acabam por perceber que são a base desta escola e que sem eles não se conseguia pôr a escola no rumo certo. No fim, ficam perfeitamente à vontade para lidar com as questões democráticas do futuro. Os alunos sentem-se membros e parte ativa da escola e isso é fundamental para qualquer ambiente escolar de sucesso.”

Se alunos e professores aplaudem este projeto, a bandeira branca que desde 9 de novembro está içada na escola, com escritos vermelhos onde se lê que esta é uma Escola Amiga da Criança, mostra que fora de portas o mérito da República dos Jovens foi reconhecido. Na primeira edição daquele concurso, que teve mais de mil participantes, a Escola Básica e Secundária de Lousada Oeste recebeu o primeiro prémio.

Ao mesmo tempo, aquele estandarte a balouçar ao sabor do vento é também a realização do sonho de Jorge Ascenção. Quando arrancou a primeira edição da Escola Amiga da Criança, uma ideia do psicólogo Eduardo Sá posta em prática pela Confap, o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais sonhava ter uma bandeira, à semelhança da azul que sinaliza as melhores praias, que as escolas premiadas pudessem içar.

A ideia do concurso era simples: fugir à cultura da nota e dos rankings que valorizam apenas as médias dos alunos. Procuravam-se ideias extraordinárias. E a escola de Nevogilde foi considerada a mais amiga do aluno de Portugal graças à República dos Jovens. Para além da bandeira, no dia da cerimónia da entrega do prémio, a escola recebeu também cinco mil euros em livros doados pela Leya, parceira da Confap no projeto, para a biblioteca da escola.

Depois da Escola Amiga, concurso distingue também os professores

Quando arrancou a primeira edição do concurso, tanto Jorge Ascenção como Eduardo Sá partilharam com o Observador o seu desejo de que o concurso fosse para continuar. No dia 20 de novembro, Dia Universal dos Direitos das Crianças, foi anunciado que assim seria e a segunda edição do concurso já arrancou oficialmente.

Até 5 de abril, decorrem as candidaturas à Escola Amiga da Criança que este ano terá o alto patrocínio do Presidente da República. O regresso é marcado por algumas novidades: é alargado a estabelecimentos de ensino profissional, haverá novas categorias — por exemplo, a dos projetos digitais — e os professores responsáveis pelos projetos poderão ser distinguidos com o selo “O meu professor”.

O primeiro prémio, atribuído pela Leya, continuará a ser um cheque no valor de cinco mil euros em livros à escolha do estabelecimento de ensino, a que acrescem cheques de quinhentos euros para as menções honrosas de cada categoria.

Na primeira edição, concorreram mais de mil escolas e foram distinguidos cerca de 300 projetos. As escolas interessadas deverão apresentar a candidatura no site da Leya Educação. Os premiados serão conhecidos no Dia Mundial da Criança, a 1 de junho de 2019. O objetivo, lê-se no regulamento, continua a ser o mesmo: que escolas públicas e privadas partilhem “iniciativas extraordinárias, desenvolvidas pelos estabelecimentos de ensino, que contribuam para um desenvolvimento mais feliz dos alunos”.

Escola Amiga da Criança

 

 

 

Como o gaming pode queimar um circuito vital do cérebro

Dezembro 25, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia da Visão de 9 de dezembro de 2018.

Clara Soares

Ficar online sem limite de tempo, à espera de cada vez mais doses de prazer, pode “queimar” os mecanismos de recompensa e levar meses ou anos a recuperar.

Ação!” Os olhos estão postos no ecrã e os dedos parecem ter vida própria, com os músculos do corpo ativos e o coração acelerado, ao ritmo dos movimentos oculares. Imerso na experiência virtual, o jogador mantém-se ligado e motivado a ganhar bónus, a passar para o nível seguinte, a subir na escala de pontos, sozinho ou com outros jogadores, em tempo real. Há sinapses neuronais a acontecer, e o cérebro fica inundado por picos de dopamina, o neurotransmissor conhecido pela molécula do prazer, responsável pela sensação de satisfação e de bem-estar que temos quando comemos chocolate, estamos apaixonados ou fazemos algo que estimula o centro de recompensa do cérebro, como no gaming. Segundo o neuropsicólogo Bruno Bento, numa situação de dependência – não é exclusiva do gaming mas ele também conta aqui –, a produção de dopamina “chega a ser centenas de vezes superior ao normal” e culmina na desregulação do circuito de recompensa, com efeitos danosos: “alterações na atividade cortical (a onda elétrica dos neurónios muda em frequência e amplitude), dificuldade no controlo dos impulsos e das emoções, pior memória de trabalho e dificuldades na tomada de decisão.”

Este ano, a Organização Mundial de Saúde adicionou a perturbação do jogo pela internet (internet gaming disorder) à classificação internacional de doenças (CID-11). A mesma perturbação fora já reconhecida, seis anos antes, pela Associação Americana de Psiquiatria que a incluiu, em 2013, na última revisão do Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais.

“Maldita” dopamina

O que leva a que uns entrem na espiral que conduz à adição e outros não? O psicólogo Pedro Hubert, coordenador do Instituto de Apoio ao Jogador (IAJ), destaca “os acontecimentos de vida e a predisposição genética, mas também a facilidade de acesso e a forma como a indústria desenha os jogos para manter os jogadores sempre lá”. Estamos a falar de compulsividade, geralmente associada a outros problemas psíquicos ou de adaptação e que envolvem sofrimento. Nas consultas do Núcleo de Utilização Problemática da Internet (NUPI), o único serviço público criado há quatro anos no Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, aparecem adolescentes e jovens adultos, na sua maioria do sexo masculino. Um cenário não muito diferente daquele que se verifica no IAJ. “Nos Estados Unidos da América, a média de idades é de 35 anos; aqui situa-se entre os 20 e os 25 anos, embora haja quem tenha 15 e 30”, “altura em que o cérebro ainda está em formação e fica privado de ampliar competências sociais”, sublinha Pedro Hubert. Isto, no caso de as terem desenvolvido, o que nem sempre se verifica. O problema tende a agravar-se, acrescenta o clínico, “quando já existem perturbações ansiosas e de hiperatividade”. Jogar online funciona, muitas vezes, “como uma automedicação”. Contudo, os mesmos highs que propiciam a satisfação e induzem a sensação de ser dono do jogo trazem a fatura do desinteresse pelas atividades que antes davam gozo e um sentimento de crescente alienação. Como se inverte a impaciência, a frustração, a ansiedade e a depressão que se tornam evidentes quando se quer jogar mais e tal não é permitido ou quando não se consegue chegar ao nível seguinte?

Metas em vez de escapes

Refugiar-se em cenários virtuais na pele de um avatar e fazer do jogo online uma prioridade absoluta é algo que tem mais probabilidade de acontecer nos casos em que há uma ausência de rumo, de metas ou em que predomina o medo de expor-se – e de testar-se – na presença de outros. Modificar rotinas e criar um novo estilo de vida raramente é um processo fácil. No início, é expectável o aumento temporário dos estados ansiosos e depressivos. A luz ao fundo do túnel é possível após seis a oito semanas, em média, de psicoterapia individual semanal, complementada por sessões de grupo. “É imprescindível estabelecer um contrato terapêutico e regras para uso da internet, em casa e nos espaços públicos”, esclarece Pedro Hubert. Ao longo do trabalho clínico, as pessoas “percebem que ninguém está contra elas e reconhecem o problema, sem continuar a negá-lo”, além de se identificarem com quem viaja no mesmo barco – e, o mais importante de tudo, face a face. “Ao ouvir outros e ao falar com eles sobre temas comuns, da autonomia às questões com parceiros, ganham confiança e motivação para mudarem”, adianta Bruno Bento, que colabora com o IAJ nas terapias de grupo. A vida passa a ter um novo fôlego, sem avatar (e, espera-se, sem a interdição de jogar).

 

 

 

 

 

 

Um Conto de Natal foi publicado pela primeira vez há 175 anos

Dezembro 25, 2018 às 3:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Notícia do Sol de 19 de dezembro de 2018.

Joana Marques Alves

Quem não conhece a história de Ebenezer Scrooge.

Faz hoje 175 anos que a editora Chapman & Hall publicou Um Conto de Natal, aquele que viria a ser uma das obras mais conhecidas de Charles Dickens e um dos livros que ainda hoje faz parte das festividades.

Ebenezer Scrooge tornou-se um símbolo do Natal inglês. Na história, publicada a 19 de dezembro de 1843, Scrooge é um homem avarento que detesta a época natalícia. Bob Cratchit, o seu empregado, vive com a mulher e os quatro filhos na pobreza, mas consegue ter sempre um sorriso nos lábios e uma atitude positiva.

Na véspera de Natal, Scrooge recebe a visita do seu ex-sócio, que morreu há sete anos. Jacob Marley avisa-o que é melhor começar a ser boa pessoa, senão acabará como ele: no limbo, num rebuliço eterno, sem descanso. Marley avisa o antigo sócio que receberá a visita de três espíritos que poderão ditar o seu futuro.

O primeiro é o Espírito do Natal Passado, que leva Ebenezer Scrooge até aos momentos em que era jovem e adorava o Natal. Triste com o que estava a recordar, o homem de negócios faz de tudo para voltar ao presente e o espírito acaba por desaparecer.

Depois, surge o Espírito do Natal Presente, que mostra a forma como as famílias celebram o Natal. Uma delas é a de Bob Cratchit – apesar de viverem na pobreza, os Cratchit celebram o Natal de forma feliz e unida. No final da viagem, o espírito revela duas crianças com caras terríveis – a Ignorância e a Miséria – que devem ser evitadas por todos os homens.

Por último surge o Espírito do Natal Futuro, que não diz nada e apenas aponta para a campa de Scrooge, que nem um amigo teve no funeral.

Depois da visita dos três espíritos, Scrooge acorda como um homem novo: começou a gostar do Natal, é generoso com todos e até ajudou o seu empregado, tornando-se um segundo pai para o Pequeno Tim, o filho de Bob que tem graves problemas de saúde.

Esta tornou-se uma das histórias mais conhecidas de sempre. Logo na altura em que saiu, a obra de Dickens foi um best-seller. Foram muitas as adaptações feitas ao longo dos últimos anos – as mais conhecidas são a da Disney (que tem o Tio Patinhas como Ebenezer Scrooge) e a dos Marretas (com o Sapo Cocas no papel de Bob Cratchit).

 

 

 

Cuidado com as passwords”, avisam Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada

Dezembro 25, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Miguel Manso

Notícia do Público de 26 de novembro de 2018.

Armadilha Digital é o mais recente livro das autoras de Uma Aventura, que o apresentaram nesta segunda-feira, no Porto, com a ajuda do director da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica da Polícia Judiciária, Carlos Cabreira.

Rita Pimenta texto e Miguel Manso  fotografia

Alertar os mais jovens para “riscos e perigos da Internet” através de uma história com que se identifiquem é o propósito de Armadilha Digital, o quinto livro da colecção Seguros e Cidadania, editada pela Associação Portuguesa de Seguradores (APS). Protagonistas: passwords fracas.

Quais são elas? As “relacionadas com o próprio nome, nome dos filhos, datas de nascimento, telefones, número de porta, de residência, etc.”. Exemplos que surgem no final da obra, a que se acrescenta ainda recomendações para “evitar o furto de identidade”, como “nunca revelar a palavra-passe a ninguém” ou “evitar disponibilizar os dados pessoais em sites ou plataformas que promovem encontros online, como chats e redes sociais”.

Clonagem de cartões bancários, burlas online, cópias de ficheiros, e-mails falsos e ataques aos sistemas informáticos das empresas e do Estado são outros riscos para que Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada alertam em Armadilha Digital.

As autoras, conhecidas sobretudo pela colecção Uma Aventura, contaram com a colaboração do director da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica da Polícia Judiciária, Carlos Cabreira, e com a equipa do Centro de Investigação para as Tecnologias Interactivas da Universidade Nova de Lisboa.

Ana Maria Magalhães diz ao PÚBLICO: “Podia fazer-se um livro apenas informativo. Mas os textos informativos são apelativos para um reduzido número de pessoas. A maior parte chega a meio e abandona-os.” Por isso, criaram uma história que cativasse o jovem leitor: “Uma história, para arrebatar, tem de criar empatia. Pessoas de quem se goste, pessoas que se odeie, pessoas que nos indignam, atitudes e actos absolutamente condenáveis e outros enternecedores.”

Segundo Isabel Alçada, foi preciso “virar do avesso” os textos informativos que leram. E explica: “Estavam escritos do ponto de vista de quem já sabe e não do ponto de vista de quem está na eventualidade de sofrer um problema.”

Paixão e informação

Vamos à história: um workshop sobre programação numa escola de artes e o fascínio de uma aluna pelo formador dão o mote para uma narrativa que irá revelando os perigos que corremos ao transmitir certas informações a alguém que mal conhecemos.

Sem querermos entrar em muitos pormenores da narrativa, podemos desvendar que familiares da rapariga, Beatriz, hão-de ver-se a braços com crimes de pirataria informática decorrentes da sua ingenuidade e desconhecimento. De caminho, é-nos dado conta de que existem seguros que podem minimizar os danos destes novos cibercrimes.

Descreve Ana Maria Magalhães: “Íamos contando a história e nunca mais chegávamos ao que se pretendia.” Isabel Alçada continua: “Tínhamos de dar lastro às personagens e torná-las próximas do potencial leitor.” Ana completa: “É uma história de amor. Percebe-se que a rapariga está apaixonada e que ele é enigmático.” Isabel prossegue: “Quisemos reconstituir uma realidade que torne nítida a posição de cada personagem…” Ana conclui: “… e que a pessoa sinta: podia ser eu.”

Chegar às escolas

O tema do livro foi proposto, como habitualmente nesta colecção (começou em 2013), pela directora-geral da APS, Alexandra Queiroz, devido ao crescimento “da influência dos recursos digitais nas práticas financeiras e os riscos que isso implica, sobre os quais muita gente não tem noção”, explica Isabel Alçada.

De acordo com a associação, “o objectivo principal é chegar às escolas”, estando estas publicações integradas numa “acção de esclarecimento sobre o que é o seguro, no âmbito do programa nacional de literacia financeira, com a chancela Portugal Seguro”.

O quinto volume, destinado ao 3.º ciclo e secundário, foi lançado nesta segunda-feira justamente numa “escola que tem no seu programa oficial, especificamente, a literacia em seguros”, o Agrupamento de Escolas Fontes Pereira de Melo, no Porto, em associação com a Fundação Cupertino Miranda.

Ambas as autoras admitem que alteraram comportamentos depois deste trabalho. Isabel Alçada: “Mudo as passwords de vez em quando, tenho mais cuidado quando vou ao banco online, tinha os cartões de código todos à vista e agora tenho outro cuidado e atenção.” Ana Maria Magalhães passou a usar “o cartão multibanco só dentro do banco”.

Convidar uma é convidar a outra

A trabalhar juntas desde 1982, quisemos saber se fizeram algum pacto ou contrato que as obrigue a assinar em conjunto. Divertidas, respondem: “Não, não fizemos, é implícito”, diz Isabel. Ana discorre: “Quando os miúdos nos fazem essa pergunta, eu costumo dizer: ‘Nasci com dois braços, seria muito estúpido cortar um para ver como é trabalhar só com o outro. Nós começámos juntas e correu bem. Em equipa que vence não se mexe.”

Durante todos estes anos, sempre que alguém sugere a uma das autoras algum tema ou iniciativa no âmbito da escrita para crianças e jovens, isso significa que a outra também está a ser convidada.

Dizem não estar “fartas” uma da outra, continuam amigas e vão tendo projectos em separado: Ana fez uma autobiografia, Isabel esteve no Plano Nacional de Leitura e escreveu sobre ele a solo.

Isabel Alçada recorre à geometria: “Somos secantes.” Isto para explicar que “a maior parte das actividades é em conjunto, mas depois cada uma tem a sua vida”. Ana: “Estamos óptimas assim. Se estivéssemos todos os dias a trabalhar juntas, ia tornar-se cansativo.”

O processo de trabalho mantém-se a cada novo título: lêem, estudam, investigam, cada uma por seu lado, mas recorrendo às mesmas fontes. Vão conversando, vêem se têm lacunas na investigação e se coincidem na interpretação dos documentos que consultaram. Se têm divergências sobre o entendimento de algo, recorrem a um especialista no assunto. “Depois, inventamos uma história.” Tem resultado.

Ambas ex-professoras de História, Ana já se reformou, mas Isabel ainda não. “Eu já me podia ter reformado, mas o Presidente [Marcelo Rebelo de Sousa] convidou-me para ser consultora para a Educação e eu achei muito interessante. Lá estou.”

Palavras de outros tempos

Durante a leitura de Armadilha Digital, tropeçámos em pelo menos duas expressões que nos soaram estranhas, por remeterem para tempos recuados: “dichotes e remoques” e “lançavam miradas aos seguranças”. Quisemos saber se eram propositadas e se tinham algum objectivo didáctico.

Divertidas, respondem: “Não, não é”, diz Isabel. “Escapou”, acrescenta Ana. E explica: “Muitas vezes escrevemos e depois, pensamos: espera aí, já ninguém diz isto. E cortamos. Há sempre uns que escapam, esses escaparam!”

Isabel: “Temos a preocupação de ver, no caso de o leitor não conhecer o termo, se o contexto o esclarece.” Ana: “Usamos imenso ‘mirada’. Eles tiram pelo sentido, mas temos de ter cuidado porque se não, não percebem a história.”

A compreensão por parte dos leitores sempre esteve nas suas preocupações: “Sempre tivemos a intuição de que, se tivéssemos termos, expressões ou figuras de estilo que impedissem a compreensão do texto, eles abandonavam a leitura.” Isabel lembra como os estudos entretanto realizados provam isso mesmo: “Há uma investigação na área da leitura que demonstra que, se houver, 10% de palavras que eles não conheçam o significado, rejeitam o livro.”

Sobre as frases feitas, Ana Maria Magalhães recorda um miúdo pequenino que “ria às gargalhadas” porque tinha lido a frase até então desconhecida “enquanto o Diabo esfrega um olho”. Logo Isabel Alçada se lembrou de outra criança que também se riu muito quando leu “foi num pé e veio no outro”. Convencido de que tinha ido e vindo “ao pé-coxinho”.

Acabaram por transpor essa ideia para a colecção A Bruxa Cartuxa. “Aproveitámos essas frases feitas, umas mais vulgares, outras menos. Através de magia, acontecem coisas como: ‘Nesta sala está tudo de pernas para o ar.’ E fica mesmo tudo de pernas para o ar. Eles acham imensa piada.”

A terminar, Ana refere: “Mesmo na colecção Uma Aventura, nalgumas reedições, houve termos que tiveram de ser substituídos por sinónimos. Isto por serem palavras que as pessoas deixaram de dizer completamente. Tem de se ter cuidado, estamos em 2018 e não em 1940.”

Desta colecção, Seguros e Cidadania, já fazem parte os seguintes títulos: O Risco Espreita, Mais Vale Jogar pelo Seguro (2013); Catástrofes e Grandes Desastres (2014); Um Perito em Busca da Verdade (2016); Encontro Acidental (2017), ilustrados por Carlos Marques. Em Armadilha Digital, as imagens são assinadas por João Pupo. São livros distribuídos gratuitamente nas bibliotecas escolares em articulação directa entre a APS e os professores bibliotecários.

 

 

 

Investimento na saúde mental das crianças reduz custos sociais no futuro

Dezembro 25, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 5 de dezembro de 2018.

O que não é investido na promoção da saúde das crianças e dos jovens vai reflectir-se mais tarde na maior prevalência de doenças crónicas, avisa Isabel Loureiro, vice-presidente do Conselho Nacional de Saúde.

Alexandra Campos

“As doenças começam mais cedo e a esperança de vida vai até mais tarde. Em termos de gastos para a sociedade, isto é brutal”, diz Isabel Loureiro, vice-presidente do Conselho Nacional de Saúde que esta quarta-feira apresenta o segundo estudo deste órgão consultivo do Governo em Lisboa.

Numa altura em que temos cada vez mais idosos e menos crianças, por que motivo é que optaram por estudar as políticas públicas para o grupo etário dos 0 aos 18 anos?

Quisemos chamar a atenção para áreas que têm sido descuradas. Sabemos que a sociedade está a envelhecer e que os idosos e o envelhecimento activo têm sido o foco, mas não podemos descurar aquilo que acontece no início de vida. Mesmo em termos económicos, o que não é investido na promoção da saúde das crianças e dos jovens vai reflectir-se mais tarde na maior prevalência de doenças crónicas não transmissíveis. Sabemos hoje, por exemplo, que a obesidade infantil é um dos factores determinantes da diabetes e da hipertensão. Se temos uma esperança de vida mais longa e doenças crónicas como a diabetes e a hipertensão a iniciarem-se mais cedo, o tempo que existe em termos de dependência dos serviços de saúde é muito maior. As doenças começam mais cedo e a esperança de vida vai até mais tarde. Em termos de gastos para a sociedade, isto é brutal.

 

No relatório, começam por olhar para os dados da demografia e destacam a importância das políticas e dos apoios antes e depois da gravidez e nas idades precoces. 

Se não valorizamos o nascer, se não assegurarmos que vale a pena ter crianças, porque há condições para as podermos educar, não há dúvida de que estamos condenados a uma sociedade de idosos. Se queremos reverter este cenário, temos de investir neste período do ciclo de vida [antes do nascimento e durante a gravidez], até porque os bebés de baixo peso ou prematuros têm maior risco de desenvolver determinadas patologias. Mas temos de ter depois boas condições para receber as crianças e apoiar as famílias.

Uma das áreas que destacam é a da saúde mental. Há uma grande falta de respostas para as crianças e jovens em Portugal?

Sim. Há problemas que se podem detectar precocemente e que têm de ter uma resposta imediata. Se perdemos essa oportunidade, vamos pagar isso no resto da vida. Quando falamos na necessidade de mais psicólogos nas escolas, por exemplo, não podemos olhar para esta aposta como uma questão de aumento de gastos. Trata-se, fundamentalmente, de um investimento que vai diminuir os custos em termos sociais no futuro.

Aceder ao estudo:

Gerações Mais Saudáveis – Políticas Públicas de Promoção da Saúde das Crianças e Jovens em Portugal

Carta ao aluno que não lê “Os Maias”

Dezembro 24, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Afonso Reis Cabral publicado na Visão de 6 de dezembro de 2018. Imagens da Visão

O escritor Afonso Reis Cabral, trineto de Eça de Queirós, escreveu para a VISÃO uma carta aos estudantes sobre o “calhamaço” publicado há 130 anos e ensinado nas nossas escolas. “Vês como respira? Como precisa de ti para sobreviver?”

O calhamaço que te obrigam a ler na escola está velho. Foi escrito há 130 anos (imagina a tua vida multiplicada por oito), é pois natural que te pareça demasiado pesado, um cadáver de papel do qual queres livrar-te o mais rapidamente possível. Mas atenção, tem calma. Pega-lhe com cuidado, sopesa-o na palma da mão como o telemóvel do qual dependes.

Vês como respira? Como precisa de ti para sobreviver?

Eu sei: a obrigação pesa. Só o facto de te meterem o livro à frente, de o analisarem contigo; pior, de o limitarem àquele tipo de estudo muito vazio que visa o exame, só isso já te estraga a vontade. A mim também estragou. Mas repara: o Eça não tem culpa de o submeterem à burocracia do ensino, de o terem posto nessa camisa de forças, e de te obrigarem a ti, que tens mais que fazer, a acatar ordens. Pensa que ele não escreveu para ti. Quer dizer, para te estragar a vida. Muito pelo contrário.

Talvez por te sentires encurralado, preferes trocar apontamentos nos corredores, pedir os esquemas ao idiota útil que até conseguiu ler a obra toda, ou, mais simples, talvez te decidas pelos primeiros cinco resultados no Google. Estes falam das características físicas e psicológicas das personagens, dão-te tabelas com datas, citações, resumos de cada capítulo, expõem a biografia do Eça – esse escanzelado de monóculo –, explicam a analepse inicial, sempre gigantesca, mostram laivos da vida no século XIX, e descrevem o virar do Romantismo para o Realismo. Mas que te interessa a ti como viviam as pessoas daquela época? De facto, concluis tu, só um parvo pode achar que este livro tem qualquer interesse.

Os bons professores libertam-se dos formalismos do ensino burocrático e são generosos a ponto de te mostrarem Os Maias a outra luz, apesar de perceberem que tentas ignorá-los. Querem mostrar-to não como livro-montanha, uma seca difícil de escalar, mas sim como porta para a descoberta.

Se te mantiveres na tua, até podes acabar o ano lectivo com uma nota decente no exame e a consciência tranquila. Mas confessa lá, sê honesto. Apesar dos muitos preconceitos, aposto que algures entre os teus afazeres já surgiu uma suspeita inquietante.

De noite, ouves um chamamento vindo da mochila onde esqueceste o calhamaço, como se este cantasse baixinho. Embora queiras rejeitá-lo, talvez acabes por aceitar, e ainda agora to disseram na aula de Português, que estás no limiar da tal descoberta.

Por isso levantas-te, resgatas o livro (sim, tem 130 anos mas aguenta-se firme enquanto o manuseias) e passas além de “A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na rua de São Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.”

Quando dás por ti, a obrigação de ler nada significa; depois de superares a primeira descrição mais longa, os diálogos mais enfadonhos, estás em pleno ritual de passagem, cativado por essa coisa maravilhosa e produtiva chamada curiosidade; quando chegas a meio, percebes que o medo do desconhecido, que até então te constrangia, caracteriza quem evita crescer; e ao acabares, até sorris num momento autodepreciativo próprio de quem é inteligente.

Descobriste que a ironia é uma forma de realçar incongruências (o “foi ali” de Alencar), que a cultura é insignificante se não entrarmos a fundo na vida (Carlos da Maia, a quem tudo foi dado, nada fez), que há sempre dois lados na mesma relação (os beijos da condessa de Gouvarinho a compensarem a indiferença de Carlos), que o humor ilumina os momentos mais tensos (Vilaça a buscar o chapéu em plena conversa difícil), e que a procura de projecção social sem substância é ridícula (quantos Dâmasos Salcede não existem no Instagram?), entre tantos outros exemplos.

Tal como te avisaram, percebes que ainda hoje muitas das pessoas que ali encontras se repetem, não porque a nossa sociedade seja igual à do século XIX, mas porque o ser humano continua o mesmo, e o Eça conseguiu captá-lo na sua universalidade.

Repara que nem falei de incesto. Mas se queres ir por aí, muito bem: vais encontrar dois irmãos na cama, sendo que um deles continua a deitar-se nela mesmo depois de saber a verdade. Deixo-te o spoiler porque a boa literatura não depende só do enredo.

Se ainda não estiveres convencido, asseguro que este livro, embora calhamaço, te vai dar simplesmente o prazer único e memorável de uma boa história.

Enquanto tens esse prazer, usas o melhor dos músculos. O mais potente. Exercitas o cérebro contra a superficialidade, conheces os fios que cosem o dia a dia, enriqueces o raciocínio – vais ganhando experiência. Na verdade, precisas de muitas vidas para viver a tua vida, e podes encontrá-las nos livros.

A tua obrigação não é para com a escola, os professores, a nota. A tua única obrigação é para contigo, para com o teu próprio crescimento, e obras como Os Maias e escritores como o Eça de Queiroz dão-te armas para o futuro.

Se suspeitares disto e mesmo assim decidires não ler, preferindo resumos que esquecerás logo depois do exame, paciência. Tu é que ficas a perder.

 

 

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