Pré-Publicação: Pais Sem Pressa, de Pedro Strecht

Outubro 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Notícia do DN Life de 10 de outubro de 2018.

O novo livro do pedopsiquiatra Pedro Strecht, Pais Sem Pressa [ed. Contraponto], chega às livrarias no dia 12 de outubro. Uma reflexão sobre o que andamos a fazer com o nosso tempo e a necessidade de o dedicar mais à relação entre pais e filhos. Em exclusivo, a DN Life antecipa o terceiro capítulo do livro.

  1. TEMPO LIVRE

Escola, trabalho e lazer

Muitos sociólogos de renome mundial, como Zygmunt Bauman ou Byung-Chul Han, parecem unânimes em declarar os indivíduos deste início de século como pertencendo a uma nova espécie, posterior ao Homo sapiens sapiens: aquele que vive de e para o trabalho, consumindo aí toda a sua verdadeira energia psíquica, de forma até superior à despendida em relações afetivas reforçando o conceito de «Homo laborans».

Na perspetiva de Han, esta é a base daquela que o pensador também denomina «sociedade do cansaço», em que desde os mais jovens até aos adultos existe uma constância na queixa física e psicológica da exaustão, situação paradoxal perante a melhoria efetiva das condições de vida em geral.

O sentimento de literalmente viver como Atlas, carregando o peso do Mundo aos ombros, é sentido perante a exigência da dinâmica do dia-a-dia, em que o indivíduo se torna agressor e vítima da sua própria exigência e expectativa, soando apenas raras vozes dissonantes.

Por mim, fazia já ao contrário: punha o fim de semana de trabalho e durante os cinco dias da semana descansava. Ficávamos todos mais felizes. (J., 12 anos)

No entanto, talvez como nunca anteriormente, para homens e mulheres das sociedades mais evoluídas, o trabalho surge valorizado na vertente económica e de ascensão social tornando-se o objetivo central da vida, aparecendo de forma fundida com esta: a vida «é» o trabalho!

Aliás, quando chega a casa e calha em eu o ver, o meu pai só tem um tema de conversa para mim: escola, escola e mais escola. Diz que a escola é o meu trabalho! (J., 12 anos)

É provável que seja por isso que os indicadores mundiais de bem-estar das populações incluam sistematicamente palavras ou conceitos fundamentais da área da gestão ou da economia, como produto interno bruto, rendimento per capita, salário mínimo nacional, entre outros.

Estes dados quase sempre omitem outros que expressam um olhar psicossocial mais profundo, nos quais se poderia verificar que, apesar de tudo, o Homem enquanto ser capaz de sentir, pensar, ou sonhar, tem lugar central: alfabetização, cultura, saúde, justiça, proteção social e ainda, entre tantos, qualidade de habitação, horários de trabalho, possibilidade de tempo livre e de descanso.

Em sociedades munidas, em estreita dependência, de movimentos de globalização ditados em função de critérios economicistas, a vida comum gira em torno da expansão (maximização) da capacidade de trabalho individual ou de grupo, cada vez mais tomando conta da vida muito para além do tempo real dedicado à profissão.

Neste campo, as novas tecnologias tornaram-se uma balança que pede um equilíbrio difícil entre os benefícios inegáveis (e inesperados) que têm vindo a oferecer e a dependência (quase ditatorial) gerada pela dificuldade de permanecer… desligado delas.

Até quando vamos 15 dias de férias para o Algarve, está sempre ao telemóvel… diz que está a responder a coisas de trabalho. E à noite põe-se no computador. Nem sei como a minha mãe o aguenta. (J., 12 anos)

O próprio ritmo de trabalho decorre de forma extremamente veloz e em registo plurifuncional: a organização em ação e reação continuadas. Perante a velocidade impressa na tarefa, qualquer objetivo pode ser sempre revisto pelo próprio ou por outrem num brevíssimo espaço de tempo, num funcionamento em que, quanto mais se age e responde, mais desafios (horizontes) vão surgindo, numa espiral contínua, que muitos sentem como desgastante e, sobretudo, infindável.

«Não ter fim» ou «não sentir chão» surgem como sensações repetidas numa vida laboral em perfeita «queda livre», que produz um nível de tensão e ansiedade exagerados que, a breve trecho, terá consequências físicas e psíquicas já bem conhecidas. Por exemplo, a segregação de substâncias ditas «ativadoras» ou «de stresse» determina a estimulação repetida de algumas áreas cerebrais, provocando cansaço, alterações alimentares e de sono, irritabilidade, perturbação de ansiedade com ataques de pânico e sintomas depressivos com expressão somática (dores de cabeça, tonturas, entre outros), que se tornam a principal causa de morbilidade em muitos pais, jovens e famílias.

A grande revolução das últimas décadas centra-se claramente no ponto em que os múltiplos compromissos profissionais e pessoais da maioria dos indivíduos os acelera a tal ponto na dinâmica espaco-tempo que, verdadeiramente, este último se torna praticamente ausente: «não há/tenho tempo para nada», num espaço que é sempre demasiado (pré)ocupado.

Mais que um mero jogo de palavras, a ocupação do tempo tende a ser feita de forma prévia; na prática, as «agendas» dos pais, tal como em boa parte as dos próprios filhos, tendem a um preenchimento antecipado, por vezes sufocante, capaz de potenciar situações de ansiedade e/ou pânico apenas perante a mera perspetiva do dia de amanhã.

Embora uma pré-ocupação pudesse, na prática, contribuir para uma eventual organização de tarefas e atividades que proporcionassem ao Homem uma maior noção de liberdade individual e social, na maior parte das vezes ela acaba por ter o efeito oposto, quase perverso e doentio: uma autêntica prisão emocional que encarcera na rotina a longo prazo, tornando a vida monótona e desprovida de surpresa, emoção e impacto, num fenómeno emocional de apatia e «não inscrição», tal como o designou o filósofo José Gil.

Aliás, a robotização da atividade humana, agora tão falada a propósito da inteligência artificial, implica com facilidade o esvaziamento de qualquer intensidade afetiva. O plano diário segue à risca o que racionalmente «deve ser» porque simplesmente é o expectável ou o exigido.

Tenho as minhas dinâmicas todas registadas aqui no iPhone. Espere um pouco, para lhe responder melhor, deixe-me aqui ver as minhas notas e também todas as questões que lhe queria perguntar… Sabe que eu sou um homem da engenharia e da matemática, esta parte psicológica é sempre complicada para mim… (Pai de J., 12 anos)

A dinâmica relacional de muitos casais e adultos acaba por experimentar o mesmo tipo de dificuldade. Na verdade, o padrão atual relacional passa pela atividade laboral mútua, tanto do homem como da mulher, num plano cada vez mais equitativo e para ambos exigente e sobrepreenchido. Quando a própria vida do casal aparece seriamente comprometida pela falta de tempo a dois, é de assumir como fácil consequência um distanciamento físico e emocional progressivo, um maior desgaste da relação, uma oportunidade de espaço para a chegada de «terceiras» pessoas e, em caso último, a diluição da própria relação com separação e divórcio.

Já não tinha mulher, ela era apenas a mãe dos meus quatro filhos. (N., 43 anos, ex-marido de P.)

A partir de determinada altura, para ele só existia o trabalho ou, quando não, só parecia ter o desejo de fugir de casa, não estar com ninguém, não aturar os filhos. (P., 42 anos, ex-mulher de N.)

Do ponto de vista das crianças e adolescentes, algo de muito semelhante acontece, mesmo ainda antes da entrada no tempo formal de escolaridade, por altura dos 6 anos. Tendencialmente, a maior percentagem das crianças portuguesas conhece a primeira colocação extrafamiliar após o tempo de licença de maternidade ou paternidade, ou seja, ainda no segundo semestre de vida. Começa cedo a pré-ocupação dos mais pequenos, que, com frequência, podem desde bebés passar uma média de 10 horas por dia afastados de casa e dos seus adultos de referência.

Depois, segue-se a procura por parte dos pais de um trajeto pré-escolar e escolar dos filhos, onde as palavras de maior presença no seu discurso são cada vez mais familiares de rigor, exigência, disciplina, excelência, desempenho de topo!

Mesmo que o tempo respeitante ao jardim-de-infância, entre os 3 e os 6 anos, devesse ser essencialmente lúdico, centrado na evolução da relação social da criança, da descoberta de si através do outro, da importância do desenvolvimento de capacidades cognitivas e emocionais, são cada vez mais as crianças que acabam por ser sujeitas a uma precoce pré-escolarização concreta no mundo das aprendizagens formais.

Por exemplo, muitos pais valorizam jardins-de-infância que preenchem mais tempo diário com ofertas complementares variadas, embora quase todas de carácter dito pedagógico e, de preferência múltiplas, como inglês, informática ou música, em desprimor de outras mais lúdicas. É o início precoce do que está contido em palavras muito anteriores de Heidegger no conceito de «desassossego distraído».

E, mesmo quando algumas destas últimas são escolhidas pelos adultos, têm implícito o objetivo de desenvolver capacidades de desempenho em diversas áreas: escolhe-se o judo ou o karaté, porque favorecem a concentração e a atenção, o ballet já que implica regras, ordem e método. Quase nunca o que é simplesmente lúdico é objeto de primeira escolha, cada vez menos esta ou aquela criança pratica dança ou joga futebol por ser a sua atividade favorita.

Nas últimas décadas, neurologistas, sociólogos, pedopsiquiatras e especialistas de áreas afins vêm insistindo na necessidade premente de desenvolver a arte da desligação, ou seja, a utilidade de criar e valorizar espaços de descontinuidade, quebra e interrupção. Num ensaio recente sobre o dom da demora, O Aroma do Tempo, Byung-Chul Han escreve: «Suspender o movimento para refletir é um ato de coragem… A crise temporal advém da eliminação da capacidade de contemplar.»

O preenchimento excessivo do espaço psíquico por um verdadeiro lixo» emocional «pré-ocupa» a mente de forma a não permitir a existência do florescimento de outras áreas psíquicas: é como uma sementeira de monocultura, sendo que esta abafa a possibilidade de pausa psíquica, de descanso ou desenvolvimento de outras áreas pessoais e sociais que só podem existir a partir de um ponto prévio de maior vazio e espaço interior.

Pausa em tempo de pressa. Ou da necessidade oposta de procura de «pontos de fuga», como descreveu James Garbarino, pedopsiquiatra norte-americano. Tal como na conceção de um espaço abstrato, o ponto de fuga permite a noção e a necessidade de perspetiva: ver «para além de» algo ou alguém. Faz falta esta noção de distanciamento que produz profundidade reflexiva e, em tantos casos, de capacidade criativa.

A capacidade criativa não implica somente a noção de um ato artístico; neste ponto de vista, aplica-se ainda ao desenvolvimento de diversas possibilidades de resolver problemas, encontrar soluções para dificuldades diárias ou simplesmente situar o indivíduo para além de um momento concreto.

Sei que sou bom a jogar futebol. Gosto de estar ali, inventar jogadas, marcar golos, conviver com os meus amigos da equipa, que são diferentes dos da escola. Treino quatro vezes por semana, entre as 19h30 e as 21h00, mas, se me perguntarem se me canso, digo que não. É o melhor tempo da minha semana. É quando eu descontraio e já não penso em mais nada, nem em problemas. (V., 15 anos)

Muitas vezes, este ponto de fuga pode ser ainda utilizado para conseguir alcançar uma outra visão de si próprio, quer dizer, uma melhor capacidade de também olhar e envolver outros.
Permite-se assim a necessidade precoce de desenvolver uma atitude de altruísmo, inclusivamente de cada qual para consigo próprio: o conceito de autotolerância, pautado por adequação de expectativas e um equilíbrio melhor entre exigência pessoal e integração da falha ou da dificuldade.

Tal como se reforça a importância de procurar verdadeiros pontos de interesse emocional, obrigatoriamente diferentes da rotina, distantes ou mesmo em rotura com a atividade profissional ou prioritária. Algo que contenha muito mais do que uma simples compensação económica ou de ascensão social, e reforce verdadeiramente cada criança e adolescente, por vezes até revelando facetas que a própria escola não valoriza: desporto, música, artes plásticas, dança e teatro são exemplos recorrentes.

A presença de um ponto de fuga afetivo representa a possibilidade de olhar para diante, num movimento simultâneo de projeção e libertação perante o peso monótono do «aqui e agora»: o reencontro com o que pode sempre parecer de maior significado pessoal.

Emocionalmente, é cada vez mais complicado ter a perspetiva de horizonte (no espaço e no tempo), de quebra de limitação circunstancial que o quotidiano impõe. O conceito de fuga não pressupõe também a construção de um referencial, de um «porto de abrigo», expressão utilizada também por Garbarino.

É curioso verificar que todos aqueles que conseguem regularmente abdicar de algumas horas em prol destas atividades consideram este «gasto» como um verdadeiro «ganho» do seu próprio tempo. E usam frases tão significativas como algumas que surgem até em contexto clínico: «um balão de oxigénio», «a minha fonte de energia» ou «uma verdadeira pílula mágica».

Encontrar um ponto de fuga é, com frequência, poder estar ligado a atividades de fortalecimento de mecanismos de identidade e pertença, que com facilidade atuam como saudáveis válvulas de descompressão sobre múltiplas tensões acumuladas ao longo dos dias ou das semanas.

A existência de tempo de lazer correspondeu a uma longa evolução social e humana que levou séculos a ser reconhecida, não como um luxo, mas sim como um saudável direito de quem trabalha (ou estuda). Contudo, numerosos avanços registados no século XX, como o direito a dias férias, um máximo de horas de trabalho semanal, subsídios de Natal, idade de reforma ou outros, tiveram breves décadas de existência folgada para atualmente serem cada vez mais postas em causa perante cenários de precariedade ou outros exclusivamente centrados em cenários ligados aos conceitos de produção e consumo.

Curiosamente, o mesmo foi acontecendo na dimensão infantojuvenil, sendo unânime a ideia de que as crianças e os adolescentes de agora descansam e brincam muito menos do que os seus próprios pais durante o mesmo tempo de crescimento. Têm ainda uma sobrecarga desproporcionada de algumas disciplinas, consideradas fundamentais, em desprimor de outras, facilmente secundarizadas.

Alunos portugueses têm das mais pesadas cargas horárias em 1.º ciclo (…). Nos quatro primeiros anos de escolaridade somam um total de 3744 horas (…). Ainda no que diz respeito aos alunos até final do 9.º ano, Portugal apresenta dentro da União Europeia o primeiro lugar no tempo dedicado à disciplina da Matemática, que ocupa em média 20,4 por cento da totalidade dos currículos. (Maria Isabel Festas, no livro Os Tempos na Escola)

Só que nem sempre foi assim. Na verdade, muitos adultos podem ainda recordar o início de anos letivos apenas no mês de outubro, as aulas teóricas de 50 minutos seguidas de intervalos de 10 e até de 15 minutos, e ainda longos momentos de férias habitualmente gastos em proximidade com a família alargada e sem grande necessidade de programação prévia.

Hoje, perante a falta de tempo ditada por compromissos profissionais, muitos pais começam a incluir na escolha de um estabelecimento de ensino a possibilidade concreta de este se encontrar aberto durante os 12 meses do ano, mesmo que em atividades não-letivas. As pausas correspondentes a férias de Natal, Páscoa ou de verão acabam por ser vividas com algum temor por parte de muitas famílias que declaram não ter onde deixar os filhos.

A corrida à garantia máxima de um eventual sucesso escolar, mais tarde universitário e depois profissional, começa bem cedo. Nesse modelo, é fácil compreender novamente que para a sociedade em geral «tempo é (nada mais do que…) dinheiro». Assim, qualquer pausa soa a desinteresse, laxismo ou até luxo e esbanjamento.

Por outro lado, sabe-se que durante os longos anos de desenvolvimento maturativo (mais de duas décadas) o cérebro necessita de uma estimulação e funcionamento multimodal que vai bem para além de provas continuadas de memorização, retenção e repetição de informação que a escola acaba por pedir quase em exclusividade.

Na minha escola dizem-nos que há mais coisas que contam para a nota, mas não vale a pena iludirem-nos. Então agora no secundário, toda a gente sabe que no final do período a classificação é apenas a soma dos testes a dividir por dois. (H., 16 anos)

É ainda reconhecida a necessidade que o cérebro tem de desligar, isto é, de manter apenas o seu funcionamento basal, longe de outro tipo de exigências e respostas. Começando pelo aspeto mais vulgar, o caso do sono. O sono é, por natureza, a atividade reparadora de todo o funcionamento fisiológico do corpo e da mente. De 16 a 18 horas de sono que um recém-nascido pode cumprir, às oito horas consideradas mínimas ou adequadas na idade adulta, vai uma longa margem de evolução e de variabilidade própria de cada ser humano. Porém, as queixas de sono, nomeadamente as de insónia inicial, são comuns em todas as faixas etárias e têm cada vez mais um início em idades precoces. Parece que o ser humano tem hoje uma dificuldade em, simplesmente, fechar os olhos entregando-se ao chamamento do descanso. Deixar obsessivamente de pensar ou agir, quase sempre antecipando e tentando manter sob controlo o seu próprio funcionamento (e o dos outros) e entregar-se com segurança e tranquilidade ao desconhecido que a noite simboliza.

Talvez porque, para muitos, o descanso soe agora a um universo totalmente desconhecido onde o que acontece (incluindo a saudável atividade de sonho) é incontrolável e… incontornável. Habituado a contornar dificuldades, nem que seja negando-as, uma vez que lidar com a frustração, a barreira ou o limite parece algo extremamente difícil e gerador de tensão, e ainda vendo inscrito na sua matriz estrutural o desejo omnipotente de controlo, o homem comum vê no sono um inimigo temível, ao invés de um bem-vindo companheiro da paz e da tranquilidade.

O horror ao vazio e ao significado do escuro da noite faz com que esta tenda a ocorrer cada vez mais em estado de vigília (por exemplo, a diversão noturna dura até ao amanhecer), ou a ser controlada através de psicofármacos, como os indutores de sono. Falta de sono, excesso de trabalho e pouca disponibilidade para a escuta de si próprio, muito menos do outro, são fatores apontados como frequentes para causas e consequências de insatisfação pessoal e familiar. De novo, reintroduzir um novo paradigma que facilite o reequilíbrio escola-trabalho versus lazer parece ser uma tarefa de máxima urgência.

É fácil fazer a leitura de dados estatísticos que mostram o que se passa em sociedades em que os índices de satisfação e qualidade de vida global são bastantes positivos. É o caso dos países nórdicos, onde este balanço é feito de forma assumidamente cultural: são também locais onde as crianças passam um menor número de horas diárias na escola e as percentagens de sucesso e desempenho escolar são realmente gratificantes.

Mesmo sobre as crianças e adolescentes é necessário retomar a noção de desenvolvimento e proporcionalidade em temas como responsabilidade, desempenho e, claro, lazer. O que se pode ou deve exigir a uma criança de 6 ou 10 anos (1.º ano ou 5.º ano de escolaridade) tem de ser diferente daquilo que é expectável para 15 ou 18 anos (9.º ano ou universidade).

Imprimir um ritmo desadequado na infância e juventude, sobretudo no que toca às questões da escola (como equivalência de trabalho) e da própria perspetiva futura profissional, é, mais do que tudo, trazer para o presente pré-ocupações sem sentido e uma fonte segura de angústia desnecessária.

Desse modo, nunca o tempo realmente livre que é preciso dar a crianças e adolescentes pareceu tão estranho de aceitar e de implementar de forma convicta por parte dos adultos que os acompanham.

O tempo livre, com pontos de fuga ou em porto de abrigo, constitui um imenso reservatório de bem-estar físico e emocional. A atividade lúdica, mesmo que simplesmente traduzida pelo brincar, parece também ameaçada: isto é, ou é seguido um guião ou um certo objetivo antecipadamente definido, ou com frequência muitos rapazes e raparigas desorganizam-se com facilidade perante o confronto com um espaço vazio ou com uma folha em branco.

E agora o que é para fazer? Se não me der uma ideia, não sei o que desenhar… e posso sair dos riscos? (T., 6 anos)

Também o que Donald Winnicott designou como a saudável «capacidade de estar só» se tornou tarefa complexa para as crianças. Perante a eventualidade de uma organização individual autónoma, algo que corresponde à presença da imaginação e da criatividade, bem como à capacidade de imaginar, propor e desenvolver atividades, muitos dos mais novos recorrem de forma imediata à presença ou monitorização imprescindível do adulto.

Não são raros os pais que afirmam a dificuldade que sentem em que os filhos brinquem sozinhos, nem que seja por curtos períodos de tempo. O mesmo acontecendo na escola, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade, em que muitos professores reportam a necessidade da proximidade física e relacional (dependência) dos alunos para que estes consigam iniciar ou manter uma tarefa sem desistir ou dispersar.

Outro dos sentimentos presente neste novo Homo laborans diz respeito à exigência que cada qual coloca em si mesmo, num verdadeiro mecanismo de coação interna. Associado a este fator, em que cada qual se torna carrasco de si mesmo, surge o peso avassalador de um sentimento de culpa: dentro de uma certa cultura judaico-cristã, parece pecado ter tempo livre, louvar o descanso ou a fuga tanto quando se preza o trabalho, a responsabilidade, o ganho económico.

Só que ser capaz de dar este passo de mudança de paradigma implica um longo trabalho emocional e uma capacidade de reflexão e ação em consonância com esse mesmo movimento. Por isso, parece urgente reformular paradigmas de vida diária, integrando-os progressivamente no tempo de existir.

Saber parar é, sem dúvida, saber pensar. Ou, pelo menos, criar mais espaço para a atividade crítica e criativa tão necessária ao balanço emocional do ser humano de hoje.

Dar espaço ao silêncio. Viver a imensidão de uma folha em branco.

 

 

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