Carta ao aluno que não lê “Os Maias”

Dezembro 24, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Afonso Reis Cabral publicado na Visão de 6 de dezembro de 2018. Imagens da Visão

O escritor Afonso Reis Cabral, trineto de Eça de Queirós, escreveu para a VISÃO uma carta aos estudantes sobre o “calhamaço” publicado há 130 anos e ensinado nas nossas escolas. “Vês como respira? Como precisa de ti para sobreviver?”

O calhamaço que te obrigam a ler na escola está velho. Foi escrito há 130 anos (imagina a tua vida multiplicada por oito), é pois natural que te pareça demasiado pesado, um cadáver de papel do qual queres livrar-te o mais rapidamente possível. Mas atenção, tem calma. Pega-lhe com cuidado, sopesa-o na palma da mão como o telemóvel do qual dependes.

Vês como respira? Como precisa de ti para sobreviver?

Eu sei: a obrigação pesa. Só o facto de te meterem o livro à frente, de o analisarem contigo; pior, de o limitarem àquele tipo de estudo muito vazio que visa o exame, só isso já te estraga a vontade. A mim também estragou. Mas repara: o Eça não tem culpa de o submeterem à burocracia do ensino, de o terem posto nessa camisa de forças, e de te obrigarem a ti, que tens mais que fazer, a acatar ordens. Pensa que ele não escreveu para ti. Quer dizer, para te estragar a vida. Muito pelo contrário.

Talvez por te sentires encurralado, preferes trocar apontamentos nos corredores, pedir os esquemas ao idiota útil que até conseguiu ler a obra toda, ou, mais simples, talvez te decidas pelos primeiros cinco resultados no Google. Estes falam das características físicas e psicológicas das personagens, dão-te tabelas com datas, citações, resumos de cada capítulo, expõem a biografia do Eça – esse escanzelado de monóculo –, explicam a analepse inicial, sempre gigantesca, mostram laivos da vida no século XIX, e descrevem o virar do Romantismo para o Realismo. Mas que te interessa a ti como viviam as pessoas daquela época? De facto, concluis tu, só um parvo pode achar que este livro tem qualquer interesse.

Os bons professores libertam-se dos formalismos do ensino burocrático e são generosos a ponto de te mostrarem Os Maias a outra luz, apesar de perceberem que tentas ignorá-los. Querem mostrar-to não como livro-montanha, uma seca difícil de escalar, mas sim como porta para a descoberta.

Se te mantiveres na tua, até podes acabar o ano lectivo com uma nota decente no exame e a consciência tranquila. Mas confessa lá, sê honesto. Apesar dos muitos preconceitos, aposto que algures entre os teus afazeres já surgiu uma suspeita inquietante.

De noite, ouves um chamamento vindo da mochila onde esqueceste o calhamaço, como se este cantasse baixinho. Embora queiras rejeitá-lo, talvez acabes por aceitar, e ainda agora to disseram na aula de Português, que estás no limiar da tal descoberta.

Por isso levantas-te, resgatas o livro (sim, tem 130 anos mas aguenta-se firme enquanto o manuseias) e passas além de “A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na rua de São Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.”

Quando dás por ti, a obrigação de ler nada significa; depois de superares a primeira descrição mais longa, os diálogos mais enfadonhos, estás em pleno ritual de passagem, cativado por essa coisa maravilhosa e produtiva chamada curiosidade; quando chegas a meio, percebes que o medo do desconhecido, que até então te constrangia, caracteriza quem evita crescer; e ao acabares, até sorris num momento autodepreciativo próprio de quem é inteligente.

Descobriste que a ironia é uma forma de realçar incongruências (o “foi ali” de Alencar), que a cultura é insignificante se não entrarmos a fundo na vida (Carlos da Maia, a quem tudo foi dado, nada fez), que há sempre dois lados na mesma relação (os beijos da condessa de Gouvarinho a compensarem a indiferença de Carlos), que o humor ilumina os momentos mais tensos (Vilaça a buscar o chapéu em plena conversa difícil), e que a procura de projecção social sem substância é ridícula (quantos Dâmasos Salcede não existem no Instagram?), entre tantos outros exemplos.

Tal como te avisaram, percebes que ainda hoje muitas das pessoas que ali encontras se repetem, não porque a nossa sociedade seja igual à do século XIX, mas porque o ser humano continua o mesmo, e o Eça conseguiu captá-lo na sua universalidade.

Repara que nem falei de incesto. Mas se queres ir por aí, muito bem: vais encontrar dois irmãos na cama, sendo que um deles continua a deitar-se nela mesmo depois de saber a verdade. Deixo-te o spoiler porque a boa literatura não depende só do enredo.

Se ainda não estiveres convencido, asseguro que este livro, embora calhamaço, te vai dar simplesmente o prazer único e memorável de uma boa história.

Enquanto tens esse prazer, usas o melhor dos músculos. O mais potente. Exercitas o cérebro contra a superficialidade, conheces os fios que cosem o dia a dia, enriqueces o raciocínio – vais ganhando experiência. Na verdade, precisas de muitas vidas para viver a tua vida, e podes encontrá-las nos livros.

A tua obrigação não é para com a escola, os professores, a nota. A tua única obrigação é para contigo, para com o teu próprio crescimento, e obras como Os Maias e escritores como o Eça de Queiroz dão-te armas para o futuro.

Se suspeitares disto e mesmo assim decidires não ler, preferindo resumos que esquecerás logo depois do exame, paciência. Tu é que ficas a perder.

 

 

Oito mil histórias para adormecer e mais uma contada a crianças nos hospitais

Dezembro 24, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Notícia do Sapo24 de 3 de dezembro de 2018.

Miguel Morgado

O sono e as leituras de cabeceira juntaram à mesa duas psicólogas, uma blogger, uma empresa de distribuição (Lidl Portugal) e uma associação, a Nuvem Vitória. Associação conta histórias para adormecer a crianças que estão em hospitais ou instituições. Até 2020, quer triplicar o número de 300 voluntários e adormecer 50 mil crianças.

A temática do sono e a importância de contar de histórias de embalar às crianças. O mote juntou à mesa duas psicólogas, Teresa Rebelo Pinto e Clementina Pires de Almeida, uma blogger, Rita Ferro Alvim e uma associação (Nuvem Vitória), representada na pessoa de quem a criou e preside, Fernanda Freitas, ex-jornalista.

Como pano de fundo, juntando as quatro vozes num encontro marcado num café (Amélia), em Campo de Ourique, Lisboa, uma empresa de distribuição (Lidl Portugal) lançou uma campanha de Natal (que decorre até 30 de dezembro) integrada na estratégia de Responsabilidade Social para apoiar a Nuvem Vitória, associação criada em 2016 que através dos seus 300 voluntários espalhados nos hospitais de Santa Maria, em Lisboa, de São João, no Porto, e de Vila Franca de Xira, e no Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão lê histórias para adormecer a crianças que estão nessas hospitais e instituições.

“A maior parte das pessoas desvaloriza o sono. É uma perda de tempo, pensam”, alertou Teresa Rebelo Pinto, psicóloga, especialista em sono. “Focamo-nos muito na alimentação e no desporto e secundarizamos a importância do sono”, acrescentou Rita Ferro Alvim, blogger.

“Quando nascemos não temos o ritmo do sono interiorizado. O sono aprende-se e reaprende-se. E temos que ajudar as crianças a aprender”, referiu a psicóloga, Teresa Rebelo Pinto. Porquê? “Quando dormimos pouco, o sistema imunitário fica mais fraco, temos mais dificuldades cognitivas e relacionais”, descreveu.

No caso das crianças, que ficam “mais excitadas e agitadas”, socorre-se de estudos que associam a “redução/privação do sono e o insucesso escolar”, registando-se ainda “níveis mais elevados de agressividade”, perturbações e riscos de “obesidade (quatro vez mais provável)” ou “ansiedade e diabetes” alertou. “As doenças do sono, não só insónias, têm que ser tratadas por um especialista; não é o vizinho, nem é o tempo que ajuda a passar”, rematou Teresa Rebelo Pinto.

Para Clementina Pires de Almeida, psicóloga clínica, especialista em bebés, ao contar histórias para adormecer “estamos a contribuir para o desenvolvimento cerebral” sendo que essa leitura de cabeceira terá “uma repercussão a nível de velocidade de processamento e domínio a linguagem” das crianças, sublinhou.

Ao nível do sono, as histórias, incluídas na rotina para adormecer, são “momentos de conexão e em que podemos ajudá-los a acalmar”. Em contexto hospitalar, essa rotina, tem um impacto mensurável. “Pode ser usada como uma ferramenta terapêutica não invasiva com resultados fantásticos na recuperação da criança”, sustentou, como seja o “alívio da dor, da ansiedade e a diminuição do stress”, exemplificou.

Nuvem Vitória quer adormecer 50 mil crianças

Fernanda Freitas, ex-jornalista da RTP e presidente da Associação Nuvem Vitória, sempre gostou de “dormir” e “contar histórias” relatadas “ao nível de voluntariado no hospital”, assumiu.

“Criar uma resposta a um problema que não tinha resposta”, esteve na base da criação deste voluntariado em hospitais. “Contar histórias à partida onde as crianças gostam de as ouvir e onde os voluntários têm (mais) tempo, não interferindo com o horário de trabalho”, acrescentou. O projeto-piloto, esse, nasceu em Santa Maria, apoiado num “estudo de ambiente de pediatria”.

Hoje, a Nuvem Vitória contabiliza “8 mil histórias e 6 mil horas de voluntariado”. E aponta a um compromisso futuro de até 2020 “abrir em 10 unidades e IPSS”, ter “900 voluntários” e chegar à leitura para “50 mil crianças hospitalizadas ou institucionalizadas”, assumiu Fernanda Freitas, presidente da associação cuja missão é a de contar histórias para adormecer a crianças hospitalizadas.

http://nuvemvitoria.pt/

 

Um pacote de leite gigante para alertar para o drama das crianças separadas das famílias

Dezembro 24, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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DR

Notícia do Público de 6 de dezembro de 2018.

A instalação foi montada em Venice Beach, na Califórnia, para alertar para a separação de 14 mil crianças dos pais na fronteira dos Estados Unidos. O projecto da agência 72andSunny também lançou uma petição para tentar reverter a situação.

Rui Pedro Paiva

Um pacote de leite gigante. Dentro dele, vários outros pacotes de leite — mais pequenos — com palavras escritas: “Freedom”, “family”, “future”. Representam aquilo que as 14 mil crianças detidas na fronteira dos Estados Unidos estão a perder. Perdem liberdade, perdem família e perdem futuro.

O objectivo da instalação 14,000 and Counting (em português, 14 mil e a contar), da agência 72andSunny, é alertar para a situação na fronteira dos Estados Unidos, onde crianças são separadas da família e reencaminhadas para tendas e armazéns, enquanto os pais são detidos para julgamento. Os criadores da obra citam o The San Francisco Chronicle para destacar que em Novembro o número de crianças sob custódia governamental chegou a 14 mil. Apesar de a situação não ser inédita no país, aumentou de proporções após a política de imigração da administração de Donald Trump.

“Cada embalagem é uma representação visual de uma criança imigrante mantida em centros de detenção em todo o país”, referiu Meagan Phillips, da residência 72u, a propósito da obra montada na Windward Plaza, Califórnia. A instalação 14,000 and Counting foi inaugurada a 28 de Novembro e irá permanecer em Venice Beach até sábado, 8 de Dezembro.

No site do projecto, é possível assinar uma petição que apela ao congresso americano que reverta a actual legislação. Também é possível contribuir financeiramente para organizações que procuram combater políticas anti-imigração e associações que prestam auxílio a estas crianças (como a União Americana pelas Liberdades Civis ou a Families Belong Together).

A residência criativa 72U do estúdio 72andSunny tem como missão potenciar a “mudança social positiva através da criatividade radical” através da exploração da “arte, tecnologia e cultura”.

 

 

 

 


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