“Pai e mãe, ou mãe e pai, leiam com atenção”

Maio 16, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de opinião de Rute Agulhas publicado no Público de 4 de maio de 2018.

“Pai e mãe, ou mãe e pai (para não se chatearem de quem ponho primeiro), decidi escrever esta carta para que percebam o que vos quero dizer. Já tentei dizer, já tentei gritar, já tive mau comportamento na escola e até já faltei às aulas… já fiz de tudo, mas vocês não entendem… ou não querem entender…

Separaram-se porque já não gostavam um do outro ‘como namorados’, disseram. Mas também me disseram que ‘vamos continuar a ser amigos e vamos continuar sempre a ser teus pais e a estar contigo’. Lembram-se? Ou já se esqueceram? Parece que se esqueceram.

A vossa separação fez com que deixasse de estar com os dois ao mesmo tempo. E com os avós, os tios e os primos passa-se a mesma coisa. Mas no meu coração são todos a minha família. Detesto quando dizem que passei a ter duas famílias!

Tive que mudar de casa, de escola e de amigos. ‘Podes sempre fazer novos amigos’, disseram. Mas a verdade é que deixei de falar com os meus melhores amigos e não há conversas na Internet que compensem as saudades. E vocês sabem a importância que os amigos têm para mim…

Enfim, a minha vida passou a ser assim e estou a tentar habituar-me como posso. Juro, estou a fazer um esforço. Às vezes ainda tenho vontade de chorar (choro na cama), mas tento pensar que poderá ser melhor assim e que, com o tempo, todos iremos ficar mais felizes.

Mas vocês podiam ajudar! Porque eu estou a fazer a minha parte!

Já tentei dizer-vos como poderiam ajudar… talvez assim, por escrito, fique mais claro.

  1. Não digam mal um do outro nem se culpem um ao outro (pelo menos na minha frente). Sabem, eu gosto muito dos dois e custa-me quando se criticam ou acusam de alguma coisa. Fico muito triste.
  2. Deixem-me falar à vontade com cada um de vocês ao telefone. Não se ponham a tentar ouvir, não me peçam para meter em alta voz, não me façam perguntas depois de desligar. Gostava de poder falar com vocês como falo com os meus amigos, com privacidade. Gostava que confiassem em mim.
  3. Não sou pombo-correio para levar e trazer recados. Encontrem outra forma de falar um com o outro. Não me metam no meio.
  4. Quando volto da casa de um, não gosto que me façam interrogatórios como se fosse uma criminosa.
  5. Deixem-me levar as MINHAS coisas de uma casa para a outra. Os headphones, os livros, o que eu quiser. Porque as coisas são minhas e devem estar onde eu estou. Não gosto quando me dizem que estas coisas ‘são da casa da mãe’e as outras ‘são da casa do pai’. Assim nunca terei casa nenhuma…
  6. Quando têm que se encontrar um com o outro, na minha frente, por favor não gritem nem discutam (lembram-se do que aconteceu no meu último espectáculo de dança…). Se são civilizados com estranhos como, por exemplo, o condutor do autocarro ou a empregada do café, por que é que não podem ser civilizados um com o outro? Pelo menos na minha frente. Ou então não digam nada, mas fiquem em silêncio. Não se matem com os olhos nem digam coisas que me magoam e envergonham.
  7. Deixem-me ir às festas de anos ou dormir em casa da minha segunda melhor amiga (sim, porque a minha primeira melhor amiga ficou na outra escola, lembram-se?). A quantas festas já faltei porque ‘é o meu fim-de-semana’,dizem vocês. E não é meu também? Não acham que à medida que cresço tenho também o direito de escolher algumas coisas que gosto de fazer? Ok, não posso escolher nem decidir tudo, mas algumas coisas?
  8. Sobre as férias… estou com cada um de vocês e gostava de poder falar com o outro durante o tempo em que estou com cada um. Posso? Livremente? E contar o que tenho feito? Gosto de contar as coisas boas que acontecem. E com os meus amigos, posso também estar alguns dias? Fazer coisas com eles? Não disseram que queriam que eu fizesse novos amigos? Pois então, deixem-me passar tempo com eles também nas férias.
  9. Não me façam sentir que tenho que escolher de quem gosto mais. Gosto dos dois e tenho esse direito. Não me façam sentir culpada… eu não tenho culpa…
  10. Deixei para o fim uma coisa mais difícil de falar. Não me apresentem ‘amigos’‘amigas’uns atrás dos outros. Não sou parvinha, sabem? Compreendo que queiram ter alguém. Ok. Quero conhecer essas pessoas apenas quando forem mesmo especiais. Pode ser?

Pronto, por agora penso que isto é o mais importante. Continuamos a ser uma família e quero crescer com vocês por perto. Por favor, não me tratem como um objecto por quem lutam. Isto não é uma guerra. E eu não sou um troféu.

Da vossa filha, Ana”

(Carta fictícia baseada em relatos reais)

 

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