Villages “Copain du Monde” em Paris (22 – 29 Julho)

Julho 27, 2018 às 3:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O IAC – Projecto Rua levou quatro crianças a Paris para participarem na ação “Copain du Monde”, promovida anualmente pelo Secours Populaire Français. Até 29 Julho vão participar em ateliers, atividades desportivas e ações solidárias, com foco nos Direitos da Criança e valores de partilha e entreajuda.

Têm também feito passeios e visitas culturais e travado amizades com crianças de outros países para juntos construírem um Mundo mais solidário!

Pais preparados podem evitar que os filhos fiquem dependentes da internet

Julho 27, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Patricia Prudente

Notícia do Atlântico Expresso de 16 de julho de 2018.

Psicólogo deixa dicas para que os jovens tenham uma melhor saúde

Pais preparados podem evitar que os filhos fiquem dependentes da internet

A dependência da internet começa cada vez mais cedo, alerta João Lemos, psicólogo. O especialista defende que o treino das competências parentais pode aliviar o problema. tíOspais não devem ter medo de impor limites aos seus filhos. Muitos permitem que os seus filhos gastem uma, duas, três horas por dia na internet e isto é completamente errado. O que eu defendo é que de Segunda-feira a Sexta-feira, a internet seja utilizada apenas para trabalhos para a escola e ao fim-de-semana ter acesso durante um curto espaço de tempo, se o comportamento do filho o justificar.

O que os pais têm de promover são actividades ao ar livre, a interacção, a comunicação, os jogos de mesa, convívio saudáveis”.

A Organização Mundial da Saúde considerou que a dependência dos videojogos é uma doença. É um problema com que se depara nos Açores?

É um problema que existe quase em todo o mundo, principalmente nos países ditos desenvolvidos e que aderiram ao uso da internet e não só. Já venho a falar sobre esta problemática há muitos, muitos anos e alertar as famílias para o perigo da ciberdependência.

De facto, o uso de videojogos insere-se neste diagnóstico de ciberdependência, ou seja, dependência do mundo virtual, dependência da internet. É um problema gravíssimo porque afecta o desenvolvimento dos jovens e adultos – porque o problema não é só de jovens, é também de adultos, embora o perigo maior tenha a ver com os jovens, porque estão numa fase de formação, de preparação para a vida, que passa pela área académica e, depois, pela área profissional e, transversalmente a tudo isto, às áreas social e familiar, uma vez que este quadro clínico se caracteriza, essencialmente, por uma alienação da realidade nestas áreas todas, com implicações muito negativas no funcionamento dos próprios jovens e adultos, no relacionamento interpessoal dentro das famílias e, também, na sociedade e no mundo do trabalho.

Tudo isto tem como consequência final os disfuncionamentos comportamentais, disfuncionamentos familiares, disfuncionamentos profissionais, acabando na clínica. Pode começar numa fase inicial, para apoio psicológico nas consultas, o que é muito reduzido. Normalmente, estes casos só chegam à clínica quando há situações judiciais graves de conflitos entre pais e filhos, que depois acabam por cair na Comissão de Protecção de Menores ou no tribunal. No final, pode resultar em internamentos em clínicas, que já começaram a ser criadas no continente para esse efeito, daí a gravidade da situação.

É um problema que começa cedo?

Cada vez mais. Já vemos crianças, na segunda infância, a fazer o treino do esfincter no bacio com um tablet à frente a fazer jogos. Evidentemente, que esta questão é complexa. Existem colegas, da área da psicologia que promovem, incentivam e valorizam a utilização dos jogos pedagógicos, mas a existirem jogos pedagógicos virtuais têm de ser muito bem utilizados, com limites e com objectivos muito bem definidos. Não pode ser, como acontece actualmente, em que há um acesso indiscriminado das crianças e jovens aos videojogos, à internet, sem qualquer controlo parental.

Tudo isso termina neste processo de desajustamento social por uma alienação relativamente às obrigações e aos deveres académicos e, depois, numa separação e isolamento dentro da própria família, ao ponto de não existir um grupo de pessoas a viverem em conjunto, mas sim um grupo de pessoas a viverem separadas umas das outras, cada um no seu espaço, ligado ao seu computador ou ao seu instrumento de acesso à rede virtual inclusivamente os pais, pela via do Facebook, que pode permitir a aproximação entre as pessoas, mas que também acaba por contribuir para o afastamento.

Daí ser uma questão muito problemática. Nós temos de pensar nisto a sério e talvez fosse altura de os nossos governantes, os nossos políticos, pegarem nessa informação da OMS e verem qual é a ligação entre isto a proposta do treino das competências parentais.

Ou ajudamos os jovens pais a serem pais competentes ou o problema vai ser um ciclo vicioso e em espiral, que nunca mais vai acabar. 0 sistema tenderá sempre para um reequilíbrio. Agora, eu acho que é desnecessário passarmos uma crise de disfunção social, familiar e individual para depois irmos resolver o problema, seguindo aquela máxima latina de ‘casa roubada, trancas à porta’.

Estamos a agir tarde demais, na sua opinião?

Corremos o risco de estar a criar gerações diferentes, com comportamentos sociais e de sociabilização diferentes?

Gosto de usar o provérbio e dizer que nunca é tarde demais, mais vale tarde do que nunca. Nós temos de actuar já e actuar já é na área parental, porque são os pais que têm a responsabilidade na educação dos filhos.

De certo modo, houve aqui uma inversão do paradigma educativo, por razões várias: o consumismo, a pressão social para o consumismo e, também, a falta de conhecimentos dos pais sobre esta realidade. Tudo isso levou a que os pais condescendessem com a situação sem que percebessem o mal que estavam a criar aos seus filhos.

Agora, chega-se a uma situação em que os pais já não sabem o que fazer, já não têm capacidade, já não têm autoridade educativa para poder monitorizar o comportamento dos seus filhos para os poder ajudar à mudança. No entanto, seguindo esta linha de que nunca é tarde demais para actuar e que mais vale tarde do que nunca, podemos aconselhar esses pais a receber apoio especializado na área comportamental – e, nesta área, estamos a falar essencialmente de apoio dos psicólogos e das psicólogas, que os podem ajudar a tomar medidas adequadas, tendo em conta o desenvolvimento da criança, a promoção de estilos comportamentais saudáveis, não só ao nível da ciberdependência, mas também nas outras dependências todas. De uma forma construtiva e eficaz. Ou, de facto, os nossos governantes apostam a sério na resolução deste problema agora, investindo, rapidamente, como eu já defendi anteriormente, ou então vão gastar o triplo ou o quádruplo no tratamento destes problemas. Não se trata só de ajudar as pessoas dependentes, mas sim lidar com os custos indirectos que advêm de investimentos na área do ensino sem obter resultados, ao nível do trabalho, ao nível das problemáticas familiares que, depois, levam também as famílias a receber apoio psicológico e psiquiátrico.

Digamos que há, aqui, um efeito de bola de neve. Nós não podemos pensar só nos cuidados secundários, temos, essencialmente, de pensar nos cuidados primários, em cooperação com as escolas e, também, como disse anteriormente, com o treino das competências parentais.

Já há directivas sobre como lidar com estes casos?

Não tenho conhecimento de nenhuma directiva ao nível da Ordem dos Psicólogos relacionada com esta temática. O que nós temos são as competências profissionais para lidar com as dependências, porque o mecanismo cognitivo, afectivo e comportamental é o mesmo. Ao nível biológico há uma grande diferença: aqui não há uma dependência química, há exclusivamente uma dependência cognitiva – que, do meu ponto de vista, é a pior das dependências e já o digo há mais de 20 anos. Enquanto o alcoolismo, o tabagismo, o consumo de drogas ilícitas tem uma componente de dependência química, neste caso é exclusivamente psicológico, cognitivo, com a agravante de ter de se utilizar medidas, também cognitivas e comportamentais, de gestão do tempo e do comportamento, para ajudar com dependência de videojogos. Mas não é só de videojogos: é a dependência da realidade virtual, a chamada ciberdependência, nomeadamente das redes sociais. No fundo, há que fazer uma reaprendizagem de um estilo de vida saudável. Aqui temos de actuar muito a sério, muito rapidamente, de uma forma transversal, desde o início da constituição da família – estamos a falar do treino das competências parentais – e actuar nos diferentes níveis de desenvolvimento das crianças e dos adultos, para que assim seja possível minimizar os custos desta problemática clínica e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Efectivamente, esta perspectiva que estou a apresentar não vai ser compreendida pela maior parte das pessoas, eu tenho consciência disso. A maior parte das pessoas não tem conhecimento da gravidade do problema, não sabe do que é que estamos a falar e, inclusivamente, dentro da classe clínica poderá haver, também, algumas objecções ao que estou a dizer.

Há mais de 20 anos que venho a tocar na ferida; agora, passado este tempo, vem a OMS levantar a questão de uma forma relevante, considerando como uma doença mental. Talvez, a partir de agora, com estas orientações da OMS, os nossos clínicos em diferentes áreas possam encarar este problema de uma forma mais séria – inclusivamente os nossos governantes, os nossos parlamentares, quem tem o poder de decisão política, para que se compreenda que numa sociedade que se quer saudável, é preciso fazer prevenção primária e não só apostar na prevenção secundária.

Quais são os sinais de alarme sobre este tipo de problemática?

O isolamento social e familiar, faltar sistematicamente às aulas e ao trabalho. Os pais estão tão ocupados e com as suas obrigações, envolvidos em actividades e sobrecarregados que, muitas vezes, não se apercebem da gravidade do problema. Mas há o absentismo escolar, há o dormir na sala de aula, há comportamentos marginais e de violência que, muitas vezes, ocorrem quando estes jovens são chamados à atenção na sala de aula… Tudo o que seja comportamentos que saiam da norma ou daquilo que é adequado no relacionamento interpessoal são sinais de alerta. Os pais têm de aprender a fazer o controlo do uso da internet, de forma criteriosa e construtiva. Os pais não devem ter medo de impor limites aos seus filhos. Muitos permitem que os seus filhos gastem uma, duas, três horas por dia na internet e isto é completamente errado. O que eu defendo é que de segunda-feira a sexta-feira a internet seja utilizada apenas para trabalhos para a escola e ao fim-desemana ter acesso durante um curto espaço de tempo se o comportamento do filho o justificar. O que os pais têm de promover são actividades ao ar livre, a interacção, a comunicação, os jogos de mesa, convívio saudáveis.

 

Trabalho com grupos em acolhimento de crianças e jovens – Formação Contínua no ISPA

Julho 27, 2018 às 6:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Objectivos 

O acolhimento residencial é um contexto essencialmente de grupo, ideal para o desenvolvimento de competências pessoais e sociais. A dinâmica relacional obriga a que diariamente se questione e ajuste o lugar que cada um ocupa no grupo. Esta acção tem por objectivos específicos:

Aprofundar competências de trabalho com grupos em instituições de acolhimento de crianças e jovens
Sensibilisar para a importância do grupo enquanto recurso de desenvolvimento infantil

Competências 

Conhecer o papel do trabalho com grupos no acolhimento de crianças e jovens

Desenvolver dinâmicas de grupo em instituições de acolhimento de crianças e jovens

Programa 

Dinâmicas relacionais intra e inter grupos
Promoção de competências individuais e sociais em grupo
Dinâmicas de grupo como forma de construção de relação
Participação do grupo de crianças na planificação e na gestão da rotina diária da Casa de Acolhimento
Participação do grupo de crianças na solução de problemas e conflitos

Metodologias 

Abordagem teórico-prática e experiencial

Duração

15 horas

Calendarização

Quarta, Outubro 24, 2018 – 18:30 – 21:30

Sábado, Outubro 27, 2018 – 10:00 – 13:00

Quarta, Novembro 7, 2018 – 18:30 – 21:30

Sábado, Novembro 10, 2018 – 10:00 – 13:00

Quarta, Novembro 14, 2018 – 18:30 – 21:30

 

mais informações no link:

http://fa.ispa.pt/formacao/trabalho-com-grupos

Os avós são… sete crianças dizem-nos o que pensam sobre estes seres especiais

Julho 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do MAGG de 26 de julho de 2018.

Por Dulce Neto

No Dia dos Avós perguntámos aos netos o que é que eles são. As respostas são honestas mas também ternurentas como se vê neste vídeo.

Com mais ou menos vergonha e um discurso mais ou menos articulado, uma coisa é certa. Os avós destas sete crianças que aceitaram o desafio da MAGG são figuras presentes nos dias dos netos.

E hoje, que o mundo assinala o Dia dos Avós, os miúdos contam-nos como eles fazem parte das suas vidas.

Oferecem prendas, sim, mimos e abraços, muitos, e (alguns) doces, claro, mas também educação. Há quem conte histórias, jogue às escondidas, leve ao parque, ensine a cozinhar ou faça o prato preferido. E também há quem castigue.

Todos concordam com Rosa Cabral, de oito anos: os avós são pessoas especiais. Mateus Martins, de cinco anos, recorda como vai comer gelados com a avó Nela, os presentes que a avó Ana lhe oferece, os passeios com o avô João ou como o avô Jaime é adepto do Benfica e ouvia futebol na rádio.

Já Edgar Santo da Mata, cujos quatro anos traquinas o impedem de ficar muito quieto à frente da câmara da MAGG, confessa que gosta de dormir com a avó Odete enquanto Seline Varela de nove anos revela que a encara como uma segunda mãe.

E se Afonso Beato e Pilar Coelho, ambos com seis anos, garantem que os avós nunca os puseram de castigo e os levam a passear, Mariana Ferreira, de oito anos, manifesta uma opinião muito clara sobre a importância dos avós: têm muito a ensinar, pois nasceram mais cedo.

Ora aqui está uma afirmação com a qual as psicólogas Patrícia Poppe e Margarida Alegria não podiam estar mais de acordo: os avós têm um lugar fundamental na família contemporânea.

A primeira, que já tem uma neta de dois anos, defende que o contacto dos avós com os netos é muito importante para os mais velhos,“porque as crianças são seres em desenvolvimento, são fantásticas, têm muita alegria e significam a possibilidade de se estabelecer relações muito fortes, o que é enriquecedor”.

Reconhecendo, tal como Margarida Alegria, que hoje é mais difícil ter avós disponíveis, porque trabalham até mais tarde, Patrícia Poppe salienta, no entanto, que o “tempo que reservam para os netos é de mais qualidade”.

Recordando a ligação estreita que teve com a avó, a psicóloga aborda o papel que os avós podem desempenhar na educação dos pais. “Quando eram pequeninos, os nossos filhos não nos observavam na nossa função de educadores, de cuidadores e de referências afectivas. Agora veem-nos a lidar com os filhos deles e aprendem também com isso”.

Margarida Alegria reconhece na prática a definição avançada por Mariana Ferreira: “Os avós são pessoas que ajudam”. Com uma bebé com pouco mais do que um mês, é a mãe quem lhe fica com a outra filha de três anos para já poder estar de regresso ao trabalho, onde segue adultos e crianças. A psicóloga não precisa de ir buscar os dados de um estudo desenvolvido em 2008 (mas que continua a ser uma referência) pela Universidade de Oxford para sublinhar que a ligação entre avós e netos é benéfica para as crianças. A investigação da reputada universidade britânica concluiu que as crianças que tiveram uma ligação estreita com os avós têm menos problemas emocionais e comportamentais e menos dificuldades em lidar com os seus pares.

No seu consultório, Margarida Alegria nota a diferença entre “as crianças que agora nas férias não têm onde ficar senão em ATL’s (Atividades de Tempos Livres) e aquelas que têm a sorte de poder ficar com os avós.” Estes, em geral, não são apenas uma fonte inesgotável de experiências, conhecimentos e afecto, como “têm mais tempo livre do que os pais e por isso proporcionam programas aos miúdos a que eles de outra forma não teriam acesso”.

E se não há dúvidas sobre os benefícios da presença dos avós para as crianças, “o mesmo se pode dizer para eles: os avós renascem”.

O ditado diz que os “netos são a sobremesa da vida” para os avós, mas podem eles prejudicar a educação dos miúdos com a ideia de que “os pais educam, os avós mimam”? “O mito de que os avós estragam as crianças é, em parte, verdade”, diz Margarida Alegria. Ou seja, não é bem mito. “São menos rígidos, são mais flexíveis, têm mais tempo para brincarem e fazerem outras coisas com os netos, mas tudo depende da relação que tiverem com os pais e do que for estabelecido entre eles”. Os avós podem, e devem, ser um apoio e um conforto na tarefa difícil de criar os filhos, não um problema ou entrave, continua Margarida Alegria lembrando que é necessário um equilíbrio. “Não considero que a minha sogra ou a minha mãe ‘estraguem’ a minha filha”.

Evocando as férias que passava com a avó, como isso lhe deu um capital de memórias inesquecíveis, a psicóloga salienta ainda a importância de se manterem “certas rotinas e tradições (como o almoço semanal em casa dos avós, a semana de férias em conjunto, por exemplo) para estreitar a união familiar, elemento importante no crescimento de uma criança”.

Tudo somado, conclui Margarida Alegria, as três partes — pais, filhos e avós — “só têm a ganhar com o envolvimento equilibrado dos avós”.

 Texto de Dulce Neto, vídeo de Samuel Costa.

 

 

Crianças e Famílias num Portugal em Mudança – livro de Mário Cordeiro

Julho 26, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Neste livro traça-se um perfil da situação de saúde e de bem-estar da criança em Portugal, focando especialmente o grupo etário dos 0-9 anos. Com base em diversos indicadores existentes, e na sua evolução, avaliam-se as necessidades de saúde e de bem-estar, bem como as causas de mortalidade, doença e o sucesso das estratégias preventivas, depois de definida a população infantil em termos demográficos e sociais.

Mais informações sobre o livro no link:

https://www.ffms.pt/publicacoes/detalhe/1081/criancas-e-familias-num-portugal-em-mudanca

 

27ª Ação de Formação para Animadores “A Adolescência como uma Experiência Radical” 25 a 27 de Outubro em Caneças

Julho 26, 2018 às 2:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O IAC – Projecto Rua vai promover entre os dias 258 a 27 de Outubro de 2018 mais uma ação de formação para interventores sociais. Este evento irá decorrer na Quinta das Águas Férreas em Caneças, em regime residencial, com o apoio da Câmara Municipal de Odivelas.

mais informações no link:

http://www.iacrianca.pt/index.php/setores-iac-pr/noticias-projecto-rua/item/945-27-acao-de-formacao-para-animadores-a-adolescencia-como-uma-experiencia-radical

 

“A bebedeira passa, o resto não.” Do coma alcoólico às brincadeiras que acabam mal

Julho 26, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Notícia da TSF de 20 de julho de 2018.

Centenas de menores são assistidos pelo INEM em coma alcoólico todos os anos.

De uma farra com amigos a “uns copos a mais” vai um pequeno passo. De “uma brincadeira que acaba mal” a uma pena de prisão também. Pelo meio, o desafio com que muitos adolescentes já foram confrontados – “não consegues”. Não consegues beber mais depressa do que eu, não consegues beber esta caneca toda de uma vez, não consegues beber mais um shot.

Para quem acha que consegue, fica a lembrança: “O álcool em excesso só te dá excesso de confiança. A bebedeira passa, o resto não”. É a mensagem de uma nova campanha de sensibilização dirigida aos jovens portugueses.

Desde 2015, a venda de álcool é proibida a menores de 18 anos, mas os números falam por si. Em 2017, o INEM assistiu 1270 menores em coma alcoólico . Em 2016, foram 1315 e no ano anterior, 1283.

Segundo o último estudo do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) relativo ao consumo de álcool em 2016, 89,6% dos jovens de 18 anos inquiridos admitiam beber álcool, 49,6% diziam já ter bebido quatro ou mais copos (se for do sexo feminino) ou seis ou mais copos (se for do sexo masculino) de uma qualquer bebida alcoólica na mesma ocasião e 31,4% a admitia já o ter chegado ao estado de embriaguez.

A par da campanha que o Governo lança esta sexta-feira, o Ministério da Administração Interna vai por em marcha o programa “Noite + Segura” a partir da segunda quinzena de julho, sobretudo nos municípios de Lisboa, do Porto e de Albufeira.

O objetivo é reforçar a segurança em zonas de concentração de estabelecimentos de diversão noturna e aumentar da fiscalização da venda de bebidas alcoólicas a menores.

 

 

O que falta em Portugal para termos mais filhos?

Julho 26, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia e imagem do Observador de 14 de julho de 2018.

Cláudia Pinto

O que leva a adiar o segundo nascimento? Que fatores pesam na decisão dos casais? E quais as vantagens e inconvenientes de ter filhos únicos? Fomos ouvir pais, investigadores e especialistas.

Maria tem onze anos. Filha de Vânia e Frederico Alexandre, sente-se privilegiada por não ter irmãos. “Sinto-me muito bem. Na semana passada, na aula de matemática, fez-se um gráfico sobre o número de irmãos dos alunos e os colegas que têm irmãos comentaram: ‘Que sorte’.” Já Beatriz, um ano mais velha, filha de Tatiana Rodrigues e Sérgio Silva, acha aborrecido ser filha única porque não tem irmãos para brincar.

A filha de Paula Magalhães e João Neves [que também se chama Maria], de quatro anos, por vezes deixa escapar que gostaria de ter uma “mana”. Pelo contrário, Tomás Rodrigues, de sete anos, filho de Fernanda Jacinto e Luís Rodrigues, sente-se bem sem irmãos. “Costuma comentar que os colegas da escola dizem que os irmãos mais novos lhes estragam as coisas e mexem em tudo. O Tomás danificou dois brinquedos até hoje. Já lhe explicámos que nem todos os irmãos são assim, mas não adianta”, explica a mãe.

Portugal é um país de casais com apenas um filho? Existem ou não condições para apostar na natalidade? O que dizem as estatísticas? Segundo os resultados de “Determinantes da Fecundidade em Portugal”, estudo realizado pelo Laboratório de Demografia do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora (UÉ), e financiado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), com base nos dados do Inquérito à Fecundidade 2013 [uma parceria do Instituto Nacional de Estatística igualmente com a FFMS], conclui-se que “29% dos residentes em Portugal têm apenas um filho”. No entanto, apenas 10% revelam desejar estar nesta situação e somente 3% consideram que uma criança é o número ideal de filhos para uma família.

“Apesar disso, 25% dos portugueses esperam, no final da sua vida fértil, permanecer com um único filho”, explica Maria Filomena Mendes, coordenadora do Laboratório de Demografia CIDEHUS, professora associada da UÉ e presidente da direção da Associação Portuguesa de Demografia (APD). A predominância do filho único regista-se nomeadamente entre os que, no seu agregado parental, têm, pelo menos, um enteado ou consideram que o número ideal de filhos é inferior a dois.

Ainda de acordo com o inquérito, o número médio de filhos das mulheres com idades entre os 18 e os 49 anos e os homens dos 18 aos 54, residentes em Portugal, era igual a 1,03. Segundo a presidente da APD, “a natalidade de um país em cada ano é o resultado de muitas tomadas de decisão individual ou por casal que afetam, no seu conjunto, a fecundidade”.

Um problema de saúde cardiovascular de Beatriz [dupla saída do ventrículo direito] deixou os pais receosos. A mãe Tatiana, hoje com 37 anos, teve de deixar de trabalhar até a menina ser operada, uma semana antes de fazer 12 meses. Regressou ao trabalho no final da licença de assistência à filha, mas, como não tinha um vencimento confortável e as despesas familiares aumentaram, foi difícil arranjar uma alternativa de trabalho. “Decidimos ficar com um filho para dar uma melhor qualidade de vida à Beatriz, mas sempre desejei ter mais”, explica.

Tatiana considera que os abonos de família não são propriamente uma ajuda, nem um incentivo à natalidade. “Recebi-o apenas no primeiro ano de vida da Beatriz, tendo perdido o apoio logo em seguida. Os infantários privados ou os que pertencem ao Estado têm valores elevados; e a nível laboral, por muito que as entidades patronais defendam que não, sente-se sempre uma ligeira discriminação por quem ainda é novo e pode ter filhos, não se investindo muito nas mulheres porque a qualquer momento podem ter de ir de baixa”, lamenta. A trabalhar na área de seguros, Tatiana afirma ainda que as licenças parentais têm um prazo muito curto

Foram as exigências profissionais a ditar a decisão de Paula e João não terem mais filhos. Mas não só. “Sempre tentámos equilibrar a vida profissional e pessoal. Adoro ser mãe e amo incondicionalmente a minha filha, mas gosto igualmente da minha profissão [Paula tem 40 anos e é digital marketing manager]. Quero ter tempo para ser mãe, mas também para ser a profissional que ambiciono”, explica ao OBSERVADOR. O marido é piloto de linha área, o que implica estar várias vezes longe de casa. “Quando estou sozinha, sou eu que asseguro toda a logística. Se não é fácil com um filho, com mais seria impossível”, desabafa. Para João, a questão económica tem o seu peso. “Ter um filho exige uma série de compromissos financeiros e não é fácil. Prefiro dar à Maria uma vida melhor”, acrescenta. No entanto, e apesar de todos os argumentos, ambos confessam que gostariam de dar um irmão à filha.

Vânia tem 39 anos e é gestora de processos no ramo imobiliário. Frederico tem 38 e é responsável de setor na área financeira. Sempre pensaram em ter filhos, mas nunca falaram naquele que seria um número ideal. “Depois veio a Maria, senti-me tão feliz e aliviada por tudo ter corrido tão bem [apesar de ter sido seguida nas consultas de alto risco por ser portadora de doença renal poliquística e ter hipertensão] que cheguei a temer que, ao segundo filho, não teria a mesma sorte. Por outro lado, e apesar de ter sido uma bebé que não dava más noites ou outras preocupações, sempre nos consumiu a atenção e a energia, e confesso que soube bem quando começou a ganhar autonomia e conseguimos voltar a ter um pouco mais de tempo para nós, em vez de estarmos a passar por tudo outra vez. Admito que também foi uma escolha por egoísmo”, explica Vânia. O facto de ser filho único não teve influência na decisão de não ter mais filhos, garante o marido. Considerando o tempo e a atenção que a filha tomava, Frederico assume que nunca se pôs verdadeiramente a hipótese de ter outro filho. “Com o passar dos anos e com o crescimento da Maria, foi algo que assumimos que não iria acontecer. A preocupação com a estabilidade financeira e o tempo que muitas vezes não tinha levou-me a pensar que, se tivéssemos outro filho, não conseguiríamos acompanhá-lo como gostaríamos”, explica.

Fernanda foi mãe aos 36 anos [tem atualmente 44]. “Ser mãe nunca foi uma prioridade. Sempre disse que, se não fosse, não iria ficar infeliz, mas que, se tivesse um filho, iria ser muito bem recebido. Mas assumi desde cedo que não teria mais do que um bebé”, explica. Uma gravidez um pouco atribulada, com dores desde os quatro meses até ao dia do parto, acabaria por reforçar a decisão. “Mesmo correndo o risco de ser muito criticada, confesso que não gostei de estar grávida e que não gostaria de passar pelo mesmo novamente. Talvez seja uma atitude egoísta, mas acho que estamos muito bem os três e não imagino a nossa família de outra forma”, sublinha. Por sua vez, Luís confessa que ambicionava ter mais filhos, mas o facto de ter 50 anos não iria permitir “desfrutar e dar a atenção que o Tomás merece, caso outra criança nascesse”.

Vida profissional exigente

Vanessa Cunha é socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa) e estuda este tema há cerca de 20 anos. Nos anos 90, ficou de imediato entusiasmada com a possibilidade de investigar a fecundidade das famílias portuguesas. “Já nessa época era um tema premente e notava-se uma emergência de filhos únicos nos agregados familiares portugueses”, explica. Esta realidade foi identificada na sua tese de doutoramento, graças ao “Inquérito às Famílias no Portugal Contemporâneo”, de âmbito nacional, realizado em 1999 por uma equipa do ICS-ULisboa, liderada por Karin Wall, no qual participou.

Dez anos mais tarde, entre 2009 e 2010, o inquérito “Trajetórias Familiares e Redes Sociais”, também de uma equipa do instituto, voltou a analisar as questões da fecundidade e das trajetórias reprodutivas dos portugueses. Os resultados identificaram, sobretudo, dois tipos de motivos que condicionam a passagem para um segundo filho. “Por um lado, razões económicas ligadas à perceção de que não se tem rendimento adequado para ter mais – o que não é difícil de entender no contexto português –, mas também causas associadas aos custos económicos relacionados com a educação das crianças. Por outro lado, o sentimento de instabilidade profissional e o facto de os inquiridos não se sentirem seguros, mesmo quando têm trabalho. Ainda podemos focar o facto de a geração em idade ativa ser composta por pessoas completamente envolvidas no mercado de trabalho, altamente cilindradas pelas exigências profissionais e pelo tempo que a profissão consome aos homens e às mulheres”, explica Vanessa Cunha.

O peso da insegurança no mercado de trabalho tem um grande impacto na decisão de um casal não apostar mais na natalidade. Relativamente aos comentários que se ouvem de que as pessoas hoje são mais egoístas, preferem viver a sua vida e apostar na carreira em detrimento dos filhos, a investigadora nota que, em gerações anteriores, os casais não desejavam necessariamente mais filhos do que nas gerações atuais. “O inquérito dos anos 90 mostra que havia muitos nascimentos não planeados na sociedade portuguesa, sobretudo a partir do terceiro filho.”

 

O que aconteceu entre os anos 2010 e 2014, no período em que a crise económica mais atingiu o país, foi uma “verdadeira hecatombe”, na opinião de Vanessa Cunha, muito devido à perda de nascimentos na sociedade portuguesa. “Alguns casais colocaram os seus projetos em suspenso, nestes anos que foram muito difíceis para os portugueses, e assim que houve um clima social mais favorável ou uma perceção de melhoria, perceberam que não podiam adiar mais, porque estes nascimentos ocorreram em idades mais tardias. Quando o clima se tornou menos inóspito, decidiram avançar. Houve uma ligeira inversão de tendência durante dois anos, mas a taxa de natalidade já voltou a diminuir”, esclarece Vanessa Cunha. Segundo as estimativas do Eurostat, Portugal registou, em 2016, a segunda taxa de natalidade mais baixa entre os 28 Estados-membros da União Europeia. Dados da Pordata mostram que a taxa bruta de natalidade [número de bebés nascidos por 1000 habitantes] foi de 8,6%, no mesmo ano [em 1960, foi de 24,1%].

E em matéria de incentivos à natalidade? O que pensam os casais portugueses? O Inquérito à Fecundidade 2013 mostra que os mais valorizados nesta matéria pelos inquiridos são “o aumento dos rendimentos das famílias e a possibilidade de beneficiarem de condições de trabalho mais compatíveis com as responsabilidades familiares”.

Sara Falcão Casaca, investigadora e professora associada com agregação do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa (ISEG-ULisboa), considera que, do ponto de vista da dinâmica do trabalho, “faltaram (e faltam) condições objetivas e subjetivas favoráveis a projetos de maternidade e de paternidade, ou seja, de parentalidade. Além da precariedade laboral e dos baixos salários (situação que atinge, sobretudo, as mulheres), os modelos de organização do trabalho e as culturas organizacionais dominantes não ajudam… Tende-se a privilegiar e a reproduzir uma cultura dominante que tem como referência o tradicional modelo male breadwinner, ou seja, o trabalhador do sexo masculino isento de responsabilidades familiares. Os contextos organizacionais em geral não são amigos das pessoas com responsabilidades familiares”.

Para a investigadora, os atuais modelos de organização do trabalho emagrecem os custos laborais e levam as empresas a contratar e prescindir de mão de obra num registo just in time, ajustando o número de trabalhadores/as às necessidades produtivas ditadas pelo mercado/procura. “Destas práticas, resulta o aumento de formas flexíveis de emprego, frequentemente precárias. Neste quadro, quando é praticada a flexibilidade de tempo de trabalho, esta é muitas vezes ditada unilateralmente pelas empresas, não sendo negociada. Em geral, neste modelo assente no emagrecimento organizacional, são muito elevados os níveis de intensidade de trabalho e de stress. Subordina-se a esfera familiar e pessoal às exigências da produtividade e da competitividade, e marginaliza-se quem não obedece a esta norma ideal de dedicação e compromisso total. Não surpreende, assim, que as mulheres – fundamentalmente as que são mães [ou mães eventuais] – sejam discriminadas, tal como sucede com os homens que exercem as suas responsabilidades parentais e familiares”, alerta Sara Falcão Casaca.

Aumento da idade média ao primeiro nascimento

A idade ao nascimento do primeiro filho acaba por também ser um fator primordial na decisão de aumentar a família. Segundo o já citado estudo “Determinantes da Fecundidade em Portugal”, realizado pelo CIDEHUS, a idade tardia ao nascimento do primeiro filho tem impacto na ponderação de tentar um segundo nascimento. “A idade ao nascimento do primeiro filho é uma das determinantes mais importantes na explicação para a fecundidade realizada de filho único, sendo que quanto maior for a idade ao nascimento do primeiro filho, maiores são as possibilidades de não se ter prosseguido para um segundo”, explica Maria Filomena Mendes.

Revela o estudo que o aumento da idade em que, em média, as mulheres têm filhos resulta da conjugação de dois fenómenos: o incremento da idade em que se tem o primeiro e também daquela em que se têm todos os outros filhos. Ambas as situações estão cada vez mais aproximadas, o que evidencia que atualmente, em Portugal, se esteja a ter apenas um filho [em média].

Esta proximidade é um nítido reflexo do adiamento da fecundidade e da concentração dos nascimentos em torno da idade ao primeiro nascimento, ou seja, muitos casais optam por ter um filho único e, os que decidem ter mais,  concentram os nascimentos num curto período de tempo, logo a seguir ao primeiro”, avança a professora

Número de filhos por mulher e idade Média da Fecundidade

Para os residentes em Portugal com menos de 40 anos, existem fatores que ajudam a contextualizar a tendência de se ter “apenas” um filho: a ausência de uma relação conjugal; a permanência em casa dos pais até mais tarde; a presença de filhos de um relacionamento anterior; ser filho único ou ter apenas um irmão; possuir um nível de instrução mais baixo (até ao 3.º ciclo do ensino básico). “As mulheres revelam maior intenção, mas nota-se uma concordância com a necessidade de uma maior presença paterna, bem como no respeitante à compensação quantidade versus qualidade, acrescenta.

Segundo as respostas de mulheres e homens no referido estudo, a fecundidade desejada não é propriamente idêntica à realizada. “Considerando todas as idades, conclui-se que 85% daqueles que têm atualmente um único filho desejariam ter mais, sendo intenção de 32% vir a ter, pelo menos, um segundo filho”, explica a professora da UÉ.

As razões indicadas nesta investigação estão em conformidade com as verificadas pelos estudos do ICS-ULisboa e resumem-se a “restrições de ordem financeira impostas maioritariamente pelos baixos níveis do rendimento auferido, pelo desemprego e pela precariedade laboral, em conjugação com custos crescentes devido a maiores exigências, sobretudo no que respeita à educação e à saúde dos filhos, crescendo a importância das restrições em tempo, quer da mãe, quer do pai”, sublinha Maria Filomena Mendes.

Existe ainda um dado interessante que indica que as mulheres transitam para a maternidade mais cedo do que os homens para a paternidade, sendo que, em ambos os sexos, aqueles que o fazem mais tardiamente revelam o desejo de não progredir para um segundo filho. No grupo de indivíduos com idades entre os 30 e os 39, verifica-se que “as mulheres são mais suscetíveis de terem apenas um filho, apresentando ainda maiores possibilidades de findar o seu período reprodutivo com apenas esse filho”.

Ao perderem-se segundos nascimentos, as taxas de fecundidade acabam por ressentir-se. “Portugal é dos países com as mais baixas fecundidades do mundo e com uma grande incidência de filhos únicos, mas esta não é a situação maioritária. Por outro lado, somos também um dos países no contexto europeu com uma das proporções mais reduzidas de mulheres que não tiveram nenhum filho”, esclarece Vanessa Cunha.

Para a investigadora, a questão que se põe não é tanto a idade ao nascimento do primeiro filho, mas sim o adiamento do primeiro para o segundo. “Todos os inquéritos mostram que o ideal dos casais não passa por ter muitos filhos. As pessoas ficam demasiado imersas no primeiro nascimento e naquele primeiro filho que têm em casa, seguindo-se uma ponderação de dificuldades que se coloca no momento da entrada na creche, pelo facto de a criança adoecer, as pessoas terem de faltar ao trabalho para dar assistência, e toda uma avaliação de custos económicos associados a esta realidade.” O nascimento de um bebé implica ainda repensar uma relação conjugal que passa a ser uma relação parental. Há que reorganizar a família, mas também o tempo.

“Nos vários inquéritos realizados, os inquiridos revelam que ter dois filhos é a conta certa. Nos anos 90, havia ainda uma reflexão relacionada com a mortalidade infantil que influenciava as opções reprodutivas. Era uma questão muito valorizada e constituía uma espécie de ‘fantasma’ na cabeça das pessoas, uma herança cultural dos tempos (não tão distantes assim) em que a mortalidade infantil marcava presença na vida das famílias. Por isso pesava na decisão de ter um segundo filho o medo da morte de uma criança. Era uma salvaguarda de que a parentalidade não cessava”, explica Vanessa Cunha.

No estudo realizado dez anos depois, a nota dominante é a importância de proporcionar uma relação entre irmãos. “Esta relação fraternal, que é para a vida, é uma das razões principais para as pessoas avançarem para um segundo filho. Atualmente, a questão da qualidade da infância é fundamental. Ou seja, tem-se menos filhos ,mas há a preocupação de lhes proporcionar maior qualidade de vida. Note-se que há uma vigilância social sobre a parentalidade que tem um grande peso nesta questão da fecundidade”, acrescenta a investigadora.

Nos dados compilados por Maria Filomena Mendes, a professora considera interessante o seguinte aspeto: “Entre os que deverão ficar pelo filho único, apenas uma fração muito reduzida considera que esta é a descendência ideal para uma família, sendo que cerca de três em cada quatro indivíduos referem que o modelo familiar é ter dois filhos”, o que acaba por conferir continuidade à realidade já investigada em gerações anteriores.

Vantagens de filhos únicos

Se, por um lado, ter um filho torna a vida financeira mais folgada e a gestão do tempo acaba por ser mais facilitada, o facto de os pais se concentrarem demasiado numa só criança pode “elevar demasiado as expectativas”, afirma Paula. “Temos uma melhor qualidade de vida mas a Maria cresce sozinha, sem irmãos”, reforça João.

Frederico sente que consegue acompanhar melhor a filha Maria mas que essa realidade também pode implicar um excesso de proteção. “Por um lado, pensa que o mundo gira em torno dela, embora com o crescimento vá ganhando consciência de que há vida para além de si própria, e isso é algo que lhe custa aceitar. Por outro, a pressão/exigência que fazemos não é dividida com outro irmão. Existindo mais do que um, as dores de cabeça são a dobrar, mas acredito que os bons momentos também o sejam. Tendo apenas uma, é mais fácil gerir o dia a dia e o futuro.”

A mãe Vânia orgulha-se de a filha não ser uma criança egoísta ao ponto de não partilhar os seus objetos. “Gosta de ter visitas dos primos e das amigas e adora dias de brincadeira, mas, no final, aprecia o momento em que voltamos a ser três, e recupera a nossa atenção. Acho que ter um filho é menos exigente a todos os níveis, e é muito mais fácil de gerir. Quando o número de filhos duplica, multiplicam-se as preocupações, as necessidades afetivas ou financeiras, o tempo que necessitam e as faltas ao trabalho. Quando não se tem família por perto, sejam avós ou tios que possam salvar o dia quando nos atrasamos, ter um filho é uma escolha mais racional”, afirma.

Para Fernanda e Luís, as vantagens económicas de ter apenas um filho são óbvias, mas não foi esse o fator que pesou na decisão. “Despendemos mais a nossa atenção só com o Tomás e podemos proporcionar-lhe uma vivência diferente, que seria mais complicada se tivéssemos mais filhos. Julgo que as desvantagens de não ter irmãos vão notar-se mais no futuro, porque não terá com quem dividir problemas e opiniões, sobretudo quando eu e o pai formos velhinhos ou quando adoecermos”, defende a mãe.

Também Tatiana sente que a atenção sobre Beatriz pode ser excessiva. “Sabemos, no entanto, que nada lhe falta, apesar de fazermos tudo para que ela perceba que a vida não é fácil. Impomos muitas regras. Mas nós, que temos irmãos, sabemos e sentimos o que é ter com quem partilhar. Falta isso à Beatriz”, assegura.

O Inquérito à Fecundidade 2013 revela que os inquiridos preferem ter um só filho com mais oportunidades e menos restrições em detrimento de terem mais filhos. Esta é, aliás, “uma das características que mais distinguem os que almejam ter uma descendência de filho único daqueles que pretendem ter dois ou mais”, explica Maria Filomena Mendes. É o chamado “efeito de compensação”, refletido nos grupos estudados. “Os que concordam que é preferível ter apenas um filho com menos restrições e mais oportunidades apresentam mais possibilidades de não terem avançado para o segundo filho”, sublinha a professora.

E, por outro lado, quem revela intenção de ter, pelo menos, dois filhos? O estudo também traça o perfil respetivo. São pessoas com “um grau de instrução superior, nomeadamente no caso das mulheres. Por outro lado, os contextos de origem, em particular o facto de a mãe possuir também um nível de educação superior, e ter nascido e crescido numa família numerosa, mas também o ter tido o primeiro filho antes dos 23 anos, e de se reconhecer a importância da presença paterna enquanto os filhos são pequenos”.

Fecundidade realizada e expectativa futura

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A falta de apoio aos jovens casais é um problema do país. O mercado de trabalho exige-lhes muito. “Muitas pessoas lutam diariamente para terem um emprego, alguma estabilidade e um salário minimamente condigno. Outras estão inseridas num tipo de cultura profissional que existe na sociedade portuguesa e que é muito distinta da que se vive nos países nórdicos, que são um exemplo do que se pode fazer em termos da relação dos homens e das mulheres com o mercado de trabalho e do respeito pela sua vida privada. Em Portugal, as pessoas sentem na pele os custos que o nascimento de um filho acarreta e a difícil conciliação tendo em conta um mercado de trabalho que exige às pessoas que tenham um tipo de dedicação desmesurada e desajustada relativamente à vida familiar”, defende Vanessa Cunha.

Para Paula e João, a falta de apoio é notória, começando logo pelo período de licença parental. “Acho que devemos ter o direito de estar mais tempo com os nossos filhos, sem grandes penalizações financeiras. Depois, há imensas pressões no trabalho que impedem mães e pais de atingir o equilíbrio. Em Portugal, falta ‘tempo’ para sermos pais”, defende Paula. Frederico concorda: “Hoje em dia, a licença já pode ser dividida entre o casal, mas o período da mesma e a retribuição correspondente ainda estão longe daquilo que é praticado em alguns países, em especial no norte da Europa”. João acrescenta que “as entidades patronais têm pouca sensibilidade para as exigências da paternidade, o que faz com que muitos deem prioridade à vida profissional”.

Também Vânia e Frederico sentem a pressão da estabilidade financeira e profissional. “Não há entidade patronal que aprecie que os funcionários faltem porque os filhos estão doentes, porque têm de ir a uma consulta, porque há reunião de pais, porque há espetáculo de final de Natal, de final de ano e por aí fora”, explica Vânia. Frederico, por sua vez, recorda o velho ditado “onde come um, comem dois ou três”, que remonta a uma altura em que Portugal era “um país rural onde as crianças viviam com o que havia, mesmo que fosse uma sardinha ou um carapau a dividir por três, como me contaram alguns tios mais velhos. Hoje o país está muito diferente, a sociedade mudou, e não é fácil possibilitarmos o que é importante e necessário às nossas crianças se não tivermos algumas condições. Alguns conseguem-no, certamente, mas ter mais filhos é uma decisão pessoal”.

A questão das creches também é um entrave para os casais. “Pagar 500 euros por uma creche é difícil”, defende Luís. Há ainda um caminho a percorrer sobretudo no que respeita à rede de infantários ou creches com comparticipação do Estado, na opinião de Frederico. “Quem não tem família próxima onde deixar as crianças fica sujeito a prestações elevadas no privado, nem sempre acessíveis”, sustenta.

Gerir a esfera profissional e a vida familiar/pessoal e alterar as políticas de gestão e os modelos de organização do trabalho são aspetos essenciais para trazer ao debate desta questão, urgente e necessário, na opinião de Sara Falcão Casaca. “O conflito entre os dois domínios, hoje tão evidente, não é alheio às novas opções reprodutivas e à queda dos índices sintéticos de fecundidade. A centralidade crescentemente conferida à responsabilidade social das empresas tem de assentar no compromisso com a sustentabilidade das sociedades contemporâneas. Proteger/valorizar a maternidade, a paternidade, promover a conciliação com a vida familiar e integrar essa valorização na gestão interna, na cultura e na organização do trabalho são dimensões fundamentais… Importa, ainda, contrariar a precariedade laboral por via das políticas orientadas para o mercado de trabalho e em sede de concertação social, que tanto atinge a população jovem e os grupos etários em que se poderiam consolidar projetos de parentalidade”, conclui.

 

 

 

 

A meditação que salvou os rapazes tailandeses também cá ajuda nas escolas

Julho 25, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 15 de julho de 2018.

Alunos mais calmos, menos ansiosos e concentrados. Em Portugal há projectos de meditação e ioga aplicados às salas de aula.

Susana Pinheiro

Silêncio, chiu! Ao sinal do toque na taça tibetana, duas dezenas de crianças, com quatro e cinco anos, já sabem que os próximos minutos são para meditar. Sentadas no chão, pernas cruzadas, têm os olhos fechados à excepção de duas ou três, e inspiram e expiram devagar. Seguem viagem pela floresta até ao arco-íris guiados pela voz da educadora da creche para depois “regressarem” à sala em Miramar, Vila Nova de Gaia. Estão a meditar tal como milhares de crianças já fazem em contexto de sala de aula em Portugal. E com resultados: mais calmas, menos ansiosas e com mais concentração.

Por estes dias, muito se falou na importância da meditação com o mundo de olhos postos no resgate dos rapazes da equipa de futebol e do seu treinador de uma gruta de Thuam Lang, no Norte da Tailândia. Esta gestão emocional terá sido importante para os jovens e para o professor manterem a calma e controlarem a ansiedade perante o perigo que viveram por mais de duas semanas. Como evitar ataques de pânico e não ter medo? Com o mindfulness – um “ramo” da meditação –, “as pessoas aprendem a controlar e desenvolver a atenção, a estabilizar o estado mental, o que lhes permite ter mais consciência dos seus pensamentos e emoções que influenciam as suas respostas e comportamentos”, defende o presidente da Associação Portuguesa para o Mindfulness (APM), o psiquiatra José Pinto Gouveia. Logo, sublinha, “a ansiedade e a depressão são menores”, o que pode ter sido o caso dos rapazes da equipa de futebol.

A meditação também poderá ter ajudado a não se deixarem sucumbir aos pensamentos negativos, como por exemplo a possibilidade de morrerem, enquanto estavam presos na gruta. “A meditação treina-nos para não considerar o pensamento como sendo realidade”, explica Dulce Gonçalves, mentora do projecto Mentes Sorridentes, que começou há quatro anos com alunos de educação especial, do agrupamento de escolas João Villaret, em Loures, e que já se alargou a outras escolas como em Odivelas e Póvoa de Varzim.

Neste último ano, Dulce Gonçalves avaliou o projecto na Escola Secundária da Ramada, em Odivelas, com o apoio da APM. E constatou que o grupo de alunos do 3.º ciclo e secundário, com uma média de 15 anos de idade, que praticou mindfulness conseguiu controlar os pensamentos. Este grupo experimental concretizou o projecto durante oito semanas a fazer mindfulness, uma vez por semana, e havia um outro grupo de controlo que não fez. Nesta avaliação também se constatou o aumento do bem-estar físico e qualidade das relações sociais entre os jovens. “O mindfulness  é uma atitude de vida, há uma consciência do que está a acontecer sem que nos deixemos ser controlados pelos pensamentos porque, ao meditar, vou focar-me, por exemplo, na respiração ou nos sons que ouço”, explica Dulce Gonçalves, com uma pós-graduação em terapias cognitivo-comportamentais.

Também Tomás de Mello Breyner, mentor do projecto O Pequeno Buda, defende que a meditação “é uma ferramenta que ajuda a controlar as flutuações mentais cada vez que surge um pensamento negativo e [ajuda] a estar calmo”, de maneira a não reagir a quente e de forma precipitada. No caso dos rapazes da Tailândia poderá ter sido essencial, acredita. Mello Breyner já pôs dez mil crianças a meditar em escolas de todo o país, como o que acontece no Colégio do Sol dos Pequeninos, em Vila Nova de Gaia.

Como lidar com a raiva e a frustração

As aulas de ioga e meditação chegaram às escolas com o objectivo de ajudar as crianças. Tomás de Mello Breyner quis “ensinar o que não se ensina na escola: a perceber o que é a nossa mente”. “Vivemos numa sociedade muito agitada, com um ritmo de vida acelerado que é imposto às crianças, que lhes causa ansiedade e falta de concentração e, como consequência, algumas acabam por sentir frustração e baixa auto-estima, o que muitas vezes leva à medicação”, descreve.

Além disso, continua, há “a imensa carga de trabalhos de casa e avaliações, uma elevada carga horária e um excesso de estímulos da era digital” que também contribui para o stress e ansiedade. O projecto O Pequeno Buda “não vai fazer desaparecer os elementos causadores de stress, mas sim ensinar aos alunos uma técnica que lhes vai permitir fazer uma melhor gestão intelectual e emocional” da vida, defende. Como? Através do “Quiet Time”, ou seja, um momento em que as técnicas de meditação e de relaxamento são aplicadas, de modo a que as crianças e os jovens fiquem mais calmos, concentrados, empáticos entre si e em relação ao professor.

Também o projecto de mindfulness da Mentes Sorridentes, que é aplicado por uma equipa multidisciplinar de professores, psicólogos e médicos, em escolas de Norte a Sul do país, “treina o desenvolvimento de uma atenção estável e focada no presente, na consciência das sensações, sentimentos e pensamentos que emergem na mente”, elucida Dulce Gonçalves, que foi finalista do prémio Melhor Professor de Portugal.

É o treino da mente, tal como se vai ao ginásio para exercitar o corpo. “O mindfulness é um treino mental estudado cientificamente. Nos EUA há estudos que mostram que ajuda os miúdos com défice de atenção e hiperactividade”, sublinha o presidente da APM, que aplica esta metodologia em determinadas situações clínicas. Um dos projectos, que dura oito semanas, chama-se Kg-free, pensado para mulheres obesas, que sofrem de distúrbio de ingestão alimentar compulsivo. “Os resultados são positivos em meia centena de mulheres”, informa José Pinto Gouveia. No contexto da psicologia, o mindfulness surge, então, defende, como uma ferramenta importante para a psicoterapia. “Como psiquiatra defendo que o mindfulness pode ser uma ferramenta útil nas escolas quando bem utilizado. Temos aplicado e avaliado. É preciso informar as pessoas, explorar o que é”, considera, ressalvando que “os professores não devem fazer este tipo de meditação sem terem formação e que devem fazer dela uma prática regular”.

Também o professor de Educação Física Sabino Soares, que foi finalista do prémio de Melhor Professor de Portugal, usa o mindfulness para trabalhar as emoções, melhorar o desempenho escolar e o comportamento dos alunos na escola n.º 6 de Olhão, situada num bairro social algarvio, com muitos alunos com dificuldades de aprendizagem e falta de concentração nas aulas. Chama-lhe Pausa M, que acontece duas vezes por dia, também para atenuar conflitos, pois ensina os alunos a “fazer stop, respirar fundo duas a três vezes quando estão perante uma situação que não é fácil, para não reagirem a quente e não baterem, chamarem nomes ou gritarem”, elucida. No caso dos meninos tailandeses fazer stop pode ter ajudado a evitar uma precipitada tomada de decisões e a não correrem risco de vida.

“Uma perda de tempo”

Também o projecto-piloto de ioga no Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar, em Lisboa, dado pela Confederação Portuguesa de Yoga e que foi proposto à escola pela Câmara Municipal de Lisboa, procura ajudar as crianças a ficarem mais serenas e concentradas.

Todos estes projectos, ressalvam os responsáveis, não têm qualquer vínculo com religiões ou crenças; são exercícios que servem para o desenvolvimento natural de todos. “O mindfulness é uma técnica, treino da mente, que não tem nada de esotérico nem sequer mexe com energias. Gostaríamos que fosse levado mais a sério, pois estamos a avaliar cientificamente os dados”, salvaguarda Dulce Gonçalves. “Já tive casos de miúdos que se automutilavam e tinham ataques de pânico e o sucesso resulta de sermos uma equipa multidisciplinar”, assegura.

João Lopes, professor da Universidade do Minho na área da psicologia da educação, contrapõe, baseando-se em três tipos de artigos publicados sobre o assunto nos EUA. E diz que existe uma “fraca evidência” na utilização do mindfulness para reduzir a ansiedade e depressão. Os estudos não encontram ganhos significativos em comportamentos sociais em pessoas que foram sujeitas a este tipo de metodologias, afirma. “Em relação às escolas é uma perda de tempo, porque enquanto se está a fazer isto, não se está a fazer outras coisas”, avalia. Mais ainda, questiona, “havendo tanta gente a queixar-se que não tem tempo para dar os programas lectivos, por que é que têm tempo para fazer este tipo de actividade que a literatura não mostra melhorarem os comportamentos agressivos e a ansiedade?”.

A evidência científica não pode assentar em opiniões das pessoas e para haver estudos deste género é preciso haver um grupo de controlo, acrescenta João Lopes. Dulce Gonçalves, das Mentes Sorridentes, diz serem feitas avaliações da aplicação do projecto e haver um grupo de controlo. “Avaliamos o impacto com um conjunto de testes certificados cientificamente, aplicados por psicólogos e há uma avaliação pré e pós-intervenção.” Ao fim dos três anos, constataram melhorias da gestão emocional na relação com os outros. “Em termos científicos, não podemos dizer que as notas melhoraram por causa do mindfulness, [não podemos] estabelecer uma relação directa, mas melhoraram”, acrescenta a professora. O psicólogo João Lopes não acredita que seja possível as notas subirem com a utilização de métodos de relaxamento.

Também o psicólogo José Morgado, do ISPA-Instituto Universitário, em Lisboa, “não acredita em receitas milagrosas. Nenhuma criança é a igual a outra. As crianças não vêm com um manual de instruções”. Contudo, o especialista em psicologia educacional considera boas as ferramentas do ioga e da meditação. “Se as ferramentas se encaixam, óptimo. Mas não pensemos que vêm revolucionar”, considera. “Sou mais reservado em centrar numa única resposta só pela capacidade de achar que há muitas variáveis que mexem com o comportamento das crianças”, justifica.

Morgado confessa ter “alguma reserva em relação à utilização de recursos exteriores à sala de aula”. A solução está em toda a gente, já que “para educar uma criança é preciso uma aldeia, uma comunidade educativa”, logo, defende que o ideal é criar ambientes com menos agitação para as crianças. Tudo começa em casa, “se der mais atenção ao meu filho, se estou mais tempo com ele, se o estímulo mais vou notar benefícios”, exemplifica. Também João Lopes, da Universidade do Minho, que costuma ir às escolas fazer acções de formação aos professores, em que ensina técnicas de gestão e organização da sala de aula, crê que não é a meditação que vai resolver tudo, é preciso, sim, “estabelecer rotinas”, reforça. “Tenho pena que a educação seja uma área em que o experimentalismo é a palavra de ordem”, lamenta. O professor considera que a meditação nas escolas é “uma moda que dentro de algum tempo irá ser substituída por outra”.

A “taça do silêncio”

Numa sala cheia de brinquedos, com todo tipo de distracções, as crianças do Colégio Sol dos Pequeninos conseguem estar sossegadas à espera do toque da “taça do silêncio” como a educadora de infância Diana Alves Costa chama ao objecto de metal. Umas esfregam os olhos com as mãos, outras cerram-nos com toda a força enquanto a educadora de infância os vai guiando: “Pomos as nossas costas numa posição confortável, sentimos o ar entrar no nosso corpo, inspiramos e expiramos. Vamos imaginar que está muito quentinho e vamos dar um passeio pela floresta…” No final, pede-lhes: “Devagarinho podemos abrir os nossos olhinhos e espreguiçar.” É vê-los de braços esticados no ar, alguns deles a bocejar, os olhinhos a abrirem-se devagar com um enorme sorriso. “Imaginei-me mesmo na floresta a pisar as folhas e até ouvia o barulho delas. Estava a meditar”, conta Carla Mónica, cinco anos, com um ar muito sério. Os meninos com quem o P2 falou decidiram baptizarem-se com nomes fictícios de que gostam.

Mas afinal o que é isso de meditar? “É tipo relaxar, acalmar a nossa cabeça, ficar mais descansada, e inspirar e expirar muito tranquila”, responde logo a Madalena, de cinco anos, com um enorme sorriso, interrompida por Carlos Tiago, olhos verdes grandes, seis anos de reguila, para explicar: “Pomos as pernas à chinês, fechamos os olhos e depois só vejo preto enquanto respiro fundo, mas gosto”, e ri-se perdido. “É acalmar o nosso corpo e tanto acalmo que estava quase a dormir”, acrescenta Matilde, cinco anos. Tomás de Mello Breyner, mentor do projecto Pequeno Buda, diefine a meditação como “a repetição contínua da mesma acção”.

Meditação é coisa que Martim de três diz perceber bem: “Faço tom tom na taça e sinto assim uma coisa cá dentro e depois entra e sai oxigénio.” A mãe, Vânia Guedes, graceja: “Em casa, o Martim toca numa taça parecida com esta que há aqui na creche e depois deita-se a meditar. Às tantas diz a ele próprio: ‘Martim já te podes levantar’.” A mãe acha-lhe piada e diz que desde que começou a meditação na creche está muito mais relaxado e concentrado.

Vânia Guedes é educadora de infância noutro espaço mas já fez um workshop de meditação, ministrado pelo projecto Pequeno Buda. “Foi importante como estratégia para usar com o meu filho e na minha profissão junto dos meninos em momentos de birras e quando estão agitados”, justifica. Sónia Aires, directora do Sol dos Pequeninos, diz que o projecto vem responder à missão do colégio de “trabalhar os valores, a humanização e a identidade das crianças”. E nota que estão mais calmas e concentradas.

Há alguns anos, numa das muitas viagens à Índia, “ao passar por uma escola na cidade de Kanpur, os miúdos antes de começarem as aulas iam para o ginásio fazer dez minutos de meditação. Aquilo mexeu comigo e disse para mim mesmo que, quando regressasse a Portugal, queria fazer o mesmo”, recorda Tomás de Mello Breyner. Assim foi. “Começámos, em 2014, com uma escola de Lisboa e aos poucos o projecto foi-se alargando”. No fundo, “é um sonho tornado realidade, é a prova de que a mudança da consciência global está a manifestar-se e isso é uma grande alegria”, realça.

Mais a Norte, no Agrupamento Cego do Maio, na Póvoa de Varzim, há uma sala propositadamente preparada para acolher os primeiros participantes do projecto Mentes Sorridentes. Estamos em Janeiro – o P2 acompanhou o início do projecto na escola com alunos do 3.º ciclo – e a professora Ana Ribeiro vai dizendo: “Em casa podem fazer sentados, deitados. Hoje, vamo-nos colocar numa postura que nos ajude. Corpo direito, mais descontraído, pernas paralelas e afastadas, pés assentes no chão.” E eles anuem, alguns mais calados, outros com risos, mas seguem as orientações de um áudio: “Feche os olhos ou fixe um ponto perto de si sem desviar o olhar. Inspire tranquilamente o ar pelo nariz e liberte-o sem pressa pelo nariz ou boca. Inspire tranquilamente. Expire devagar”. Uns fazem-no, outros ainda mantêm os olhos abertos, como que um pouco desconfiados. “É natural que a sua mente fuja e traga pensamentos”, ouve-se. No final, os alunos começam a mexer os pés e as mãos devagar, e a abrir os olhos. E escutam: “Sorria! Vai tornar-se uma mente sorridente!”

A professora Ana Ribeiro pergunta-lhes o que sentiram. “Fechei os olhos e senti-me um bocado aliviada; acho que vou melhorar na escola e em casa. Vim para descontrair, organizar as ideias e acalmar, porque tenho alguma dificuldade de concentração na sala de aula”, responde Maria, nome fictício, 14 anos, do 8.º ano. Ao seu lado, Miguel, nome fictício, 15 anos, suspira e acrescenta: “Tenho bicho-carpinteiro (risos) e até senti um formigueiro nos pés, mas gostei de fazer esta experiência orientada. Aconselharam-me a participar para melhorar o meu comportamento e as notas.” A professora aconselha-os: “Há pessoas que se assustam no início por causa das sensações novas, mas tentem fazer em casa uma vez por dia, durante dez minutos. Vão ver que funciona.”

Ana Ribeiro acrescenta ainda: “Quando se enervarem, respirem. Inspirem e expirem antes de darem uma resposta torta.” Oito semanas depois, o P2 regressa à escola e volta a estar com os alunos que relatam estar mais calmos e concentrados nas aulas. “Adquiriram ferramentas para aplicar em qualquer situação da vida. Se se tornar uma rotina, funciona”, conclui a professora.

A psicóloga e psicoterapeuta Joana Vaz, de O Pequeno Buda, diz que, “ao nível da neuropsicologia está provado que o cérebro muda ao fim de alguns anos de meditação; a paciência é muito trabalhada, é um treino”. Logo, acaba por ser, reconhece, “uma forma diferente de estar na vida” que permite parar para pensar.

 

“Não se pode aprisionar as crianças em férias. É preciso libertá-las para que possam viver tudo”

Julho 25, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Bruno Gonçalves

Entrevista do i a Carlos Neto no dia 16 de julho de 2018.

Marta F. Reis

“Não podemos aprisionar as crianças e os adolescentes em casa em tempo de férias”. O conselho é de Carlos Neto, professor na Faculdade de Motricidade Humana que há mais de 30 anos se dedica à área da educação física e motora e ao papel do jogo no desenvolvimento das crianças. Com mais um período de férias grandes à porta, o investigador acredita que tentar cultivar um pouco mais de autonomia e liberdade na relação com os mais novos será benéfico para eles mas também para os pais. O objetivo é que as férias sejam um momento de prazer e descoberta e não uma “batalha campal”, a realidade de muitas famílias, lamenta. As dicas são práticas: mais contacto com a natureza e deixá-los experimentar e até fazer coisas um pouco mais arriscadas do que o costume, seja trepar às árvores, andar de skate, correr na praia com um papagaio… ou porque não acampar todos juntos este ano? A saúde física e mental de todos agradece.

É há muito tempo uma pessoa preocupada com o espaço que as crianças não têm para brincar ao longo do ano e o impacto que isso tem no seu desenvolvimento motor e psicológico. Este tempo das férias grandes pode ser usado pelos pais para as estimular?

De facto os pais deveriam encontrar soluções para reinventar o tempo de férias para os filhos. Não pode continuar a acontecer as férias serem um tormento quer para os filhos quer para os pais, que é o que muitas vezes acontece. Muitas vezes os pais até têm quase medo que chegue este tempo – durante o ano as crianças passam muito tempo nas escolas, os pais no trabalho e passam muito pouco tempo juntos e depois, quando chegam as férias, é um verdadeiro drama. Há soluções como pôr as crianças em colónias de férias que de certa forma os liberta de estarem com os filhos, mas fazer só isso por sistema não é bom.

E nem todas as famílias têm posses para isso.

Claro que isto dependerá sempre do nível sociocultural e há muitos tipos de famílias e de crianças, por isso as oportunidades serão sempre diferentes. O ponto de partida é que as crianças que agora terminam o ano escolar têm a expectativa que o tempo de férias seja agradável, prazeroso e que seja diferente do ano escolar. Sobretudo que consigam finalmente ter um tempo sem regras muito rígidas e usufruir da possibilidade de fazer coisas novas.

Tem a perceção de que hoje os miúdos chegam ao fim do ano letivo mais sedentos de férias?

Não tenho dúvidas disso. Há 30 ou 40 anos, e falo até da minha geração, temos boas memórias das férias mas o período escolar não tinha nada a ver: havia liberdade, andávamos na rua. Isto hoje não acontece, o que faz com que as crianças tenham uma expectativa maior de que o período de férias seja diferente, desafiante, misterioso. Mas também que traga um contacto mais afetivo e emocional com os pais, que haja uma vinculação afetiva emocional maior. E por isso era bom que os pais pudessem partir para férias com essa consciência e tentar corresponder a essas expectativas.

Pais cada vez mais absorvidos pelo trabalho. 

Esse é o grande problema, a falta de harmonização entre o tempo passado no trabalho e em família. As férias devem ser uma oportunidade para tentar dar um pouco mais de qualidade a esta relação.

Mas há um desfasamento prático: as férias escolares duram dois meses e meio e o período normal de férias por ano de um trabalhador são 22 dias úteis.

Claro, pressupõe uma organização diferente das famílias e certamente que haverá muitas coisas em jogo até de natureza política mas, antes de irmos aí, penso que importa perceber também que é preciso respeitar a necessidade que as crianças têm de ter um tempo de intervalo da rotina para brincarem mais livremente. Diria que deve haver quatro ou cinco preocupações dos pais em tempo de férias: proporcionar situações de liberdade que sejam uma alternativa ao tempo organizado. O segundo conselho que daria aos pais é tentarem proporcionar tempos mais ativos, de relação com a natureza, e por outro lado que não seja algo muito previsível e estruturado. Os pais tentarem levar as crianças a sítios novos, conhecer o interior do país. Por exemplo acampar: o contacto com a natureza é essencial.

O campismo no passado era um clássico do verão de muitas famílias.

Sim, se calhar hoje nem tanto mas é uma forma de as crianças estarem fora do seu contexto habitual e da identidade do espaço onde vivem e basta isso para se libertarem. Também diria que há necessidade de haver atividades desafiantes e isto tanto pode ser ir a um parque aquático, uma ida à serra. Ser mais desafiante significa permitir às crianças correrem mais riscos.

Fala-se por vezes dos “pais-helicóptero”, que tentam controlar e gerir todas as experiências para que as crianças não tenham de enfrentar obstáculos. Um estudo publicado há dias concluía que este estilo de parentalidade acabava por ter um impacto negativo no rendimento escolar e nas relações sociais. É contrariar essa tendência?

Sim e isso de certa forma implica que os pais consigam reconhecer que os filhos podem ter mais autonomia do que aquela que eles pensam que têm.

Os pais tendem a menosprezar as capacidades dos filhos?

Penso que tendem a ter uma perceção diferente e o desafio está em perceber como é que as férias podem ajudar a desconstruir os medos que os pais têm em relação aos filhos. Estou a falar sobretudo nas idades mais baixas, dos 3 aos 5 e dos 5 aos oito.

Que medos são mais comuns?

Coisas tão simples como deixá-los nadar, subir às árvores, trepar.

Há pais com medo que os filhos subam às árvores?

É uma força de expressão mas é um bom exemplo daquilo que é necessário para as crianças melhorarem a sua literacia motora e as férias devem ser uma oportunidade para que isso aconteça, promovendo jogos e brincadeiras ativas. Isto pode acontecer dentro de casa mas devem poder ter uma atividade física mais intensa e ao ar livre e com a participação dos próprios pais, porque isso é importante. Neste sentido, os filhos deviam ajudar os pais a libertarem-se do peso que foi o ano de trabalho. A sociedade portuguesa anda a viver muito à pressa, há uma excitação no quotidiano que está a criar gravíssimos problemas de saúde mental e física nos adultos e nas crianças.

A neurologista Teresa Paiva, especialista em problemas de sono, já tem alertado, por exemplo, para a tendência de ter debates e programas televisivos muito acesos noite dentro, como se o dia não acabasse. É um sintoma dessa excitação?

Sim, é um bombardeamento completo e, no geral, temos uma organização do tempo cada vez mais stressante. E, portanto, o tempo de férias é uma oportunidade para proporcionar novas atividades aos mais novos mas também deve ser uma oportunidade para as pessoas aprenderem a viver mais devagar, a aproveitar o silêncio do corpo, fazerem mais reflexão e contemplação do que é a família. Este conceito de aprender a viver mais devagar é dar mais tempo para a interiorização de cada um e de consciência do que é a vinculação afetiva entre filhos e pais.

É investigador no campo do desenvolvimento infantil, sobretudo motor. Recentemente os resultados nacionais das provas de aferição revelaram que as crianças de sete anos têm dificuldades em saltar à corda e dar cambalhotas. Quão preocupantes são estes indicadores?

São preocupantes mas não podemos dramatizar. Quer o saltar à corda quer a cambalhota [provas em que muitos alunos falharam] são duas habilidades motoras complexas que só atingem o seu nível maduro por volta dos oito/nove anos. Creio que não devemos ter uma visão sensacionalista sobre os resultados porque uma criança de sete anos não terá ainda as condições para ter um êxito absoluto nestas atividades, sobretudo quando se pede algo muito estandardizado como acontece nessas provas. Disto isto, os indicadores de fundo dados pelas provas de aferição é que podem ser considerados mais preocupantes: temos um sedentarismo implantado nas nossas crianças, principalmente nas primeiras idades. Digo-o há mais de 20 anos: temos tido um progressivo declínio do jogo e da atividade física.

Em Portugal em particular?

É um problema dos países mais desenvolvidos. E, ao mesmo tempo, o que vimos nas últimas décadas foi um aumento das desordens do foro mental: ansiedade, depressão, hiperatividade, défice de atenção e até da taxa de suicídio na passagem da adolescência para a idade adulta. Estas transições de ciclo de vida são sempre difíceis, mas a cultura do tudo dado e tudo pronto na hora para as crianças não favorece a sua capacidade de adaptação motora, cognitiva, social e emocional.

Acaba por ser um ciclo vicioso.

Sim. Temos uma superproteção patológica que não cria condições para que as crianças possam ter uma capacidade criativa e de adaptação, que leva os pais a protegerem-nas mais. E isso é o grande problema da sociedade atual em relação às culturas de infância. Só há uma solução: no período escolar e sobretudo nos períodos de férias, proporcionarem-lhes atividades para que essas competências motoras, sociais e emocionais possam ser valorizadas. É dar mais tempo de informalidade e imprevisibilidade e deixar que as crianças possam encontrar o seu caminho. Deixe-me usar este termo: é deixar as crianças fazerem coisas ‘malucas’, deixar os miúdos ter o skate, os patins, a bola, o papagaio, e deixá-los enriquecer o seu vocabulário motor e social à vontade.

Em Portugal há uma percentagem elevada de criança em risco de pobreza e exclusão social, mais de um quarto. Estão particularmente vulneráveis?

Sim, mas às vezes as crianças que vivem em meios empobrecidos têm mais oportunidades de brincar de forma livre do que as que vivem em meios socioeconómicas mais elevados mas estão sujeitos a uma superproteção inaceitável. E aos medos dos pais. Temos de desconstruir os medos dos pais, é algo absolutamente urgente na sociedade portuguesa, as famílias andam cheias de medos e isso leva a que as crianças não tenham autonomia, mobilidade e, por fim, participação.

Como é que os pais devem gerir as tecnologias nesta altura do ano? Mais liberdade também pode significar mais tempo para usar tablets e afins…

Penso que deve haver um decréscimo durante o tempo de férias de tudo o que sejam equipamentos digitais, telemóveis, tablets, televisão. Não diria impor: se dizemos que é um tempo de liberdade, não podemos impor, mas podemos negociar. Vamos negociar com os filhos reduzir o tempo dedicado a estes aparelhos, passar de ter o tempo todo ativo na ponta dos dedos para o tempo ativo nos pés

Mas há algum limite adequado?

Diria que até aos cinco, seis anos não devem usar mas a partir dos sete já todos os miúdos têm telemóvel. A questão dos limites tem sobretudo a ver com o exemplo dos pais.

Se passarem os tempos livres agarrados aos telemóveis, os miúdos vão copiar. 

Sim. É toda a gente perceber que as férias saudáveis incluem menos tempo só agarrado aos equipamentos digitais. Não quer dizer que não se usem: um GPS pode ajudar a criar um desafio na natureza.

Há professores que partilham que, por vezes, há pais que não querem que a escola feche num feriado ou numa ponte, insistem em ter onde deixar as crianças mesmo que até estejam de folga.

Sim, querem ter os filhos ocupados.

Imagina que, continuando assim, vamos chegar a uma altura em que se tornará incontornável reduzir a duração das férias grandes?

Penso que tudo vai depender da evolução da lei laboral. Hoje existe uma assimetria muito grande entre os países do norte da Europa e os do sul em relação à organização do tempo de trabalho e já seria tempo de Portugal alinhar pelas políticas públicas que dão valor à qualidade de tempo familiar, sobretudo às famílias que têm filhos. Não iria por mais tempo de férias, o que é preciso mudar é o tempo que os pais têm disponível para os filhos e isso passa sobretudo por uma flexibilização dos horários de trabalho, poder sair-se às 16h, 16h30. Nos países do norte da Europa os pais saem do trabalho para ir buscar os miúdos à escola com toda a naturalidade. Aqui agora até se está a pensar na escola a tempo inteiro para o 2.º ciclo, o que para mim é um escândalo. Ter crianças dos 10 aos 12 anos na escola todo o dia não faz sentido.

O que diz é que mesmo estando a trabalhar, se os pais saíssem mais cedo podiam dar outro acompanhamento aos filhos no período de férias.

Sim, mesmo que pudesse haver mais ou menos dias de férias, seriam um fardo menor. Tenho a sensação de que hoje em dia as crianças chegam ao fim de férias com uma certa frustração: não fizeram o que estava nas suas expectativas. E era bom que quando chegassem ao novo período escolar em setembro pudessem ir com a sensação de que viveram um período de férias de forma tão intensa que então vale a pena voltar à escola para aprender. Isso não acontece na maior parte dos casos. As férias devem ser uma oportunidade para os pais conhecerem melhor os seus filhos, aprender a controlar o medo, incentivando as brincadeiras mais arriscadas fora de casa, percursos de autonomia fora de casa, não têm de os acompanhar sempre, mas estar presentes. Não estou a dizer coisas extraordinárias, às vezes é simplesmente passear. Há crianças que nunca saíram de casa à noite com os pais para dar uma volta, descobrir a cidade, a aldeia, a vila. Deve ser um tempo também para os pais gostarem mais de serem pais.

Essas experiências de brincadeira e autonomia vão refletir-se mais tarde no desempenho escolar?

E não só. Hoje não há dúvidas sobre isto: quase todos os indivíduos que tiveram sucesso, foram felizes e empreendedores, tiveram infâncias felizes.

Há aquela ideia de que, por vezes, depois das férias até há mais separações: as pessoas não estão habituadas a tanto tempo juntos.

Não tenho dúvidas: há pais e crianças que vêm das férias completamente exaustos e temos de conseguir inverter isto. Mas isso tem a ver com os pais não estarem habituados por um lado mas também não conseguirem perceber que as férias podem ser tempo de liberdade, de autonomia, de descoberta.

E os primeiros excessos? Nas festas da aldeia, por exemplo, começa-se a beber muito cedo, aos 13, 14 anos

É uma outra realidade, mas hoje muitas dessas diferenças que existiam entre a infância no meio rural e no meio urbano estão esbatidas. Hoje os jovens fazem exatamente a mesma coisa e até há estudos que indicam que as crianças de meios rurais têm maior exposição à televisão do que nos meios urbanos.

Os namoros de verão são outro clássico. É outro campo em que os pais não devem coartar demasiado a liberdade dos jovens?

Deve haver com certeza responsabilidade e regras, mas deve haver oportunidade para isso. Costuma-se dizer que a adolescência é a idade esquecida. Hoje temos políticas para a infância, até para os idosos mas não há nada para os adolescentes, que é uma fase central no desenvolvimento. Os adolescentes precisam de experimentar desafios que não são só físicos mas também de natureza emocional. Ninguém esquece os seus amores de verão e os pais também não os devem esquecer e é natural dar mais liberdade aos adolescentes nas ferias. Deve haver algum controlo mas nada de muito sofrido ou patológico: não se pode aprisionar as crianças e os adolescentes em férias, é preciso libertá-los para que possam viver tudo, inclusive o seu corpo.

Os mais cautelosos argumentarão que o mundo mudou nas últimas décadas, que está mais perigoso.

Sim, mas por vezes há uma perceção errada dessa mudança. Portugal é um dos países mais seguros do mundo. Basta ver o turismo que temos, a forma como o país é amado por quem chega cá. Muitas vezes há uma perceção errónea na cultura portuguesa e nas famílias no geral de que somos um país com problemas de segurança quando, pelo contrario, somos um dos países mais seguros.

Não há mais perversidade?

São os tais medos que se instalaram na cabeça dos pais e, seja como for, as crianças e os jovens têm de saber como reagir às situações.

Que conselhos práticos se pode dar às famílias que agora começam a estruturar as férias? Faz sentido planear as semanas para incluir diferentes atividades, fazer um programa do verão em família?

Acho que pode ser interessante, mas com uma condição: com a participação dos filhos. Deixar que os filhos sugiram as atividades que querem fazer, dar-lhes ouvidos. É uma excelente ideia. Era o que se devia fazer mais nas escolas e não se faz, porque os professores impõem quase tudo. Temos de passar de uma cultura de imposição para uma cultura de participação. Mas, essencialmente, é tentar fazer tudo para inverter os indicadores que mais nos preocupam: cada vez há mais obesidade, mais diabetes. Temos de dedicar mais tempo ao exercício físico, comer melhor, guardar tempo para o descanso.

Guarda boas memórias das suas férias grandes?

Sim, ainda hoje. Acabávamos a escola e havia um período em que os pais ainda estavam a trabalhar, por isso passávamos a maior parte tempo na rua.

Em Lisboa?

Cresci em Leiria, uma cidade maravilhosa, com castelo, rio, tudo o que precisávamos. Mal acabava a escola era uma libertação enorme. Depois vinha a altura de ir para a praia, conhecer novos amigos. Andávamos 15 dias a um mês na praia, com dias muito intensos. Nadávamos, jogávamos à bola. Jogar à bola na praia ou mesmo andar é um desafio fabuloso em termos de educação motora, é um desafio em termos de equilíbrio e adaptação e isto para as crianças pequenas é um estímulo muito bom. Isto além do iodo e do próprio contacto com a água do mar, que é revigorante e ao mesmo tempo uma forma de acalmar. Precisamos urgentemente de estratégias para que os corpos acalmem. Mas as minhas memórias são isto: a liberdade que tínhamos, a autonomia e alegria. A melhor recordação que tenho era não gostar que chegasse a noite porque sabíamos que íamos ter de ir dormir. E ter de ir dormir era improdutivo.

Mas adormecia num instante, não?

[Risos] Verdade, quanto mais cansados melhor é para adormecer. Mas a sensação de que ir dormir é uma chatice, uma perda de tempo, significa que tivemos um dia feliz. E é uma sensação que acho que hoje as crianças não têm. Às vezes veem-se famílias em férias que mais parece uma batalha campal. Torna-se cansativo porque já ninguém está adaptado a ninguém e ao mesmo tempo há cada vez mais uma cultura egocêntrica que faz com que os pais já não tenham o hábito de estar com os filhos a tempo pleno. Costuma-se dizer que cada um de nós tem uma criança dentro de si. Não iria tão longe, mas certamente cada um de nós tem memórias da sua infância. Era preciso retomá-las para descobrir a forma como devemos passar as férias com os filhos.

 

 

 

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