“Onde as crianças correm maior perigo é dentro das próprias famílias” Entrevista de Manuel Coutinho do IAC à revista Sábado

Novembro 20, 2018 às 8:00 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

Notícia da Sábado de 20 de novembro de 2018.

por Mariana Branco

Esta terça-feira celebra-se o Dia Universal dos Direitos da Criança. À SÁBADO, o secretário-geral do Instituto de Apoio à Criança garante que apesar de a situação das crianças em risco ter melhorado em Portugal há ainda “um trabalho muito grande” pela frente.

Esta terça-feira, 20 de Novembro, celebra-se o Dia Universal dos Direitos da Criança. Para o assinalar, o Instituto de Apoio à Criança (IAC) organizou um concerto solidário no Altice Arena, em Lisboa, e a UNICEF Portugal e o Ministério da Justiça organizam a primeira UNICEF Youth Talk em Portugal, um encontro com crianças e jovens com o objectivo de reflectir sobre o papel da justiça na defesa dos direitos da criança.

“As crianças, de um modo geral, são os seres mais vulneráveis. As crianças que vivem em ambientes mais vulneráveis, em contextos socioeconómicos mais deficitários, as que privam de perto com pessoas desestruturadas, são frequentemente as crianças que se apresentam numa situação de maior risco”, explicou à SÁBADO Manuel Coutinho, secretário-geral do IAC. Consequentemente há, de acordo com o psicólogo, “um trabalho muito grande a fazer no sentido de perceber claramente onde é que estas crianças se encontram”.

“Há ainda em Portugal, e no mundo, uma grande zona cinzenta que leva a que estes casos não sejam conhecidos”, contou Manuel Coutinho, explicando que “quando as crianças em risco ou em perigo estão integradas em famílias mais estruturadas” os casos são, muitas vezes, mais facilmente detectados. No entanto, nos casos das crianças “em contextos sociais mais fragilizados, de famílias mais disruptivas”, a sociedade por vezes “esquece-se de denunciar essas situações, esquecendo-se também que todas as crianças são crianças e que todas as crianças têm o direito de ser protegidas”.

“A protecção da criança é um dever de todos nós enquanto cidadãos. Não é só um dever do Estado ou um dever das organizações da sociedade civil. É um dever que cada um de nós tem: não permitir que uma criança esteja a passar por uma situação de risco ou por uma situação de perigo. Na dúvida devemos denunciar”, garantiu o psicólogo.

Como ajudar estas crianças?
Por norma, quem está mais em risco são as crianças mais novas, afirmou Manuel Coutinho, ressalvando que “essas, por vezes, não têm ainda capacidade de dizer que estão a ser maltratadas”. Assim, “as crianças precisam de ter um adulto que as ajude, que apresente o caso a quem de direito para que seja devidamente avaliado”.

Além disso, explicou, “onde as crianças correm maiores perigos é dentro das próprias famílias, é perto dos seus agregados familiares. É lá que elas muitas vezes são abusadas sexualmente, que são batidas, é lá que com muita frequência os seus direitos ficam desprotegidos”. É por isso necessário “toda a comunidade para ajudar a sensibilizar para estas situações”.

Manuel Coutinho considera que a situação das crianças em risco tem melhorado em Portugal. “Nos últimos anos tem havido uma grande melhoria. A criança hoje está na agenda do dia e a sociedade já não tolera maus-tratos sobre as crianças. Hoje em dia, os maus-tratos sobre as crianças, a humilhação, o mau trato físico, psíquico ou emocional, são vistos de uma forma muito negativa por toda a sociedade”, assegurou o psicólogo. “Hoje em dia a criança começa a ser cada vez mais respeitada por toda a sociedade”.

Crianças devem ser ouvidas para políticas públicas que lhes digam respeito
Segundo a presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens, o caminho dos direitos das crianças tem de ser reforçado, com as políticas da infância e da juventude a precisarem de “empoderamento para chegarem cada vez mais longe”.

“Ao investirmos na infância e na juventude estamos a investir no futuro do país e acho que há ainda um caminho que pode ser feito, melhor, mais profundo e mais musculado”, salientou Rosário Farmhouse em declarações à Lusa.

“Acho que deveríamos rever os tempos das crianças, até porque a infância é só uma e passa muito depressa e acredito que, com esta vontade de querermos que as crianças tenham todas as oportunidades e capacidades para um mundo competitivo que temos hoje, nos esquecemos de lhes dar o tempo para brincarem sem horário”, sublinhou.

Farmhouse defendeu ainda que as famílias precisam de criar momentos de convívio físico e não virtual com as suas crianças, sem estarem agarrados a outras ferramentas e sem estarem muito controlados pelo tempo. “Esta pressão para lhes dar todas as oportunidades está-nos a desfocar do que é fundamental, que é estar com os filhos sem horários”.

Linha de apoio
Para denunciar situações de crianças em risco ou em perigo, o Instituto de Apoio à Criança (IAC) tem a funcionar um número (116111) “para onde todas as pessoas, anonimamente, podem e devem apresentar situações que possam estar a fazer perigar o desenvolvimento harmonioso e a personalidade das crianças em risco”, avisa Manuel Coutinho.

Com Lusa.

 

 

Concerto Solidário “Crianças Somos Todos Nós” 35 anos do IAC – Hoje 21.30 no Altice Arena

Novembro 20, 2018 às 2:28 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

http://www.iacrianca.pt/concerto35anos/

Crianças somos todos nós – Entrevista de Manuel Coutinho do IAC à Rádio Renascença

Novembro 20, 2018 às 10:40 am | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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“A linha SOS-Criança (116 111) já funciona desde 1988. Por vezes fico feliz quando vejo que o número de chamadas de crianças em perigo ou em risco tem vindo a diminuir. É sinal que o trabalho de prevenção e as campanhas de sensibilização têm ajudado a mudar mentalidades. O que eu tenho algum receio é aquilo que nós chamamos as cifras negras, ou seja, são aquelas crianças que ainda são maltratadas e das quais não é dada notícia. Mas olho sempre para as coisas com uma perspetiva animadora, sou otimista”.

Manuel Coutinho
(Secretário Geral do Instituto de Apoio à Criança)

Ouvir a entrevista do dia 16 de novembro de 2018 no link:

https://rr.sapo.pt/artigo/130986/manuel-coutinho

 

Como lidar com um aluno problemático

Novembro 20, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de João André Costa para o jornal Público, publicado em 7 de novembro de 2018.

A culpa do mau comportamento nas escolas não é das crianças, nunca foi, não será e não pode ser. A culpa é nossa, dos adultos, a começar pelos pais e familiares mais próximos e a acabar nos professores e na escola.

Dois anos é quase tanto tempo como um curso superior — e foi, foi um curso superior nalgumas das piores escolas da capital para chegar ao fim e aprender uma e uma só verdade: a culpa do mau comportamento nas escolas não é das crianças, nunca foi, não será e não pode ser. A culpa é nossa, dos adultos, a começar pelos pais e familiares mais próximos e a acabar nos professores e na escola.

Dois anos para compreender este conceito tão simples. Poderá dizer-se que, se calhar, sou um pouco estúpido, e provavelmente sou, mas pouco importa, já me chamaram pior, e entretanto também é verdade que poucos são os que, como eu, conseguem, dia após dia, continuar a ajudar e a trabalhar estas crianças e estes pais, pais esses tantas vezes tão adolescentes como os filhos.

Mas, perguntava eu no título deste texto, como lidar com um aluno, ou alunos, problemáticos? Querendo ouvir o aluno, querendo conhecer o aluno, dando a ele e a ela espaço para falar, atenção e tempo para se fazer ouvir, sem juízos de valor, sem preconceitos, sem querer saber da papelada toda que com eles vem quando nos chegam às mãos.

Porque o poder falar para quem nos quer ouvir cria de imediato esta sensação de pertença, de termos quem nos aceite, criando segurança, conforto, dando assim à criança, ao futuro adulto, a oportunidade de subir mais um pouco na pirâmide de Maslow e alimentar a auto-estima, o amor próprio, a realização pessoal.

Estabelece-se assim uma relação de confiança mútua desde o princípio com o aluno e os pais, connosco e com os demais professores, um de cada vez, porque há tempo, carinho, preocupação e paciência. Porque o nosso trabalho não é apenas académico, é interpessoal, social.

Dado este primeiro passo, o que fazer então naqueles dias maus, quando os alunos batem, cospem, pontapeiam e esperneiam, comunicando por actos e emoções?

Retiramos os outros alunos do espaço em redor, de modo a garantir a sua segurança, socorremo-nos de um, dois, às vezes mais, colegas e damos espaço e tempo para o aluno se acalmar. Por norma, o colega com a melhor relação com o aluno começa a conversa. Às vezes não resulta, sendo que nos revezamos uns aos outros até que a conversa comece de facto.

De caminho chamamos o pai ou a mãe, quando os há, para ajudar, dialogar, falar, para que a criança deite cá para fora tudo aquilo que acabou de ruir. E perdoamos, reparamos o mal feito e ajudamos o aluno a reparar o mal feito, amanhã é outro dia, um novo dia tão bom como qualquer outro para começar de novo e outra vez.

Como é que lidamos com alunos problemáticos? Dando-lhes uma segunda, terceira, quarta e mais hipóteses, dando uma e a outra face, outra e outra vez e tantas vezes quanto as precisas até que a criança cresça. Às vezes demora um mês, na maior parte dos casos seis. E por isso a paciência. E por isso é que demorei dois anos a apreender o ciclo, a observar o ciclo e a acreditar.

E porque acreditamos, continuamos, aprendemos, compreendemos, discutimos, reformulamos, procuramos soluções sem nunca parar, sem sonhar desistir. Se desistirmos, as crianças desistem connosco: não têm mais ninguém.

Mãos à obra! Há tantas crianças por ajudar.

 


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