Como simples garrafas de champô salvam milhares de crianças

Setembro 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Notícias Magazine de 12 de setembro de 2018.

Texto de Pedro Emanuel Santos

Um médico descobriu uma forma simples, eficaz, barata e infalível que permite salvar da morte quase certa crianças e bebés com problemas respiratórios, no Bangladesh.

O esquema é, aparentemente, simples e foi inventado pelo pediatra Mohamod Jobayer Christi, que, cansado de ver tantas crianças morrerem devido à falta de um aparelho básico de suporte de respiração, tentou ele próprio magicar um. A solução está em comuns… garrafas de champô transformadas em improvisados ventiladores, material que não abunda no Bangladesh e cuja falta é causadora de milhares de óbitos por ano de menores diagnosticados com pneumonia e outras doenças pulmonares.

“Só na minha primeira noite em que trabalhei vi três crianças morrerem. Fiquei tão sem chão que chorei. A partir de então pensei numa forma de salvar o máximo possível de vidas”, contou à BBC Mohamod Jobayer Christi, que exerce num dos maiores hospitais do Bangladesh, país asiático com cerca do dobro da área terrestre de Portugal, mas com impressionantes 163 milhões de habitantes e uma elevada taxa de mortalidade infantil (31,7%, segundo números do ano passado).

Se a pneumonia não for travada a tempo numa criança pode ser fatal. São desenvolvidas bactérias e vírus que rapidamente ocupam os pulmões e limitam sobremaneira a respiração. Por isso, os ventiladores são essenciais nestas situações, mas não existem em abundância no Bangladesh por serem caros para as bolsas públicas locais. Cada um custa cerca de 13 mil euros, verba inacessível e quase proibitiva por aquelas bandas.

A solução encontrada por Mohamod Jobayer Christi é manifestamente mais em conta e igualmente eficaz, como se de um normal ventilador se tratasse. Além disso, permitiu que o médico publicasse um estudo sobre a matéria numa grande revista de investigação internacional. E que, até, fosse promovido na hierarquia do hospital onde exerce funções.

“Não tenho palavras para expressar a minha satisfação. O meu sonho é ver a taxa de mortalidade provocada pela pneumonia próxima do zero”, expressou Mohamod Jobayer Christi.

Mais informações na notícia da BBC:

The shampoo bottle saving babies from pneumonia

 

Museus, não esqueçam as crianças, por favor

Setembro 26, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Photo by Michał Parzuchowski on Unsplash

 

Artigo de Sara R. Oliveira para o site Educare.pt, em 10 de agosto de 2018

 

As novas tecnologias são uma boa ferramenta para que as visitas a museus não sejam entendiantes e enfadonhas para os mais novos. Luís Pereira, da Universidade de Coventry, Inglaterra, dá algumas dicas sobre o assunto e explica por que razão é importante perceber que os mais novos também são um público-alvo desses espaços.

 

No Museu de História Natural, em Oxford, Inglaterra, há uma placa à entrada que tem escrito o seguinte: “Please, touch me!” (Por favor, toca-me). Luís Pereira, da Universidade de Coventry, Inglaterra, doutorado em Educação para os Media Digitais e mestre em Aprendizagem e Videojogos, faz questão de lembrar esta placa que convida a mexer. “É o mote que dá as boas-vindas aos mais pequenos, indicando que algumas daquelas peças (no caso, animais embalsamados, pedras e outros materiais) estão à espera que as meninas e os meninos (e os adultos) possam tocar e sentir”, refere.

Visitar museus não tem de ser um programa chato, aborrecido. Os recursos digitais ajudam a aumentar o interesse dos mais novos pelos museus, esses centros especializados de partilha de conhecimentos, e a enriquecer as visitas. Auriculares com comentários sobre as peças em exposição, aplicações para instalar nos tablets ou smartphones, realidade aumentada, visitas virtuais, são alguns exemplos do que pode ser feito.

A Internet é também uma aliada nesta área porque ajuda a tornar uma visita mais interessante, mais envolvente. “As tecnologias são úteis para selecionar, lendo críticas, e preparar a visita a museus (verificar os horários e condições de acesso). Podem também enriquecer os objetos visitados através de realidade aumentada.” Por outro lado, um museu pode também ser a oportunidade de desligar das tecnologias, prescindir dos ecrãs e apreciar objetos e espaços.

“Para os pais, o desafio é cada vez mais evitar que os seus filhos se tornem eremitas digitais, enclausurados nos seus quartos com tablets, telemóveis e consolas”, afirma. Uma alternativa é precisamente programar visitas a museus, a espaços criativos. Tirá-los de casa, aumentar o tempo de qualidade em família.

Luís Pereira defende que “os museus deviam ser espaços eminentemente pensados para as crianças”. Há exemplos de museus portugueses muito atraentes para crianças e há os que não colocam os mais pequenos no centro das suas preocupações. As visitas guiadas devem ser planeadas e colocadas em prática numa linguagem acessível para crianças. E não só. “Em todos os museus deveria haver atividades para as crianças, estilo caça ao tesouro, relacionadas com o tema do museu, colorir ou outras possibilidades. Ou seja, atividades que ultrapassam o contexto das visitas escolares.” Simples, não implicam muitos custos e motivam e entretêm as crianças.

“Eu creio que um aspeto relevante tem a ver com uma mudança de paradigma, em que os museus se destinam muitas vezes a uma elite da sociedade. Isso passa por tornar os museus em espaço mais democráticos e populares, no sentido de ser das pessoas.” Luís Pereira sempre esteve envolvido na criação de atividades para pais e educadores no sentido de fomentar a literacia digital. Foi professor do Ensino Básico e Secundário em várias escolas portuguesas e colaborou com diversas instituições de ensino superior nacionais e estrangeiras, nomeadamente as universidades de Oxford, Bournemouth, Minho e Algarve.

Visitas interativas, criativas, divertidas

Os museus não são todos iguais e uma primeira visita, divertida e nada enfadonha, pode ser determinante. As crianças também não são todas iguais. Espicaçar a curiosidade é fundamental. E, muitas vezes, a primeira visita a um museu é feita em contexto escolar. O que estimula a aprendizagem sobre várias matérias – ser humano, ciência, música, animais, carros – fazendo ponte com o currículo escolar.

“Os professores têm este privilégio de abrir horizontes aos seus alunos. Em alguns países, a entrada em museus é gratuita para professores. Isso faz todo o sentido, pois quando planifica uma visita escolar a informação e conhecimento do professor vão influenciar o programa dessa mesma visita.” Professores e pais podem, por exemplo, desafiar os mais novos a usar o Minecraft, o jogo do mundo virtual, para construírem o seu próprio museu. Colocar a criatividade a funcionar.

Na sua perspetiva, as entradas para famílias deveriam ser tendencialmente gratuitas nos museus. Luís Pereira entende que o modelo de negócio deveria apostar mais na venda de produtos das lojas, da cafetaria-restaurante, e não se centrar em demasia no bilhete cobrado à entrada. “Do meu ponto de vista, interessa mais ter os museus cheios, com o potencial de venda de recordações e produtos com preços acessíveis, do que ficar com os espaços vazios.” “Julgo também que a dinâmica educativa dos museus está muito centrada nas visitas escolares, em vez de programas para ocasiões de férias, altura em que as famílias têm mais disponibilidade para acompanhar os seus filhos”, acrescenta.

“É importante reconhecer que os museus são muito relevantes num contexto em que o aprender acontece também fora da sala de aula. A educação não formal é muito relevante e favorece a apreensão de novos conhecimentos ou o reforço das aprendizagens feitas dentro da sala de aula”, sublinha.

Pensar nas crianças é um bom princípio e é também uma boa estratégia. Se os miúdos gostam do museu, da experiência, divertem-se e aprendem, e os pais tendem a querer repetir o programa naquele ou em outros museus. “Creio que já todos tiveram experiências em que uma visita guiada pouco informada e amorfa retira todo o entusiasmo que aquele património podia despertar. Por outro lado, quando existe paixão e a narrativa está pensada para os mais pequenos, as crianças e os mais velhos ficam presos a cada detalhe”, comenta. E, em seu entender, as pessoas que trabalham nos museus não podem ser esquecidas. Têm de ser valorizadas como parceiras na educação das comunidades.

 

O maior dos perigos da adolescência são os pais – Eduardo Sá

Setembro 26, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Redd Angelo Unsplash

Texto de Eduardo Sá publicado no site Eduardo Sá

Perante tantos e tão complexos desafios os pais são absolutamente imprescindíveis

É verdade que o início da adolescência se dá com o início das transformações psicológicas de adaptação à puberdade. E que, em função dela, um corpo que cresce “aos solavancos” e as transformações neutro-endócrinas que a acompanham “desengonçam” os adolescentes, “desarticulam-nos” e introduzem velocidades de crescimento diversas, entre si, que comprometem, em muitas circunstâncias, a sua relação com o grupo de pares e com a família.

É verdade que, logo a seguir, no salto entre os 12 e os 14 anos de idade, a emergência da sexualidade traz à cabeça dos adolescentes tantos sobressaltos e tanto mal-estar que se fecham muito mais sobre si, se tornam muito tensos em relação ao toque, parecem muito pouco simpáticos e ainda menos empáticos: quase como se fossem  “bichos do mato” ou vivessem n’ “a idade do armário”. Alguns, passam a falar em murmúrios e em “grunhidos”. O seu humor sofre oscilações diárias dignas duma “montanha russa”. Talvez por tudo isso, os grupos de pares dão-lhes o suporte que a família, em muitos momentos, regateia. A ligação entre identidade de género, identidade propriamente dita e identidade sexual começa a desenhar-se. E a sua vulnerabilidade, a este nível (e não só), aumenta, de forma vertiginosa, com toda a informação que lhes chegam via online.

É verdade, ainda, que, tal como os seus pais, os adolescentes portugueses gostam de ir para a escola, sobretudo, por causa do recreio. Colaboram, cada vez mais, em contexto escolar, uns com os outros. São quem mais valoriza o trabalho de equipa. São os alunos mais ansiosos entre os alunos dos países da OCDE, face à avaliação. E são os que mais abandonam a escola sem concluir o ensino secundário. E vivem-na como se ela lhes permitisse, sobretudo, downloads. Mais do que, propriamente, os levasse a pensar e a criar.

É verdade que, apesar de tudo isso, os adolescentes portugueses convivem entre si, eles socializam, hoje, sobretudo, online. A um ritmo diário quase absurdo – durante a manhã, no decurso das aulas, às refeições (!) e ao longo da noite – e diante da passividade gritante das famílias. E que circulam por sites, jogos online e redes sociais que – por mais que merecessem o controle, sensato e transparente, dos seus pais – aumentam, de forma exponencial, o contraditório da sua sabedoria, a forma como são manipulados em função dos dados que deixam, como rasto, nas redes e os perigos a que estão expostos.

É verdade que os adolescentes trocam 30 000 sms por ano (não contando com as caixas de conversação online). Gastam 8 dias por ano falando ao telefone, não contando que metade deles tem televisão no quarto.  Que 1/4 dos adolescentes passa mais de 6 horas por dia ligado à internet. Que focam, arrastam ou clicam no telemóvel quase 3 000 vezes por dia. E, mesmo se estiver desligado, têm, na sua presença, uma “atenção parcial” e, por isso mesmo, ficam menos inteligentes. E, se o seu comportamento for idêntico ao dos pais, fazem mais de 3 publicações por dia nas redes sociais; em 90% delas, com conteúdos de natureza pessoal. Sem se darem conta que, com 150 likes, um computador será capaz de os “conhecer” melhor que um membro da sua família.

É verdade, ainda, que a escola está, perversamente, virada, quase em exclusivo para promover a entrada no ensino superior. E que, entre mesadas, propinas, livros, dinheiro de bolso e todas as outras despesas relativas à vida de um filho, qualquer adolescente universitário tem um vencimento mensal muito claramente superior ao ordenado mínimo nacional. E que, talvez por causa de tudo isso, há em Portugal 176 mil jovens com menos de 30 anos que não trabalham, não estudam nem estão em formação.

É verdade, finalmente, que, se se tomar a autonomia de um adolescente em relação à sua família – em termos físicos, psíquicos e financeiros – a maioria dos adolescentes se torna autónoma pelos 30 anos. O que, se, por um lado, releva os aspectos acolhedores dos pais como talvez ele não existisse, de forma transversal, há uma geração atrás, por outro, os transforma numa espécie de “banco popular” e de “prestadores de serviços” que quase eterniza a adolescência.

É verdade, concluindo, que, diante de tantos e tão diversificados desafios, o maior dos perigos dos adolescentes são os pais. Quando se transformam nos melhores amigos dos filhos e se inabilitam para ser pais. Quando convivem e condescendem com comportamentos com que não concordam. Quando não repreendem nem reprimem as atitudes de altivez e de arrogância e as desconsiderações com que eles escondem as suas fragilidades. Quando não definem regras de utilização inequívocas para os telemóveis, para as redes sociais e para o jogo. Quando pactuam com a sua relação com o álcool como se fosse uma atitude de iniciação para a vida adulta sem consequências (quando mais de metade dos adolescentes que o experimentam se tornam consumidores frequentes ou de grandes quantidades e revelam, em função disso, diminuições claras dos seus córtexes frontal e temporal). Quando, à boleia do discurso populista entre drogas pesadas e drogas leves, omite opiniões firmes e regras claras sobre o consumo destas últimas, por mais que aplauda os comportamentos de saúde que os adolescentes têm, cada vez mais, com o tabaco. Quando deixam de ser “a referência” de Lei, de boa educação e de tenacidade e bom senso de que os adolescentes precisam. Quando os protegem demais e os autonomizam de menos. E, por último, quando imaginam que, num mundo em mudança, o seu papel em relação aos filhos será secundário. Quando é, mais do que nunca, imprescindível, insubstituível e indispensável. Por muito, muito tempo!

 


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