Pais preparados podem evitar que os filhos fiquem dependentes da internet

Julho 27, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Patricia Prudente

Notícia do Atlântico Expresso de 16 de julho de 2018.

Psicólogo deixa dicas para que os jovens tenham uma melhor saúde

Pais preparados podem evitar que os filhos fiquem dependentes da internet

A dependência da internet começa cada vez mais cedo, alerta João Lemos, psicólogo. O especialista defende que o treino das competências parentais pode aliviar o problema. tíOspais não devem ter medo de impor limites aos seus filhos. Muitos permitem que os seus filhos gastem uma, duas, três horas por dia na internet e isto é completamente errado. O que eu defendo é que de Segunda-feira a Sexta-feira, a internet seja utilizada apenas para trabalhos para a escola e ao fim-de-semana ter acesso durante um curto espaço de tempo, se o comportamento do filho o justificar.

O que os pais têm de promover são actividades ao ar livre, a interacção, a comunicação, os jogos de mesa, convívio saudáveis”.

A Organização Mundial da Saúde considerou que a dependência dos videojogos é uma doença. É um problema com que se depara nos Açores?

É um problema que existe quase em todo o mundo, principalmente nos países ditos desenvolvidos e que aderiram ao uso da internet e não só. Já venho a falar sobre esta problemática há muitos, muitos anos e alertar as famílias para o perigo da ciberdependência.

De facto, o uso de videojogos insere-se neste diagnóstico de ciberdependência, ou seja, dependência do mundo virtual, dependência da internet. É um problema gravíssimo porque afecta o desenvolvimento dos jovens e adultos – porque o problema não é só de jovens, é também de adultos, embora o perigo maior tenha a ver com os jovens, porque estão numa fase de formação, de preparação para a vida, que passa pela área académica e, depois, pela área profissional e, transversalmente a tudo isto, às áreas social e familiar, uma vez que este quadro clínico se caracteriza, essencialmente, por uma alienação da realidade nestas áreas todas, com implicações muito negativas no funcionamento dos próprios jovens e adultos, no relacionamento interpessoal dentro das famílias e, também, na sociedade e no mundo do trabalho.

Tudo isto tem como consequência final os disfuncionamentos comportamentais, disfuncionamentos familiares, disfuncionamentos profissionais, acabando na clínica. Pode começar numa fase inicial, para apoio psicológico nas consultas, o que é muito reduzido. Normalmente, estes casos só chegam à clínica quando há situações judiciais graves de conflitos entre pais e filhos, que depois acabam por cair na Comissão de Protecção de Menores ou no tribunal. No final, pode resultar em internamentos em clínicas, que já começaram a ser criadas no continente para esse efeito, daí a gravidade da situação.

É um problema que começa cedo?

Cada vez mais. Já vemos crianças, na segunda infância, a fazer o treino do esfincter no bacio com um tablet à frente a fazer jogos. Evidentemente, que esta questão é complexa. Existem colegas, da área da psicologia que promovem, incentivam e valorizam a utilização dos jogos pedagógicos, mas a existirem jogos pedagógicos virtuais têm de ser muito bem utilizados, com limites e com objectivos muito bem definidos. Não pode ser, como acontece actualmente, em que há um acesso indiscriminado das crianças e jovens aos videojogos, à internet, sem qualquer controlo parental.

Tudo isso termina neste processo de desajustamento social por uma alienação relativamente às obrigações e aos deveres académicos e, depois, numa separação e isolamento dentro da própria família, ao ponto de não existir um grupo de pessoas a viverem em conjunto, mas sim um grupo de pessoas a viverem separadas umas das outras, cada um no seu espaço, ligado ao seu computador ou ao seu instrumento de acesso à rede virtual inclusivamente os pais, pela via do Facebook, que pode permitir a aproximação entre as pessoas, mas que também acaba por contribuir para o afastamento.

Daí ser uma questão muito problemática. Nós temos de pensar nisto a sério e talvez fosse altura de os nossos governantes, os nossos políticos, pegarem nessa informação da OMS e verem qual é a ligação entre isto a proposta do treino das competências parentais.

Ou ajudamos os jovens pais a serem pais competentes ou o problema vai ser um ciclo vicioso e em espiral, que nunca mais vai acabar. 0 sistema tenderá sempre para um reequilíbrio. Agora, eu acho que é desnecessário passarmos uma crise de disfunção social, familiar e individual para depois irmos resolver o problema, seguindo aquela máxima latina de ‘casa roubada, trancas à porta’.

Estamos a agir tarde demais, na sua opinião?

Corremos o risco de estar a criar gerações diferentes, com comportamentos sociais e de sociabilização diferentes?

Gosto de usar o provérbio e dizer que nunca é tarde demais, mais vale tarde do que nunca. Nós temos de actuar já e actuar já é na área parental, porque são os pais que têm a responsabilidade na educação dos filhos.

De certo modo, houve aqui uma inversão do paradigma educativo, por razões várias: o consumismo, a pressão social para o consumismo e, também, a falta de conhecimentos dos pais sobre esta realidade. Tudo isso levou a que os pais condescendessem com a situação sem que percebessem o mal que estavam a criar aos seus filhos.

Agora, chega-se a uma situação em que os pais já não sabem o que fazer, já não têm capacidade, já não têm autoridade educativa para poder monitorizar o comportamento dos seus filhos para os poder ajudar à mudança. No entanto, seguindo esta linha de que nunca é tarde demais para actuar e que mais vale tarde do que nunca, podemos aconselhar esses pais a receber apoio especializado na área comportamental – e, nesta área, estamos a falar essencialmente de apoio dos psicólogos e das psicólogas, que os podem ajudar a tomar medidas adequadas, tendo em conta o desenvolvimento da criança, a promoção de estilos comportamentais saudáveis, não só ao nível da ciberdependência, mas também nas outras dependências todas. De uma forma construtiva e eficaz. Ou, de facto, os nossos governantes apostam a sério na resolução deste problema agora, investindo, rapidamente, como eu já defendi anteriormente, ou então vão gastar o triplo ou o quádruplo no tratamento destes problemas. Não se trata só de ajudar as pessoas dependentes, mas sim lidar com os custos indirectos que advêm de investimentos na área do ensino sem obter resultados, ao nível do trabalho, ao nível das problemáticas familiares que, depois, levam também as famílias a receber apoio psicológico e psiquiátrico.

Digamos que há, aqui, um efeito de bola de neve. Nós não podemos pensar só nos cuidados secundários, temos, essencialmente, de pensar nos cuidados primários, em cooperação com as escolas e, também, como disse anteriormente, com o treino das competências parentais.

Já há directivas sobre como lidar com estes casos?

Não tenho conhecimento de nenhuma directiva ao nível da Ordem dos Psicólogos relacionada com esta temática. O que nós temos são as competências profissionais para lidar com as dependências, porque o mecanismo cognitivo, afectivo e comportamental é o mesmo. Ao nível biológico há uma grande diferença: aqui não há uma dependência química, há exclusivamente uma dependência cognitiva – que, do meu ponto de vista, é a pior das dependências e já o digo há mais de 20 anos. Enquanto o alcoolismo, o tabagismo, o consumo de drogas ilícitas tem uma componente de dependência química, neste caso é exclusivamente psicológico, cognitivo, com a agravante de ter de se utilizar medidas, também cognitivas e comportamentais, de gestão do tempo e do comportamento, para ajudar com dependência de videojogos. Mas não é só de videojogos: é a dependência da realidade virtual, a chamada ciberdependência, nomeadamente das redes sociais. No fundo, há que fazer uma reaprendizagem de um estilo de vida saudável. Aqui temos de actuar muito a sério, muito rapidamente, de uma forma transversal, desde o início da constituição da família – estamos a falar do treino das competências parentais – e actuar nos diferentes níveis de desenvolvimento das crianças e dos adultos, para que assim seja possível minimizar os custos desta problemática clínica e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Efectivamente, esta perspectiva que estou a apresentar não vai ser compreendida pela maior parte das pessoas, eu tenho consciência disso. A maior parte das pessoas não tem conhecimento da gravidade do problema, não sabe do que é que estamos a falar e, inclusivamente, dentro da classe clínica poderá haver, também, algumas objecções ao que estou a dizer.

Há mais de 20 anos que venho a tocar na ferida; agora, passado este tempo, vem a OMS levantar a questão de uma forma relevante, considerando como uma doença mental. Talvez, a partir de agora, com estas orientações da OMS, os nossos clínicos em diferentes áreas possam encarar este problema de uma forma mais séria – inclusivamente os nossos governantes, os nossos parlamentares, quem tem o poder de decisão política, para que se compreenda que numa sociedade que se quer saudável, é preciso fazer prevenção primária e não só apostar na prevenção secundária.

Quais são os sinais de alarme sobre este tipo de problemática?

O isolamento social e familiar, faltar sistematicamente às aulas e ao trabalho. Os pais estão tão ocupados e com as suas obrigações, envolvidos em actividades e sobrecarregados que, muitas vezes, não se apercebem da gravidade do problema. Mas há o absentismo escolar, há o dormir na sala de aula, há comportamentos marginais e de violência que, muitas vezes, ocorrem quando estes jovens são chamados à atenção na sala de aula… Tudo o que seja comportamentos que saiam da norma ou daquilo que é adequado no relacionamento interpessoal são sinais de alerta. Os pais têm de aprender a fazer o controlo do uso da internet, de forma criteriosa e construtiva. Os pais não devem ter medo de impor limites aos seus filhos. Muitos permitem que os seus filhos gastem uma, duas, três horas por dia na internet e isto é completamente errado. O que eu defendo é que de segunda-feira a sexta-feira a internet seja utilizada apenas para trabalhos para a escola e ao fim-desemana ter acesso durante um curto espaço de tempo se o comportamento do filho o justificar. O que os pais têm de promover são actividades ao ar livre, a interacção, a comunicação, os jogos de mesa, convívio saudáveis.

 

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