Por que a garotada precisa brincar ao ar livre, segundo a neurociência

Abril 28, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, Vídeos | Deixe um comentário
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Texto do https://brasil.elpais.com/ de 30 de março de 2018.

MARIO FERNÁNDEZ SÁNCHEZ

Tempo dedicado às brincadeiras em ambientes naturais diminuiu nas últimas décadas, enquanto aumentou o número de crianças com ansiedade e depressão.

Por mais paradoxal que pareça, muitos detentos passam mais tempo ao ar livre do que algumas crianças das nossas cidades. O tempo ao ar livre em contato com a natureza, especificamente, vem diminuindo enormemente, a tal ponto que muitos meninos e meninas passam mais de 90% do seu tempo em espaços fechados. O correto desenvolvimento infantil exige movimento desde o nascimento, e a forma mais fácil e interessante de se movimentar é brincando, se possível ao ar livre.

O sistema nervoso serve para a locomoção, e as demais milhares de páginas de um manual de neurociência estão subordinadas a esse fato natural tão relevante. Trata-se de algo extraordinário, tão belo como complexo. A função primordial de um ser vivo é se reproduzir, e para isso ele precisa se aproximar de certos estímulos, como um possível parceiro sexual, e se afastar de outros, como os predadores.

Os subsistemas sensoriais e emocionais estão a serviço do subsistema motor, que por sua vez está relacionado com uma conduta de aproximação ou afastamento. Podemos comprovar isso na vida cotidiana. Se pisamos em algo cortante na piscina, levantamos o pé instintivamente. Se alguém ou algo nos atrai, nos aproximamos pouco a pouco. Do mesmo modo, nos afastamos se não gostamos de uma situação ou detectamos um perigo. Tudo é movimento, portanto. E o nosso cérebro dedica muitos neurônios à realização dessa função.

Uma grande superfície dos nossos hemisférios cerebrais – especificamente o córtex motor primário e secundário – é dedicada ao controle motor. Existem núcleos neuronais (um complexo chamado estriado, situado nas profundezas do cérebro) dedicados, entre outras coisas, ao movimento planejado. Do mesmo modo, o cerebelo, que se encontra na parte posterior do encéfalo, é outra estrutura fundamental para o movimento. Também existe um subsistema completo, chamado vestibular, para garantir o equilíbrio em todos os nossos movimentos. São muitíssimos recursos, e nossa vida depende deles.

Durante as primeiras etapas do desenvolvimento, nossa espécie aprende paulatinamente a se movimentar de maneira cada vez mais sofisticada, o que significa que aprende a comandar os subsistemas envolvidos nesse movimento: o sensorial, o vestibular, o cognitivo e, obviamente, o emocional. E essa aprendizagem se realiza na infância graças às brincadeiras.

Muitas funções do sistema nervoso têm janelas temporais de neuroplasticidade, nas quais a sensibilidade é crítica e sua formação é a ideal. Por exemplo, andar e falar são tarefas aprendidas nos três primeiros anos. A alteração da plasticidade durante períodos críticos de desenvolvimento está ligada a muitos transtornos neurológicos pediátricos.

Essas janelas têm como fundamento de aprendizagem a brincadeira em todas as suas variantes. Algumas funções são fisiológicas, como o sistema nervoso vestibular, que, como explicamos, realiza dentro do cérebro a função do equilíbrio e necessita de estímulos para seu desenvolvimento, já que do contrário a mobilidade da criança não será otimizada e ela terá medo perante qualquer desafio que envolva deslocamentos em altura, velocidade, giros ou mudança posturais bruscas. Os hematomas, cortes e arranhões são, portanto, um direito das crianças na hora de aprender. E não só isso: pretender evitá-los a todo custo pode causar déficits cognitivos e emocionais para toda a vida.

Modular a agressividade e a empatia

A brincadeira deve ser a principal atividade de uma criança. É o que seu cérebro espera: brincadeiras e mais brincadeiras, sobretudo relacionadas com a atividade física, e preferivelmente ao ar livre. Pode-se brincar sozinho – e o cérebro também precisa aprender a se entediar – e, sobretudo, em companhia. Quanto mais heterogêneas forem as idades das crianças que brincam, melhor será para o desenvolvimento das relações pessoais e para a modulação da agressividade e da empatia.

Qualquer pessoa que já tenha lidado com crianças terá observado quais são suas preferências e como se divertem quando vão a um playground, para não falar dos parques de diversões. A velocidade, as voltas, a sensação de perigo causada pela altura, os desafios do equilíbrio… Tudo isso é muito atrativo para a criança, porque o que estamos fazendo é levar seu cérebro ao ambiente onde evoluímos durante milhões de anos e ao qual estamos adaptados. Faz poucos séculos que passamos a habitar as cidades, e a evolução não foi capaz de adaptar nosso organismo a viver nelas. Quando uma criança brinca ao ar livre, preferivelmente em um ambiente natural, o cérebro agradece com uma injeção de felicidade. Há riscos? Claro, isso é viver.

Por natureza, as crianças não têm excessiva consciência do passado e do futuro – vivem o momento. Sua atividade principal é brincar. E a brincadeira permitirá que nossa prole aprenda a se movimentar com destreza, a não se machucar, a avaliar as situações de maneira adequada e, quando não houver outro remédio, a ser agressivo e sobretudo a sê-lo na medida certa, respeitando dentro do possível os valores aprendidos. Nisso o ambiente familiar tem um papel fundamental.

Se for para escolher, é melhor brincar na natureza do que na praça do bairro, porque o cérebro precisa de novidade, curiosidade e investigação. A brincadeira permite que as crianças, depois de examinar seu entorno, gerem de maneira bastante eficaz um repertório de comportamentos inovadores que podem se adaptar a um nicho específico. A exploração do desconhecido, felizmente, está nos nossos genes.

Crianças com ansiedade e depressão

Durante as últimas décadas, ocorreu nas sociedades modernas – sobretudo as ocidentais – um declínio na liberdade das crianças para brincar, especialmente em brincadeiras sociais e em grupos de idade heterogênea, longe dos olhares vigilantes dos adultos. Ao mesmo tempo, ocorreu um aumento considerável dos casos de ansiedade, depressão, sentimentos de tristeza, impulsividade e narcisismo entre as crianças.

Todos nós já fomos crianças e nos divertimos com o frio na barriga quando estávamos no topo do escorregador ou subíamos pela estrutura de ferro dos balanços. Girar nos carrosséis ou se pendurar por qualquer lado, feito um macaco – afinal de conta, é isso que nós somos –, é uma evidente fonte de prazer. Qualquer conduta que teste nosso senso de equilíbrio nos atrai como um desafio. Tanto é que, durante seu desenvolvimento, as crianças experimentam os limites para se superarem pouco a pouco. Um passo a mais, um degrau a mais, uma volta a mais… O perigo lhes atrai, pois marca esses limites.

Assim, a teoria da regulação emocional através da brincadeira propõe que uma das principais funções da brincadeira entre jovens mamíferos é a aprendizagem de como regular o medo e a raiva. Em uma brincadeira com certo risco, os pequenos aprendem a enfrentar pequenas doses manejáveis de medo, sem cair em emoções negativas por muito tempo. Assim, aprendem que é possível superar a situação e posteriormente recuperar um estado emocional normal de alegria.

As análises revelam que, ao mesmo tempo em que se limita a liberdade na brincadeira, entre cinco e oito vezes mais jovens sofrem níveis clinicamente significativos de ansiedade e depressão, segundo os padrões atuais, muito maiores que nos anos cinquenta. Assim como a diminuição na liberdade de brincar com certo risco foi contínua e gradual, também foi contínuo e gradual o aumento da psicopatologia infantil. São necessários mais estudos para corroborar isto. Por exemplo, Peter Schober, da Universidade de Medicina de Graz (Áustria), afirma que crianças sedentárias, que não assumem nenhum risco, adoecem cinco vezes mais de depressão que as que se mantêm ativas.

Eles sabem quando assumir riscos

Temos uma tendência inata a subestimar as capacidades cognitivas das crianças, mas o fato é que elas sabem melhor do que nós quando estão preparadas para assumir certos riscos. Na praia, minha filha pequena sabe perfeitamente até que altura podem chegar as ondas antes que ela saia correndo para a areia. Há pouquíssimas possibilidades de que uma onda a pegue de surpresa, pois seu cérebro ativa os mecanismos para saber onde estão os limites.

É fato que as crianças podem se enganar – se enganam mesmo, e assim aprendem –, mas não costuma ser frequente. Se não, não teríamos sobrevivido como espécie. Como as crianças enfrentam desafios e riscos manejáveis, um resultado negativo leve é aceitável. E, se não, os pais podem ficar de olho, como aliás sempre devemos fazer em praias e piscinas.

Porque é muito importante saber que nem todas as crianças são iguais. O que para uma pode ser estimulante para outra pode ser traumático. Nesta diferença os pais desempenham um papel fundamental. As crianças devem escolher o risco que podem administrar. Não devemos forçá-las a lidar com riscos maiores, mesmo se soubermos que não são prejudiciais. O ponto de vista da criança é diferente. Se ela tiver medo que uma onda lhe cubra o rosto, não se deve forçá-la, por mais que saibamos que não há problema. A melhor forma de superar desafios é a que a criança escolher. E a brincadeira é o caminho que guia essas condutas.

Vale a pena dar uma olhada neste documentário que mostra como algumas comunidades promovem a brincadeira ao ar livre, a partir da aventura, para fomentar o correto desenvolvimento físico e cognitivo da criança. O documentário está em inglês.

 

 

 

Cinco dias fora dos bairros para aprender a dar um concerto

Abril 28, 2018 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Os alunos do Acorde Maior ensaiam canto e rimas ao som do piano do professor Duarte Cardoso © João Porfírio/Observador

Texto do https://observador.pt/ de 4 de abril de 2018.

Gonçalo Correia

João Porfírio

Vivem na Buraca, na Cova da Moura, no Zambujal, no Bairro da Serafina. Com o projeto Acorde Maior, passaram as férias da Páscoa a aprender música no Village Underground. Há concerto esta sexta às 17h.

João tem 9 anos e mora na Amadora. O que mais gosta de fazer é jogar futebol. Mayra tem 23, é angolana e vive no bairro de Campolide. Adora música, sobretudo hip hop português. Mingo é o mais velho. Tem 23 anos, é cabo-verdiano, mora na Buraca (Amadora) e diz que há poucas coisas que o deixem tão feliz quanto estar com crianças (fica “um pouco mais animado e mais aliviado com algumas coisas”). Os três fazem parte de um grupo de 26 jovens, a maioria dos quais carenciados, que nos últimos dias passaram umas férias da Páscoa diferentes no VillageUnderground, em Alcântara, Lisboa. E o resultado pode ser visto e ouvido esta sexta feira no VU às 17h.

O que os juntou ali foi o Acorde Maior, um novo projeto de solidariedade social que coloca estes jovens a aprender música, tocando instrumentos musicais e colaborando uns com os outros, com a orientação de três professores e formadores portugueses (Duarte Cardoso, Joana Araújo e Teresa Campos) habituados a desenvolver projetos educativos através da música. “Estão aqui jovens que nunca teriam a oportunidade de conhecer o Village Underground nesta dimensão de estarem aqui livremente, passarem aqui uma semana inteira a aprender com estes professores incríveis”, explica Mariana Duarte Silva, fundadora e gestora do espaço. “Às vezes sou capaz de estar cinco ou seis meses à procura de um patrocinador ou de um apoio para fazer um evento e acabo por receber uma resposta negativa muito em cima. Desta vez foi o contrário.”

Esta é a primeira vez que o espaço de coworking destinado a agentes das indústrias criativas — que está prestes a celebrar o quarto aniversário — acolhe um projeto de ação social para crianças e jovens. “Sempre tivemos a vontade de trabalhar mais com a comunidade aqui de Alcântara e também com outros bairros perto de nós. O Village Underground londrino já fazia isto, também. Conhecemos o José Crespo, que trabalha no Barbican Center em Londres, onde faz projetos destes. Está a tirar uma sabática em Portugal e queria fazer projetos com o Village Underground daqui”, conta Mariana Duarte Silva.

Numa conversa informal entre José e Mariana surgiu a ideia: “Porque não juntar esta minha vontade de fazer projetos com miúdos e com música com a experiência que ele tem? Juntámos as duas coisas e só faltava um apoio financeiro. Felizmente conseguimos e assim nasceu a primeira edição do Acorde Maior. Quando há um projeto com objetivos muito definidos e com participantes já com experiência comprovada, é mais fácil convencer uma marca a apoiar. E depois, como é óbvio, o conteúdo do projeto em si é só por ele nobre”, diz a responsável.

“Queremos abrir-lhes os olhos e os ouvidos”

“Entrevistámos um entrevistador”, ri-se o grupo de Mingo Furtado com entusiasmo. No segundo dia do projeto — terça-feira, 3 de abril –, uma das tarefas que Duarte Cardoso, Joana Araújo e Teresa Campos deram aos jovens que o Acorde Maior levou ao Village Underground foi passearem pelo espaço (situado no antigo museu da Carris) em grupos e recolherem imagens, sons, textos e conversas que encontrem e tenham pelo caminho. Os próprios repórteres presentes não escapam a uma entrevista — daí a primeira frase.

“Nestes primeiros dois dias estamos a testar muita coisa. A algumas eles reagiram melhor, a outras pior”, conta Joana Araújo. O objetivo é que “eles sintam que fizeram parte de uma coisa que é muito maior do que eles” (diz Duarte Cardoso), que “sintam que o que construíram nesta semana veio deles, diz-lhes alguma coisa” (refere Joana ) e que os formadores lhes consigam “estimular a criatividade para serem pessoas atentas e despertas, curiosas, que são capazes de olhar para uma pedra e ver a forma, a cor, a textura, o som. Abrir-lhes os olhos e os ouvidos e misturá-los, porque queremos que eles se conheçam uns aos outros” (diz Teresa Campos).

A abordagem que os três professores — que já se conhecem bem, já trabalharam juntos (os três fizeram aliás um mestrado em projetos educativos em Londres) e até gostavam de trabalhar mais — seguem tem muito a ver com a estimulação da criação individual. “Muito deste processo depende do que os miúdos trazem, daquilo com que eles se identificam, de coisas que nos rodeiam”, refere Teresa Campos. “Tem a ver com a abordagem do [compositor canadiano e especialista em educação musical] MurraySchafer, de trabalharmos a paisagem sonora, de termos uma abordagem pelos sentidos, de trabalharmos a audição. E para nós também é muito importante a psicogeografia, isto é, deixar que o ambiente influencie a arte que nós estamos a criar”, acrescenta Duarte Cardoso. Daí a recolha de matéria-prima (sonora, visual, textual) ao ar livre.

“Encontrei pessoas angolanas, pessoal que dança…”

Outra das tarefas que os 26 jovens tiveram de cumprir foi selecionarem (cada um deles) um excerto de cinco segundos de uma música de que gostassem. Houve quem escolhesse temas de Ana Moura, D.A.M.A. e Anjos e houve quem escolhesse canções de rap (por exemplo, de Rafa G, que faz rap crioulo).

Mayra é uma das várias jovens que gosta de hip hop. Tem 20 anos, veio de Angola para Portugal com três anos e trabalha com música numa associação do seu bairro. Quando o Observador a encontrou, estava a gostar da ideia de poder recolher sons e manipulá-los depois numa máquina chamada loopstation“A Teresa [Teresa Campos, professora] estava a usar isso e dá muito jeito para concertos, perguntei-lhe logo o nome quando ela estava a usá-lo, é mesmo interessante”, diz a fã de Slow J, Valete, NBC, Mundo Segundo e Sam the Kid, também satisfeita por ter encontrado “pessoas angolanas, pessoal que dança…”.

Enquanto João, com nove anos e a camisola do Benfica vestida, vai correndo com uma bola de futebol debaixo do braço, enquanto outros miúdos dançam e sobem e descem o skate park do Village Underground no intervalo das aulas-ensaios, Mingo, o mais velho dos membros do grupo, vai contando a sua história.

“Se eu não estivesse aqui, estaria na Academia do Johnson, onde acompanho miúdos e sou treinador. Estaria lá, a ajudar, porque temos muitos miúdos lá, uns 70”, diz ele. E acrescenta: “Gosto de estar com eles a apoiar e a ensinar um pouco daquilo que eu sei e daquilo que já passei. São lições de vida, que lhes conto para eles mais à frente não passarem ou não cometerem tantos erros como os que eu cometi. Ou, talvez, como eu vi os mais velhos cometerem.”

A academia do Johnson, que trabalha com jovens carenciados em vários bairros de Lisboa (da Cova da Moura e Boavista à Buraca, onde Mingo mora), pode estar a sentir a sua falta mas Mingo está contente com as experiências que tem tido nestas férias. “Está a ser engraçado, estamos a aprender coisas novas”, diz, acrescentando: “Quando vim para aqui, pensei que ia encontrar pessoas mais velhas mas também gosto de estar com crianças. Chego aqui e encontro um monte de crianças, é a minha área, é a área que eu gosto. Estando ao pé deles sinto-me um pouco mais animado também com algumas coisas…”

“Há aqui miúdos que dançam, há rappers, há beatboxers”

“Eles se calhar nunca vinham cá se não fosse esta semana”, desabafa Mariana Duarte Silva, enquanto vê os alunos brincarem nos seus 15 minutos de intervalo. “A única exigência, vá, que nós fizemos foi que viessem jovens da junta de freguesia de Alcântara, que vivessem aqui no nosso bairro. Acabaram por vir também jovens do projeto Aldeias de Crianças SOS.”

Os restantes alunos foram escolhidos a partir dos contactos pessoais de Mariana Duarte Silva com instituições. “Trouxe crianças do bairro do Zambujal e da Cova da Moura, onde há uma instituição chamada Ajuda-me a Ajudar que faz projetos maravilhosos. Também vieram cinco jovens do programa Escolhas, de uma instituição chamada Soma e Segue que fica aqui no bairro da Serafina e que combate o abandono escolar e convidei cinco filhos de funcionários da Carris, porque faz todo o sentido — estou aqui nas instalações da Carris, são miúdos que até já têm alguma experiência musical e fazia todo o sentido estarem neste grupo”.

Teresa Campos, uma das professoras, explica que conhecer os alunos foi um dos passos fundamentais para perceber o que de melhor podiam preparar para a apresentação pública que os alunos vão fazer na sexta-feira, às 17 horas: “Há aqui miúdos que dançam, há rappers, há beatboxers. No fundo queríamos aproveitar o que cada um tivesse — mas claro que precisamos de ter truques na manga para o caso de eles não se sentirem confortáveis a partilhar coisas com os outros”.

Misturar é preciso

Um dos desafios foi misturar jovens vindos de bairros diferentes, pô-los em contacto uns aos outros. “A maior preocupação de início, acho que é a de qualquer formador, é que o jovem se sinta integrado no grupo — não só no grupo com que veio, mas no grupo inteiro. Manter a motivação deles é um desafio, temos de nos adaptar a eles em vez de acontecer o contrário. Quando lhes começamos a dizer que vamos formar grupos e que não vão ficar com o amigo que já conhecem… nem sempre corre como nós planeamos, mas a experiência diz-nos que normalmente vai correr bem, porque eles são obrigados a falar uns com os outros, exploram o espaço e ganham com isso. Estamos sempre a tentar criar estratégias que os obriguem a misturar-se, hoje foi o segundo almoço e já vimos algumas dinâmicas novas.”

As características do espaço também moldam a forma dos professores trabalharem — e dos alunos aprenderem. O grande espaço ao ar livre existente entre o Village Underground e os portões de entrada do Museu da Carris (do qual os alunos estavam proibidos de transpor) potenciou as dinâmicas, por ser “suficientemente seguro e suficientemente ao ar livre”. Acrescenta Joana Araújo: “Quando chegámos cá foi evidente que tínhamos de fazer este tipo de trabalho [no exterior]. E quando vimos que o que eles traziam era eles mesmos — só três é que tocam instrumentos, alguns têm aulas de dança mas não têm experiência musical — mais natural nos pareceu que eles recorressem ao que tinham: os olhos, os ouvidos… estamos numa parte engraçada do processo em que eles ainda não percebem bem no que vai resultar esta recolha, estes primeiros dias”.

A seguir aos primeiros dias (onde os jovens foram ainda instados a criar uma letra e a cantar e rimar), conta Teresa Campos, virá “uma fase mais de montagem”, em que formandos e formadores vão percebendo juntos “se há materiais que nós criámos separadamente que se podem juntar, em que vamos decidir um bocado a forma [da apresentação]. Mas em cinco dias… só no último, mesmo no fim, é que há realmente uma imagem definitiva do que vai sair [na apresentação]. E quando eles apresentam estão com aquele nervoso miudinho.” Há também uma conversa com Pedro Coquenão (do projeto Batida), artista residente do Village Underground que vai trocar impressões e experiências com os alunos — e contar como é ser um músico adulto. Os mais novos, esses querem quase todos ser coisas diferentes. José, Joana, Duarte, Teresa e Mariana, só querem que esta semana não lhes saia da memória.

 

 

 


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