Os bebés também têm depressões

Maio 21, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site MAGG de 13 de março de 2018.

por MARTA GONÇALVES MIRANDA

O doente mais novo do pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, que criou a Consulta dos Bebés Irritáveis, tinha apenas quatro meses.

O médico pedopsiquiatra Pedro Caldeira da Silva, da Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia, em Lisboa, acredita que os bebés podem ter depressões. E os sintomas não são assim tão diferentes dos adultos: apatia, pouco interesse na relação com o outro, um olhar triste. Independentemente de não saberem falar, andar ou guardar memórias, eles também sentem dor. “O importante é reconhecer que os bebés podem ter sofrimento — chamemos-lhe depressão ou chamemos-lhe outra coisa qualquer.”

Para combater o estigma associado às crianças e a psiquiatria, o médico criou a Consulta dos Bebés Irritáveis em 2002. Quase 20 anos depois, o número de casos diagnosticados tem-se mantido estável, mas chega quase aos 10%. E é importante perceber que às vezes o bebé não chora apenas porque tem cólicas como disse à MAGG  Pedro Caldeira da Silva. Leia a entrevista.

Como é que um bebé pode ter uma depressão?

Mesmo entre os especialistas é difícil aceitar [essa ideia.] Há especialistas que acham que os bebés não podem ter uma depressão, porque acham que para ter uma depressão é preciso ter um aparelho mental construído, ter memórias. Portanto, só a partir de uma determinada altura da evolução do desenvolvimento é que se pode falar verdadeiramente em depressão. A nossa experiência na Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia não é bem essa, e há um conjunto grande de especialistas que trabalham em permanência na infância e que falam em depressão em bebés muito pequeninos.

Os especialistas que se opõem à ideia de bebés com depressões acreditam que só é possível ter este quadro a partir de que idade?

Pensam que a partir dos dois anos. Nós podemos pensar na depressão com dois ramos: o da perda súbita de pessoas significativas; e o da insuficiência crónica [de afecto]. Neste último digamos que é preciso ter uma idade maior, dizem alguns. Eu não colocaria sequer esse limite nos dois anos, pode acontecer mais cedo. A partir de certa altura é uma questão de terminologia entre os especialistas, mas o importante é reconhecer que os bebés podem ter sofrimento — chamemos-lhe depressão ou chamemos-lhe outra coisa qualquer.

Segundo a sua experiência, quão cedo é que um bebé pode ter uma depressão?

Lembro-me de um bebé com quatro meses que tinha um quadro depressivo. E os quadros de depressão nos bebés, curiosamente, são muito semelhantes aos quadros de depressão nos adultos.

De que sintomas é que estamos a falar?

Adinamia [redução da força muscular, debilitação muscular e fraqueza], pouca vitalidade, o evitamento do olhar, pouco interesse na relação com o outro, um aparente atraso no desenvolvimento. Alterações do sono e da alimentação, irritabilidade. É um quadro muito semelhante ao dos adultos, com as mudanças inerentes — pouco interesse no jogo, na relação. Um ar triste.

O bebé com quatro meses foi o paciente mais novo que tratou?

Sim. Este era um bebé que estava internado no hospital, tinha sido lá deixado pela mãe.

Foi abandonado?

Sim, mas entregue num sítio em que a mãe provavelmente achava que iria ser bem tratado. Mas claro que o serviço de pediatria não é um bom sítio para deixar bebés. No hospital, e naquela altura — isto já foi há mais de dez anos — os cuidados eram muito transversais no sentido em que uma enfermeira mudava as fraldas, outra alimentava. O resto das necessidades do bebé não eram atendidas, de forma que o bebé estava ali. Estava ali.

Acompanhou esse bebé?

Pediram-me para vê-lo porque estava muito irritado, não aguentava estar deitado, chorava imenso e tinha um ar muito triste. Observei o bebé e a coisa mais marcante que se notava logo era o evitamento do olhar. O bebé não olhava nem por nada. Tinha um aparente atraso de desenvolvimento e transmitia-nos uma tristeza muito grande. Estive com o bebé e isto foi filmado. Em meia hora ajudei-o a reanimar. O filme é muito interessante nesse ponto de vista porque vê-se um bebé a reanimar. Partindo de um evitamento maciço e intencional do olhar, o bebé recusava, recusava e chorava, até finalmente aceitar a relação e recuperar a atividade. Isto foi observado depois pelo pessoal do serviço de pediatria e serviu para mudarem a prática. Perceberem que, mesmo no internamento, é preciso uma continuidade de cuidados.

Com esse caso houve de facto uma transformação no serviço de internamento?

Sim. Os bebés precisam destas experiências repetidas.

De que forma é que interagiu com ele?

Tentei captar-lhe o olhar, entrar no ritmo dele. Tentei regular a distância, perceber qual era a distância com que ele se sentia mais seguro. Tentei perceber quantas modalidades sensoriais é que ele tolerava ao mesmo tempo: se conseguia falar-lhe, tocar-lhe e embalá-lo ao mesmo tempo. Fui ensaiando, fui-me mostrando persistentemente disponível e provavelmente o bebé foi-se sentindo seguro e retomou a relação.

Não sabe o que é que aconteceu ao bebé?

Não, não sei. Soube apenas que este vídeo ajudou na altura os juízes a decidirem mais rapidamente o que fazer com ele.

O que é que pode levar à depressão de um bebé?

Em primeiro lugar, as perdas importantes. No ponto de vista da saúde mental de primeira infância, os primeiros trabalhos importantes publicados foram realizados por René Spitz, um pediatra e psicanalista norte-americano.

Que tipo de estudos é que ele realizou?

Ele fez trabalhos nas prisões nos anos 40 e documentou o que se passava com os bebés que estavam com as mães até aos seis meses e depois eram retirados às progenitoras. E eram “muito bem tratados”, estavam em salas com muitas camas, todas brancas, sem grandes estímulos, eram muito bem lavadinhos e limpos e… mais nada. Spitz documentou isto e constatou que os bebés retirados às mães tinham aquilo que ele chamou depressão anaclítica.

Depressão anaclítica?

Uma depressão por perda. Depois realizou mais trabalhos destes em hospitais, e foram estes que permitiram que as mães estivessem presentes nos internamentos das crianças. Em Portugal as mães passaram a poder estar com os bebés em 1981 ou 1982. As coisas demoram.

Em Portugal as coisas chegam mais devagar?

Não é só cá. Demorou muito tempo a obter este reconhecimento e vencer a resistência de que as mães eram um empecilho na vida dos filhos.

A perda é uma das razões que podem levar à depressão de um bebé. Qual é a outra?

A outra é a insuficiência crónica. A indisponibilidade emocional dos cuidadores tem mais consequências do que propriamente o mau-trato físico.

Estamos a falar de por exemplo mulheres que sofrem de depressão pós-parto?

Por exemplo. A depressão pós-parto é um factor de risco. Nesse caso os bebés não estão necessariamente deprimidos mas mimetizam a expressão deprimida das mães. Quando nós observamos um bebé filho de uma mãe com uma depressão, nós próprios sentimo-nos um bocado deprimidos. Os bebés mimetizam a face da mãe — não quer dizer que estejam deprimidos. Mas pode ser um dos factores: se a depressão se arrasta, não é reconhecida e se mantém cronicamente, há este aspeto da indisponibilidade crónica para o bebé.

Pode haver também uma predisposição genética para a depressão nos bebés?

Provavelmente há, embora esta predisposição genética aumente com a idade. A componente genética do desencadear da depressão aumenta com a idade. Nos bebés muito provavelmente as coisas são quase exclusivamente de base relacional.

Tem ideia de quantos casos de bebés são diagnosticados com depressão?

Aqui na Unidade da Primeira Infância do Hospital D. Estefânia são menos de 10% dos nossos casos. Ainda são alguns.

Maioritariamente são bebés que desenvolveram depressões associadas à perda?

Não, penso que a maioria dos casos estão associados sobretudo à insuficiência crónica.

Como é que um pai ou uma mãe reage a um diagnóstico destes?

Nós não transmitimos necessariamente o diagnóstico. O diagnóstico serve para o que serve, portanto não é necessário muitas vezes transmiti-lo. Umas vezes sim, informamos, quando nos parece que é útil, outras vezes não.

Como é que é feito o tratamento?

O tratamento é relacional. Não se usam anti-depressivos em bebés. É fornecer ao bebé rapidamente uma experiência diferente.

Quando é possível, tenta-se que sejam os pais a fazê-lo?

O tratamento é muito sensível, e nós temos muito cuidado com isso. Tentamos ver se de facto na família é possível fazer esta experiência continuada satisfatória. Para um bebé ou uma criança muito pequenina, para quem os cuidadores não estão muito atentos ou não atendem às suas necessidades, começar um tratamento destes é um risco. Se a relação com o bebé é interrompida, isto para ele vai representar um abandono e nós podemos acabar por contribuir para agravar a depressão. Temos de ter muito cuidado e perceber bem qual é a motivação e a disponibilidade emocional da família para então decidirmos qual é a via de intervenção. Mas muito frequentemente utilizamos as técnicas da chamada psicoterapia mãe-criança, em que se fala com a mãe na presença do bebé ou se está com o bebé na presença da mãe.

E em que é que isso consiste exatamente?

Usamos a palavra. Falamos sobre o bebé com a mãe, falamos sobre as dificuldades da mãe, ou chamamos a atenção para os movimentos do bebé, o que é que necessita, se precisa de colo. Às vezes falamos pelo bebé.

Isso quando existe de facto uma disponibilidade por parte da família. E quando não existe?

Quando não existe, não existe. As pessoas ou procuram ajuda e aceitam ou não procuram e não aceitam. Mas outra das coisas que podemos fazer é ponderar a ajuda das creches ou dos jardins de infância. Sensibilizar alguém que esteja mais disponível para a criança de forma mais continuada. Isto dá-nos alguma garantia de que vai haver uma continuidade.

Quando é que criou a Consulta dos Bebés Irritáveis?                                                                                       

Em 2002. A nossa preocupação foi, e continua a ser, a seguinte: trazer um bebé ou trazer uma criança à psiquiatria é muito difícil. Há um estigma normal e natural associados. Portanto, nós fazemos muitas coisas com a intenção de diminuir o estigma.

Como por exemplo?

Por exemplo, não temos nenhum entrave ao pedido de consulta. As pessoas telefonam e têm consulta, não precisam de relatórios, computadores ou médicos de família. O acesso é completamente livre, porta aberta, desde que as crianças tenham menos de três anos. Foi também um bocadinho neste contexto que nós pensámos como é que podíamos chamar a atenção para o facto de haver bebés que estão em sofrimento, que choram, choram, choram e são difíceis de acalmar e que, enfim, nós podemos dar alguma ajuda além de dizer que é das cólicas. O que nós pensámos então foi criar uma consulta que estivesse descentrada da psiquiatria, que não tivesse estes nomes, e que chamasse a atenção para isto e que as pessoas tivessem um sítio aonde pudessem recorrer.

O que é que é um bebé irritável?

É um bebé que os pais acham que é irritável.

É tão simples quanto isso?

É tão simples quanto isso. Depois nós logo vemos o que é. Nós temos conseguido dar resposta numa semana. A Unidade da Primeira Infância nunca teve lista de espera. Temos 35 anos. Isto é um ponto de honra. Quando é preciso fazemos mais atendimentos, quando há total impossibilidade das nossas enfermeiras, faz-se um acompanhamento telefónico antes da consulta. Nós conseguimos dar sempre resposta. Depois o que encontramos no bebé irritável varia muito. Nós estávamos à espera de encontrar muitos casos de bebés com as chamadas perturbações regulatórias do processamento sensorial. Há um conjunto de bebés que têm reatividade especial aos estímulos sensoriais — aos sons, ao toque, ao embalar —, e que desse ponto de vista podem ser muito irritáveis.

São muito sensíveis?

Sim, ou pelo contrário podem ser muito pouco sensíveis e por isso procurarem ativamente estímulos. Estávamos a pensar que iríamos encontrar muitos casos desses, e para esses o esclarecimento das características do bebé ajuda a adaptar a relação. E encontrámos alguns, mas a grande maioria dos que nos chegaram eram bebés com dificuldades no sono. Também encontrámos muitas mães com depressão pós-parto não reconhecida. Hoje em dia penso que já há muito mais sensibilidade para isto, mas ainda é preciso chamar a atenção para este problema. Muitas mulheres e bastantes homens têm depressão pós-parto e não o reconhecem, não procuram ajuda.

 

 

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Palestra “Prevenir a violência escolar : uma Missão com escola e família ” com Luís Fernandes, 23 maio em Beja

Maio 21, 2018 às 3:14 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Na próxima 4ª feira (23 Maio), pelas 18 horas, na Biblioteca da Escola EBI de Santiago Maior em Beja, Luís Fernandes vai falar sobre bullying e cyberbullying.

Como podem os pais e professores estar atentos a esta problemática?

Como podem as famílias, as escolas… a comunidade em geral colaborar com vista à prevenção e combate ao bullying e cyberbullying?

Esta iniciativa resulta da parceria da Associação de Pais e Encarregados de Educação da Santiago Maior e da Associação Sementes de Vida.

A história do rock ilustrada para miúdos e graúdos

Maio 21, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Livros | Deixe um comentário
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Chuck Berry ©Joana R.

Notícia do P3 de 8 de maio de 2018.

Estabelecer uma ponte entre a cultura dos pais e a linguagem dos filhos é o ponto de partida de A História do Rock (para pais fanáticos e filhos com punkada). O livro de Rita Nabais, com ilustrações de Joana Raimundo, dá a conhecer aos mais novos as principais figuras do rock através de pequenas biografias e curiosidades de artistas que fizeram parte da banda sonora da adolescência dos pais de hoje, outrora jovens amantes de música.

Para Nuno Valente, das Edições Escafandro, a publicação deste livro teve a intenção de criar um lugar na memória das crianças para os ícones da geração dos pais, “numa altura em que o rock está a ser ultrapassado por outros géneros junto das novas gerações” — como o rap e o pop. O editor conta que o feedback não podia ser mais positivo. “Há pais que todas as noites lêem um artista diferente aos filhos, enquanto os adormecem a mostrar as músicas e os vídeos”, exemplifica o editor ao P3.

Esta nova enciclopédia do rock tem 147 entradas com ilustração e texto, que vão desde Bill Haley & His Comets e Little Richard — pioneiros do estilo musical —, até a nomes mais recentes, como The National ou Vampire Weekend, passando por Elvis Presley e Nirvana. Para além dos desenhos dos músicos, o livro conta ainda com as sugestões musicais de várias pessoas da área, como Miguel Ângelo (Delfins) e Fernando Ribeiro (Moonspell), resultando numa playlist com mais de 500 artistas dos últimos 70 anos.

 

Quer ajudar crianças e jovens a encontrar o seu lugar num mundo em mudança?

Maio 21, 2018 às 11:58 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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As Academias Gulbenkian do Conhecimento oferecem apoio a projetos que promovem competências em crianças e jovens.

Este concurso destina-se a apoiar projetos que pretendam promover as seguintes competências sociais e emocionais em crianças e jovens até aos 25 anos: adaptabilidade, autorregulação, comunicação, pensamento criativo, resiliência e/ou resolução de problemas.

Esta ação poderá concretizar-se através de metodologias de referência ou de metodologias experimentais. As metodologias de referência, testadas e validadas para a promoção de competências, são identificadas pela Fundação ou pelas organizações. As metodologias experimentais têm origem nas próprias organizações, nos domínios das suas atividades, e destinam-se à promoção destas competências, não tendo ainda sido sujeitas a teste e validação.

Procuram-se projetos nos domínios das artes, ciência, cultura, desporto, educação, saúde, solidariedade e tecnologia.

 

Prazos de candidatura
De 17 de maio a 11 de junho – submissão de candidatura
Os projetos candidatos são avaliados e os pré-selecionados vão receber apoio individualizado da Fundação para a elaboração de uma candidatura final

De 19 de junho e 9 de julho – elaboração de candidatura final
Das candidaturas finais, serão selecionados 30 projetos a apoiar.

 

Elegibilidade
Podem candidatar-se pessoas coletivas públicas ou privadas, sem fins lucrativos, legalmente reconhecidas, com sede em território nacional.

Por exemplo: associações juvenis, culturais e desportivas, ONGs, IPSS, Associações de pais, Autarquias, Escolas, Universidades ou outras organizações, públicas e privadas, sem fins lucrativos, heterogéneas na sua orgânica, dimensão e atividade.

 

Como concorrer
Só são aceites candidaturas online.
Faça o seu registo.
Antes de submeter o formulário de candidatura, verifique por favor todos os critérios de elegibilidade e leia o Regulamento.
A candidatura só será aceite depois de preenchido o formulário e de fazer o upload da documentação exigida no Regulamento. Por fim clicar no botão “submeter candidatura”

De forma a prevenir dificuldades na submissão das candidaturas, evite a sua candidatura nos últimos dias do prazo.

Saiba mais AQUI.

Seminário “Perfil do aluno do século XXI: rumo ao sucesso educativo” 29 maio em Vila Franca de Xira

Maio 21, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações nos links:

https://www.cm-vfxira.pt/frontoffice/pages/50?news_id=3773

Inscrição

“Não é suposto termos tantas crianças e jovens que não gostam de aprender”

Maio 21, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Snews

Texto e foto do site Educare de 7 de maio de 2018.

Movimento Pais, Professores, Educadores e Alunos Unidos (MAPPE) insiste na revisão das metas curriculares do 1.º ciclo do Ensino Básico. Conteúdos complexos, extensos e desfasados do desenvolvimento neuropsicológico das crianças são alguns dos motivos. Movimento tem uma petição e pondera uma manifestação.

Sara R. Oliveira

A revisão das metas curriculares do 1.º ciclo do Ensino Básico é uma das vontades do Movimento Pais, Professores, Educadores e Alunos Unidos (MAPPE). “É urgente rever a complexidade dos conteúdos, assim como a quantidade dos mesmos. Consideramos que a definição das aprendizagens essenciais não é suficiente e que é o próprio currículo que precisa de ser alterado”, adianta ao EDUCARE.PT Ana Rita Dias, do movimento. Há vários motivos a sustentar essa vontade. Desde logo porque as atuais metas curriculares estão, em termos de complexidade, “completamente desfasadas do desenvolvimento neuropsicológico de crianças que representam a faixa etária do 1.º ciclo”.

“Logo no 2.º ano de escolaridade assistimos, por exemplo, a exigências de interpretação de textos e raciocínios matemáticos que não estão de acordo com o que é esperado da maioria das crianças daquela idade. São os próprios professores que, estando no terreno diariamente, verificam isso mesmo e que fazem uma enorme ginástica para que as crianças interiorizem conceitos que são apresentados muito precocemente, com a agravante de terem pouco tempo para o fazer”, exemplifica. E o facto de existir uma percentagem de crianças que adquirem conteúdos muito facilmente não pode ser motivo para se partir do princípio de que todas o devem fazer. É preciso espaço e tempo para aprofundar conhecimentos e para que diferentes crianças tenham acesso a diferentes graus de dificuldade, “sem travar os que estão mais aptos a avançar nem acelerar os que precisam de consolidar durante mais tempo”. Esta é a visão do MAPPE.

Muita matéria no primeiro nível de ensino, currículo extenso, pouco tempo. “Com um currículo extenso como o que é proposto no 1.º ciclo, as crianças não têm a oportunidade de adquirir o gosto por aprender porque são mais ou menos diretamente pressionadas a passar à próxima etapa, independentemente de já se sentirem seguras na etapa anterior”, refere Ana Rita Dias. Além das alterações nas metas, é necessária uma alteração na visão de como devem ser adquiridas. O MAPPE defende uma aprendizagem por níveis, em que diferentes crianças estão em níveis diferentes na mesma sala de aula, mas sem competições. “Faz muito mais sentido e é muito mais respeitador dos ritmos de cada um.”

Compreender e dominar matérias 

A pressão para cumprir as metas sente-se na escola, nos alunos, nos professores. Mais burocracia para os docentes, frustração por não haver mais tempo para adaptar conteúdos às diferentes necessidades de aprendizagem das crianças. A pressão vem de todos os lados. “Sentem que existe uma máquina maior do que eles que os obriga a debitar matéria sem ter em consideração a flexibilidade necessária para que esta tenha real significado para os alunos”, refere a responsável. O MAPPE aplaude o recente projeto de autonomia e vê na flexibilidade curricular “um avanço extremamente positivo mas que perde a sua essência a partir do momento em que continua a existir um currículo como o que temos neste momento”.

Pressão para os professores, pressão para os alunos. Os estudos sustentam o quão importante é as crianças adquirirem uma boa autoestima, autoimagem e autoconfiança logo no início da escola. Para se sentirem competentes e para, no futuro, alcançarem os seus objetivos. “Para uma criança se sentir competente, necessita de sentir que consegue corresponder às expectativas do que lhe é proposto e essa sensação leva a que acredite mais em si própria e a que tenha uma imagem positiva de si mesma no percurso académico.” “Ora, se temos metas complexas para a sua faixa etária e que exigem que a criança domine conteúdos para os quais ainda não está preparada, estamos a promover o oposto, ou seja, estamos a fazer com que exista uma maior probabilidade de se sentir incompetente, ‘burra’ e incapaz”.

“Este sentimento, que fica gravado no seu mundo emocional, acaba por definir o seu comportamento futuro perante a escola como, por exemplo, não se tentar superar porque não acredita que valha a pena. Portanto, mais do que as aquisições concretas e rígidas, no 1.º ciclo o mais importante é as crianças sentirem que conseguem compreender e dominar as matérias, pois será esse o motor que as levará a ter mais sucesso no futuro e mais ânsia por estudar e aprender”, sublinha Ana Rita Dias.

“Recreios mais ricos e com menos cimento”
O MAPPE vai entregar uma petição em breve e pondera uma manifestação. O movimento defende escolas com espaços mais humanizados, respeitadores, saudáveis, positivos e, acima de tudo, desejados pelos alunos. “Não é suposto termos tantas crianças e jovens que não gostam de aprender, quando a vontade de saber mais é algo inato em cada um de nós. Muitos alunos dizem convictamente que não gostam da escola e isso acontece porque com um ensino tão formatado lhes matamos a motivação na perseguição dos seus interesses”, realça.

“Uma criança que não quer aprender é uma criança a quem foi cortada a chama da curiosidade. Não adianta acharmos que são eles o problema ou que tudo se baseia na educação que vem de casa. O problema somos nós, os adultos, pais, profissionais e cidadãos em geral que não estamos a saber adaptar os nossos modelos educativos aos tempos que vivemos e que minamos o gosto das crianças por aprender, fazendo-as sentir que a escola é uma obrigação em vez de criar a semente de que é um privilégio”, sustenta Ana Rita Dias.

Tudo isso implica mudanças. “Precisamos de recreios mais ricos e com menos cimento. Precisamos de modelos educativos em que a criança tem um papel verdadeiramente ativo nas suas aprendizagens e pode explorar a sua criatividade. Precisamos de profissionais com formação em disciplina positiva e resolução de conflitos para abandonarem as ineficazes estratégias de punição e recompensa. Precisamos de chamar os pais, as famílias e a comunidade à escola, assim como de levar a escola para fora dos muros, criando-se um maior espírito comunitário, sem barricadas e apontar de dedos de quem é a culpa do estado do nosso ensino. Precisamos de ter, acima de tudo, um novo olhar sobre a educação”. A petição do movimento assenta em princípios claros e fortes.

“Demasiados remendos” 
O MAPPE refere que tem existido sensibilidade para estas questões e que o Ministério da Educação está a tentar, lentamente, a ir ao encontro de vários dos pontos que defende. O otimismo persiste. Acredita-se que a escola será melhor nos próximos anos, apesar de todas as resistências. Ainda assim, o movimento considera que algumas medidas deviam ser mais ousadas e que deveria haver uma maior preparação no momento da sua implementação. Muitas vezes não se sabe fazer, não se sabe como começar.

“Percebemos que estas coisas demoram o seu tempo, que há mentalidades mais conservadoras e que não é fácil gerir os desafios e dificuldades de uma escola que ficou parada no tempo e que agora quer evoluir, seja com metodologias muito expositivas, salas de aula nada dinâmicas ou processo de aprendizagem que não são focados no aluno mas sim no professor. Contudo, nesta necessidade de subir degraus muito devagar, corre-se o risco de se estar sempre a alterar o funcionamento das escolas e de se gerarem demasiados remendos, em vez de se deixar em aberto de forma mais clara e convicta o que é preciso revolucionar”.

Os modelos alternativos têm funcionado e há casos de sucesso. Melhor educação implica escolas diferentes e diferentes funcionamentos. Como a Escola da Ponte, o Agrupamento de Carcavelos ou a Escola Básica da Várzea de Sintra que, segundo Ana Rita Dias, “apesar de precisarem das suas próprias reformulações, deram passos muito maiores do que aqueles que vêm por decreto e tiveram a coragem de ir ao fundo da questão”.

Há portanto pedagogias alternativas, menos tradicionais, com provas dadas na eficácia. “Apesar das suas diferenças, têm em comum alguns princípios que são incontornáveis no futuro, como um papel mais ativo da criança nas suas aprendizagens, uma dinâmica de aula menos rígida e expositiva, um funcionamento escolar menos hierarquizado e mais democrático, um maior investimento nas artes, música e desporto, um maior contacto com o exterior e com a brincadeira não programada, entre outros.” Neste movimento, a luta é por uma educação que realmente serve os alunos e não por uma educação que é imposta e na qual eles não se reveem.

 


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