Quando a depressão e ansiedade tramam vida aos adolescentes

Maio 9, 2018 às 8:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Texto da http://visao.sapo.pt/ de 8 de abril de 2018.

O aumento dos casos de ansiedade e depressão na adolescência preocupa pais, professores e técnicos de saúde. Os motivos são vários: foco excessivo no sucesso, medo de fracassar e situações de tensão a nível familiar.

Quando comecei a ter enjoos e vómitos, antes de ir para as aulas, percebi que tinha um problema. Ficava melhor quando comia menos, só que perdi peso e sentia-me mal e triste.” Beatriz tinha então 14 anos, frequentava um colégio privado e até tinha boas notas. O problema era a pressão dos testes e o ambiente competitivo entre colegas. “Foi um grande alívio entrar para o liceu público, mas durou pouco porque eu exigia muito de mim. E tudo piorou”, lembra agora. “Em situações novas ou que não podia controlar, tinha medo de falhar, de não estar à altura do que achava que esperavam de mim”, acrescenta.

Beatriz não está sozinha. O estudo National Health Behaviour in School HBSC/OMS, de 2014 (com uma amostra de 6 026 adolescentes do 6º ao 10º anos) mostra que nem tudo vai bem com os jovens portugueses. Gina Tomé, psicóloga e investigadora da Aventura Social (grupo de investigação sobre o comportamento juvenil), nota que, entre 2010 e 2014, “houve menos 3,4% de alunos a gostarem da escola e aumentarem os sinais de mal-estar, desesperança e dificuldade em lidar com conflitos”. Tais resultados traduziram-se no plano psicológico: “Os que responderam que se sentem nervosos diariamente passaram dos 6,2% para os 8,4%; os que se dizem irritados quase todos os dias eram 3,7% e agora são 5,9%; e os que estão tristes ao ponto de parecer que não vão aguentar situavam-se nos 3,8%, uma percentagem que subiu para os 5,5%.” O projeto ES’COOL – Promoção da Saúde Mental nas Escolas, que envolveu 200 professores, permitiu apurar algumas causas: “Pressão ligada aos resultados escolares, problemas no ambiente familiar e nas relações interpessoais.”

Aos 19 anos, Beatriz pode dizer, por experiência própria, que pedir ajuda faz toda a diferença e que o facto de ser compreendida a levou a reorientar-se e a seguir em frente. Aprendeu a controlar a respiração e, com o apoio de um psicólogo, a conhecer e a respeitar os seus limites, no mundo virtual e no real. Convidada a dar dois exemplos, avança estes: “À noite, e em certas alturas do dia, passei a desligar as notificações do telemóvel e já não vejo as pressões dos outros como minhas.” 
E se a ansiedade lhe bater à porta sem pré-aviso? “Dou conselhos a mim própria como se fosse uma pessoa de quem goste muito!” Palavra de adolescente.

ESPÍRITO “TEEN”

A adolescência é uma invenção recente que deu os primeiros passos nos Estados Unidos da América, após a II Guerra Mundial. “Veio o rock’n’roll, os rapazes e as raparigas começaram a andar juntos no liceu e a divertir-se – e estes anos ganharam um encanto que não tinham, sendo mesmo considerados a melhor parte da vida”, nota a psicóloga clínica Teresa Lobato Faria, que dá consultas a adolescentes do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. Na década seguinte, a juventude e o amor romântico foram idolatrados no cinema e, algo inexistente até então, “os jovens ganharam notoriedade, começaram a tomar posições e a influenciar o poder político.”

Assim despertou o interesse dos investigadores por este período da vida, fascinante, turbulento e essencial a um desenvolvimento saudável que, pelos critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS), acontece entre os 10 e os 19 anos. À luz deste critério, em Portugal os adolescentes representam 10,5% da população, mas o número pode ser superior, já que os limites temporais são móveis. É que os estudos apontam para um início por volta dos 13 anos (depois da puberdade), prolongando-se até aos 24 ou mais anos, altura em que se consolidam as competências sociais e académicas, essenciais para a autonomia plena.

Até lá, acontecem intensas mudanças físicas, hormonais e cerebrais. Os neurónios praticamente duplicam, e o lobo frontal, que governa o raciocínio e a tomada de decisões, passa por alterações profundas entre os 12 e os 15 anos (ver caixa Onde é que estavas com a cabeça?”). Confirma-o a investigação da neurocientista inglesa Sarah-Jayne Blakemore e colegas, apresentada na conferência sobre o cérebro adolescente, em novembro, promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Lisboa.

À VISÃO, a também autora do livro Inventing Ourselves: The Secret Life of the Teenage Brain (publicação prevista para março), explica porquê: “Nesta fase, mais do que nunca, aumenta a pressão para se assumir riscos, a vulnerabilidade à influência do grupo na avaliação dos acontecimentos e o medo de ser excluído pelos pares.” Não é por acaso que os prémios das seguradoras são mais elevados até aos 25 anos. A professora de Neurociências Cognitivas do University College London esclarece que “75% das perturbações ansiosas e depressivas manifestam-se entre a infância e os 20 anos”, quando se formam a identidade pessoal e social.

JOVENS, ANSIOSOS E DEPRIMIDOS

“Queremos tudo e já.” O grito de guerra da adolescência pode ser silenciado se as circunstâncias forem adversas ao ponto de matarem os ideais.

Vanessa tem 18 anos e reconhece que, aos 13, bateu no fundo do poço. “Os meus pais discutiam muito, separaram-se quando eu era pequena e eu não conseguia exprimir o mal-estar que sentia”, conta. “Nada fazia sentido, deixei de comer, quis acabar com a vida, fui parar ao hospital. Não aceitava que tinha um problema, estava sempre à defesa ou a opor-me.” Teve a “sorte” de ser encaminhada pela assistente social para um projeto inovador – o W+, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, criado em 2003 para promover a saúde mental e dar respostas a adolescentes (dos 12 aos 24 anos) – e de aderir ao programa Ocupa-te (destinado a jovens inativos há mais de dois anos e fora dos sistemas escolares 
e de saúde). Vanessa levou algum tempo 
até baixar a guarda e retomar os estudos do 10º ano. Os olhos brilham quando diz que gosta de inspirar outros a travar esta batalha diária, que também é a dela: “Continuo a ter estados depressivos, mas se a minha mente for forte eu mantenho-me forte.”

As estatísticas de saúde mostram que as perturbações ansiosas e depressivas praticamente duplicaram em seis anos, entre a população em geral, com o consumo de medicamentos a disparar na mesma proporção (e a aumentar entre os 13 e os 18 anos). Há dois anos, o suicídio foi a segunda principal causa de morte entre os 15 e os 29 anos, a nível global, conclui a OMS. Também em 2015, um artigo científico sobre o atendimento na urgência de pedopsiquiatria da Estefânia (dados recolhidos entre 2011 e 2013) apontava para o aumento de 23% do número de consultas com médias etárias nos 13,5 anos. Os problemas de comportamento, as condutas de automutilação e os casos de ansiedade (com o pico aos 16 anos) lideravam os motivos da ida às urgências.

Os números do Instituto Nacional de Saúde Mental norte-americano são igualmente alarmantes: os problemas ansiosos afetam 20% dos rapazes e 30% das raparigas. Desde 2012, têm vindo a aumentar as perturbações de humor entre alunos do liceu: três milhões de jovens entre os 12 e os 17 anos afirmaram ter tido pelo menos um episódio depressivo no ano anterior. Convém lembrar que estamos a falar de países desenvolvidos e de jovens escolarizados. Porquê? Que fragilidades são estas que estão a vir agora ao de cima?

PRESSÃO PARA O SUCESSO

A pedopsiquiatra Paula Vilariça, da Clínica da Juventude da Estefânia e uma das autoras do artigo científico acima referido, afirma que “por detrás destes perfis de ansiedade e depressão estão, quase sempre, antecedentes de bullying na infância e, em simultâneo, ruturas familiares ou mudanças na vida laboral ou da saúde dos pais”. O aumento de quadros ansiosos, “que evoluem para a depressão, até por haver um fundo neurobiológico comum”, está associado a “expectativas elevadas que os miúdos trazem acerca das suas conquistas e da estabilidade que depois lhes falta”.

Os fatores de stresse intenso surgem a partir do 7º ano de escolaridade, com o aumento do nível de exigência antes das épocas de testes e de exames. “Chegamos a ter 16 pedidos de consulta por dia: eles vomitam, sentem falta de ar, têm ataques de pânico, passam noites em claro.” As automutilações são mais comuns nas raparigas, ao passo que os rapazes são mais propensos a meterem-se em brigas que sabem que vão perder ou a refugiarem-se nos videojogos, nas drogas ou no álcool.

Embora os pais façam o melhor que sabem e podem, Paula Vilariça admite que eles passam muitas vezes ao lado dos sinais de alerta dos filhos (ver caixa Perfis de ansiedade e depressão mais comuns na adolescência). Foi o caso de uma miúda com 13 anos que levou a cabo três tentativas de suicídio após baixa do rendimento familiar, na sequência da perda de emprego da mãe, e dificuldades de integração na escola nova: “Sentia-se muito só e incapaz de corresponder ao nível de exigência escolar, e encontrava alívio na automutilação, mas também culpa e conflito”, conta a pedopsiquiatra. Este foi um dos casos que exigiram medicamentos para a ansiedade e para os ataques de pânico, durante dois meses, conjugados com psicoterapia individual e familiar. O que mudou? “A mãe continua desempregada, o pai a trabalhar por turnos e a filha com dificuldades na escola (passou para o 8.º ano com três negativas). Porém, está mais tranquila e todos lidam melhor com o stresse.”Hoje sabe-se que as perturbações de humor se traduzem na desregulação dos níveis da serotonina no cérebro, que afeta mais umas pessoas do que outras. A equipa de investigadores da Universidade de Emory apurou o assunto e descobriu que o FKBP5 e variantes (SNP ou single nucleotide polymorphisms) estariam na origem de respostas de stresse superiores ao normal, mas apenas se houvesse antecedentes de maus-tratos ou abuso na infância. Conclusão: os genes não explicam tudo.

SENTIR-SE EM CASA, PODER VOAR

Sílvia, 23 anos, deixou de ser quem era há cinco: uma miúda isolada, refugiada nos seus pensamentos e no estudo, obcecada pela ordem e com receio de ser tocada. Ela não esquece o sofrimento de crescer exposta a um ambiente de violência doméstica. A diferença é que agora criou outras bases de apoio junto de outros jovens e na atmosfera protetora e estimulante do grupo de teatro terapêutico que frequenta, em Lisboa. “Aqui perdi a timidez e descobri como é bom socializar.” Para trás ficaram o medo do descontrolo e os rituais de limpeza.

Ao seu lado, Miguel, 18 anos, ainda a lidar com sintomas de ansiedade social, lembra-se de quando vivia na casa materna, entregue a si mesmo e a acumular faltas às aulas. Os conflitos com a mãe agravaram-se ao ponto de haver agressões. “Ela e o meu padrasto não me aceitaram como sou, nem a minha orientação sexual”, resume. Mudou-se para casa de outros familiares e tenta, aos poucos e com ajuda institucional, reatar o relacionamento com a mãe. Os progressos, deve-os, afirma, à “segunda casa” que encontrou no W+.

Um ano mais velha do que Miguel, Francisca também sabe o que é viver com ansiedade generalizada e deparou-se com ela logo após a puberdade, na sequência de um atropelamento que deixou marcas profundas e anos de reabilitação. Em casa, abundavam as discussões e o sentimento de ser incompreendida. “A solidão em que eu vivia era enorme.” Cética quanto à utilidade do apoio psicológico, foi graças a esse “colo” que se aventurou nos primeiros passos a solo: partilhou uma habitação com o namorado, mudou de curso e vive hoje na casa dos avós. Há dias em que sente raiva e vontade de chorar, mas já não é a mesma coisa: “Conquistei uma opinião própria, sem estar presa à minha mãe, de quem tinha mais medo do que respeito.”

Isabel Queiroz de Melo, diretora da unidade de saúde W+, confirma que “a crise desestruturou muitas famílias”. Nos últimos dois anos, passaram pelo serviço 650 jovens, “metade a ser acompanhada em regime semanal”.

Sónia Santos, que coordena o núcleo de adolescentes da mesma unidade de saúde, descreve um relatório do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, realizado dois anos após a abertura do W+, que identificou o perfil dos que procuravam ajuda: metade estava a passar por lutos ou situações de abandono; 54% não tinham progenitores; 35% contavam com uma pessoa em quem se apoiar; e 12% não tinham ninguém. Após superarem experiências de grande desamparo, voltam para partilhar alegrias – o diploma, a namorada, etc. – e pedir informações sobre contraceção: “Sentem-se acolhidos e não julgados.”

SAIR PARA A RUA

Os resultados dos inquéritos nacionais dos Estados Unidos da América revelaram que, entre 2010 e 2015, mais de 33% dos que nasceram depois de 1995 se sentiam “inúteis e sem alegria”, tendo as tentativas de suicídio aumentado 23 por cento. Também começam a surgir estudos que relacionam o débito de horas de sono, associado à exposição a ecrãs, à depressão (no início do ano, a OMS incluiu a dependência de videojogos na lista de doenças).

Onde estão os anos promissores, com direito a ser rebelde? Se, nos meios socioeconomicamente favorecidos, os 18 anos eram a senha para conduzir carro próprio e “sair ou dormir com quem apetece”, hoje o mais certo é ligarem-se ao mundo no quarto.

No ano passado, a psicóloga Jean Twenge, da Universidade de San Diego, e autora do controverso livro iGen – ou a geração “eu”, voltada para o umbigo – indagava, na revista The Atlantic: “Os smartphones destruíram uma geração?” Referia-se ao deslumbramento induzido pelos gadgets móveis, à falsa ideia de independência criada pelas redes sociais e ao conforto e à segurança do registo digital, onde os jovens crescem superprotegidos e frágeis. Porém, sabemos que, no universo hiperconectado, há FOMO (sigla de fear of missing out ou medo de ficar de fora) e sobrecarga de estímulos: o risco que se corre é o de converter a adolescência num esgotante emprego a tempo inteiro, como referia um artigo recente da revista Time.

“O modelo de organização social dominante pode estar a contribuir para o mal-estar juvenil e para o aumento do consumo de fármacos”, comenta a pediatra Maria do Céu Machado, autora do ensaio Adolescentes e atual presidente do INFARMED, lembrando que “nunca houve tantos jovens qualificados sem projeto de vida [a taxa de desemprego jovem, em outubro passado, chegou aos 
25,6 por cento]”. O psicólogo Pedro Hubert alerta para a dificuldade que os pais têm em dizer “não” e em estabelecer limites. A visão idealizada do sucesso individual, o “podes ser o que quiseres” é outro erro que dificulta 
o treino das competências sociais e da tolerância à frustração.

Por fim, o especialista em adições destaca os riscos da imersão no mundo virtual dos videojogos e das redes sociais: “Geram excitação e euforia, mas não fomentam a relação íntima e presencial nem resolvem a timidez e o evitamento social.” Às vezes, senão quase sempre, a maior recompensa encontra-se fora da “matrix”. Basta sair e fazer a experiência.

 

 

 

II Jornadas de Cuidados Paliativos Pediátricos, 17 a 19 maio em Lisboa

Maio 9, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

https://www.ligacontracancro.pt/ii-jornadas-de-cuidados-paliativos-pediatricos/

 

Mês do Brincar – até 3 de junho em Cascais

Maio 9, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Mais informações no link:

https://www.cascais.pt/evento/mes-do-brincar-0

 

 

A vez das crianças. Não se pode combater a pobreza das crianças sem combater a pobreza dos pais das crianças

Maio 9, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Manuel Sarmento publicado no https://www.publico.pt/ de 20 de abril de 2018.

Manuel Sarmento

O escândalo em torno das condições deploráveis de atendimento das crianças do setor da oncologia pediátrica do Hospital de S. João veio chamar a atenção para a negligência pública com que a infância tem sido tratada em Portugal. Algum consenso se estabeleceu sobre a inaceitabilidade de situações como esta num país moderno e desenvolvido.

Há, portanto, boas razões para se defender que a retoma económica em curso priorize as crianças nas políticas sociais.

Uma dessas razões reside no facto de que as crianças portuguesas foram o grupo geracional mais penalizado pela crise financeira que eclodiu em 2008 e pela respetiva gestão política realizada sob a égide da troika. Como pôde ser demonstrado em vários estudos, designadamente da Unicef, a redução das transferências sociais, nomeadamente do abono de família e do rendimento social de inserção, penalizou profundamente as crianças, tendo feito subir os indicadores de pobreza infantil a níveis nunca antes atingidos. O grupo etário dos 0 aos 17 anos (criança é todo o ser humano até aos 18 anos, conforme a definição do artigo 1.º da Convenção sobre os Direitos da Criança) tem uma taxa de risco de pobreza superior à da população em geral. Isto significa que, percentualmente, há mais crianças pobres do que adultos pobres. Além disso, a infância ultrapassou os idosos como grupo geracional tradicionalmente mais atingido pela pobreza.

Outros indicadores, normalmente identificados em situações de crise, avolumaram, na primeira metade desta década, a vulnerabilidade das crianças: aumentou o número de crianças sinalizadas junto das comissões de proteção de crianças e jovens; há mais crianças institucionalizadas, tendo sido interrompida a curva descendente de acolhimento residencial que se verificava; aumentou o número de bebés a carecer de medidas de proteção; cresceu o atendimento a crianças e adultos com perturbações de saúde mental.

Os dois últimos anos marcam, entretanto, uma inflexão positiva: desceu a exposição da criança à pobreza, de 25,6% em 2013 para 20,7% em 2016 (INE, 2017), e diminuíram, pela primeira vez em muitos anos, os processos de proteção e promoção de crianças. Esta é mais uma boa razão para priorizar as políticas de infância: é possível reverter os fatores que afetam o bem-estar e os direitos das crianças. Medidas como a reposição do abono de família e dos rendimentos familiares explicam essa melhoria.

Mas isso não basta. A investigação científica tem vindo a demonstrar que a promoção de condições de conforto e a estimulação das crianças, desde bebés, tem impactos fundamentais no desenvolvimento das capacidades cognitivas, na sociabilidade positiva e na autonomia de pensamento e de decisão. A construção da cidadania joga-se no quotidiano de cada criança, não é tarefa que se possa postergar para o futuro. Cuidar já do bem-estar das crianças é uma razão definitivamente suficiente em si mesma para a priorização das políticas de infância.

Ultrapassar os indicadores de pobreza e de exclusão infantil só será definitivamente possível através de medidas estruturais, ou seja, de uma política de distribuição de rendimentos que se oriente no sentido da igualdade social. Não se pode combater a pobreza das crianças sem combater a pobreza dos pais das crianças.

Isso não obsta, porém, a que se promovam políticas específicas, focadas nas crianças e na promoção do seu bem-estar. Da educação de infância à saúde infantil, das medidas de proteção face ao risco aos programas de prevenção precoce, Portugal possui instrumentos de intervenção frequentemente inovadores e de eficácia comprovada. Mas falta um sentido de conjunto, a integração das políticas de infância, capazes de impedir a fragmentação e a dispersão de recursos e de meios. Falta fazer a avaliação das ações e dos programas e de criar uma cultura democrática de prestação de contas, assente no estudo rigoroso dos impactos da intervenção na vida das crianças. Faltam políticas focadas, nomeadamente nas áreas da educação em creche, da promoção da saúde mental, da prevenção dos maus-tratos intrafamiliares e da exposição à violência doméstica, do acolhimento familiar de crianças cujo superior interesse aconselhe a que vivam fora da família biológica, da intervenção junto de crianças migrantes e refugiadas, das crianças com necessidades especiais, da regulação da publicidade comercial com crianças e de prevenção face aos riscos da sociedade digital. Acerca destes aspetos, o nosso país apresenta indicadores frequentemente deploráveis. Faltam projetos territorializados que garantam a participação das crianças e a reconfiguração do seu espaço-tempo, para que vivam em condições de usufruto da natureza e da cidade, de acesso à cultura e ao lazer, de autonomia da mobilidade e de saúde e conforto.

Com a sustentação do conhecimento científico sobre a infância e o desenvolvimento infantil, hoje já largamente consolidado, a priorização das políticas de promoção dos direitos e do bem-estar das crianças pode ser o sinal de uma sociedade que se emancipa e que progride, na exata medida de em que cuida, educa e promove os seus cidadãos que nem por serem mais novos são menores.

Instituto de Educação da Universidade do Minho

 


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