A ansiedade e os traumas de pais e filhos no dia em que as crianças entram na creche

Setembro 12, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 3 de setembro de 2018.

por Catarina da Eira Ballestero

Semanas antes do derradeiro momento, há pais que já não conseguem controlar a ansiedade. A MAGG ouviu mães, educadoras e psicólogas.
horo. Há muitas lágrimas envolvidas no primeiro dia de creche dos filhos depois de umas férias de verão, sobretudo se for a primeira vez que as crianças deixam o núcleo familiar de pais e avós e enfrentam um mundo novo numa escola. No início desta nova etapa na vida de uma família, nem sempre são apenas os miúdos que choram — em muitos casos, as lágrimas mais insistentes correm dos olhos das mães e dos pais.

Foi o que aconteceu a Paula Santos, 43 anos, mãe de um rapaz e duas meninas, mas apenas quando repetiu a experiência. A entrada do filho mais velho na creche, que aconteceu quando o bebé tinha seis meses, foi relativamente tranquila — a jornalista não se consegue recordar de o momento ter sido doloroso. “Honestamente, quando olho para trás, não me lembro de me ter custado muito. Eu via-o como um bebé forte e de fácil adaptação e tínhamos gostado muito da educadora de infância que o iria acompanhar”, conta Paula Santos à MAGG, que admite que o cenário se alterou completamente com a segunda filha.

Apesar de ter inscrito a bebé exatamente com a mesma idade do irmão mais velho, Paula recorda que os momentos não podiam ter sido mais distintos. A entrada da filha na creche foi um período complicado. “No primeiro dia quase não consegui falar com as cuidadoras, tinha a voz embargada e fui-me embora a chorar. Foi impossível evitar. Tinha de ir buscá-la passada uma hora e fiquei no carro à porta do infantário, a trabalhar e a contar os minutos”, recorda a jornalista, que está quase a passar por esta experiência uma terceira vez.
Prestes a lidar com a entrada da filha mais nova na creche (que irá acontecer esta segunda-feira, 3 de setembro), e apesar de a menina ter dois anos e ser mais velha do que os irmãos aquando da ingressão num espaço escolar, Paula diz já estar a sofrer por antecipação. “Estou certa de que irá correr tudo bem, porque é uma criança sociável e vai para a mesma instituição onde está a irmã, na qual confiamos; mas isto é o meu lado racional a falar. O lado animal de mãe tem as sirenes todas ligadas com a expetativa da separação. Só posso concluir que tenho vindo a piorar em vez de melhorar. Nem quero imaginar se tiver um quarto filho”.

As maiores preocupações dos pais

Na generalidade, o primeiro dia de creche não é fácil para as crianças nem para os adultos. Trata-se de uma situação delicada, que pressupõe uma separação e uma grande mudança na dinâmica familiar — e são várias as questões que preocupam os progenitores.

De acordo com Beatriz Matoso, psicóloga clínica, os pais preocupam-se muito em “como vão as crianças suportar a sua ausência, como vão comer e adormecer num ambiente estranho, se são capazes de se adaptar à nova realidade social que lhes é desconhecida, onde é fundamental sentirem-se bem com os educadores e com as outras crianças”.

A educadora de infância Carlota Yoshicawa assina por baixo, e explica à MAGG que a ansiedade dos pais nos primeiros dias de creche prende-se muito com a preocupação em deixar os filhos com alguém que lhes é desconhecido. “Por mais que confiem em nós, educadores, não deixamos de ser um extra, alguém que lhes vai ficar com os filhos, por vezes até mais tempo do que eles próprios”, afirma Carlota Yoshicawa, que também assume que, mesmo que apenas no primeiro dia, os pais não conseguem deixar de pensar se os mais pequenos estão bem entregues, “ficam sempre na dúvida se as crianças vão receber a mesma atenção e mimo que têm em casa”.

Esta é uma ideia partilhada pela também educadora de infância Marta Parracho, que admite que as mães tentam perceber como será o dia a dia dos filhos na creche. “Preocupam-se em saber tudo o que a criança irá fazer desde que chega até que sai e tentam dar-nos a conhecer todas as manias, manhas e preferências dos filhos para que saibamos o que fazer em cada momento”, afirma a profissional.

Ana Gomes, 30 anos, mãe de Vitória, hoje com 15 meses, passou por isso no primeiro dia de creche da filha, na altura com apenas quatro meses. A blogger responsável pela plataforma “A Melhor Amiga da Barbie” estava muito nervosa e acreditava que a adaptação da filha iria ser difícil. “Afinal, como é que estranhos iam tomar conta da minha bebé sem lhe conhecerem os truques? Pensei que ela fosse chorar imenso”, recorda Ana Gomes.

Mas a blogger não está sozinha: de acordo com a educadora Marta Parracho, são muitas as mães que têm pânico que os filhos desatem a chorar, embora esse seja um receio normal. “Percebo que nenhum pai quer deixar o filho para trás em lágrimas, mas esse é um comportamento expetável para uma criança que é deixada num local onde nunca esteve, com pessoas que não conhece e em quem ainda não confia”, afirma a profissional.

Para além do choro, e apesar de a psicóloga clínica Vera Lisa Barroso alertar que os receios das mães diferem muito de acordo com a idade da criança, a especialista realça que, “perante crianças mais novas, com menor destreza física e a marcha recentemente conquistada, muitos dos medos prendem-se com a possibilidade de os filhos caírem e magoarem-se, ou eventualmente não se conseguirem defender dos colegas mais velhos”.

“Os pais não devem impor a sua presença na creche depois de entregar a criança.”

Quando as crianças ainda não dominam a fala, Vera Lisa Barroso explica que “os medos podem prender-se com o facto de os filhos não conseguirem comunicar o seu dia ou solicitar a ajuda precisa em determinadas situações decorrentes na creche”. Já no caso de crianças mais velhas, mais introvertidas ou ansiosas, “os pais podem recear a dificuldade no estabelecimento de relações sociais, envolvimento e interação com os pares; quando são irrequietas, podem recear a obediência às regras e limites estabelecidas pelos adultos ou mesmo a desestabilização das normas da sala e do comportamento do grupo”, explica a especialista, que alerta que é expectável que os pais mais ansiosos e protetores antecipem muitos perigos e dificuldades.

Em todo o caso, as preocupações fundamentais prendem-se com o bem-estar e com a boa adaptação dos filhos à creche, acima de tudo. A psicóloga Vera Lisa Barroso destaca que os adultos querem muito saber se “a criança se alimenta bem, dorme, respeita regras e limites da sala, ouve e respeita as educadoras, interage com os pares e fica bem quando é deixada de manhã”, sendo um bom sinal quando regressa a casa bem-disposta e alegre.

Alerta vermelho: o que não deve (mesmo) fazer nos primeiros dias de creche

Lúcia Pimentel, 36 anos, é mãe de três filhos, com 16, 15 e quatro anos e, tal como conta à MAGG, a experiência de os deixar ao cuidado de terceiros quando teve de regressar ao trabalho não foi fácil.

“Um tinha dois anos, o outro apenas oito meses. Nunca os tinha deixado com ninguém e estava a passá-los para o colo de uma pessoa totalmente desconhecida”, afirma a assistente hospitalar, que recorda que estava muito insegura e ansiosa. “O meu coração batia a mil, tinha medo, já estava com saudades deles. Na verdade, parecia que ia tudo desabar à minha volta e tinha uma vontade enorme de chorar, coisa que aconteceu assim que os passei para o colo das profissionais”, conta Lúcia Pimentel.

“Não concordo, e não sou a favor, de ficarem ali agarrados aos filhos com várias trocas de palavras, como quando tentam enganá-los, dizendo ‘vou ali e venho já’.”

Porém, a educadora Marta Parracho alerta que a ansiedade das mães, apesar de compreensível, não deve ser demonstrada às crianças, bem como “manifestar preocupações em conversas com a educadora ou familiares em frente aos mais pequenos”. A educadora assinala também outras atitudes contraproducentes e negativas para a adaptação dos miúdos, como “deixá-lo entregue à educadora e, depois de ouvir o filho chorar, voltar a trás e levá-lo para casa; ir à creche um dia e no seguinte não (a rotina é extremamente importante nesta fase); e não cumprir o que prometeu à criança, como dizer que a vai buscar depois do almoço, e afinal só aparece depois do lanche”.

Já a educadora Carlota Yoshicawa não tem dúvidas quanto ao que considera ser uma das piores estratégias utilizadas pelos pais: “Não concordo, e não sou a favor, de ficarem ali agarrados aos filhos com várias trocas de palavras, como quando tentam enganá-los, dizendo ‘vou ali e venho já’. Nos primeiros dias, e em alguns casos ainda durante as semanas seguintes, os pais não devem alongar o tempo de entrega dos filhos. Deve ser um momento calmo com uma troca de carinho e uma palavra à educadora ou auxiliar, transmitindo à criança confiança neles e nos adultos”.

A psicóloga Beatriz Matoso também reforça a importância de uma coordenação atenta, disponível e confiante entre pais e educadores durante este processo de entrada na creche, alertando, mais uma vez, que as mães e pais “não devem impor a sua presença na creche depois de entregar a criança, a menos que essa seja solicitada, bem como referirem-se aos educadores como agentes de uma autoridade castigadora e à creche como um lugar de possível castigo”.

A adaptação a um novo espaço é um processo para pais e filhos

Apesar do nervosismo, Ana Gomes conta que a adaptação da pequena Vitória acabou por ser melhor do esperava: “Correu tudo lindamente, ela nunca chorou, nem nos primeiros dias, nem posteriormente”. E, de acordo com os profissionais que trabalham na área da educação, bem como dos especialistas em psicologia, o processo de adaptação é realmente muito importante, existindo várias ferramentas e ideias que os pais podem usar para que este corra da melhor forma.

Uma das estratégias é aumentar gradualmente o tempo de permanência das crianças na creche. A educadora de infância Carlota Yoshicawa realça que esta é uma ótima ideia, dado que, por vezes, existem casos de crianças que nunca foram deixadas com estranhos. “Se até à data estiveram em casa com familiares ou caras já conhecidas, ali encontram-se numa sala que lhes é completamente estranha, com adultos e outras crianças que nunca viram na vida”, alerta a educadora, que acrescenta que “a realidade é que são cerca de oito horas com esses ‘estranhos’, e nos primeiros dias, é um choque muito grande para os mais pequenos”.
A criação de rotinas é igualmente importante para os mais pequenos, tal como explica Carlota Yoshicawa: “A criança deve começar a ter noção das suas rotinas, e saber que existem momentos para a brincadeira, para a higiene e para a alimentação. Assim, quando a mãe tiver de o colocar na creche, sabe que ele já vai com essa noção e não se vai sentir perdido e desamparado”.

Para que esta nova fase na vida de uma família seja tranquila, a educadora Marta Parracho sugere que encarregados de educação e educadores se conheçam antes de a criança começar a frequentar a creche. “Uma conversa aberta com a educadora sem qualquer vergonha, sem tabus, sem complexos, assumindo desde logo a ansiedade pode ajudar na relação entre pais e profissionais, e no ganho de confiança e segurança entre todos”, salienta Marta Parracho, que não é a única a acreditar na importância vital de encontros prévios com as educadoras.

“Para se assegurarem de que os seus filhos ficam bem entregues, os pais devem contactar previamente os educadores para os conhecerem e lhes colocarem as questões que os preocupam, aproveitando para lhes pedir orientações que facilitem a adaptação da criança a esta nova realidade”, afirma a psicóloga Beatriz Matoso, que ainda oferece outra preciosa dica. “Uma foto da criança em interação com outros miúdos, enviada para o telemóvel da mãe e do pai, pode reduzir a ansiedade e facilitar o processo de adaptação em curso”, conclui a especialista.

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