Mensagem da Diretora-Geral da UNESCO por ocasião do Dia Internacional da Alfabetização

Outubro 5, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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“Quando aprenderes a ler, serás livre para sempre”, escreveu Frederick Douglass, no século XIX, um escravo negro americano liberto, campeão da causa abolicionista e autor de várias obras. Este apelo à emancipação através da leitura e, de um modo mais geral, do domínio dos conhecimentos fundamentais – ler, escrever e contar – tem um alcance universal.

A alfabetização é o primeiro passo para a liberdade, para a libertação das condicionantes sociais e económicas. É o pré-requisito para o desenvolvimento, individual e coletivo. Reduz a pobreza e as desigualdades, cria riqueza e ajuda a erradicar problemas de nutrição e de saúde pública.

Desde a época de Frederick Douglass, e particularmente nas últimas décadas, foram alcançados progressos consideráveis em todas as regiões do mundo, e milhões de homens e mulheres foram resgatados da ignorância e da dependência através de um amplo movimento de alfabetização e de democratização do acesso à educação. No entanto, a perspetiva de um mundo em que cada indivíduo seja detentor de conhecimentos fundamentais permanece um ideal.

Hoje em dia, em todo o mundo, mais de 360 milhões de crianças e adolescentes não estão matriculados na escola; seis em cada 10 crianças e adolescentes – ou seja, 617 milhões – não adquirem as competências mínimas em literacia e numeracia; 750 milhões de jovens e adultos ainda não sabem ler e escrever – e destes, dois terços são mulheres. Estas lacunas, que são extremamente incapacitantes, levam à exclusão de fato da sociedade e perpetuam a espiral de desigualdades sociais e desigualdades de género.

A tudo isto se soma agora um novo desafio: um mundo em plena mutação, onde o ritmo das inovações tecnológicas está continuamente a acelerar-se. Para poder encontrar um lugar na sociedade, conseguir um emprego e responder aos desafios sociais, económicos e ambientais, as competências tradicionais em literacia e numeracia já não são suficientes; novas competências, inclusive em tecnologias da informação e comunicação, estão a tornar-se cada vez mais necessárias.

É um desafio preparar os jovens e os adultos para empregos que na sua maioria ainda não foram inventados. É por isso indispensável ter acesso a uma aprendizagem durante toda a vida, tirar proveito de caminhos e pontes entre as diferentes modalidades de formação e beneficiar de grandes oportunidades de mobilidade.

Em 2018, este Dia Internacional é subordinado ao tema “Alfabetização e desenvolvimento de competências” e foca-se numa abordagem evolutiva da educação. A UNESCO está ativamente envolvida nesta redefinição de políticas de alfabetização e incentiva práticas educacionais inovadoras. Também apoia as diferentes formas de cooperação entre o setor público e o setor privado, porque somente uma compreensão global da causa da educação pode responder adequadamente às necessidades de um mundo que parece reinventar-se a cada dia.

Neste Dia Internacional, convido todos os atores do mundo da educação, e de outros setores, pois trata-se de uma causa que a todos diz respeito, a mobilizarem-se a fim de que o ideal de uma sociedade mundial inteiramente alfabetizada se converta um pouco mais em realidade.

Audrey Azoulay

 

Referência: Mensagem da Diretora-Geral da UNESCO por ocasião do Dia Internacional da Alfabetização. (2018). Comissão Nacional da UNESCO. Retrieved 3 September 2018, from https://www.unescoportugal.mne.pt/pt/noticias/mensagem-da-diretora-geral-da-unesco-por-ocasiao-do-dia-internacional-da-alfabetizacao-2

 

Fonte: Blogue da Rede de Bibliotecas Escolares

Como evitar que um pedófilo se transforme num abusador?

Outubro 5, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 15 de setembro de 2018.

Director do Instituto de Sexologia da Charité – Universidade de Medicina de Berlim esteve na Faculdade de Medicina do Porto a explicar como é que a Alemanha está a fazer prevenção de abuso sexual.

Ana Cristina Pereira

A pergunta foi lançada por Klaus M. Beier, director do Instituto de Sexologia da  Charité – Universidade de Medicina de Berlim, no auditório da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto: como prevenir o abuso sexual de crianças? E a resposta saiu-lhe clara. “Ajudando os pedófilos a controlarem os seus impulsos.”

Desenvolveu um projecto pioneiro na Alemanha, que apresentou na 13.ª edição do Young European Scientis Meeting, a conferência internacional organizada por alunos daquela faculdade. E diz-se disposto a treinar quem desejar seguir-lhe as pisadas. “Gostava que houvesse em Lisboa ou Porto um grupo de terapeutas que se disponibilizassem para avançar com um serviço destes”, afiança.

O abuso sexual pode provocar nas vítimas stress pós-traumático. Os efeitos de longa duração afectam o sistema imunitário, abrindo caminho a outras doenças. E isto leva Beier a questionar por que se investe tão pouco em prevenção primária.

O projecto foi lançado em 2005, com uma campanha que incluiu cartazes e spots. A mensagem era mais ou menos esta: “Tu não és culpado por ter este desejo sexual, mas és responsável pelo teu comportamento sexual. Há ajuda! Não te tornes num agressor.”

A pedofilia, classificada pela Organização Mundial de Saúde como uma doença, “não é uma escolha, é um destino”, enfatiza Beier. “Manifesta-se durante a puberdade e mantém-se estável ao longo da vida. Não tem cura. Uma pessoa pode, porém, aprender a controlar os seus ímpetos, evitar passar à prática.”

Importa não confundir pedófilos com agressores sexuais de crianças. Cerca de 60% dos agressores sexuais identificados usam crianças como substituto. Têm, por exemplo, uma debilidade mental, um distúrbio de personalidade anti-social ou uma atmosfera familiar traumatizante. “Eles gostariam de ter sexo com uma mulher; recorrem a uma menina, porque é mais fácil”, diz. Cerca de 40% sofrem de pedofilia (atracção por crianças pré-púberes) ou hebefilia (atracção por púberes ou recém-púberes). E esses, pelo nível de sofrimento que experienciam, estarão mais abertos a procurar ajuda.

“A sociedade tem de parar de demonizar a pedofilia”, considera o especialista. Só se conseguirá tratar estas pessoas a título preventivo se houver um serviço especializado e se esse serviço for capaz de estabelecer uma relação de confiança (o que implica não denunciar) e de empatia (compreender o sofrimento).

A mensagem que, em seu entender, importa interiorizar é: “Sabemos que isto faz parte da sexualidade humana, sabemos que essa é a orientação sexual de 1% da população, gostaríamos de integrar essas pessoas, não queremos que passem à prática, porque não queremos que façam mal às nossas crianças. Oferecemos-lhe tratamento. Quem abusar de crianças será castigado.”

Parece-lhe que os media têm responsabilidades. “No primeiro ano do programa, os jornalistas foram muito hostis”, recorda. “Perguntavam-nos: ‘O que estão a fazer aí? Estão loucos? Estas pessoas são criminosas. Têm de fazer queixa delas.’ Nós tivemos de os convencer de que esta é a maneira certa de proteger as crianças. E eles compreenderam. Começaram a usar termos mais neutros.”

A linguagem não é de somenos. “Se és um arquitecto ou um médico que sofre de pedofilia e lutas contra isso, não vais aceitar entrar num programa que diga que és um abusador de crianças”, exemplifica. “Tu vais pensar: eu tenho controlado o meu comportamento e tu estás a dizer que eu sou um abusador de crianças! Eu nunca abusei de uma criança! Eu não quero abusar de nenhuma criança!”

O programa para adultos existe em 11 cidades alemãs. Nos primeiros 12 anos, 8497 pediram ajuda e 1418 revelaram-se aptos para tratamento, que combina psicoterapia individual e de grupo com fármacos. Em 2014, arrancou um programa para adolescentes em Berlim. Até Junho deste ano, 114 pediram ajuda e 51 receberam luz verde.

Dois terços dos adultos que se sujeitaram a tratamento estão a conseguir controlar a sua pulsão sexual. Um terço admite ter voltado a ver pornografia infantil. Nos adolescentes, até agora não há registo de reincidência. Beier quer alargar a oferta a adolescentes de todo o país. Por terem uma idade mais próxima da das vítimas, “correm maior risco” de passar do desejo à prática.

O que pode fazer quem está longe? A equipa criou uma ferramenta de autoajuda para quem sente atracção por menores e não tem acesso a terapia e colocou-a online. Está em inglês e em alemão. No futuro, deverá existir noutras línguas, incluindo português. Já recebeu pedidos de ajuda de pedófilos de cerca de 60 países, nomeadamente de Portugal.

 

Com que idade devo entrar na escola?

Outubro 5, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 8 de setembro de 2018.

Imagem retirada do blog do CIEC:

https://ciecum.wordpress.com/2018/09/14/com-que-idade-devo-entrar-na-escola/

 

 

 

Acolher jovens estrangeiros pode ser uma forma de “educar para a tolerância”

Outubro 5, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Miguel Manso

Notícia do Público de 17 de setembro de 2018.

Há famílias portuguesas que recebem adolescentes de outras nacionalidades através de intercâmbios que lhes permitem estudar em Portugal desde três meses a um ano lectivo. Neste período criam-se laços para a vida e aprende-se sobre outras culturas, dizem.

Rita Marques Costa

Francesca, uma jovem italiana, foi a primeira estudante de intercâmbio recebida por Maria João Lourenço e pela sua família, em 2013. “Quando soube que temos cinco filhos, ficou assustada com a dimensão da família”, lembra Maria João. Mas, depois, “adorou”. A esta adolescente seguiram-se Katrine, dinamarquesa, depois, ao mesmo tempo, Joaquin, do Chile, e Orkun, da Turquia. A seguir, Rosie, dos EUA, e Marthe, da Bélgica. No domingo, a família deu as boas-vindas a Baiplu, da Tailândia, e a Ege, da Turquia. Receber estes jovens é uma forma de “educar para a tolerância” e para a diversidade de opiniões e valores em cada cultura.

O programa em que a família está envolvida é da responsabilidade da AFS Portugal — uma associação que promove intercâmbios nacionais e internacionais entre jovens e as suas famílias. Há uma semana, mais de 80 estudantes conheceram as suas famílias de acolhimento.

Quando cá chegam, os jovens são tratados como filhos. Levam-nos a passear, a conhecer a cultura e até a participar nos encontros com outros membros da família. E pesa mais no orçamento familiar? “Depende”, diz Maria João. “Encaramos isto como um investimento que acaba por ser quase irrisório. Grande parte dos custos é da responsabilidade da AFS, como o material escolar e os almoços durante a semana. Não vou dizer que não há gastos — até porque passeamos muito mais —, mas faz parte do pacote educativo que queremos dar aos nossos filhos.”

Sobre os custos, a família de Cláudia e Jorge Calisto diz que pesa mais enviar um filho do que receber. Este ano, a filha Leonor, de 17 anos, foi para os Estados Unidos, o que, entre a escola, viagens e outros gastos, fica perto dos 12 mil euros, estima Jorge Calisto.

Com a partida temporária de Leonor, a família Calisto não contava receber ninguém este ano. “Ser família de acolhimento não estava nos planos iniciais”, lembra Jorge. “Até achámos que ia ser um ano mais tranquilo, só com dois filhos, mas depois ficámos curiosos e sensibilizados pelo facto de haver crianças ainda sem família de acolhimento.” Foi assim que Esin, uma jovem turca de 15 anos, foi parar a casa desta família lisboeta.

Abrir horizontes

Tanto como recebem estes jovens de outras nacionalidades, Maria João e o marido deixam os seus filhos ir. Este ano lectivo, um está na Dinamarca, através dos intercâmbios da AFS, e outra, mais velha, está a fazer o programa Erasmus. “Custa um bocadinho”, confessa Maria João, “mas faz parte da educação”. Para esta mãe, trata-se de ganhar “abertura para o mundo” e de incentivar os jovens a “interagirem com os outros fora da zona de conforto”. E garante que é uma experiência da qual saem “mais bem preparados para os dias de hoje”.

Mesmo assim, não é por irem para outro país que estes jovens deixam de ter de cumprir as obrigações académicas a nível nacional. No caso dos que querem fazer o último ano do secundário no estrangeiro, há que voltar e fazer os exames nacionais. Maria João conta que, por exemplo, o filho que foi para a Dinamarca vai já com o ensino secundário concluído. O plano é regressar no início de 2019, a tempo de fazer melhoria de notas e depois ingressar na faculdade.

Já Cláudia Calisto diz que nos Estados Unidos, para onde foi a filha Leonor, “as equivalências [com as disciplinas portuguesas] são mais possíveis”. Mesmo assim, declara: “Já encaramos a possibilidade que este seja um ano de intervalo.”

“Temos uma bolsa de famílias que costuma estar disponível” para cooperar com a AFS, mas costuma ser “um stress para conseguir o número necessário para satisfazer a procura”, explica a responsável pela AFS Portugal, Rita Saias. Mesmo assim, “não é porque um estudante vai que os pais são obrigados a receber”.

A escolha das famílias “não tem nada a ver com o background académico ou com o escalão financeiro”, assegura Rita Saias. Desde que exista espaço para o estudante e disponibilidade para o receber como um filho, “não se fazem distinções”. Por isso, pode ser uma família monoparental, homossexual, um casal jovem ou mais velho, podem até nem ter filhos ou ser apenas uma pessoa que vive sozinha.

O processo de selecção é relativamente simples. Primeiro, há uma candidatura da família, com “algumas questões básicas”. Depois, há um voluntário que visita a residência e avalia as motivações, disponibilidade e ajuda a “desmistificar” algumas ideias.

Quanto aos jovens, “já fazem parte do programa um ano antes” de chegarem ao país que os vai receber. Quando cá chegam, há voluntários encarregues de seguir os jovens e há um acompanhamento mensal para “garantir que está tudo bem”.

“Para toda a vida”

A primeira barreira que estas famílias sentem será a da língua. A comunicação faz-se em inglês e há um esforço para que os jovens comecem a falar português o mais depressa possível. Na casa de Cláudia e Jorge, por exemplo, os móveis e objectos já estão cobertos de pequenos post-its onde se podem ler os respectivos nomes em português para que a aprendizagem de Esin seja mais rápida.

Ultrapassadas eventuais dificuldades iniciais, este contacto com os jovens não é coisa que fique só pela sua estadia. “É uma relação para toda a vida”, diz Maria João. E não faltam elogios desta mãe aos seus “filhos de acolhimento”. É que, garante, “estes jovens são muito especiais, não é qualquer um que sai da sua zona de conforto”.

A presidente da AFS, Rita Saias, que também participou nestes intercâmbios quando frequentava o ensino secundário, confirma este laço especial que se cria: “São pessoas que sinto que me conhecem melhor do que a minha própria família. Foi uma experiência que mudou completamente a minha vida.”

Emmanuel, da Costa Rica, e Thitinan, da Tailândia, têm ambos 17 anos e chegaram a Portugal no início da semana.

A família de acolhimento de Emmanuel é de Setúbal. Esta é a sua primeira vez na Europa, mas não é uma estreia fora de casa. “Já estive no Panamá, no México e na Guatemala.” Quanto a esta experiência, diz que é uma oportunidade para “amadurecer e ganhar consciência das decisões que o afectam a si próprio”. “Esta é uma oportunidade que não surge duas vezes.”

Para Thitinan importa absorver o máximo da cultura e língua portuguesa e poder partilhar tudo o que aprendeu quando regressar à Tailândia. Quanto aos pais, garante, “insistiram que viesse”.

 


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