A meditação que salvou os rapazes tailandeses também cá ajuda nas escolas

Julho 25, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Público de 15 de julho de 2018.

Alunos mais calmos, menos ansiosos e concentrados. Em Portugal há projectos de meditação e ioga aplicados às salas de aula.

Susana Pinheiro

Silêncio, chiu! Ao sinal do toque na taça tibetana, duas dezenas de crianças, com quatro e cinco anos, já sabem que os próximos minutos são para meditar. Sentadas no chão, pernas cruzadas, têm os olhos fechados à excepção de duas ou três, e inspiram e expiram devagar. Seguem viagem pela floresta até ao arco-íris guiados pela voz da educadora da creche para depois “regressarem” à sala em Miramar, Vila Nova de Gaia. Estão a meditar tal como milhares de crianças já fazem em contexto de sala de aula em Portugal. E com resultados: mais calmas, menos ansiosas e com mais concentração.

Por estes dias, muito se falou na importância da meditação com o mundo de olhos postos no resgate dos rapazes da equipa de futebol e do seu treinador de uma gruta de Thuam Lang, no Norte da Tailândia. Esta gestão emocional terá sido importante para os jovens e para o professor manterem a calma e controlarem a ansiedade perante o perigo que viveram por mais de duas semanas. Como evitar ataques de pânico e não ter medo? Com o mindfulness – um “ramo” da meditação –, “as pessoas aprendem a controlar e desenvolver a atenção, a estabilizar o estado mental, o que lhes permite ter mais consciência dos seus pensamentos e emoções que influenciam as suas respostas e comportamentos”, defende o presidente da Associação Portuguesa para o Mindfulness (APM), o psiquiatra José Pinto Gouveia. Logo, sublinha, “a ansiedade e a depressão são menores”, o que pode ter sido o caso dos rapazes da equipa de futebol.

A meditação também poderá ter ajudado a não se deixarem sucumbir aos pensamentos negativos, como por exemplo a possibilidade de morrerem, enquanto estavam presos na gruta. “A meditação treina-nos para não considerar o pensamento como sendo realidade”, explica Dulce Gonçalves, mentora do projecto Mentes Sorridentes, que começou há quatro anos com alunos de educação especial, do agrupamento de escolas João Villaret, em Loures, e que já se alargou a outras escolas como em Odivelas e Póvoa de Varzim.

Neste último ano, Dulce Gonçalves avaliou o projecto na Escola Secundária da Ramada, em Odivelas, com o apoio da APM. E constatou que o grupo de alunos do 3.º ciclo e secundário, com uma média de 15 anos de idade, que praticou mindfulness conseguiu controlar os pensamentos. Este grupo experimental concretizou o projecto durante oito semanas a fazer mindfulness, uma vez por semana, e havia um outro grupo de controlo que não fez. Nesta avaliação também se constatou o aumento do bem-estar físico e qualidade das relações sociais entre os jovens. “O mindfulness  é uma atitude de vida, há uma consciência do que está a acontecer sem que nos deixemos ser controlados pelos pensamentos porque, ao meditar, vou focar-me, por exemplo, na respiração ou nos sons que ouço”, explica Dulce Gonçalves, com uma pós-graduação em terapias cognitivo-comportamentais.

Também Tomás de Mello Breyner, mentor do projecto O Pequeno Buda, defende que a meditação “é uma ferramenta que ajuda a controlar as flutuações mentais cada vez que surge um pensamento negativo e [ajuda] a estar calmo”, de maneira a não reagir a quente e de forma precipitada. No caso dos rapazes da Tailândia poderá ter sido essencial, acredita. Mello Breyner já pôs dez mil crianças a meditar em escolas de todo o país, como o que acontece no Colégio do Sol dos Pequeninos, em Vila Nova de Gaia.

Como lidar com a raiva e a frustração

As aulas de ioga e meditação chegaram às escolas com o objectivo de ajudar as crianças. Tomás de Mello Breyner quis “ensinar o que não se ensina na escola: a perceber o que é a nossa mente”. “Vivemos numa sociedade muito agitada, com um ritmo de vida acelerado que é imposto às crianças, que lhes causa ansiedade e falta de concentração e, como consequência, algumas acabam por sentir frustração e baixa auto-estima, o que muitas vezes leva à medicação”, descreve.

Além disso, continua, há “a imensa carga de trabalhos de casa e avaliações, uma elevada carga horária e um excesso de estímulos da era digital” que também contribui para o stress e ansiedade. O projecto O Pequeno Buda “não vai fazer desaparecer os elementos causadores de stress, mas sim ensinar aos alunos uma técnica que lhes vai permitir fazer uma melhor gestão intelectual e emocional” da vida, defende. Como? Através do “Quiet Time”, ou seja, um momento em que as técnicas de meditação e de relaxamento são aplicadas, de modo a que as crianças e os jovens fiquem mais calmos, concentrados, empáticos entre si e em relação ao professor.

Também o projecto de mindfulness da Mentes Sorridentes, que é aplicado por uma equipa multidisciplinar de professores, psicólogos e médicos, em escolas de Norte a Sul do país, “treina o desenvolvimento de uma atenção estável e focada no presente, na consciência das sensações, sentimentos e pensamentos que emergem na mente”, elucida Dulce Gonçalves, que foi finalista do prémio Melhor Professor de Portugal.

É o treino da mente, tal como se vai ao ginásio para exercitar o corpo. “O mindfulness é um treino mental estudado cientificamente. Nos EUA há estudos que mostram que ajuda os miúdos com défice de atenção e hiperactividade”, sublinha o presidente da APM, que aplica esta metodologia em determinadas situações clínicas. Um dos projectos, que dura oito semanas, chama-se Kg-free, pensado para mulheres obesas, que sofrem de distúrbio de ingestão alimentar compulsivo. “Os resultados são positivos em meia centena de mulheres”, informa José Pinto Gouveia. No contexto da psicologia, o mindfulness surge, então, defende, como uma ferramenta importante para a psicoterapia. “Como psiquiatra defendo que o mindfulness pode ser uma ferramenta útil nas escolas quando bem utilizado. Temos aplicado e avaliado. É preciso informar as pessoas, explorar o que é”, considera, ressalvando que “os professores não devem fazer este tipo de meditação sem terem formação e que devem fazer dela uma prática regular”.

Também o professor de Educação Física Sabino Soares, que foi finalista do prémio de Melhor Professor de Portugal, usa o mindfulness para trabalhar as emoções, melhorar o desempenho escolar e o comportamento dos alunos na escola n.º 6 de Olhão, situada num bairro social algarvio, com muitos alunos com dificuldades de aprendizagem e falta de concentração nas aulas. Chama-lhe Pausa M, que acontece duas vezes por dia, também para atenuar conflitos, pois ensina os alunos a “fazer stop, respirar fundo duas a três vezes quando estão perante uma situação que não é fácil, para não reagirem a quente e não baterem, chamarem nomes ou gritarem”, elucida. No caso dos meninos tailandeses fazer stop pode ter ajudado a evitar uma precipitada tomada de decisões e a não correrem risco de vida.

“Uma perda de tempo”

Também o projecto-piloto de ioga no Agrupamento de Escolas do Alto do Lumiar, em Lisboa, dado pela Confederação Portuguesa de Yoga e que foi proposto à escola pela Câmara Municipal de Lisboa, procura ajudar as crianças a ficarem mais serenas e concentradas.

Todos estes projectos, ressalvam os responsáveis, não têm qualquer vínculo com religiões ou crenças; são exercícios que servem para o desenvolvimento natural de todos. “O mindfulness é uma técnica, treino da mente, que não tem nada de esotérico nem sequer mexe com energias. Gostaríamos que fosse levado mais a sério, pois estamos a avaliar cientificamente os dados”, salvaguarda Dulce Gonçalves. “Já tive casos de miúdos que se automutilavam e tinham ataques de pânico e o sucesso resulta de sermos uma equipa multidisciplinar”, assegura.

João Lopes, professor da Universidade do Minho na área da psicologia da educação, contrapõe, baseando-se em três tipos de artigos publicados sobre o assunto nos EUA. E diz que existe uma “fraca evidência” na utilização do mindfulness para reduzir a ansiedade e depressão. Os estudos não encontram ganhos significativos em comportamentos sociais em pessoas que foram sujeitas a este tipo de metodologias, afirma. “Em relação às escolas é uma perda de tempo, porque enquanto se está a fazer isto, não se está a fazer outras coisas”, avalia. Mais ainda, questiona, “havendo tanta gente a queixar-se que não tem tempo para dar os programas lectivos, por que é que têm tempo para fazer este tipo de actividade que a literatura não mostra melhorarem os comportamentos agressivos e a ansiedade?”.

A evidência científica não pode assentar em opiniões das pessoas e para haver estudos deste género é preciso haver um grupo de controlo, acrescenta João Lopes. Dulce Gonçalves, das Mentes Sorridentes, diz serem feitas avaliações da aplicação do projecto e haver um grupo de controlo. “Avaliamos o impacto com um conjunto de testes certificados cientificamente, aplicados por psicólogos e há uma avaliação pré e pós-intervenção.” Ao fim dos três anos, constataram melhorias da gestão emocional na relação com os outros. “Em termos científicos, não podemos dizer que as notas melhoraram por causa do mindfulness, [não podemos] estabelecer uma relação directa, mas melhoraram”, acrescenta a professora. O psicólogo João Lopes não acredita que seja possível as notas subirem com a utilização de métodos de relaxamento.

Também o psicólogo José Morgado, do ISPA-Instituto Universitário, em Lisboa, “não acredita em receitas milagrosas. Nenhuma criança é a igual a outra. As crianças não vêm com um manual de instruções”. Contudo, o especialista em psicologia educacional considera boas as ferramentas do ioga e da meditação. “Se as ferramentas se encaixam, óptimo. Mas não pensemos que vêm revolucionar”, considera. “Sou mais reservado em centrar numa única resposta só pela capacidade de achar que há muitas variáveis que mexem com o comportamento das crianças”, justifica.

Morgado confessa ter “alguma reserva em relação à utilização de recursos exteriores à sala de aula”. A solução está em toda a gente, já que “para educar uma criança é preciso uma aldeia, uma comunidade educativa”, logo, defende que o ideal é criar ambientes com menos agitação para as crianças. Tudo começa em casa, “se der mais atenção ao meu filho, se estou mais tempo com ele, se o estímulo mais vou notar benefícios”, exemplifica. Também João Lopes, da Universidade do Minho, que costuma ir às escolas fazer acções de formação aos professores, em que ensina técnicas de gestão e organização da sala de aula, crê que não é a meditação que vai resolver tudo, é preciso, sim, “estabelecer rotinas”, reforça. “Tenho pena que a educação seja uma área em que o experimentalismo é a palavra de ordem”, lamenta. O professor considera que a meditação nas escolas é “uma moda que dentro de algum tempo irá ser substituída por outra”.

A “taça do silêncio”

Numa sala cheia de brinquedos, com todo tipo de distracções, as crianças do Colégio Sol dos Pequeninos conseguem estar sossegadas à espera do toque da “taça do silêncio” como a educadora de infância Diana Alves Costa chama ao objecto de metal. Umas esfregam os olhos com as mãos, outras cerram-nos com toda a força enquanto a educadora de infância os vai guiando: “Pomos as nossas costas numa posição confortável, sentimos o ar entrar no nosso corpo, inspiramos e expiramos. Vamos imaginar que está muito quentinho e vamos dar um passeio pela floresta…” No final, pede-lhes: “Devagarinho podemos abrir os nossos olhinhos e espreguiçar.” É vê-los de braços esticados no ar, alguns deles a bocejar, os olhinhos a abrirem-se devagar com um enorme sorriso. “Imaginei-me mesmo na floresta a pisar as folhas e até ouvia o barulho delas. Estava a meditar”, conta Carla Mónica, cinco anos, com um ar muito sério. Os meninos com quem o P2 falou decidiram baptizarem-se com nomes fictícios de que gostam.

Mas afinal o que é isso de meditar? “É tipo relaxar, acalmar a nossa cabeça, ficar mais descansada, e inspirar e expirar muito tranquila”, responde logo a Madalena, de cinco anos, com um enorme sorriso, interrompida por Carlos Tiago, olhos verdes grandes, seis anos de reguila, para explicar: “Pomos as pernas à chinês, fechamos os olhos e depois só vejo preto enquanto respiro fundo, mas gosto”, e ri-se perdido. “É acalmar o nosso corpo e tanto acalmo que estava quase a dormir”, acrescenta Matilde, cinco anos. Tomás de Mello Breyner, mentor do projecto Pequeno Buda, diefine a meditação como “a repetição contínua da mesma acção”.

Meditação é coisa que Martim de três diz perceber bem: “Faço tom tom na taça e sinto assim uma coisa cá dentro e depois entra e sai oxigénio.” A mãe, Vânia Guedes, graceja: “Em casa, o Martim toca numa taça parecida com esta que há aqui na creche e depois deita-se a meditar. Às tantas diz a ele próprio: ‘Martim já te podes levantar’.” A mãe acha-lhe piada e diz que desde que começou a meditação na creche está muito mais relaxado e concentrado.

Vânia Guedes é educadora de infância noutro espaço mas já fez um workshop de meditação, ministrado pelo projecto Pequeno Buda. “Foi importante como estratégia para usar com o meu filho e na minha profissão junto dos meninos em momentos de birras e quando estão agitados”, justifica. Sónia Aires, directora do Sol dos Pequeninos, diz que o projecto vem responder à missão do colégio de “trabalhar os valores, a humanização e a identidade das crianças”. E nota que estão mais calmas e concentradas.

Há alguns anos, numa das muitas viagens à Índia, “ao passar por uma escola na cidade de Kanpur, os miúdos antes de começarem as aulas iam para o ginásio fazer dez minutos de meditação. Aquilo mexeu comigo e disse para mim mesmo que, quando regressasse a Portugal, queria fazer o mesmo”, recorda Tomás de Mello Breyner. Assim foi. “Começámos, em 2014, com uma escola de Lisboa e aos poucos o projecto foi-se alargando”. No fundo, “é um sonho tornado realidade, é a prova de que a mudança da consciência global está a manifestar-se e isso é uma grande alegria”, realça.

Mais a Norte, no Agrupamento Cego do Maio, na Póvoa de Varzim, há uma sala propositadamente preparada para acolher os primeiros participantes do projecto Mentes Sorridentes. Estamos em Janeiro – o P2 acompanhou o início do projecto na escola com alunos do 3.º ciclo – e a professora Ana Ribeiro vai dizendo: “Em casa podem fazer sentados, deitados. Hoje, vamo-nos colocar numa postura que nos ajude. Corpo direito, mais descontraído, pernas paralelas e afastadas, pés assentes no chão.” E eles anuem, alguns mais calados, outros com risos, mas seguem as orientações de um áudio: “Feche os olhos ou fixe um ponto perto de si sem desviar o olhar. Inspire tranquilamente o ar pelo nariz e liberte-o sem pressa pelo nariz ou boca. Inspire tranquilamente. Expire devagar”. Uns fazem-no, outros ainda mantêm os olhos abertos, como que um pouco desconfiados. “É natural que a sua mente fuja e traga pensamentos”, ouve-se. No final, os alunos começam a mexer os pés e as mãos devagar, e a abrir os olhos. E escutam: “Sorria! Vai tornar-se uma mente sorridente!”

A professora Ana Ribeiro pergunta-lhes o que sentiram. “Fechei os olhos e senti-me um bocado aliviada; acho que vou melhorar na escola e em casa. Vim para descontrair, organizar as ideias e acalmar, porque tenho alguma dificuldade de concentração na sala de aula”, responde Maria, nome fictício, 14 anos, do 8.º ano. Ao seu lado, Miguel, nome fictício, 15 anos, suspira e acrescenta: “Tenho bicho-carpinteiro (risos) e até senti um formigueiro nos pés, mas gostei de fazer esta experiência orientada. Aconselharam-me a participar para melhorar o meu comportamento e as notas.” A professora aconselha-os: “Há pessoas que se assustam no início por causa das sensações novas, mas tentem fazer em casa uma vez por dia, durante dez minutos. Vão ver que funciona.”

Ana Ribeiro acrescenta ainda: “Quando se enervarem, respirem. Inspirem e expirem antes de darem uma resposta torta.” Oito semanas depois, o P2 regressa à escola e volta a estar com os alunos que relatam estar mais calmos e concentrados nas aulas. “Adquiriram ferramentas para aplicar em qualquer situação da vida. Se se tornar uma rotina, funciona”, conclui a professora.

A psicóloga e psicoterapeuta Joana Vaz, de O Pequeno Buda, diz que, “ao nível da neuropsicologia está provado que o cérebro muda ao fim de alguns anos de meditação; a paciência é muito trabalhada, é um treino”. Logo, acaba por ser, reconhece, “uma forma diferente de estar na vida” que permite parar para pensar.

 

“Não se pode aprisionar as crianças em férias. É preciso libertá-las para que possam viver tudo”

Julho 25, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Bruno Gonçalves

Entrevista do i a Carlos Neto no dia 16 de julho de 2018.

Marta F. Reis

“Não podemos aprisionar as crianças e os adolescentes em casa em tempo de férias”. O conselho é de Carlos Neto, professor na Faculdade de Motricidade Humana que há mais de 30 anos se dedica à área da educação física e motora e ao papel do jogo no desenvolvimento das crianças. Com mais um período de férias grandes à porta, o investigador acredita que tentar cultivar um pouco mais de autonomia e liberdade na relação com os mais novos será benéfico para eles mas também para os pais. O objetivo é que as férias sejam um momento de prazer e descoberta e não uma “batalha campal”, a realidade de muitas famílias, lamenta. As dicas são práticas: mais contacto com a natureza e deixá-los experimentar e até fazer coisas um pouco mais arriscadas do que o costume, seja trepar às árvores, andar de skate, correr na praia com um papagaio… ou porque não acampar todos juntos este ano? A saúde física e mental de todos agradece.

É há muito tempo uma pessoa preocupada com o espaço que as crianças não têm para brincar ao longo do ano e o impacto que isso tem no seu desenvolvimento motor e psicológico. Este tempo das férias grandes pode ser usado pelos pais para as estimular?

De facto os pais deveriam encontrar soluções para reinventar o tempo de férias para os filhos. Não pode continuar a acontecer as férias serem um tormento quer para os filhos quer para os pais, que é o que muitas vezes acontece. Muitas vezes os pais até têm quase medo que chegue este tempo – durante o ano as crianças passam muito tempo nas escolas, os pais no trabalho e passam muito pouco tempo juntos e depois, quando chegam as férias, é um verdadeiro drama. Há soluções como pôr as crianças em colónias de férias que de certa forma os liberta de estarem com os filhos, mas fazer só isso por sistema não é bom.

E nem todas as famílias têm posses para isso.

Claro que isto dependerá sempre do nível sociocultural e há muitos tipos de famílias e de crianças, por isso as oportunidades serão sempre diferentes. O ponto de partida é que as crianças que agora terminam o ano escolar têm a expectativa que o tempo de férias seja agradável, prazeroso e que seja diferente do ano escolar. Sobretudo que consigam finalmente ter um tempo sem regras muito rígidas e usufruir da possibilidade de fazer coisas novas.

Tem a perceção de que hoje os miúdos chegam ao fim do ano letivo mais sedentos de férias?

Não tenho dúvidas disso. Há 30 ou 40 anos, e falo até da minha geração, temos boas memórias das férias mas o período escolar não tinha nada a ver: havia liberdade, andávamos na rua. Isto hoje não acontece, o que faz com que as crianças tenham uma expectativa maior de que o período de férias seja diferente, desafiante, misterioso. Mas também que traga um contacto mais afetivo e emocional com os pais, que haja uma vinculação afetiva emocional maior. E por isso era bom que os pais pudessem partir para férias com essa consciência e tentar corresponder a essas expectativas.

Pais cada vez mais absorvidos pelo trabalho. 

Esse é o grande problema, a falta de harmonização entre o tempo passado no trabalho e em família. As férias devem ser uma oportunidade para tentar dar um pouco mais de qualidade a esta relação.

Mas há um desfasamento prático: as férias escolares duram dois meses e meio e o período normal de férias por ano de um trabalhador são 22 dias úteis.

Claro, pressupõe uma organização diferente das famílias e certamente que haverá muitas coisas em jogo até de natureza política mas, antes de irmos aí, penso que importa perceber também que é preciso respeitar a necessidade que as crianças têm de ter um tempo de intervalo da rotina para brincarem mais livremente. Diria que deve haver quatro ou cinco preocupações dos pais em tempo de férias: proporcionar situações de liberdade que sejam uma alternativa ao tempo organizado. O segundo conselho que daria aos pais é tentarem proporcionar tempos mais ativos, de relação com a natureza, e por outro lado que não seja algo muito previsível e estruturado. Os pais tentarem levar as crianças a sítios novos, conhecer o interior do país. Por exemplo acampar: o contacto com a natureza é essencial.

O campismo no passado era um clássico do verão de muitas famílias.

Sim, se calhar hoje nem tanto mas é uma forma de as crianças estarem fora do seu contexto habitual e da identidade do espaço onde vivem e basta isso para se libertarem. Também diria que há necessidade de haver atividades desafiantes e isto tanto pode ser ir a um parque aquático, uma ida à serra. Ser mais desafiante significa permitir às crianças correrem mais riscos.

Fala-se por vezes dos “pais-helicóptero”, que tentam controlar e gerir todas as experiências para que as crianças não tenham de enfrentar obstáculos. Um estudo publicado há dias concluía que este estilo de parentalidade acabava por ter um impacto negativo no rendimento escolar e nas relações sociais. É contrariar essa tendência?

Sim e isso de certa forma implica que os pais consigam reconhecer que os filhos podem ter mais autonomia do que aquela que eles pensam que têm.

Os pais tendem a menosprezar as capacidades dos filhos?

Penso que tendem a ter uma perceção diferente e o desafio está em perceber como é que as férias podem ajudar a desconstruir os medos que os pais têm em relação aos filhos. Estou a falar sobretudo nas idades mais baixas, dos 3 aos 5 e dos 5 aos oito.

Que medos são mais comuns?

Coisas tão simples como deixá-los nadar, subir às árvores, trepar.

Há pais com medo que os filhos subam às árvores?

É uma força de expressão mas é um bom exemplo daquilo que é necessário para as crianças melhorarem a sua literacia motora e as férias devem ser uma oportunidade para que isso aconteça, promovendo jogos e brincadeiras ativas. Isto pode acontecer dentro de casa mas devem poder ter uma atividade física mais intensa e ao ar livre e com a participação dos próprios pais, porque isso é importante. Neste sentido, os filhos deviam ajudar os pais a libertarem-se do peso que foi o ano de trabalho. A sociedade portuguesa anda a viver muito à pressa, há uma excitação no quotidiano que está a criar gravíssimos problemas de saúde mental e física nos adultos e nas crianças.

A neurologista Teresa Paiva, especialista em problemas de sono, já tem alertado, por exemplo, para a tendência de ter debates e programas televisivos muito acesos noite dentro, como se o dia não acabasse. É um sintoma dessa excitação?

Sim, é um bombardeamento completo e, no geral, temos uma organização do tempo cada vez mais stressante. E, portanto, o tempo de férias é uma oportunidade para proporcionar novas atividades aos mais novos mas também deve ser uma oportunidade para as pessoas aprenderem a viver mais devagar, a aproveitar o silêncio do corpo, fazerem mais reflexão e contemplação do que é a família. Este conceito de aprender a viver mais devagar é dar mais tempo para a interiorização de cada um e de consciência do que é a vinculação afetiva entre filhos e pais.

É investigador no campo do desenvolvimento infantil, sobretudo motor. Recentemente os resultados nacionais das provas de aferição revelaram que as crianças de sete anos têm dificuldades em saltar à corda e dar cambalhotas. Quão preocupantes são estes indicadores?

São preocupantes mas não podemos dramatizar. Quer o saltar à corda quer a cambalhota [provas em que muitos alunos falharam] são duas habilidades motoras complexas que só atingem o seu nível maduro por volta dos oito/nove anos. Creio que não devemos ter uma visão sensacionalista sobre os resultados porque uma criança de sete anos não terá ainda as condições para ter um êxito absoluto nestas atividades, sobretudo quando se pede algo muito estandardizado como acontece nessas provas. Disto isto, os indicadores de fundo dados pelas provas de aferição é que podem ser considerados mais preocupantes: temos um sedentarismo implantado nas nossas crianças, principalmente nas primeiras idades. Digo-o há mais de 20 anos: temos tido um progressivo declínio do jogo e da atividade física.

Em Portugal em particular?

É um problema dos países mais desenvolvidos. E, ao mesmo tempo, o que vimos nas últimas décadas foi um aumento das desordens do foro mental: ansiedade, depressão, hiperatividade, défice de atenção e até da taxa de suicídio na passagem da adolescência para a idade adulta. Estas transições de ciclo de vida são sempre difíceis, mas a cultura do tudo dado e tudo pronto na hora para as crianças não favorece a sua capacidade de adaptação motora, cognitiva, social e emocional.

Acaba por ser um ciclo vicioso.

Sim. Temos uma superproteção patológica que não cria condições para que as crianças possam ter uma capacidade criativa e de adaptação, que leva os pais a protegerem-nas mais. E isso é o grande problema da sociedade atual em relação às culturas de infância. Só há uma solução: no período escolar e sobretudo nos períodos de férias, proporcionarem-lhes atividades para que essas competências motoras, sociais e emocionais possam ser valorizadas. É dar mais tempo de informalidade e imprevisibilidade e deixar que as crianças possam encontrar o seu caminho. Deixe-me usar este termo: é deixar as crianças fazerem coisas ‘malucas’, deixar os miúdos ter o skate, os patins, a bola, o papagaio, e deixá-los enriquecer o seu vocabulário motor e social à vontade.

Em Portugal há uma percentagem elevada de criança em risco de pobreza e exclusão social, mais de um quarto. Estão particularmente vulneráveis?

Sim, mas às vezes as crianças que vivem em meios empobrecidos têm mais oportunidades de brincar de forma livre do que as que vivem em meios socioeconómicas mais elevados mas estão sujeitos a uma superproteção inaceitável. E aos medos dos pais. Temos de desconstruir os medos dos pais, é algo absolutamente urgente na sociedade portuguesa, as famílias andam cheias de medos e isso leva a que as crianças não tenham autonomia, mobilidade e, por fim, participação.

Como é que os pais devem gerir as tecnologias nesta altura do ano? Mais liberdade também pode significar mais tempo para usar tablets e afins…

Penso que deve haver um decréscimo durante o tempo de férias de tudo o que sejam equipamentos digitais, telemóveis, tablets, televisão. Não diria impor: se dizemos que é um tempo de liberdade, não podemos impor, mas podemos negociar. Vamos negociar com os filhos reduzir o tempo dedicado a estes aparelhos, passar de ter o tempo todo ativo na ponta dos dedos para o tempo ativo nos pés

Mas há algum limite adequado?

Diria que até aos cinco, seis anos não devem usar mas a partir dos sete já todos os miúdos têm telemóvel. A questão dos limites tem sobretudo a ver com o exemplo dos pais.

Se passarem os tempos livres agarrados aos telemóveis, os miúdos vão copiar. 

Sim. É toda a gente perceber que as férias saudáveis incluem menos tempo só agarrado aos equipamentos digitais. Não quer dizer que não se usem: um GPS pode ajudar a criar um desafio na natureza.

Há professores que partilham que, por vezes, há pais que não querem que a escola feche num feriado ou numa ponte, insistem em ter onde deixar as crianças mesmo que até estejam de folga.

Sim, querem ter os filhos ocupados.

Imagina que, continuando assim, vamos chegar a uma altura em que se tornará incontornável reduzir a duração das férias grandes?

Penso que tudo vai depender da evolução da lei laboral. Hoje existe uma assimetria muito grande entre os países do norte da Europa e os do sul em relação à organização do tempo de trabalho e já seria tempo de Portugal alinhar pelas políticas públicas que dão valor à qualidade de tempo familiar, sobretudo às famílias que têm filhos. Não iria por mais tempo de férias, o que é preciso mudar é o tempo que os pais têm disponível para os filhos e isso passa sobretudo por uma flexibilização dos horários de trabalho, poder sair-se às 16h, 16h30. Nos países do norte da Europa os pais saem do trabalho para ir buscar os miúdos à escola com toda a naturalidade. Aqui agora até se está a pensar na escola a tempo inteiro para o 2.º ciclo, o que para mim é um escândalo. Ter crianças dos 10 aos 12 anos na escola todo o dia não faz sentido.

O que diz é que mesmo estando a trabalhar, se os pais saíssem mais cedo podiam dar outro acompanhamento aos filhos no período de férias.

Sim, mesmo que pudesse haver mais ou menos dias de férias, seriam um fardo menor. Tenho a sensação de que hoje em dia as crianças chegam ao fim de férias com uma certa frustração: não fizeram o que estava nas suas expectativas. E era bom que quando chegassem ao novo período escolar em setembro pudessem ir com a sensação de que viveram um período de férias de forma tão intensa que então vale a pena voltar à escola para aprender. Isso não acontece na maior parte dos casos. As férias devem ser uma oportunidade para os pais conhecerem melhor os seus filhos, aprender a controlar o medo, incentivando as brincadeiras mais arriscadas fora de casa, percursos de autonomia fora de casa, não têm de os acompanhar sempre, mas estar presentes. Não estou a dizer coisas extraordinárias, às vezes é simplesmente passear. Há crianças que nunca saíram de casa à noite com os pais para dar uma volta, descobrir a cidade, a aldeia, a vila. Deve ser um tempo também para os pais gostarem mais de serem pais.

Essas experiências de brincadeira e autonomia vão refletir-se mais tarde no desempenho escolar?

E não só. Hoje não há dúvidas sobre isto: quase todos os indivíduos que tiveram sucesso, foram felizes e empreendedores, tiveram infâncias felizes.

Há aquela ideia de que, por vezes, depois das férias até há mais separações: as pessoas não estão habituadas a tanto tempo juntos.

Não tenho dúvidas: há pais e crianças que vêm das férias completamente exaustos e temos de conseguir inverter isto. Mas isso tem a ver com os pais não estarem habituados por um lado mas também não conseguirem perceber que as férias podem ser tempo de liberdade, de autonomia, de descoberta.

E os primeiros excessos? Nas festas da aldeia, por exemplo, começa-se a beber muito cedo, aos 13, 14 anos

É uma outra realidade, mas hoje muitas dessas diferenças que existiam entre a infância no meio rural e no meio urbano estão esbatidas. Hoje os jovens fazem exatamente a mesma coisa e até há estudos que indicam que as crianças de meios rurais têm maior exposição à televisão do que nos meios urbanos.

Os namoros de verão são outro clássico. É outro campo em que os pais não devem coartar demasiado a liberdade dos jovens?

Deve haver com certeza responsabilidade e regras, mas deve haver oportunidade para isso. Costuma-se dizer que a adolescência é a idade esquecida. Hoje temos políticas para a infância, até para os idosos mas não há nada para os adolescentes, que é uma fase central no desenvolvimento. Os adolescentes precisam de experimentar desafios que não são só físicos mas também de natureza emocional. Ninguém esquece os seus amores de verão e os pais também não os devem esquecer e é natural dar mais liberdade aos adolescentes nas ferias. Deve haver algum controlo mas nada de muito sofrido ou patológico: não se pode aprisionar as crianças e os adolescentes em férias, é preciso libertá-los para que possam viver tudo, inclusive o seu corpo.

Os mais cautelosos argumentarão que o mundo mudou nas últimas décadas, que está mais perigoso.

Sim, mas por vezes há uma perceção errada dessa mudança. Portugal é um dos países mais seguros do mundo. Basta ver o turismo que temos, a forma como o país é amado por quem chega cá. Muitas vezes há uma perceção errónea na cultura portuguesa e nas famílias no geral de que somos um país com problemas de segurança quando, pelo contrario, somos um dos países mais seguros.

Não há mais perversidade?

São os tais medos que se instalaram na cabeça dos pais e, seja como for, as crianças e os jovens têm de saber como reagir às situações.

Que conselhos práticos se pode dar às famílias que agora começam a estruturar as férias? Faz sentido planear as semanas para incluir diferentes atividades, fazer um programa do verão em família?

Acho que pode ser interessante, mas com uma condição: com a participação dos filhos. Deixar que os filhos sugiram as atividades que querem fazer, dar-lhes ouvidos. É uma excelente ideia. Era o que se devia fazer mais nas escolas e não se faz, porque os professores impõem quase tudo. Temos de passar de uma cultura de imposição para uma cultura de participação. Mas, essencialmente, é tentar fazer tudo para inverter os indicadores que mais nos preocupam: cada vez há mais obesidade, mais diabetes. Temos de dedicar mais tempo ao exercício físico, comer melhor, guardar tempo para o descanso.

Guarda boas memórias das suas férias grandes?

Sim, ainda hoje. Acabávamos a escola e havia um período em que os pais ainda estavam a trabalhar, por isso passávamos a maior parte tempo na rua.

Em Lisboa?

Cresci em Leiria, uma cidade maravilhosa, com castelo, rio, tudo o que precisávamos. Mal acabava a escola era uma libertação enorme. Depois vinha a altura de ir para a praia, conhecer novos amigos. Andávamos 15 dias a um mês na praia, com dias muito intensos. Nadávamos, jogávamos à bola. Jogar à bola na praia ou mesmo andar é um desafio fabuloso em termos de educação motora, é um desafio em termos de equilíbrio e adaptação e isto para as crianças pequenas é um estímulo muito bom. Isto além do iodo e do próprio contacto com a água do mar, que é revigorante e ao mesmo tempo uma forma de acalmar. Precisamos urgentemente de estratégias para que os corpos acalmem. Mas as minhas memórias são isto: a liberdade que tínhamos, a autonomia e alegria. A melhor recordação que tenho era não gostar que chegasse a noite porque sabíamos que íamos ter de ir dormir. E ter de ir dormir era improdutivo.

Mas adormecia num instante, não?

[Risos] Verdade, quanto mais cansados melhor é para adormecer. Mas a sensação de que ir dormir é uma chatice, uma perda de tempo, significa que tivemos um dia feliz. E é uma sensação que acho que hoje as crianças não têm. Às vezes veem-se famílias em férias que mais parece uma batalha campal. Torna-se cansativo porque já ninguém está adaptado a ninguém e ao mesmo tempo há cada vez mais uma cultura egocêntrica que faz com que os pais já não tenham o hábito de estar com os filhos a tempo pleno. Costuma-se dizer que cada um de nós tem uma criança dentro de si. Não iria tão longe, mas certamente cada um de nós tem memórias da sua infância. Era preciso retomá-las para descobrir a forma como devemos passar as férias com os filhos.

 

 

 

Atos de bullying nas escolas estão mais graves e “maldosos”

Julho 25, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do Expresso de 30 de junho de 2018.

 

 


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