Um dia na vida de um aluno com dislexia

Outubro 11, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site Sapolifestyle de 1 de março de 2018.

Para os alunos com dislexia cada aula pode ser uma luta, na medida em que, quase todas as disciplinas dependem da leitura e ortografia. Dislexia pode, assim, levar, também, a problemas sociais, emocionais e comportamentais. Use este guia visual para saber como esta perturbação da aprendizagem específica afeta o quotidiano do seu filho.

Henrique é um aluno de 11 anos. Tem necessidades educativas especiais. A inteligência é uma das suas principais características, mas os problemas de leitura condicionam-lhe o dia-a-dia. Uma simples tarefa, fácil de executar para a maior parte dos seus colegas, pode transformar-se num verdadeiro quebra-cabeças para um aluno com dislexia.

Vejamos como é, afinal, um dia típico na vida de Henrique:

Problemas relacionados à dislexia: Baixa autoestima e abandono escolar

6h15

Acorda cedo com o despertador mas, logo desliga o alarme e não quer sair da cama. Depois de tantos comentários sobre o quão lenta e sofrida é a sua leitura, Henrique deixa-se levar pela pressão e prefere nem pensar na escola. Imaginar entrar numa sala de aula é suficiente para o destabilizar. Um dia, chegou a fingir uma dor de estômago para justificar a falta. Não tem dúvidas: os melhores dias são aqueles em que fica em casa, longe do stress que as aulas lhe provocam.

Problemas relacionados à dislexia: Compreensão de leitura e escrita à mão

8h30

Chegou o dia. Henrique não está preparado para o teste de história.

Tentou terminar os trabalhos de casa, mas as dificuldades na leitura são tão evidentes que apenas conseguiu concluir alguns parágrafos. E, como demorou tanto tempo para ler e perceber cada frase, como sempre, teve dificuldade em entender o texto na sua globalidade.

Não se pode dizer o contrário: Para além de inteligente, Henrique, também é esforçado! Quer ultrapassar os obstáculos que o impedem de ter sucesso escolar. Nas aulas costuma ouvir atentamente o professor e, ainda que de forma pouco organizada, tenta retirar notas/apontamentos da matéria mais importante, mas não chega. Henrique precisa de acompanhamento especializado para conseguir superar as suas dificuldades. E assim, o teste, quinta-feira, advinha-se um pesadelo.

Problemas relacionados à dislexia: Descodificação e memória de trabalho

10h30

Henrique gosta de matemática, exceto dos problemas. Levam-lhe uma eternidade a ler e compreender. Dificilmente consegue reter e sistematizar o que lê e, como era de esperar, não os consegue resolver, por muito que tente. Geralmente, comete erros simples, por exemplo, como mudar dois números ou misturar a sequência de etapas. Ou seja, a resposta está, quase sempre errada, apesar de até ter adquirido e entendido os conceitos e ter um bom raciocínio lógico-matemático.

Problemas relacionados à dislexia: Reconhecer palavras à vista, construir vocabulário e consciência fonológica

12h30

É difícil para Henrique relaxar durante o almoço. Tem trabalhos de casa para fazer e precisa de ajuda. Sozinho não os consegue fazer. Por isso corre na escola, desenfreado, à procura de uma ajuda-extra dos professores. Aproxima-se o teste de vocabulário de francês e Henrique está preocupado. Por muito que olhe para os flashcards sobre a matéria, parece sempre que os olha pela primeira vez. Infelizmente, um problema, não exclusivo, da disciplina de francês – é transversal às outras. As palavras, simplesmente, não lhe “ficam” na memória.

Problemas relacionados à dislexia: Aprender uma língua estrangeira e evitar tarefas

13h30

A aula de francês é, sem dúvida, das mais difíceis. Se Henrique já tem imensos problemas para ler e escrever em português, mais difícil se torna a tarefa de o fazer numa outra língua, com diferentes sons e regras de ortografia.

O método de ensino do professor deixa Henrique desconfortável e ainda mais inseguro: todos os alunos são incentivados a lerem em voz alta na sala de aula, um de cada vez. E quando Henrique sente que está prestes a ser chamado, inventa uma desculpa qualquer para se ausentar da aula. A maneira mais fácil é dizer que precisa de ir à casa de banho mas já não resulta, a desculpa está gasta. Henrique sempre preferiu refugiar-se num local qualquer, em vez de mostrar fragilidades diante da turma e, eventualmente, dizer até algo impróprio ao professor e ter uma falta disciplinar.

Problemas relacionados à dislexia: Ansiedade e dificuldade para ler música

14h30

O coro é a única coisa que Henrique gosta da escola. A leitura da música é difícil, mas, ao contrário das outras disciplinas, pode sempre aprender ouvindo-as. E é fantástico quando as pessoas elogiam a voz bonita que tem. Henrique preocupa-se que, se tiver de faltar ao coro por causa de uma outra aula qualquer, possa não ter agenda para a substituir. Dá imensa importância à participação no coro.

Problemas relacionados à dislexia: Descodificação, ortografia e interação

16h30

As mensagens de texto são stressantes para o Henrique. Demorou muito tempo para descobrir as abreviaturas usadas pelos amigos para simplificar determinadas palavras. As dificuldades que sente ao nível da leitura e da ortografia tornam difícil, quase impossível, fazer parte das conversas de grupo.

Problemas relacionados à dislexia: Escrita, ortografia, revisão

20h15

Os pais de Henrique continuam a pressioná-lo para terminar o estudo. A capacidade de soletração de Henrique é bastante pobre e, por vezes, a família, amigos e colegas não percebem a mensagem que pretende transmitir! A correção, também se torna difícil. Henrique não tem consciência dos erros que comete. Por isso, depende sempre da supervisão dos pais em casa. Às vezes, dizem que se trata de preguiça, mas não é. Henrique demora muito mais tempo a fazer um trabalho de casa do que um estudante sem dislexia.

Problemas relacionados à dislexia: Stress generalizado

22h15

Já é tarde e Henrique está cansado. Antes de dormir precisa de relaxar. Jogar na playstation é o passatempo favorito. Assim que entra no mundo virtual, Henrique torna-se igual a outra criança qualquer: esquece-se da dislexia e de todos os problemas que lhe estão associados. Hora de dormir. Amanhã outro longo dia pela frente.

Sobre a Dislexia

A dislexia é uma perturbação da aprendizagem específica com défice na leitura, normalmente associada a alterações neurodesenvolvimentais. Não significa falta de inteligência, nem dificuldades de visão. É uma disfunção neurológica que torna difícil aprender a ler com precisão e fluência. A questão central envolve a compreensão de como os sons nas palavras são representados por letras. É comum para um aluno com dislexia apresentar dificuldades na compreensão da leitura, erros ortográficos, dificuldades na estrutura frásica e na organização de ideias.

As crianças não superam a dislexia, aprendem mecanismos para lidar com ela.

As suas dificuldades com a leitura podem afetá-las socialmente, emocionalmente e verbalmente. É comum que evitem ler em voz alta e não saibam responder à pergunta do professor.

Pais e professores, não raras vezes, interpretam mal os sinais da dislexia. Confundem-nos, por exemplo, com preguiça. Por vezes, parece que os alunos não se esforçam o suficiente para obter melhores resultados escolares. Há, no entanto, fórmulas/estratégias de sucesso para fazer face à dislexia: abordagens de ensino adequadas; intervenções terapêuticas específicas, regulares, com técnicos especializados com o objetivo de reeducar as áreas subdesenvolvidas e com necessidade de desenvolvimento.

O programa de reeducação da dislexia permite superar os desafios de leitura e prosperar ao nível do aproveitamento escolar e da própria vida pessoal.

Como ajudar?

- Fale com a escola do seu filho sobre os métodos de ensino-aprendizagem estruturados e multissensoriais utilizados no ensino da leitura e da escrita. Esta abordagem de ensino é projetada/concebida para envolver as crianças através da visão, audição, movimento e toque.

O uso dessas diferentes áreas pode ajudá-los a associar sons a letras e, assim, aprender a descodificar palavras escritas.

- Explore alguns exercícios que ajudem a aprender e mostrar o que sabe. Por exemplo, ter um bloco de notas, fazer um relatório oral ou um projeto de vídeo, em vez de uma tarefa escrita. Solicitar a leitura na sala de aula em voz alta não é boa solução.

 As ferramentas tecnológicas podem ajudar os alunos com dislexia através do estímulo para a descoberta de novas palavras e ideias. Livros de áudio, aplicativos de texto para fala e livros didáticos digitais podem ajudar o seu filho a ouvir e entender melhor o que se pretende.

-Procure o Techfinder da Understanding. Estas aplicações, já analisadas por especialistas, podem ajudar a superar alguns problemas de leitura.

- Estimule o interesse do seu filho para a leitura. Livros de banda desenhada, desporto, moda e culinária são sempre boas formas para despertar vontade de ler. Procure livros sobre grandes temas atuais próprios para a idade do seu filho, desde que escritos de forma simples e facilmente entendível.

 Enfatize os pontos fortes de seu filho. Use desportos, passatempos e outras atividades para ajudar o seu filho a ficar motivado na escola. Outra maneira de ajudar a aumentar a auto-estima é partilhar histórias de sucesso sobre pessoas com dislexia.

- Ajude-o a aceitar a sua dificuldade. Os alunos mais resolvidos com o seu problema de dislexia, costumam dar o primeiro passo e falar sobre as dificuldades que sentem ao nível da leitura. Não é fácil, mas é importante que saibam procurar ajuda sempre que dela precisem.

Adaptado de “a day in the life of a teen with dyeslexia” in https://www.understood.org/

 

 

Concerto Solidário 35 anos do IAC – 20 Novembro no Altice Arena

Outubro 11, 2018 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Com o objetivo de comemorar o 35º aniversário e assinalar o Dia Internacional dos Direitos da Criança, o Instituto de Apoio à Criança está a organizar a iniciativa musical solidária – “Crianças Somos Todos Nós”. Consiste na elaboração de um CD de canções originais dedicado aos Direitos da Criança e na realização de um concerto no dia 20 de novembro de 2018 na Altice Arena, sob o Alto Patrocínio de Sua Excelência O Presidente da República. Contamos, ainda, com o compromisso da Altice Arena, da Produtora Música no Coração, da RTP e da Câmara Municipal de Lisboa, sendo que esta última assumiu a coorganização do evento. Destacamos como principais patrocinadores a Santa Casa de Misericórdia de Lisboa, a Associação Mutualista Montepio e a Lactogal, entre outros. Este projeto conta com o empenho do músico João Só que, de forma generosa, abraçou esta causa como diretor musical.

Para levar a cabo esta iniciativa, convidámos músicos portugueses de reconhecido mérito, tendo já aderido: Amor Electro, André Sardet, Bruno Ávila, Bruno Correia, Carlos Alberto Moniz, D.A.M.A., Frederico BC, HMB, João Só, Mafalda Borges, Manuel Guerra, Miguel Araújo, Os Azeitonas, Os quatro e meia, Rita Redshoes, Ruben Matay, Rui Veloso e The Black Mamba.

Através do envolvimento da sociedade civil, pretendemos angariar fundos com as receitas de bilheteira e com a venda do CD, para que o IAC possa continuar a apoiar crianças, jovens e suas famílias em Portugal.

Em 35 anos, muitas foram as crianças apoiadas e protegidas pelo IAC. E, orgulhamo-nos em poder dizer que hoje, muitas delas, tornaram-se adultos responsáveis e integrados na sociedade.

Mas esta é uma tarefa nunca acabada. Todos os dias surgem novas crianças e novas situações a precisar de intervenção e apoio.

Assim, o IAC depende também da ajuda de todos para poder continuar a sua missão – A Defesa e Promoção dos Direitos da Criança – uma causa que é de todos nós.

Brevemente estará disponível um microsite com mais informação sobre esta iniciativa.

Bilhetes para o concerto (clique aqui)

 

A cada cinco segundos morre uma criança no mundo por causas evitáveis

Outubro 11, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Relatório | Deixe um comentário
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Edgard Garrido

Notícia do Público de 18 de setembro de 2018.

Em cada dia de 2017, morreram 15 mil crianças devido a causas evitáveis e doenças tratáveis como a diarreia, a pneumonia ou a malária.

Inês Chaíça

Em 2017 morreram em todo o mundo 6,3 milhões de crianças e adolescentes (dos 0 aos 14 anos) por causas evitáveis — fazendo as contas, é uma morte a cada cinco segundos. Dessas, 5,4 milhões tinham menos de cinco anos e metade dos óbitos (2,5 milhões) ocorreram durante o primeiro mês de vida. Má nutrição, infecções e acidentes lideram a lista das causas de morte, de acordo com um relatório conjunto da UNICEF, Organização Mundial de Saúde (OMS), da divisão de população do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas e do Banco Mundial publicado nesta terça-feira.

Apesar dos “progressos substanciais” das últimas duas décadas em matéria de prevenção da mortalidade infantil, estima-se que 15 mil crianças tenham morrido por dia em 2017 devido a causas evitáveis e doenças tratáveis, como diarreia, pneumonia ou malária. Uma situação “inaceitável”, conforme se lê no relatório.

“Estas mortes são reflexo do acesso limitado das crianças e das comunidades a actos médicos como vacinação e o tratamento de doenças infecciosas, à nutrição adequada, água limpa e ao saneamento”, analisam os autores do documento. “Alcançar metas de sobrevivência infantil ambiciosas requer que haja acesso universal a cuidados efectivos, de alta qualidade e acessíveis para mulheres, crianças e adolescentes”.

De acordo com os dados das Nações Unidas, há disparidades “regionais generalizadas”, que se relacionam com “desigualdades de rendimento”, e que afectam as hipóteses de sobrevivência das crianças. Em termos regionais, os países da África Subsaariana continuam a registar as taxas de mortalidade de crianças com menos de cinco anos de idade mais elevadas do mundo. Metade das mortes nessa faixa etária ocorreu nesta região.

Em 2017, na África Subsaariana, uma em cada 13 crianças morreu antes do quinto aniversário. Por comparação, a Nova Zelândia e a Austrália apresentam as taxas de mortalidade infantil mais baixas do mundo: apenas uma em cada 263 crianças morre antes de chegar aos cinco anos.

Primeiro mês após o parto é o mais perigoso 

Se estas estimativas se mantiverem, entre 2018 e 2030 deverão morrer 56 milhões de crianças com menos de cinco anos de idade — e “metade deles serão recém-nascidos”, lê-se no relatório.

Em termos globais, a maioria dos óbitos regista-se nas faixas etárias mais jovens, sendo que o maior risco de morte se regista no primeiro mês de vida. “Em 2017, a mortalidade neonatal — a probabilidade de morrer nos primeiros 28 dias de vida — estimava-se em 18 mortes por 1000 nados-vivos em termos globais”, lê-se.

Estes números estão associados a factores como a idade das mães (mulheres com menos de 20 anos dão à luz bebés com menor probabilidade de sobrevivência), o nível de escolaridade da progenitora (registou-se um decréscimo na mortalidade dos bebés entre mães com o ensino secundário ou superior) e os níveis de pobreza das famílias e das respectivas comunidades. Nas zonas mais pobres, a probabilidade de se morrer antes dos cinco anos sobe para o dobro.

Entre os bebés, as principais causas de morte incluem as complicações durante o parto, pneumonia, anomalias congénitas, diarreia, sépsis e malária. Mais tarde, as principais causas de morte passam a ser lesões, acidentes rodoviários e afogamento.

Morrem mais crianças na República Centro Africana

De acordo com os dados de 2017, foi na República Centro Africana, mergulhada em conflito desde 2013, que se registou a taxa de mortalidade infantil (de crianças com menos de cinco anos) mais elevada do globo: 88 mortes por cada 1000 nascimentos. Também a mortalidade neonatal foi a mais elevada, com 42 mortes por cada 1000 nados-vivos.

Nos países de língua oficial portuguesa, é em Angola que a taxa de mortalidade infantil é mais elevada: em 2017, morreram 54 crianças com menos de cinco anos por cada 1000 nascimentos. No Brasil, registaram-se 13 mortes por cada 1000 nados vivos. Em Portugal, contaram-se três mortes em cada 1000 nascimentos.

Menos mortes do que em 1990

Analisando um período mais largo de tempo, a mortalidade infantil tem baixado em todo o mundo. Em 1990 morreram 12,6 milhões de crianças com menos de cinco anos; em 2017, 5,4 milhões. O número de óbitos entre os cinco e os 14 anos desceu de 1,7 milhões em 1990 para menos de um milhão em 2017.

“Este novo relatório sublinha o progresso notável desde 1990 na redução da mortalidade infantil”, disse o sub-secretário-geral para os Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas, Liu Zhenmin, citado num comunicado de imprensa. “Reduzir a desigualdade ao dar assistência aos recém-nascidos mais vulneráveis, crianças e mães é essencial para alcançar o objectivo de desenvolvimento sustentável sobre o fim das mortes infantis evitáveis, garantindo que ninguém fica para trás”.

Dos 195 países em análise, 118 já alcançaram os objectivos de desenvolvimento sustentável e 26 estão bem encaminhados, se continuarem com o que já fizeram até agora. Ficam a faltar 51, dos quais dois terços se localizam na África Subsaariana. “Nos restantes países, o progresso terá de ser acelerado, para alcançar os objectivos do desenvolvimento sustentável até 2030”, conclui o relatório.

Se esses países conseguissem atingir esse objectivo, significaria mais dez milhões de crianças com menos de cinco anos salvas, comparado com o cenário actual.

Mais informações na notícia da Unicef:

A child under 15 dies every five seconds around the world – UN report

Pré-Publicação: Pais Sem Pressa, de Pedro Strecht

Outubro 11, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Notícia do DN Life de 10 de outubro de 2018.

O novo livro do pedopsiquiatra Pedro Strecht, Pais Sem Pressa [ed. Contraponto], chega às livrarias no dia 12 de outubro. Uma reflexão sobre o que andamos a fazer com o nosso tempo e a necessidade de o dedicar mais à relação entre pais e filhos. Em exclusivo, a DN Life antecipa o terceiro capítulo do livro.

  1. TEMPO LIVRE

Escola, trabalho e lazer

Muitos sociólogos de renome mundial, como Zygmunt Bauman ou Byung-Chul Han, parecem unânimes em declarar os indivíduos deste início de século como pertencendo a uma nova espécie, posterior ao Homo sapiens sapiens: aquele que vive de e para o trabalho, consumindo aí toda a sua verdadeira energia psíquica, de forma até superior à despendida em relações afetivas reforçando o conceito de «Homo laborans».

Na perspetiva de Han, esta é a base daquela que o pensador também denomina «sociedade do cansaço», em que desde os mais jovens até aos adultos existe uma constância na queixa física e psicológica da exaustão, situação paradoxal perante a melhoria efetiva das condições de vida em geral.

O sentimento de literalmente viver como Atlas, carregando o peso do Mundo aos ombros, é sentido perante a exigência da dinâmica do dia-a-dia, em que o indivíduo se torna agressor e vítima da sua própria exigência e expectativa, soando apenas raras vozes dissonantes.

Por mim, fazia já ao contrário: punha o fim de semana de trabalho e durante os cinco dias da semana descansava. Ficávamos todos mais felizes. (J., 12 anos)

No entanto, talvez como nunca anteriormente, para homens e mulheres das sociedades mais evoluídas, o trabalho surge valorizado na vertente económica e de ascensão social tornando-se o objetivo central da vida, aparecendo de forma fundida com esta: a vida «é» o trabalho!

Aliás, quando chega a casa e calha em eu o ver, o meu pai só tem um tema de conversa para mim: escola, escola e mais escola. Diz que a escola é o meu trabalho! (J., 12 anos)

É provável que seja por isso que os indicadores mundiais de bem-estar das populações incluam sistematicamente palavras ou conceitos fundamentais da área da gestão ou da economia, como produto interno bruto, rendimento per capita, salário mínimo nacional, entre outros.

Estes dados quase sempre omitem outros que expressam um olhar psicossocial mais profundo, nos quais se poderia verificar que, apesar de tudo, o Homem enquanto ser capaz de sentir, pensar, ou sonhar, tem lugar central: alfabetização, cultura, saúde, justiça, proteção social e ainda, entre tantos, qualidade de habitação, horários de trabalho, possibilidade de tempo livre e de descanso.

Em sociedades munidas, em estreita dependência, de movimentos de globalização ditados em função de critérios economicistas, a vida comum gira em torno da expansão (maximização) da capacidade de trabalho individual ou de grupo, cada vez mais tomando conta da vida muito para além do tempo real dedicado à profissão.

Neste campo, as novas tecnologias tornaram-se uma balança que pede um equilíbrio difícil entre os benefícios inegáveis (e inesperados) que têm vindo a oferecer e a dependência (quase ditatorial) gerada pela dificuldade de permanecer… desligado delas.

Até quando vamos 15 dias de férias para o Algarve, está sempre ao telemóvel… diz que está a responder a coisas de trabalho. E à noite põe-se no computador. Nem sei como a minha mãe o aguenta. (J., 12 anos)

O próprio ritmo de trabalho decorre de forma extremamente veloz e em registo plurifuncional: a organização em ação e reação continuadas. Perante a velocidade impressa na tarefa, qualquer objetivo pode ser sempre revisto pelo próprio ou por outrem num brevíssimo espaço de tempo, num funcionamento em que, quanto mais se age e responde, mais desafios (horizontes) vão surgindo, numa espiral contínua, que muitos sentem como desgastante e, sobretudo, infindável.

«Não ter fim» ou «não sentir chão» surgem como sensações repetidas numa vida laboral em perfeita «queda livre», que produz um nível de tensão e ansiedade exagerados que, a breve trecho, terá consequências físicas e psíquicas já bem conhecidas. Por exemplo, a segregação de substâncias ditas «ativadoras» ou «de stresse» determina a estimulação repetida de algumas áreas cerebrais, provocando cansaço, alterações alimentares e de sono, irritabilidade, perturbação de ansiedade com ataques de pânico e sintomas depressivos com expressão somática (dores de cabeça, tonturas, entre outros), que se tornam a principal causa de morbilidade em muitos pais, jovens e famílias.

A grande revolução das últimas décadas centra-se claramente no ponto em que os múltiplos compromissos profissionais e pessoais da maioria dos indivíduos os acelera a tal ponto na dinâmica espaco-tempo que, verdadeiramente, este último se torna praticamente ausente: «não há/tenho tempo para nada», num espaço que é sempre demasiado (pré)ocupado.

Mais que um mero jogo de palavras, a ocupação do tempo tende a ser feita de forma prévia; na prática, as «agendas» dos pais, tal como em boa parte as dos próprios filhos, tendem a um preenchimento antecipado, por vezes sufocante, capaz de potenciar situações de ansiedade e/ou pânico apenas perante a mera perspetiva do dia de amanhã.

Embora uma pré-ocupação pudesse, na prática, contribuir para uma eventual organização de tarefas e atividades que proporcionassem ao Homem uma maior noção de liberdade individual e social, na maior parte das vezes ela acaba por ter o efeito oposto, quase perverso e doentio: uma autêntica prisão emocional que encarcera na rotina a longo prazo, tornando a vida monótona e desprovida de surpresa, emoção e impacto, num fenómeno emocional de apatia e «não inscrição», tal como o designou o filósofo José Gil.

Aliás, a robotização da atividade humana, agora tão falada a propósito da inteligência artificial, implica com facilidade o esvaziamento de qualquer intensidade afetiva. O plano diário segue à risca o que racionalmente «deve ser» porque simplesmente é o expectável ou o exigido.

Tenho as minhas dinâmicas todas registadas aqui no iPhone. Espere um pouco, para lhe responder melhor, deixe-me aqui ver as minhas notas e também todas as questões que lhe queria perguntar… Sabe que eu sou um homem da engenharia e da matemática, esta parte psicológica é sempre complicada para mim… (Pai de J., 12 anos)

A dinâmica relacional de muitos casais e adultos acaba por experimentar o mesmo tipo de dificuldade. Na verdade, o padrão atual relacional passa pela atividade laboral mútua, tanto do homem como da mulher, num plano cada vez mais equitativo e para ambos exigente e sobrepreenchido. Quando a própria vida do casal aparece seriamente comprometida pela falta de tempo a dois, é de assumir como fácil consequência um distanciamento físico e emocional progressivo, um maior desgaste da relação, uma oportunidade de espaço para a chegada de «terceiras» pessoas e, em caso último, a diluição da própria relação com separação e divórcio.

Já não tinha mulher, ela era apenas a mãe dos meus quatro filhos. (N., 43 anos, ex-marido de P.)

A partir de determinada altura, para ele só existia o trabalho ou, quando não, só parecia ter o desejo de fugir de casa, não estar com ninguém, não aturar os filhos. (P., 42 anos, ex-mulher de N.)

Do ponto de vista das crianças e adolescentes, algo de muito semelhante acontece, mesmo ainda antes da entrada no tempo formal de escolaridade, por altura dos 6 anos. Tendencialmente, a maior percentagem das crianças portuguesas conhece a primeira colocação extrafamiliar após o tempo de licença de maternidade ou paternidade, ou seja, ainda no segundo semestre de vida. Começa cedo a pré-ocupação dos mais pequenos, que, com frequência, podem desde bebés passar uma média de 10 horas por dia afastados de casa e dos seus adultos de referência.

Depois, segue-se a procura por parte dos pais de um trajeto pré-escolar e escolar dos filhos, onde as palavras de maior presença no seu discurso são cada vez mais familiares de rigor, exigência, disciplina, excelência, desempenho de topo!

Mesmo que o tempo respeitante ao jardim-de-infância, entre os 3 e os 6 anos, devesse ser essencialmente lúdico, centrado na evolução da relação social da criança, da descoberta de si através do outro, da importância do desenvolvimento de capacidades cognitivas e emocionais, são cada vez mais as crianças que acabam por ser sujeitas a uma precoce pré-escolarização concreta no mundo das aprendizagens formais.

Por exemplo, muitos pais valorizam jardins-de-infância que preenchem mais tempo diário com ofertas complementares variadas, embora quase todas de carácter dito pedagógico e, de preferência múltiplas, como inglês, informática ou música, em desprimor de outras mais lúdicas. É o início precoce do que está contido em palavras muito anteriores de Heidegger no conceito de «desassossego distraído».

E, mesmo quando algumas destas últimas são escolhidas pelos adultos, têm implícito o objetivo de desenvolver capacidades de desempenho em diversas áreas: escolhe-se o judo ou o karaté, porque favorecem a concentração e a atenção, o ballet já que implica regras, ordem e método. Quase nunca o que é simplesmente lúdico é objeto de primeira escolha, cada vez menos esta ou aquela criança pratica dança ou joga futebol por ser a sua atividade favorita.

Nas últimas décadas, neurologistas, sociólogos, pedopsiquiatras e especialistas de áreas afins vêm insistindo na necessidade premente de desenvolver a arte da desligação, ou seja, a utilidade de criar e valorizar espaços de descontinuidade, quebra e interrupção. Num ensaio recente sobre o dom da demora, O Aroma do Tempo, Byung-Chul Han escreve: «Suspender o movimento para refletir é um ato de coragem… A crise temporal advém da eliminação da capacidade de contemplar.»

O preenchimento excessivo do espaço psíquico por um verdadeiro lixo» emocional «pré-ocupa» a mente de forma a não permitir a existência do florescimento de outras áreas psíquicas: é como uma sementeira de monocultura, sendo que esta abafa a possibilidade de pausa psíquica, de descanso ou desenvolvimento de outras áreas pessoais e sociais que só podem existir a partir de um ponto prévio de maior vazio e espaço interior.

Pausa em tempo de pressa. Ou da necessidade oposta de procura de «pontos de fuga», como descreveu James Garbarino, pedopsiquiatra norte-americano. Tal como na conceção de um espaço abstrato, o ponto de fuga permite a noção e a necessidade de perspetiva: ver «para além de» algo ou alguém. Faz falta esta noção de distanciamento que produz profundidade reflexiva e, em tantos casos, de capacidade criativa.

A capacidade criativa não implica somente a noção de um ato artístico; neste ponto de vista, aplica-se ainda ao desenvolvimento de diversas possibilidades de resolver problemas, encontrar soluções para dificuldades diárias ou simplesmente situar o indivíduo para além de um momento concreto.

Sei que sou bom a jogar futebol. Gosto de estar ali, inventar jogadas, marcar golos, conviver com os meus amigos da equipa, que são diferentes dos da escola. Treino quatro vezes por semana, entre as 19h30 e as 21h00, mas, se me perguntarem se me canso, digo que não. É o melhor tempo da minha semana. É quando eu descontraio e já não penso em mais nada, nem em problemas. (V., 15 anos)

Muitas vezes, este ponto de fuga pode ser ainda utilizado para conseguir alcançar uma outra visão de si próprio, quer dizer, uma melhor capacidade de também olhar e envolver outros.
Permite-se assim a necessidade precoce de desenvolver uma atitude de altruísmo, inclusivamente de cada qual para consigo próprio: o conceito de autotolerância, pautado por adequação de expectativas e um equilíbrio melhor entre exigência pessoal e integração da falha ou da dificuldade.

Tal como se reforça a importância de procurar verdadeiros pontos de interesse emocional, obrigatoriamente diferentes da rotina, distantes ou mesmo em rotura com a atividade profissional ou prioritária. Algo que contenha muito mais do que uma simples compensação económica ou de ascensão social, e reforce verdadeiramente cada criança e adolescente, por vezes até revelando facetas que a própria escola não valoriza: desporto, música, artes plásticas, dança e teatro são exemplos recorrentes.

A presença de um ponto de fuga afetivo representa a possibilidade de olhar para diante, num movimento simultâneo de projeção e libertação perante o peso monótono do «aqui e agora»: o reencontro com o que pode sempre parecer de maior significado pessoal.

Emocionalmente, é cada vez mais complicado ter a perspetiva de horizonte (no espaço e no tempo), de quebra de limitação circunstancial que o quotidiano impõe. O conceito de fuga não pressupõe também a construção de um referencial, de um «porto de abrigo», expressão utilizada também por Garbarino.

É curioso verificar que todos aqueles que conseguem regularmente abdicar de algumas horas em prol destas atividades consideram este «gasto» como um verdadeiro «ganho» do seu próprio tempo. E usam frases tão significativas como algumas que surgem até em contexto clínico: «um balão de oxigénio», «a minha fonte de energia» ou «uma verdadeira pílula mágica».

Encontrar um ponto de fuga é, com frequência, poder estar ligado a atividades de fortalecimento de mecanismos de identidade e pertença, que com facilidade atuam como saudáveis válvulas de descompressão sobre múltiplas tensões acumuladas ao longo dos dias ou das semanas.

A existência de tempo de lazer correspondeu a uma longa evolução social e humana que levou séculos a ser reconhecida, não como um luxo, mas sim como um saudável direito de quem trabalha (ou estuda). Contudo, numerosos avanços registados no século XX, como o direito a dias férias, um máximo de horas de trabalho semanal, subsídios de Natal, idade de reforma ou outros, tiveram breves décadas de existência folgada para atualmente serem cada vez mais postas em causa perante cenários de precariedade ou outros exclusivamente centrados em cenários ligados aos conceitos de produção e consumo.

Curiosamente, o mesmo foi acontecendo na dimensão infantojuvenil, sendo unânime a ideia de que as crianças e os adolescentes de agora descansam e brincam muito menos do que os seus próprios pais durante o mesmo tempo de crescimento. Têm ainda uma sobrecarga desproporcionada de algumas disciplinas, consideradas fundamentais, em desprimor de outras, facilmente secundarizadas.

Alunos portugueses têm das mais pesadas cargas horárias em 1.º ciclo (…). Nos quatro primeiros anos de escolaridade somam um total de 3744 horas (…). Ainda no que diz respeito aos alunos até final do 9.º ano, Portugal apresenta dentro da União Europeia o primeiro lugar no tempo dedicado à disciplina da Matemática, que ocupa em média 20,4 por cento da totalidade dos currículos. (Maria Isabel Festas, no livro Os Tempos na Escola)

Só que nem sempre foi assim. Na verdade, muitos adultos podem ainda recordar o início de anos letivos apenas no mês de outubro, as aulas teóricas de 50 minutos seguidas de intervalos de 10 e até de 15 minutos, e ainda longos momentos de férias habitualmente gastos em proximidade com a família alargada e sem grande necessidade de programação prévia.

Hoje, perante a falta de tempo ditada por compromissos profissionais, muitos pais começam a incluir na escolha de um estabelecimento de ensino a possibilidade concreta de este se encontrar aberto durante os 12 meses do ano, mesmo que em atividades não-letivas. As pausas correspondentes a férias de Natal, Páscoa ou de verão acabam por ser vividas com algum temor por parte de muitas famílias que declaram não ter onde deixar os filhos.

A corrida à garantia máxima de um eventual sucesso escolar, mais tarde universitário e depois profissional, começa bem cedo. Nesse modelo, é fácil compreender novamente que para a sociedade em geral «tempo é (nada mais do que…) dinheiro». Assim, qualquer pausa soa a desinteresse, laxismo ou até luxo e esbanjamento.

Por outro lado, sabe-se que durante os longos anos de desenvolvimento maturativo (mais de duas décadas) o cérebro necessita de uma estimulação e funcionamento multimodal que vai bem para além de provas continuadas de memorização, retenção e repetição de informação que a escola acaba por pedir quase em exclusividade.

Na minha escola dizem-nos que há mais coisas que contam para a nota, mas não vale a pena iludirem-nos. Então agora no secundário, toda a gente sabe que no final do período a classificação é apenas a soma dos testes a dividir por dois. (H., 16 anos)

É ainda reconhecida a necessidade que o cérebro tem de desligar, isto é, de manter apenas o seu funcionamento basal, longe de outro tipo de exigências e respostas. Começando pelo aspeto mais vulgar, o caso do sono. O sono é, por natureza, a atividade reparadora de todo o funcionamento fisiológico do corpo e da mente. De 16 a 18 horas de sono que um recém-nascido pode cumprir, às oito horas consideradas mínimas ou adequadas na idade adulta, vai uma longa margem de evolução e de variabilidade própria de cada ser humano. Porém, as queixas de sono, nomeadamente as de insónia inicial, são comuns em todas as faixas etárias e têm cada vez mais um início em idades precoces. Parece que o ser humano tem hoje uma dificuldade em, simplesmente, fechar os olhos entregando-se ao chamamento do descanso. Deixar obsessivamente de pensar ou agir, quase sempre antecipando e tentando manter sob controlo o seu próprio funcionamento (e o dos outros) e entregar-se com segurança e tranquilidade ao desconhecido que a noite simboliza.

Talvez porque, para muitos, o descanso soe agora a um universo totalmente desconhecido onde o que acontece (incluindo a saudável atividade de sonho) é incontrolável e… incontornável. Habituado a contornar dificuldades, nem que seja negando-as, uma vez que lidar com a frustração, a barreira ou o limite parece algo extremamente difícil e gerador de tensão, e ainda vendo inscrito na sua matriz estrutural o desejo omnipotente de controlo, o homem comum vê no sono um inimigo temível, ao invés de um bem-vindo companheiro da paz e da tranquilidade.

O horror ao vazio e ao significado do escuro da noite faz com que esta tenda a ocorrer cada vez mais em estado de vigília (por exemplo, a diversão noturna dura até ao amanhecer), ou a ser controlada através de psicofármacos, como os indutores de sono. Falta de sono, excesso de trabalho e pouca disponibilidade para a escuta de si próprio, muito menos do outro, são fatores apontados como frequentes para causas e consequências de insatisfação pessoal e familiar. De novo, reintroduzir um novo paradigma que facilite o reequilíbrio escola-trabalho versus lazer parece ser uma tarefa de máxima urgência.

É fácil fazer a leitura de dados estatísticos que mostram o que se passa em sociedades em que os índices de satisfação e qualidade de vida global são bastantes positivos. É o caso dos países nórdicos, onde este balanço é feito de forma assumidamente cultural: são também locais onde as crianças passam um menor número de horas diárias na escola e as percentagens de sucesso e desempenho escolar são realmente gratificantes.

Mesmo sobre as crianças e adolescentes é necessário retomar a noção de desenvolvimento e proporcionalidade em temas como responsabilidade, desempenho e, claro, lazer. O que se pode ou deve exigir a uma criança de 6 ou 10 anos (1.º ano ou 5.º ano de escolaridade) tem de ser diferente daquilo que é expectável para 15 ou 18 anos (9.º ano ou universidade).

Imprimir um ritmo desadequado na infância e juventude, sobretudo no que toca às questões da escola (como equivalência de trabalho) e da própria perspetiva futura profissional, é, mais do que tudo, trazer para o presente pré-ocupações sem sentido e uma fonte segura de angústia desnecessária.

Desse modo, nunca o tempo realmente livre que é preciso dar a crianças e adolescentes pareceu tão estranho de aceitar e de implementar de forma convicta por parte dos adultos que os acompanham.

O tempo livre, com pontos de fuga ou em porto de abrigo, constitui um imenso reservatório de bem-estar físico e emocional. A atividade lúdica, mesmo que simplesmente traduzida pelo brincar, parece também ameaçada: isto é, ou é seguido um guião ou um certo objetivo antecipadamente definido, ou com frequência muitos rapazes e raparigas desorganizam-se com facilidade perante o confronto com um espaço vazio ou com uma folha em branco.

E agora o que é para fazer? Se não me der uma ideia, não sei o que desenhar… e posso sair dos riscos? (T., 6 anos)

Também o que Donald Winnicott designou como a saudável «capacidade de estar só» se tornou tarefa complexa para as crianças. Perante a eventualidade de uma organização individual autónoma, algo que corresponde à presença da imaginação e da criatividade, bem como à capacidade de imaginar, propor e desenvolver atividades, muitos dos mais novos recorrem de forma imediata à presença ou monitorização imprescindível do adulto.

Não são raros os pais que afirmam a dificuldade que sentem em que os filhos brinquem sozinhos, nem que seja por curtos períodos de tempo. O mesmo acontecendo na escola, sobretudo nos primeiros anos de escolaridade, em que muitos professores reportam a necessidade da proximidade física e relacional (dependência) dos alunos para que estes consigam iniciar ou manter uma tarefa sem desistir ou dispersar.

Outro dos sentimentos presente neste novo Homo laborans diz respeito à exigência que cada qual coloca em si mesmo, num verdadeiro mecanismo de coação interna. Associado a este fator, em que cada qual se torna carrasco de si mesmo, surge o peso avassalador de um sentimento de culpa: dentro de uma certa cultura judaico-cristã, parece pecado ter tempo livre, louvar o descanso ou a fuga tanto quando se preza o trabalho, a responsabilidade, o ganho económico.

Só que ser capaz de dar este passo de mudança de paradigma implica um longo trabalho emocional e uma capacidade de reflexão e ação em consonância com esse mesmo movimento. Por isso, parece urgente reformular paradigmas de vida diária, integrando-os progressivamente no tempo de existir.

Saber parar é, sem dúvida, saber pensar. Ou, pelo menos, criar mais espaço para a atividade crítica e criativa tão necessária ao balanço emocional do ser humano de hoje.

Dar espaço ao silêncio. Viver a imensidão de uma folha em branco.

 

 


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