Um dia na vida de um aluno com dislexia

Outubro 11, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Sapolifestyle de 1 de março de 2018.

Para os alunos com dislexia cada aula pode ser uma luta, na medida em que, quase todas as disciplinas dependem da leitura e ortografia. Dislexia pode, assim, levar, também, a problemas sociais, emocionais e comportamentais. Use este guia visual para saber como esta perturbação da aprendizagem específica afeta o quotidiano do seu filho.

Henrique é um aluno de 11 anos. Tem necessidades educativas especiais. A inteligência é uma das suas principais características, mas os problemas de leitura condicionam-lhe o dia-a-dia. Uma simples tarefa, fácil de executar para a maior parte dos seus colegas, pode transformar-se num verdadeiro quebra-cabeças para um aluno com dislexia.

Vejamos como é, afinal, um dia típico na vida de Henrique:

Problemas relacionados à dislexia: Baixa autoestima e abandono escolar

6h15

Acorda cedo com o despertador mas, logo desliga o alarme e não quer sair da cama. Depois de tantos comentários sobre o quão lenta e sofrida é a sua leitura, Henrique deixa-se levar pela pressão e prefere nem pensar na escola. Imaginar entrar numa sala de aula é suficiente para o destabilizar. Um dia, chegou a fingir uma dor de estômago para justificar a falta. Não tem dúvidas: os melhores dias são aqueles em que fica em casa, longe do stress que as aulas lhe provocam.

Problemas relacionados à dislexia: Compreensão de leitura e escrita à mão

8h30

Chegou o dia. Henrique não está preparado para o teste de história.

Tentou terminar os trabalhos de casa, mas as dificuldades na leitura são tão evidentes que apenas conseguiu concluir alguns parágrafos. E, como demorou tanto tempo para ler e perceber cada frase, como sempre, teve dificuldade em entender o texto na sua globalidade.

Não se pode dizer o contrário: Para além de inteligente, Henrique, também é esforçado! Quer ultrapassar os obstáculos que o impedem de ter sucesso escolar. Nas aulas costuma ouvir atentamente o professor e, ainda que de forma pouco organizada, tenta retirar notas/apontamentos da matéria mais importante, mas não chega. Henrique precisa de acompanhamento especializado para conseguir superar as suas dificuldades. E assim, o teste, quinta-feira, advinha-se um pesadelo.

Problemas relacionados à dislexia: Descodificação e memória de trabalho

10h30

Henrique gosta de matemática, exceto dos problemas. Levam-lhe uma eternidade a ler e compreender. Dificilmente consegue reter e sistematizar o que lê e, como era de esperar, não os consegue resolver, por muito que tente. Geralmente, comete erros simples, por exemplo, como mudar dois números ou misturar a sequência de etapas. Ou seja, a resposta está, quase sempre errada, apesar de até ter adquirido e entendido os conceitos e ter um bom raciocínio lógico-matemático.

Problemas relacionados à dislexia: Reconhecer palavras à vista, construir vocabulário e consciência fonológica

12h30

É difícil para Henrique relaxar durante o almoço. Tem trabalhos de casa para fazer e precisa de ajuda. Sozinho não os consegue fazer. Por isso corre na escola, desenfreado, à procura de uma ajuda-extra dos professores. Aproxima-se o teste de vocabulário de francês e Henrique está preocupado. Por muito que olhe para os flashcards sobre a matéria, parece sempre que os olha pela primeira vez. Infelizmente, um problema, não exclusivo, da disciplina de francês – é transversal às outras. As palavras, simplesmente, não lhe “ficam” na memória.

Problemas relacionados à dislexia: Aprender uma língua estrangeira e evitar tarefas

13h30

A aula de francês é, sem dúvida, das mais difíceis. Se Henrique já tem imensos problemas para ler e escrever em português, mais difícil se torna a tarefa de o fazer numa outra língua, com diferentes sons e regras de ortografia.

O método de ensino do professor deixa Henrique desconfortável e ainda mais inseguro: todos os alunos são incentivados a lerem em voz alta na sala de aula, um de cada vez. E quando Henrique sente que está prestes a ser chamado, inventa uma desculpa qualquer para se ausentar da aula. A maneira mais fácil é dizer que precisa de ir à casa de banho mas já não resulta, a desculpa está gasta. Henrique sempre preferiu refugiar-se num local qualquer, em vez de mostrar fragilidades diante da turma e, eventualmente, dizer até algo impróprio ao professor e ter uma falta disciplinar.

Problemas relacionados à dislexia: Ansiedade e dificuldade para ler música

14h30

O coro é a única coisa que Henrique gosta da escola. A leitura da música é difícil, mas, ao contrário das outras disciplinas, pode sempre aprender ouvindo-as. E é fantástico quando as pessoas elogiam a voz bonita que tem. Henrique preocupa-se que, se tiver de faltar ao coro por causa de uma outra aula qualquer, possa não ter agenda para a substituir. Dá imensa importância à participação no coro.

Problemas relacionados à dislexia: Descodificação, ortografia e interação

16h30

As mensagens de texto são stressantes para o Henrique. Demorou muito tempo para descobrir as abreviaturas usadas pelos amigos para simplificar determinadas palavras. As dificuldades que sente ao nível da leitura e da ortografia tornam difícil, quase impossível, fazer parte das conversas de grupo.

Problemas relacionados à dislexia: Escrita, ortografia, revisão

20h15

Os pais de Henrique continuam a pressioná-lo para terminar o estudo. A capacidade de soletração de Henrique é bastante pobre e, por vezes, a família, amigos e colegas não percebem a mensagem que pretende transmitir! A correção, também se torna difícil. Henrique não tem consciência dos erros que comete. Por isso, depende sempre da supervisão dos pais em casa. Às vezes, dizem que se trata de preguiça, mas não é. Henrique demora muito mais tempo a fazer um trabalho de casa do que um estudante sem dislexia.

Problemas relacionados à dislexia: Stress generalizado

22h15

Já é tarde e Henrique está cansado. Antes de dormir precisa de relaxar. Jogar na playstation é o passatempo favorito. Assim que entra no mundo virtual, Henrique torna-se igual a outra criança qualquer: esquece-se da dislexia e de todos os problemas que lhe estão associados. Hora de dormir. Amanhã outro longo dia pela frente.

Sobre a Dislexia

A dislexia é uma perturbação da aprendizagem específica com défice na leitura, normalmente associada a alterações neurodesenvolvimentais. Não significa falta de inteligência, nem dificuldades de visão. É uma disfunção neurológica que torna difícil aprender a ler com precisão e fluência. A questão central envolve a compreensão de como os sons nas palavras são representados por letras. É comum para um aluno com dislexia apresentar dificuldades na compreensão da leitura, erros ortográficos, dificuldades na estrutura frásica e na organização de ideias.

As crianças não superam a dislexia, aprendem mecanismos para lidar com ela.

As suas dificuldades com a leitura podem afetá-las socialmente, emocionalmente e verbalmente. É comum que evitem ler em voz alta e não saibam responder à pergunta do professor.

Pais e professores, não raras vezes, interpretam mal os sinais da dislexia. Confundem-nos, por exemplo, com preguiça. Por vezes, parece que os alunos não se esforçam o suficiente para obter melhores resultados escolares. Há, no entanto, fórmulas/estratégias de sucesso para fazer face à dislexia: abordagens de ensino adequadas; intervenções terapêuticas específicas, regulares, com técnicos especializados com o objetivo de reeducar as áreas subdesenvolvidas e com necessidade de desenvolvimento.

O programa de reeducação da dislexia permite superar os desafios de leitura e prosperar ao nível do aproveitamento escolar e da própria vida pessoal.

Como ajudar?

- Fale com a escola do seu filho sobre os métodos de ensino-aprendizagem estruturados e multissensoriais utilizados no ensino da leitura e da escrita. Esta abordagem de ensino é projetada/concebida para envolver as crianças através da visão, audição, movimento e toque.

O uso dessas diferentes áreas pode ajudá-los a associar sons a letras e, assim, aprender a descodificar palavras escritas.

- Explore alguns exercícios que ajudem a aprender e mostrar o que sabe. Por exemplo, ter um bloco de notas, fazer um relatório oral ou um projeto de vídeo, em vez de uma tarefa escrita. Solicitar a leitura na sala de aula em voz alta não é boa solução.

 As ferramentas tecnológicas podem ajudar os alunos com dislexia através do estímulo para a descoberta de novas palavras e ideias. Livros de áudio, aplicativos de texto para fala e livros didáticos digitais podem ajudar o seu filho a ouvir e entender melhor o que se pretende.

-Procure o Techfinder da Understanding. Estas aplicações, já analisadas por especialistas, podem ajudar a superar alguns problemas de leitura.

- Estimule o interesse do seu filho para a leitura. Livros de banda desenhada, desporto, moda e culinária são sempre boas formas para despertar vontade de ler. Procure livros sobre grandes temas atuais próprios para a idade do seu filho, desde que escritos de forma simples e facilmente entendível.

 Enfatize os pontos fortes de seu filho. Use desportos, passatempos e outras atividades para ajudar o seu filho a ficar motivado na escola. Outra maneira de ajudar a aumentar a auto-estima é partilhar histórias de sucesso sobre pessoas com dislexia.

- Ajude-o a aceitar a sua dificuldade. Os alunos mais resolvidos com o seu problema de dislexia, costumam dar o primeiro passo e falar sobre as dificuldades que sentem ao nível da leitura. Não é fácil, mas é importante que saibam procurar ajuda sempre que dela precisem.

Adaptado de “a day in the life of a teen with dyeslexia” in https://www.understood.org/

 

 

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