Intimidação infantil não olha à idade. Guia anti-bullying para pais que se preocupam

Novembro 8, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto e imagem do site Sapo Lifestyle

Psiquiatra da infância e adolescência ensina a lidar com esta forma de violência praticada e sofrida por crianças e adolescentes. “Os cenários mais frequentes são, sem dúvida, as escolas”, alerta Patrícia Almeida, em entrevista à Prevenir.

Metade dos alunos com idades entre os 13 e os 15 anos sofre bullying na escola, como denuncia um estudo da Unicef divulgado no início de setembro de 2018. Uma realidade que, com o passar dos anos, se tem vindo a agravar. Em 2004, 22,1% dos alunos de escolas nacionais entre os 11 e 16 anos foram vítimas de intimidação, enquanto 9,4% eram agressores e 27,2% tanto vítimas como agressores, revelou uma investigação portuguesa.

Um estudo levado a cabo, com amostras nacionais representativas, pelas investigadoras Susana Carvalhosa e Margarida Gaspar de Matos. Criado na década de 1990 pelo investigador norueguês Dan Olweus, quando pesquisava sobre tendências suicidas entre jovens adolescentes, o termo bullying, intimidação em português, refere-se a um tipo específico de violência que ocorre entre pares, geralmente na escola.

Embora o termo esteja cada vez mais em voga, o desconhecimento sobre os contornos do fenómeno continua presente. E, mais grave, convive com “a noção, de pais e educadores, de que este tipo de comportamento é uma parte normal do crescimento”, sublinham as autoras. Para compreendermos quais as suas causas, consequências e formas adequadas de atuar, entrevistámos Patrícia Almeida, psiquiatra da infância e adolescência.

O que é o bullying?

Bullying é o termo utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica a uma criança, realizados de forma intencional e repetida no tempo, por uma ou mais crianças, numa situação em que é manifesto o desequilíbrio de poder. Por exemplo, quando a criança agredida é mais fraca, tem menor estatura, é mais nova, menos popular ou mais insegura.

Que tipos de bullying existem?

O chamado bullying direto toma forma através de agressões verbais e físicas e é o método preferido pelo sexo masculino. No bullying indireto, a vítima é forçada ao isolamento social. Isto pode ser feito através da disseminação de boatos, da exibição de episódios de agressão filmados em telemóvel na internet ou da intimidação de outras crianças amigas da vítima.

Este é o método preferido pelo sexo feminino. São exemplos de bullying a agressão física contra a criança e/ou os seus pertences, os insultos verbais, impedir outras crianças de brincarem com a vítima, espalhar boatos sobre ela e o ciberbullying.

Em que consiste o ciberbullying?

Pode tratar-se da publicação de fotografias manipuladas da vítima na internet ou de vídeos de agressões ou, ainda, de os agressores assumirem a identidade da vítima em redes sociais com o objetivo de combinar encontros íntimos, entre outros.

Em que locais pode ocorrer este tipo de agressão?

Os cenários mais frequentes são, sem dúvida, as escolas, mas o bullying  pode ocorrer em qualquer contexto onde estejam presentes crianças, como a catequese, os clubes desportivos ou ainda outros espaços.

De que forma atuam os agressores?

São exemplos de bullying a agressão física contra a criança ou os seus pertences, os insultos verbais, impedir outras crianças de brincar com a vítima e espalhar boatos. No âmbito do cyberbullying, é possível publicarem na internet fotos manipuladas da vítima ou vídeos de agressões, bem como assumirem a identidade da vítima em redes sociais com o objetivo de combinar encontros íntimos, entre outros.

Quais as causas do bullying?

São variadas. São frequentes situações em que o agressor transporta para a escola a agressividade que vivência em casa, quer como espetador quer como vítima. Neste caso, estas experiências transmitem ao agressor a noção de que a violência e as ameaças são meios aceitáveis para obter o que querem. Por outro lado, também não são raros os casos em que a motivação para o ato assenta no sentimento do agressor de que a vítima possui algo que ele não tem, tal como sucesso escolar ou bens materiais.

Qual o perfil psicológico dos agressores?

Os agressores são frequentemente filhos de pais mais agressivos, que reagem com violência à frustração, usando frequentemente castigos físicos. Têm dificuldade em colocar-se no papel dos outros, são impulsivos, têm dificuldade em acatar regras e têm, por norma, mau rendimento escolar.

O que torna as vítimas alvos preferenciais?

As vítimas são crianças com dificuldade em defender-se, com baixa autoestima, inseguras, com receio de se queixarem a pais e educadores, eventualmente por tentativas falhadas anteriores, mais ansiosas e com humor depressivo.

Como deve reagir uma vítima ou testemunha de agressão?

Face ao bullying, a única solução é a denúncia. O tema deve ser abordado em casa e debatido nas escolas com programas específicos de prevenção da violência escolar, para que as crianças saibam o que fazer se forem agredidas. Outra solução passa pelo apadrinhamento dos caloiros por alunos mais velhos com a missão de os proteger e integrar. O medo de agravar a situação é, muitas vezes, o que leva a criança a calar-se, sendo esta a principal causa de perpetuação da situação.

Que sinais podem denunciar aos pais que o seu filho é vítima de bullying?

Os sinais são vários, mas inespecíficos. Os pais devem estar atentos a atitudes e comportamentos de ansiedade, tristeza, perturbações do comportamento alimentar, choro persistente, diminuição de interesse em atividades até aí preferidas, cansaço persistente, irritabilidade, raiva, hostilidade, dores de cabeça ou barriga, recusa escolar, diminuição do  rendimento escolar, perturbações do sono, enurese (perda involuntária de urina), isolamento dos colegas e/ou medo de se separar dos pais.

E no caso de o filho ser agressor?

Os sinais de suspeita de que uma criança é agressora são ainda mais inespecíficos, sendo a denúncia do agredido geralmente o único meio de detecção da situação.

O que podem os pais fazer para ajudar um filho que é agredido?

Face à denúncia, a criança agredida deve ser tranquilizada por pais e educadores quanto à ausência de culpa na situação e de que fez a coisa certa ao denunciar. Nesta altura, compete à escola tomar providências para que a agressão não volte a acontecer, chamando o agressor, castigando-o, informando os pais ou, em casos mais graves, mudando-o de escola.

Importante também é sinalizar o agressor para uma consulta de psiquiatria infantil com o objetivo de perceber e tratar as causas da perturbação. Em casos raros em que a escola não consegue travar o agressor, dever-se-à sinalizar o caso à polícia e à comissão de crianças em risco.

Quais são as possíveis consequências do bullying para as vítimas?

As consequências para as vítimas podem ser variadas, nomeadamente depressão, isolamento social, ansiedade, baixa autoestima, identificação com o agressor, passando de vítima a ofensor e, em casos mais raros, suicídio.

E para os agressores?

As consequências para os agressores são geralmente a evolução para a idade adulta com dificuldades em funcionar em sociedade, com regras e normas, com consequentes dificuldades de relacionamento, instabilidade laboral e até envolvimento em crimes.

Que mensagem de esperança pode deixar aos pais que têm filhos afetados por este fenómeno?

A minha experiência profissional é de sucesso em todos os casos denunciados. E nunca se esqueçam que quem cala uma agressão a uma criança é co-responsável por ela!

Texto: Rita Miguel com Patrícia Almeida (psiquiatra da infância e adolescência)

 

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