Como evitar birras às refeições?

Maio 1, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/

“Parece de propósito! Logo hoje que preciso de chegar a horas a um sítio é que decides fazer uma birra dessas!”

Cá em casa também era assim. Cada manhã, um suplício. Mas há poucas semanas, tudo mudou. O momento de viragem foi o dia em que a minha filha mais nova, que está quase a fazer 3 anos, fez a birra das birras ao pequeno-almoço: ela gritava, esperneava, nada a acalmava. Parecia que o mundo ia acabar. Tudo por causa de um simples iogurte, que era-mas-afinal-não-era-bem aquilo que ela queria para começar o dia. E eu atrasado para uma reunião…

Mudar o foco

A minha vontade, naquele momento, foi a de muitos pais nesta situação: ralhar (“come isso imediatamente!”), chantagear (“se não comeres…”, premiar (“se comeres dou-te…), castigar (“ai não comes? Então…). O espetáculo foi tal que me passou pela cabeça dar-lhe uma nada consoladora palmada no rabo! Mas, em vez disso, comecei a aplicar o que tenho aprendido com a Disciplina Positiva: respirei fundo (muito fundo!), mantive a calma e… mudei-lhe o foco, inventando uma brincadeira em que o iogurte (o tal que ela não queria…) era tão apetecido que o melhor seria que ela o comesse todo (e rápido) antes que… a Princesa Sofia acordasse e o comesse por ela. Resultou em cheio e, em menos de 10 minutos estávamos na rua.

Dias antes já tinha aplicado a mesma estratégia, com resultados idênticos, quando ela acordou em histeria a meio da noite, a chorar e a espernear como uma louca. Nessa madrugada só se acalmou quando consegui que prestasse atenção à sua boneca favorita, que lhe disse que acordou “assustada com a berraria” dela. Depois inventei uma história (sem grande nexo, porque estava meio a dormir) que só me lembro que metia um castelo e uma princesa, que estava doente e não podia ouvir o barulho de alguém a chorar à noite, porque senão acordaria no dia seguinte cheia de espirros…

Antecipar comportamentos e dar opções limitadas

Depois das duas situações que descrevi, passei a apostar ainda mais na prevenção. “Se o pequeno almoço é um momento de potencial tensão, porque não envolvê-la na sua preparação?”. Criámos uma rotina juntos e agora abro o frigorífico e dou-lhe opções limitadas: “o iogurte de banana ou de morango?”. O pequeno almoço passou a ser um momento divertido, sem stresses e que reforça os laços familiares. E nunca mais cheguei atrasado a lado nenhum pela manhã.

Promover a cooperação tem sido outro dos trunfos, para evitar fitas à mesa ao pequeno almoço (e também resulta noutras refeições). Por exemplo, deixo que seja ela a deitar e a mexer os cereais na tigela onde deita o iogurte. No início entornava bastante, agora raramente deixa cair mais do que um ou dois pedaços. Depois, dou-lhe um bónus: escolher a colher que quer usar: “a do Mickey ou a do Pluto?”. E voilá!

Desenganem-se os pais que acham que, com esta “estratégia”, a deixei “ganhar”, “levar a melhor”. Nada disso. Limitei-me a dar-lhe poder de escolha, mas dentro de soluções limitadas, aceitáveis e respeitosas para ambos. O que a longo prazo terá efeitos positivos, já que está a aprender a decidir por si, em vez de o fazer contrariada, porque é obrigada a tal.

O que faz toda a diferença.

Nuno Martins

Encontro Residência Alternada e Coparentalidade Consciente – 4 de maio, na Faculdade de Direito de Lisboa

Maio 1, 2018 às 3:15 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

http://www.dgpj.mj.pt/sections/informacao-e-eventos/2018/encontro-residencia1520/

 

Como traduzir um bebé?

Maio 1, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Snews

Entrevista do https://www.educare.pt a Clementina Almeida.

Explica que o cérebro dos bebés nasce imaturo. Para o entenderem os pais devem perceber mais sobre o desenvolvimento infantil. Assim, vão poder lidar melhor com birras, medos e outras situações. Clementina Almeida, psicóloga especializada em bebés, em entrevista ao EDUCARE.PT.

Andreia Lobo

Chamam-lhe “tradutora de bebés”. Clementina Almeida é psicóloga clínica com especialidade em bebés. Fundou o BabyLab, da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, onde é investigadora e dirige a ForBabies, no Porto, uma clínica especializada no atendimento de bebés dos zero aos 36 meses.

Empenhada em passar aos pais informação baseada em “evidência científica”, Clementina Almeida escreveu o livro “Socorro! O meu bebé não dorme”, editado pela Porto Editora. Estreou-se, depois, na literatura para a infância, com uma coleção de histórias “com psicologia” para crianças e pais. Quatro personagens ajudam os mais pequenos a identificar-se com a problemática com a situação que vivem e a entender o que  sentem: “Luca, o hipopótamo que não queria deixar as fraldas”, “Pipo, o urso que não queria ficar sozinho”, “Duda, o leão que tinha medo” e “Tita, a zebra que não queria ter riscas”.

Por detrás de cada livro permanece sempre a preocupação de explicar aos mais crescidos os motivos de alguns dos comportamentos das crianças. Por isso, a psicóloga e escritora admite, com graça, que “escreve ao contrário”. Primeiro, investiga sobre o que a ciência diz a propósito do tema que pretende explorar. Depois, cria uma história que a criança possa entender. No final do livro, volta à ciência e explica aos pais, de forma simples, tudo o que precisam de saber. O EDUCARE.PT conversou com Clementina Almeida sobre desenvolvimento infantil, sobre birras e medos e como entender melhor o que as crianças nos dizem.

EDUCARE.PT (E): Dos zero aos três é a idade em que o cérebro atinge 85% do seu desenvolvimento. Como se explica este desenvolvimento num período tão curto?


Clementina Almeida (CA):
 Ao contrário da maior parte dos órgãos, que quando o bebé nasce já têm a maturidade suficiente, o cérebro nasce completamente imaturo. Se o cérebro crescesse aquilo de que nós precisávamos para que se tornasse maturo era impossível as mulheres darem à luz. Isto tem a ver com a nossa evolução como espécie, o facto de deixarmos de andar em quatro patas e passarmos a andar em duas, as ancas tiveram de estreitar para podermos correr e fugir dos predadores. E, portanto, a natureza arranjou um compromisso que é os bebés nascem ao fim de nove meses, mas com o cérebro ainda imaturo.

O bebé nasce totalmente dependente das relações que vai ter com o seu meio ambiente, das relações próximas com a mãe e com o pai, ou seja, com os cuidadores, mas também das experiências sensoriais que vai ter no primeiro ano de vida. Imagine-se o cérebro como uma pirâmide, em que a parte de baixo são as vias sensoriais mais básicas, como o cheiro, o toque, o ouvir – daí ser tão importante lermos e falarmos para os bebés. Com base nessas partes sensoriais vão edificar-se as estruturas mais complexas em termos cognitivos e emocionais.

No fundo, os primeiros três anos vão determinar as nossas competências em termos de aprendizagens futuras e a nossa saúde. Se tivermos boas fundações, tudo corre bem. Se tivermos experiências adversas de infância, como viver numa família economicamente desfavorecida, ter de lidar com psicopatologia materna, viver em pobreza ou mau ambiente familiar… Tudo tem um impacto tremendo no desenvolvimento cerebral nestes três anos. Quando somos bebés fazemos 700 a mil sinapses por segundo, é um verdadeiro fogo de artifício, nunca mais na vida teremos este tipo de desenvolvimento.

E: Que implicações isto tem?


CA:
 Se pensarmos que todas as sociedades gastam imenso dinheiro em termos de saúde pública, é certo que gastaríamos muito menos se investíssemos na primeira infância. Alguns prémios Nobel da economia dizem que por cada dólar investido na primeira infância temos um retorno de sete a nove dólares. Mas ainda estamos culturalmente muito habituados a achar que os bebés comem, dormem e mais nada. Falar para o bebé para quê, se ele não responde? Graças à evolução das neurociências conseguimos, hoje, perceber o que se passa dentro do cérebro do bebé. E sabemos que se passa muita coisa. Por isso, os primeiros anos não podem ser deixados ao acaso, de forma nenhuma.

E: Tão-pouco se podem deixar ao “acaso” os cuidados nos berçários e nas creches?


CA:
 Sim, por exemplo. Mas em Portugal não temos berçários de qualidade. Desde logo, porque um dos critérios para ter qualidade é o ratio de adulto por bebé. No primeiro ano de idade sabemos que o ideal será o ratio de um para um, porque o bebé precisa de um cuidador que responda de imediato às suas necessidades. Se nos berçários temos oito bebés para dois cuidadores, é óbvio que se um começa a chorar e os outros sete se seguem alguém vai ficar com as suas necessidade inatendidas. E este choro inatendido – quando é repetitivo e não há nada que o acalme – é, muitas vezes, classificado como stress tóxico na primeira infância.

Tóxico porque efetivamente acaba por afetar o desenvolvimento cerebral que se está a dar naquele momento. Que é precisamente o oposto do que se deseja. O stress vai libertar alguns químicos, nomeadamente o cortisol que tem um efeito cáustico no desenvolvimento dos bebés. Por bebé entende-se a idade dos menos nove meses até aos três anos e, depois, os de três estão a deixar de ser bebés, mas ainda são pequeninos. Um bebé que tem sistematicamente estas necessidades inatendidas, fica com o cérebro literalmente menor e com áreas – chamadas de buracos negros – que não se desenvolvem como deveriam.

E: Com tudo o que disse, o que deveria mudar na forma como a sociedade olha para estas idades?


CA:
 Há muito saber deste que ainda está na ciência. Ou seja, que ainda não está acessível aos pais. Os jornalistas têm um papel fundamental de transmitir esta informação. Quanto mais os pais souberem sobre o desenvolvimento, mais vão fazer pelos seus filhos. Portanto, o primeiro passo é possibilitar aos pais o acesso à informação de que os primeiros anos de vida da criança são demasiado importantes para serem deixados aos acaso. Depois, em termos de políticas de prevenção temos tendência para atuar quando já existe a doença ou o sintoma já apareceu. Fazemos pouco em termos preventivos. Em termos políticos, a prevenção é algo cujos resultados só se vêm daqui a vinte ou trinta anos. Não costuma ser uma prioridade em Portugal trabalhar com vista à prevenção.

E: Dê-me exemplos de coisas simples que os pais podem fazer para aproveitarem ao máximo o potencial destes três anos?


CA:
 A coisa mais simples que podem fazer é falar para o bebé. Sabemos que existem bebés que ouvem cerca de 600 palavras por dia enquanto outros ouvem 1500. Aos três anos, por exemplo, dá uma diferença de 30 milhões de palavras. Não seria importante se não estivesse relacionado com o desenvolvimento da linguagem aos dois anos e, inclusive, depois com o sucesso académico até aos 10 anos. Falar não custa dinheiro.

Podemos falar com o bebé sobre tudo, ler, cantar, ou seja, usar muitas e muitas palavras, porque estamos a fazer estimulação sensorial auditiva que é muito importante. Também é importante expor o bebé a outras experiências sensoriais: tocar em tecidos, expo-lo a cheiros, do café, do chocolate, da canela… O trabalho na ForBabies começa pelo programa BabySense em que os bebés recebem uma hora de estimulação sensorial adaptada à idade e ao desenvolvimento. Os pais recebem orientações para fazer o programa em casa, o que inclui fazer tintas e plasticina caseiras que são coisas divertidas que os bebés adoram. E, acima de tudo, ajudamos estes pais a perceberem o quão importante este tipo de experiências é para o desenvolvimento cerebral do bebé.

E: Sente que os pais precisam de formação para a parentalidade?


CA:
 Precisam de conhecimento. Mas muita coisa é instintiva. Costumo dizer que os mais especialistas em bebés são os pais, porque os conhecem e percebem todas as suas nuances e diferenças. Todas as famílias são diferentes e eu valorizo muito a criatividade familiar. Por isso também sou avessa àqueles cursos de parentalidade. A maior parte deles ensinam uma determinada abordagem e a mim isso soa-me mal. Parece que pretendem que todos os pais façam daquela maneira para que todos filhos sejam daquela maneira. O que corta muito esta criatividade. Nos EUA e em Inglaterra existem movimentos a favor de ensinar os pais acerca do desenvolvimento. A ideia é não que precisamos de ensinar os pais a serem pais, porque já sabemos que eles vão fazer o melhor que podem. Se eu souber que o meu bebé está a fazer uma birra porque está numa fase de desenvolvimento, que a birra tem estas fases e a seguir posso atuar desta maneira, que ele me está a transmitir um pedido de ajuda e, não propriamente, um confronto comigo, se calhar, consigo perceber de que forma o posso ajudar.

Há determinadas estratégias em cursos de parentalidade que põem os pais a pensar: “Isso é muito giro, mas venha cá a casa quando ele está a espernear.” Noto muito isso na consulta de psicologia pediátrica de rotina que avalia as crianças pequenas para além dos percentis. Os pais procuram muito esta consulta como orientação e dizem-me que a partir do momento em que perceberam o que se estava a passar a situação melhorou logo.

E: A dificuldade é mesmo entender o que está por detrás do comportamento dos bebés.


CA: 
Sim, porque é preciso perceber de desenvolvimento e isso falha. Depois, se a estratégia é dar mais ou menos beijinhos, se é conversar lá fora ou lá dentro, isso depende da criatividade de cada pai e mãe e não devemos cortar isso.

E: A pensar no que é comum a muitas crianças – birras, medos, perdas e dificuldades no desfralde – escreveu uma coleção de livros infantis que servem também de apoio aos pais…
CA: Com mais ou menos exuberância, todas as crianças acabam por passar por uma ou outra destas fases. A ideia dos livros é a criança identificar-se com o animal que protagoniza a história – o leão que tem medo, a zebra que não quer ter riscas – e que representa um momento comum na infância dos zero aos três. No final do livro tento espalhar conhecimento. Explico, por exemplo, aos pais o que são os medos característicos de cada fase e as estratégias genéricas que podem utilizar. Os livros não são apenas “historinhas”, são ferramentas para os pais.

No caso das fraldas, muitas crianças têm dificuldades porque no infantário de repente toda a gente vai desfraldar e não se tem consideração o nível de desenvolvimento cognitivo e emocional de cada criança. O desfralde é uma fase do desenvolvimento, fazê-lo antecipadamente é como ter a criança sem caminhar e querer ensiná-la a correr. Largar as fraldas é um marco, é deixar de estar a brincar e fazer a coisa quando lhe apetece, é ter consciência do funcionamento da sua bexiga, do seu intestino. As crianças têm de ser capazes, em termos motores, de se sentarem durante algum tempo. Tudo isto são metas que vão conquistando e quando se conquistam o desfralde é natural.

E: As birras são também outro desafio para os pais…


CA: 
As birras são outro marco natural do desenvolvimento da criança. Mas acontecem, na maior parte das vezes, porque nós pais fazemos com que elas surjam. Os adultos controlam tudo na vida da criança: a que horas sai de casa, para onde vai, o que vai comer, o que vai vestir, a que horas se deita. Chega uma altura em que a criança começa a ter a sua autonomia e quer controlar qualquer coisa, quer decidir coisas no mundo dela. Uma forma de evitar as birras é dar à criança poder de decisão ao longo do dia. Não é deixá-la fazer tudo o que quer, mas dentro do que eu preciso que ela faça deixá-la decidir alguma coisa. Por exemplo, preciso que ela se vista. Posso dar a escolher: queres esta camisola ou esta? Não é abrir o armário e perguntar: qual é que queres? Isso seria demasiado para uma criança de dois anos. Mas se der à criança possibilidades de escolha, a parte psíquica que precisa de escolher e de sentir que controlou qualquer coisa ali à volta vai-se desenvolvendo saudavelmente. A criança fica mais segura e, ao mesmo tempo, o adulto está a fazer as coisas que quer. Se disser apenas “vamos vestir isto”, a possibilidade que a criança tem de escolher é dizer “não”, porque não lhe foi dada outra hipótese. Portanto, há formas de prevenir e de lidar com a birra quando ela aparece.

E: Muito frequentes são as birras no supermercado. Há alguma explicação?


CA: 
É preciso perceber que os supermercados, os shoppings, são locais de muita estimulação e, portanto, podem rapidamente provocar uma birra porque os bebés não têm ainda capacidade para regular todo aquele estímulo. Muitas vezes os pais pegam na criança que sai da creche onde está completamente contida –  porque também não tem grandes hipóteses de escolha e as coisas estão muito determinadas –  metem-na no carro e a caminho de casa passam pelo supermercado. É como pegar num barril de pólvora e andar a ver se aquilo explode. Se calhar era melhor depois da creche fazer a criança correr para aliviar aquela “panela de pressão” ou fazer ao contrário, ir primeiro ao supermercado e depois ir buscar a criança. Não devemos deixar de os expor às situações, mas é preciso perceber quando os estamos a expor. Há momentos que servem mesmo de gatilho.

E: No final de cada um dos seus livros escreve: “Respire fundo e lembre-se que o adulto é você”. Os pais esquecem-se disto?


CA: 
As crianças precisam imenso da ajuda dos pais para se regularem emocionalmente. Não têm sequer alguns dos neurotransmissores que os adultos têm e a nós, muitas vezes, salta-nos a tampa, a eles que não os têm mais facilmente isso acontece. Se a criança tem dificuldade em lidar com a birra e ainda levar por cima com agressividade ou berros dos adultos vai ter grande dificuldade em lidar com aquilo de forma saudável. A ciência mostra que 80% do que somos é relação e 20% é genética. Vem alguma coisa determinada, mas depois se aquele gene dispara, ou se me torno mais desta forma ou de outra, é pela relação que estabeleço todos os dias.

 

Até quando vão faltar psicólogos nas escolas?

Maio 1, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Pedro Taborda publicado no http://p3.publico.pt/ de 12 de abril de 2018.

Atentos à realidade e contexto de cada escola, são os “olhos de lince” que podem sinalizar necessidades de intervenção ainda antes de sentidas pela própria escola.

Arranca esta semana mais um período escolar em que milhares de alunos retomam as suas rotinas escolares para mais meses de aprendizagem.A educação é um factor estruturante da nossa sociedade, da nossa formação enquanto futuros profissionais e sobretudo enquanto indivíduos. É na escola que desenvolvemos novas competências e solidificamos aprendizagens, reciclando o que já sabemos, integrando aquilo que é novo, perguntando, preguntando, perguntando.

Há tarefas por fazer, compromissos por deixar concluídos e um horário por cumprir. Paralelamente, para os alunos, há expectativas a alcançar. Quer as suas, quer as dos colegas, quer as dos pais. Essas expectativas, necessárias e que se querem estimulantes, podem também ser origem de frustração e desordem quando não cumpridas. Especialmente se são impostas por outros.

Existem ainda nas escolas um sem fim de fontes de problemas que ameaçam, não só a saúde mental dos alunos, mas também a sua aprendizagem. Somos bombardeados constantemente por situações de bullying, de desgaste, de excesso de trabalhos de casa, de casos de suicídio, de consumos de álcool, estupefacientes e outros comportamentos de risco, além de casos de dificuldades em aprender bem e plenamente. Tomamos por dado adquirido (e bem) que a adolescência e desenvolvimento são sinónimos de descoberta e novas experiências, mas questiono-me se tomamos como certo e sabido como actuar correctamente.

Existem (ou deviam existir) profissionais de saúde mental que auxiliassem estes alunos. Falo, obviamente dos psicólogos nas escolas. Uma batalha antiga, longe de estar ganha. O panorama nacional é pautado por exclamações da necessidade de reforçar as nossas escolas com estes profissionais. Todos reconhecem, poucos dão o passo em frente.

As vantagens destes profissionais são notórias: para além de auxiliarem os alunos e a comunidade escolar em tempos de crise, estão aptos a intervir nessa mesma comunidade na prevenção de comportamentos de risco, na promoção do sucesso escolar e para a contribuição de um desenvolvimento mais pleno e feliz. Atentos à realidade e contexto de cada escola, são os “olhos de lince” que podem sinalizar necessidades de intervenção ainda antes de sentidas pela própria escola.

Estima-se que entre os jovens portugueses as taxas de suicídio sejam baixas (pelo menos, comparativamente com outros países, de acordo com a OCDE), mas isso não é argumento para se fechar os olhos à intervenção. Para mais, não sabemos quantos jovens sofrem em silêncio, não pedindo ajuda por receio, estigma ou não existência de formas de ajuda acessíveis. Por esta e outras razões é urgente dotar as escolas de uma resposta adequada, indo para além das campanhas de sensibilização.

O acesso à saúde mental é ainda muito desigual. Visto como algo de luxo e adiável, o acompanhamento psicológico é tido como algo “para malucos” e não para dar ferramentas para promover a autonomia e o bem estar. E, no caso das escolas, de promoção do sucesso escolar e de competências necessárias para estar bem consigo e com a comunidade. Por esta e por outras razões, os psicólogos em contexto escolar são um aliado imprescindível.

Celebrámos muito recentemente o Dia Mundial da Saúde, onde pouco se soube da estratégia para a saúde mental. Tivemos recentemente notícia de casos em que os psicólogos no sistema prisional trabalham em situações precárias. Sabemos, há muito tempo, que faltam psicólogos nas escolas. Não estará mais que na altura de agir e utilizar o imenso potencial de ajuda que podemos dar?

Haverá sempre problemas e isso não se poderá mudar. Mas podemos mudar a forma como respondemos. E responderíamos tão melhor, quantos mais psicólogos existissem nas escolas. É necessário intervir, por parte de decisores políticos para que este paradigma seja mudado. Devemos ao nosso futuro promover um ambiente saudável e apto a dar resposta aos problemas que povoam as nossas escolas. Devemos, sempre, dotar os alunos de todas as ferramentas que necessitem para atingirem os seus objectivos enquanto futuros cidadãos e enquanto pessoas.

 

 


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