Perguntas (e ingenuidades) de verão – Mário Cordeiro

Agosto 15, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Mário Cordeiro publicado no i de 14 de agosto de 2018.

Aconselho-te a comer refeições leves, ao longo do dia, e cerca de 30 minutos antes de começares a jogar a sério comeres, por exemplo, iogurte ou leite, juntamente com bolachas, pão com doce, cereais ou algo equivalente e, quando terminar o jogo, beberes bastante água.

“Gostava de saber se é bom ou mau comer antes de jogar futebol na praia – é que todos os dias jogamos e é mesmo ‘a partir’.” – João, 15 anos, a passar férias no Algarve.

João: Não se pode pôr as coisas assim tão linearmente, tipo “bom” ou “mau” – depende do que vais comendo nesse dia, da hora do dia, etc. O que te posso dizer é que, se vais ter atividade muscular intensa, vais precisar de consumir mais energia (essencialmente o “açúcar” do teu sangue) e oxigénio. Por outro lado, como os teus músculos, articulações, coração e pulmões vão trabalhar mais, vão precisar de mais sangue. Se não comeres nada antes de praticar desporto, provavelmente vais gastar o teu açúcar e, a meio do jogo, começar a ter quebras de rendimento e sintomas de hipoglicemia (irritabilidade, falta de concentração, falhanços na performance, dores de cabeça, tonturas), e a sentires-te mal, sobretudo se estiver calor, como é de esperar nesta altura do ano. Por outro lado, se comeres demais, o teu aparelho digestivo vai precisar de sangue para realizar a função de digerir e metabolizar o que comeu, pelo que o sangue pode faltar nos tais territórios importantes durante a prática desportiva.

Assim, aconselho-te a comer refeições leves, ao longo do dia, e cerca de 30 minutos antes de começares a jogar a sério comeres, por exemplo, iogurte ou leite, juntamente com bolachas, pão com doce, cereais ou algo equivalente e, quando terminar o jogo, beberes bastante água (e também durante o jogo, se estiver muito calor, mas não em grandes quantidades – pouco e muitas vezes é melhor). Só deverás comer uma refeição mais abundante algum tempo depois.

“É verdade que as abelhas picam com maior probabilidade as pessoas que são doces?” – Vera, 16 anos, a passar uns belos dias de vento e nevoeiro no Baleal.

O que é uma pessoa doce? Um diabético sem controlo? Muitas vezes usa-se este argumento para consolar uma criança que foi picada, no sentido de dizer que foi uma privilegiada… duvido que este argumento te convença, Vera. Todavia, há algum fundo nesta ideia, mas que diz respeito ao odor adocicado, e não ao sabor doce. Alguns desodorizantes, perfumes ou até o cheiro natural adocicado de algumas pessoas pode atrair abelhas, vespas e zângãos. Por outro lado, as cores brilhantes atraem-nos também, pelo que usar uma camisa às flores, tipo Havai, é um risco! Claro que se andares com um gelado na mão, em plena praia, este transforma-se num alvo dos insetos e depois do gelado quem irá ser picada és tu.

“Li num romance que o protagonista, um homem violento, ficava sempre mais violento em dias de sol. Isso tem alguma explicação? Não deveria até sentir–se mais bem-disposto por estar bom tempo?” – Maria, 16 anos, diretamente de Esposende.

Tens alguma razão, Maria. Há muitos estudos que reportam um pico de violência quando o tempo está bom, ou melhor dizendo, no verão. Pode haver diversas razões para tal: por um lado, a baixa de serotonina cerebral que se faz sentir nesses períodos (e não o aumento da testosterona, ao contrário do que muita gente crê) – a serotonina cerebral está, aliás, mais baixa nos soldados mais agressivos, nos agressores e assaltantes e nos suicidas; depois, porque as condições externas são mais propícias: as mulheres, por exemplo, andam mais na rua, mostram mais o corpo, coisas que para um agressor sexual são fatores de encorajamento (atenção: não quer isto dizer que devam ser atenuantes e que andar de minissaia seja um convite para se ser violada! Chega de culpar as vítimas!). Por outro lado, há mais hipóteses de assalto (mais carros estacionados com objetos dentro, mais vivendas ou casas com janelas abertas) e alguns dos assaltos podem correr mal. De igual modo, a possibilidade de fuga é maior no verão do que com chuva ou com pouca gente na rua com a qual o assaltante se possa misturar.

“Devemos respeitar mesmo um intervalo de três horas entre as refeições e a entrada no mar ou na piscina? Mesmo depois do pequeno-almoço ou do lanche? Eu nunca percebi porquê e tenho dificuldades em explicar as razões dessa ideia aos meus filhos.” – Margarida, com três crianças e muito pouco tempo para aproveitar as férias na Costa Alentejana.

Compreendo a sua perplexidade, Margarida. Claro que o que vai ler não deve interferir com as crenças nem convicções. Se a pessoa não se sente confortável em tomar banho antes da “digestão” (está entre aspas, note), não o deve fazer. Mas, sucintamente, é o seguinte: quando comemos, obrigamos o tubo digestivo a trabalhar mais e, por isso, há uma chamada maior de sangue a esse território. As temperaturas extremas – água muito fria, água muito quente (só na banheira!), estar ao sol “a cozer” – causam perturbações na distribuição do sangue, sobretudo ao nível da pele, desviando sangue, o que pode causar a chamada “paragem de digestão”. Mas atenção: é preciso comer mesmo muito (e beber bebidas alcoólicas, também…), o que as crianças não fazem, e entrar na água fria de repente, depois de ter estado deitado ao sol. É um padrão de adulto, e não de criança.

Se comerem pouco (o normal de um pequeno almoço, almoço de praia ou lanche), se não estiverem a “grelhar” ao sol (estão sempre a mexer-se e nunca param quietas) e se a temperatura da água for dentro do normal, não há qualquer problema.

Há um bom indicador para perceber se comemos ou bebemos demais, o que deverá obrigar a esperar – é sentirmo–nos pesados, com vontade de dormir a sesta, sonolentos, com a cabeça “a andar à roda”, a bocejar, sem capacidade de fazer esforços físicos ou de aguentar conversas muito “elaboradas”. Mostra que o nosso aparelho digestivo “roubou” sangue a todos os outros órgãos, designadamente ao cérebro, e que há que esperar.

Todavia, obrigar as crianças a respeitar as três ou quatro horas (há pessoas que controlam pelo relógio!) quando petiscaram coisas poucas e não beberam álcool… é capaz de ser um bocadinho excessivo e até ligeiramente “sádico”…

“O meu bebé tem seis meses. Acha que o posso deixar comer areia?” – Manuel, pai-galinha em férias na praia fluvial de Constância.

A areia não tem, em si, qualquer problema – é terra! Desde que não esteja contaminada, não tenha partículas duras que possam magoar (restos de conchas partidas, etc.), algas ou outras coisas do género, não faz qualquer mal aos bebés comer areia. Na idade em que está, até o pode ajudar a “rilhar” as gengivas e no processo de dentição. A areia que comerá… sairá…

No entanto, há que ter cuidado com uma coisa: as beatas que muitos fumadores (e fumadoras) enterram na areia, sem pensarem um segundo que seja que uma beata, mastigada por uma criança da idade do seu filho, a pode matar. Uma basta. É uma ideia que não está muito disseminada entre nós, mas temos de ter cuidado. Resumindo: se for areia “de qualidade”, deixe-o comer. Se não, tenha cuidado, mas vai ser difícil evitar que ele o faça, na fase de experimentação em que está, e na qual “levar tudo à boca” é uma necessidade fundamental.

Pediatra

 

 

“A coisa correcta é ter bons professores, que ensinem bons programas e dar-lhes autoridade”

Agosto 15, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista de Inger Enkvist ao Público no dia 3 de agosto de 2018.

Inger Enkvist é uma professora que conhece bem os sistemas educativos onde o sucesso impera. Voltar a dar autoridade aos professores é um dos segredos. Não ter medo de dizer “não” aos filhos é outro.

Bárbara Wong

Inger Enkvist é uma professora universitária sueca que está reformada, mas continua a ter o seu gabinete na Universidade de Lund, onde estudam cerca de 42 mil alunos. A catedrática emérita de literatura espanhola e latino-americana tem sido convidada para dar aulas da sua especialidade um pouco por todo o mundo — em Agosto está no Chile, no mês seguinte em Madrid e Barcelona, e em Novembro no México —, mas também para falar sobre pedagogia, tema sobre o qual tem escrito em várias revistas da especialidade e em jornais, tendo alguns livros publicados.

A docente, que deu aulas do secundário ao ensino superior, é crítica da “nova pedagogia” e defende o regresso a uma escola onde os professores são a autoridade, os alunos aprendem em turmas de nível e os pais têm uma palavra a dizer… mas em suas casas. Tem 71 anos e dois filhos.

Como surgiu o interesse por estudar os sistemas educativos?
Há uma crise na educação. Comecei a interessar-me e a escrever sobre as soluções que eram encontradas por alguns países, que estavam a fazer um trabalho melhor do que outros.

Tem trabalhado com o governo sueco?
Não, o que faço é escrever e ser convidada para dar palestras. Por vezes falo com os políticos ou estes pedem-me a minha opinião, mas prefiro manter-me de fora porque sou mais útil dessa forma.

Conhece o sistema português?
Não muito bem, mas o que observei é que Portugal fez um esforço enorme, tornou-se melhor e isso não é muito conhecido. Gostava de conhecer as novas reformas de Portugal, que me parecem interessantes, para poder escrever sobre elas.

Creio que as novas reformas em Portugal não se coadunam com aquilo que defende…
Bem, muitos países estão numa situação crítica. No mundo ocidental tem havido uma “ocupação”, digo-o com ironia, uma agenda ideológica centrada na pedagogia, que não procura que o estudante aprenda – claro que é uma generalização –, mas porque são cépticos em relação à aprendizagem e como têm um background marxista dizem que os factos o são por pouco tempo, logo, não é útil conhecê-los. Ser esta a visão central nos sistemas educativos provoca grandes estragos. Fazem grandes estragos porque dizem que podemos pôr qualquer estudante em qualquer classe, que não precisam de trabalhar muito.

Não é apologista do “aprender a aprender”?
Isso está espalhado por todo o lado. Quando aprendemos alguma coisa é sempre específico e o “aprender a aprender” dá a ideia que se aprendeu alguma coisa que se pode usar noutras situações, mas a investigação diz que não. Portanto, é preciso aprender os factos para ser capaz de pensar, compreender e chegar a conclusões. É preciso ter muito conhecimento para ser capaz de pensar bem.

Isso não é fácil quando os estudantes são tão diferentes. O ex-ministro da Educação, Marçal Grilo, escreveu O difícil é sentá-los. Ou seja, muitos professores antes de conseguir ensinar factos têm de ensinar os alunos a ficarem sentados.
Aí estamos a falar da autoridade da escola e dos professores. Estes, no 1.º ano, têm de ensinar os alunos a tirarem o chapéu, a sentarem-se, a pegarem na caneta para aprender a escrever. Todas estas coisas têm de ser aprendidas e normalmente é isso que o professor tem de ensinar. Alguns não têm ajuda em casa? São esses que precisam mais do que os outros de aprender correctamente a comportarem-se. No 1.º ano, a professora é quem abre o mundo do conhecimento às crianças, ao mesmo tempo que mostra como funciona a escola. Precisa de dizer-lhes: “É assim que se aprende e aprender é entusiasmante e transformador, vai mudar-te, vai tornar-te um adulto, mas há regras às quais tens de obedecer.”

No entanto, muitos professores fazem a distinção entre educar e ensinar. Educar – tirar o chapéu, sentar-se – cabe aos pais e a função dos professores é ensinar a matéria.
Compreendo e é uma reacção normal, sobretudo entre os professores dos anos mais avançados porque os colegas do 1.º ciclo não ensinaram às crianças como comportarem-se. Portanto esse problema deveria ter sido resolvido anteriormente.

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Mas há mais por detrás dessa afirmação, a ideia de que todas as crianças são iguais e que devem ter o mesmo e a escola é que deve adaptar-se.

Isso não está correcto?
Diria que não, observo que nos países em que isso acontece, as turmas onde há problemas são as dos alunos entre os 11 e os 16 anos, que acumulam dificuldades e não estão interessados no que se passa na sala de aula. Portanto é preciso ter outras opções.

Pô-los noutra escola, noutra turma?
Deve haver a possibilidade de escolha. Em Singapura há turmas para os alunos que aprendem mais depressa. Na Finlândia há muita ajuda extra para os alunos que aprendem mais devagar. Na Suíça pode escolher-se, aos 12 anos, cursos diferentes com mais ou menos disciplinas práticas.

Isso não é discriminação?
Não. É preparar o aluno o melhor possível para o seu futuro. Fala-se muito de discriminação, mas se você tivesse sido professora veria nos olhos dos alunos a ansiedade ou o aborrecimento porque não conseguem gerir o conhecimento que o professor está a transmitir. O que acontece a esses alunos é que se limitam a sobreviver na escola, na esperança de que um dia aquilo termine e sejam livres. Outros ficam tão aborrecidos que começam a fazer disparates porque não acham que o conhecimento seja importante. Na adolescência, diria que submeter os alunos a isso é um mau trato psicológico.

Mas ao separá-los [um função do seu nível] não estamos a traçar o seu destino? Por exemplo, os pais têm pouca escolaridade e eles terão também?
Se o aluno consegue acompanhar as aulas trabalha como os outros. Não é discriminação, é adaptar-se à situação.

Não estamos a decidir que, em vez de serem médicos ou professores, serão canalizadores ou mecânicos?
Isso depende. Se estudarem muito, conseguem acompanhar as aulas. Ninguém colocará uma criança perfeitamente integrada numa turma especial. Isso seria incompreensível.

Por causa dos resultados dos alunos de 15 anos nas provas da OCDE, a Finlândia tornou-se um modelo para Portugal, é um bom exemplo?
O mais importante no modelo finlandês é que a escola tinha o total apoio dos pais porque houve várias guerras e crises económicas severas. Portanto, as famílias sabem, fruto do seu passado, que é preciso estar preparado. Por isso, apoiam as escolas. Não houve grandes experiências pedagógicas.

E ser professor é uma profissão muito reconhecida lá. Isso é importante porque os bons alunos querem ser professores – também é verdade para os educadores de infância e para os professores de 1.º ciclo. Se as crianças aos 4, 5, 6 anos tiverem bons educadores, inteligentes e preparados, arrancam bem, conseguem aprender bem a língua e ganham bons hábitos sobre como comportar-se na sala de aula. É mais divertido para um aluno estar com um professor inteligente que torna a aprendizagem divertida – este é um dos segredos do sucesso da Finlândia.

Em Portugal ou no Reino Unido ninguém quer ser professor.
É um problema também noutros países que, em comum, têm o facto de terem introduzido a “nova pedagogia” que diz que o estudante tem direitos e não é obrigado a obedecer ao professor. Quando o aluno pode entrar ou sair da sala de aula, pode chegar e não trazer os trabalhos feitos, pode dirigir-se ao professor de forma desrespeitosa, então, ninguém quererá ser professor.

Qual é o perfil de um bom professor?
Para ter bons professores é preciso ter um Governo que imponha boas regras. Um bom professor tem de ter uma boa preparação, em termos da língua e do conhecimento, e gostar de aprender. Mas é preciso aceitar que qualquer aluno possa estar em turmas de diferentes níveis.

Mas os alunos não deviam estar no centro das aprendizagens? Não é o professor que tem de se adaptar aos alunos?
(Riso) Já vi que sabe o jargão todo, foi a pergunta do “aprender a aprender”, a preocupação com a discriminação e agora o estudante no centro…

Acompanho o tema há muitos anos…
É uma boa pergunta, mas é uma forma enganosa de olhar para o assunto. Claro que a educação é para os estudantes, mas nada nos diz que é melhor ter um plano personalizado para cada um. Pelo contrário, o ensino funciona nos países onde os professores trabalham com grupos com as mesmas necessidades. É mais fácil que estes aprendam ao mesmo tempo. Essa ideia do aluno no centro leva a que seja precisa muita ajuda na escola e os recursos são mal usados. Se pensarmos em dinheiro, é mais económico aprender num grupo semelhante.

Há duas ideologias por detrás da ideia de que todos devem ter uma atenção pessoal, uma de direita e outra de esquerda. A de esquerda diz que todos somos iguais e quem não é precisa de ajuda para se tornar igual. A de direita diz que todos têm direito a atenção, direito à escolha, a ser um agente livre para fazer o que quer.

E qual é a que está certa?
Ambas estão erradas! Não funcionam e não são do interesse do estudante, do país ou da aprendizagem. Mas são muito comuns e apresentadas como algo moderno. A coisa correcta é ter bons professores, que ensinem bons programas e dar-lhes autoridade. Mas aos 12 anos é preciso dar escolha aos alunos porque é impossível estarem todos interessados nas mesmas coisas e, ao desinteressarem-se, tornam o trabalho dos professores impossível.

Como é que aos 12 anos eles sabem o que escolher? Em Portugal, o que se verifica é que aos 15 anos eles escolhem e há uma percentagem que volta atrás porque, de facto, não soube fazê-lo ou não teve maturidade para decidir.
Existem os professores que conhecem extremamente bem os seus alunos e sabem dizer o que é melhor. Não pode ser a próprio aluno, isso é errado. Deixem os professores serem os orientadores.

E os pais?
Talvez na retaguarda porque sabem menos sobre como é que o filho trabalha em sala de aula. Os pais têm sonhos e muitas vezes são ilusões sobre as capacidades dos filhos. Não penso que seja um problema os alunos começarem numa área e, mais tarde, mudarem porque têm mais maturidade, outros interesses, têm mais mundo ou querem fazer outra escolha. Na Suíça, o sistema tem itinerários para os adolescentes e os que escolhem uma via mais prática, se quiserem, podem voltar atrás e fazer a mais teórica. Isso não é um problema.

Qual deve ser o papel dos pais na escola?
Há diferentes tipos de pais. É mais difícil quando não se interessam, aí o papel do professor é muito importante porque todo o input intelectual fica a seu cargo. Há outros, os modernos, que querem assegurar que o filho tem as melhores notas e o melhor futuro profissional, de preferência numa firma internacional, diria que são exagerados. Numa situação normal, o papel dos pais é providenciar uma boa educação em casa: uma boa alimentação, uma boa noite de sono, ensiná-los a sair para brincar e garantir que chegam a horas à escola. Também devem dar-lhes estímulos intelectuais – à noite comerem e conversarem juntos sobre o que se passa no mundo e perguntar-lhes o que aprenderam. E mesmo se não souberem muito sobre esses temas, estão a estimular os filhos para recordarem a matéria. E mostram aos filhos que têm interesse.

Há países que se queixam de os pais não terem livros em casa. Na Coreia do Sul e em Singapura há duas gerações os pais não tinham livros, nem muita escolaridade, mas os filhos estão no topo [dos estudos da OCDE].

E os pais nunca devem falar mal dos professores?
Nunca. Podem dizer: “Se fosse eu não faria assim, mas aprende tudo o que puderes com essa pessoa.”

Nas férias do Verão, os alunos devem continuar a estudar?
Primeiro, é necessário ir com eles para a rua, depois pô-los a ler. Ler pelo prazer.

Isso não é difícil?
É difícil, mas é muito importante que os pais insistam. Até podem oferecer uma recompensa: “Lê dez livros e oferecemos-te uma viagem.” Este é um trabalho que tem de ser feito em casa. Se não forem bons leitores, não serão bons alunos.

Transmissão de factos, autoridade dos professores, pais fora da escola. Não é um regresso ao século XIX?
Não, mas o que defendo de séculos anteriores é a importância do conhecimento, que os estudantes devem respeitá-lo e querer adquiri-lo.

Mas eles estão convencidos que o conhecimento está no seu smartphone.
Isso é errado, errado, errado. Porque a nossa biologia não mudou e aprender é sobre mudar o nosso cérebro e se não o fizermos, então não aprendemos. A tecnologia é limitada, eles podem dizer muita coisa com o smartphone na mão, mas se lho tirarmos não sabem nada. É como se fosse uma prótese.

No entanto, eles estão à frente de ecrãs desde muito cedo. Por exemplo, no restaurante, ainda bebés, para não incomodarem os pais.
E é completamente errado. É curioso, na década 1950 os pais queriam oferecer uma prenda aos filhos e tinham dificuldade em fazê-lo. Agora, os pais dão tudo e não têm a coragem de dizer “não”. Muitos não estão preparados e não compreendem como é importante dizer “não” a alguém de quem gostam.

Porquê?
Porque queremos ser amados pelos nossos filhos e também porque, no caso dos ecrãs, pensamos que não é muito tempo e, por isso, não faz mal. Mas isso é errado porque através dos ecrãs as crianças não recebem todos os estímulos necessários para aprender e com o nosso dinheiro estamos a empobrecê-los.

 

 

 


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