Workshop “Falo bem para ir para o 1º ano?” 13 abril em Mira Sintra

Abril 9, 2018 às 10:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Inscrições através do e-mail: cmr@cecdmirasintra.org, até dia 11 de abril

mais informações:

https://www.facebook.com/cecd.mirasintra/

Silvina está há oito anos em Portugal mas o filho ainda não tem direito ao SNS

Abril 9, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 26 de março de 2018.

Esteve anos até conseguir trazer os filhos de Cabo Verde. Quando finalmente chegaram, o SEF marcou a data de entrega do cartão de autorização – que já tinha aprovado – para seis meses depois. Nesse período um dos filhos de Silvina Lopes ficou doente: as contas no hospital já somam quase tanto como a renda de casa.

JOANA GORJÃO HENRIQUES

Quando há oito anos saiu da Praia, capital de Cabo Verde, Silvina Lopes deixava para trás sete filhos. Tinha sido vendedora ambulante em vários locais da ilha de Santiago, uma rabidante, como se chama. Na Assomada, no Tarrafal, na Praia, Silvina Lopes vendia roupa para homem e mulher, mas o que ganhava não chegava para alimentar as oito bocas. Sentada num escritório em Queluz, linha de Sintra, fala da família com a voz trémula e baixa os olhos. É nitidamente um assunto que a incomoda.

Mãe solteira, Silvina Lopes veio para Portugal à procura de uma vida melhor para ela e para os filhos, conta. A ideia era legalizar-se para depois mais tarde os trazer. Não pensou que fosse tão difícil. Nem que viesse a acumular dívidas no Serviço Nacional de Saúde (SNS) por causa dos atrasos na entrega de um cartão. Mesmo quando já ultrapassou todas as provas exigidas, Silvina Lopes tem que esperar meses pelo documento que dá aos filhos o acesso aos seus direitos como cidadãos — o abono de família, ou os cuidados médicos.

A sua história é uma mistura de outras tantas histórias de imigrantes que acabam a trabalhar na limpeza ou como domésticas. Quando chegou a Lisboa, começou por ficar em casa de uma familiar na Amadora, até encontrar emprego como trabalhadora doméstica interna em Oeiras, linha de Cascais. Cuidava de três crianças, dos 14 aos 8 anos, tratava da limpeza, passava a ferro, cozinhava, fazia tudo das 7h às 23h, com poucas horas de intervalo. Ganhava 400 euros, sem contrato de trabalho, essencial para conseguir a autorização de residência emitida pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). “Pedia o contrato mas os patrões diziam que não dava”, conta.

Ao fim de dois meses decidiu que não iria continuar a aceitar aquelas condições e foi-se embora. Começou a trabalhar num restaurante no centro de Lisboa, em Alcântara, com dois turnos: das 10h às 15h e das 17h às 23h, por 550 euros. Ficou um ano e tal. E durante um ano e tal foi pedindo contrato aos patrões. Ouviu sempre “que iam fazer, iam fazer”. Mas nada, e Silvina Lopes continuava em situação irregular.

Entretanto, ia fazendo os descontos para a Segurança Social na expectativa de ir ao SEF no dia em que lhe assinassem finalmente o contrato — descontar era uma condição exigida pelo Estado nessa altura para atribuir uma autorização de residência a quem já estava em Portugal e queria ficar a trabalhar (requisito esse que foi anulado com as recentes alterações à lei). “Sofri muito naquele trabalho. Entrei como copeira, passei a ajudante de cozinha, fazia limpeza, fazia sobremesas, estava tudo em cima de mim”, queixa-se. “Mas precisava de dinheiro e dos documentos.”

Os donos do restaurante chegaram a dizer-lhe que tinham pago a sua parte da Segurança Social. Não era verdade, descobriu mais tarde. Sem documentos, com os patrões a recusarem fazer contrato, decidiu ir de novo embora.

Mais tarde entrou numa empresa de limpeza que lhe deu finalmente o contrato com o qual conseguiu ir ao SEF e legalizar-se. Ao mesmo tempo, trabalhava “em casa de patrão”. Hoje diz que lhe falta apenas uma hora para as 40 semanais no hipermercado onde está como empregada de limpeza há três anos, subcontratada por uma empresa.

Com a vida mais estável e algum dinheiro poupado, no ano passado conseguiu finalmente ter condições para mandar vir três dos seus filhos, dois meninos e uma menina de 18, 17 e 14 anos.

Mudou-se de um quarto alugado para um apartamento que arrenda por 350 euros por mês, em Queluz. Tinha ainda outro trabalho (que entretanto perdeu porque a empresa fechou).

Ao longo de oito anos, Silvina conseguiu voltar a Cabo Verde apenas duas vezes. Em Maio pôs os papéis no SEF para trazer os filhos, andou para trás e para a frente, teve de entregar certificado de meios de subsistência — uma portaria do SEF exige que ela ganhe o salário mínimo, mais 30% por cada filho menor — , comprovativo de que tinha alojamento, entre várias outras provas.

Direito a juntar a família

Estava a usufruir de um direito consagrado na lei portuguesa de estrangeiros que permite ao cônjuge, filhos menores ou incapazes, adoptados, filhos solteiros a estudar, e outros familiares juntarem-se. É, de resto, reconhecido pelas Nações Unidas o direito do trabalhador imigrante se reunir com a sua família. Foi o que aconteceu a 7500 cidadãos que foram regularizados em Portugal por via do reagrupamento em 2016 (últimos dados disponíveis). Mas a burocracia no SEF trava ou atrasa muitas vezes a sua concretização.

Silvina recebeu luz verde para as crianças virem. Entre o valor das passagens de avião e seguros de viagem gastou mais de mil euros. Foi dinheiro que “juntei, juntei, juntei” diz.

Em Setembro chegaram finalmente os filhos, a tempo de começarem a escola. Só que a dor de cabeça começou aí.

Como habitual, depois de autorizado o pedido de reagrupamento familiar, o SEF comunicou ao Ministério dos Negócios Estrangeiros para que, junto do Consulado respectivo, iniciasse o processo de concessão de visto de residência.

Depois disso, já com os imigrantes em Portugal, é necessário que o SEF emita não um visto mas uma autorização de residência. Quando os jovens chegaram a Portugal foi isso que a mãe fez, dirigir-se ao SEF para formalizar a regularização.

O problema é que nada disto é automático ou breve. Demora outro longo período, quase como se estivesse a iniciar o processo desde o princípio. A família está à espera dos cartões desde essa altura, há seis meses. O que quer dizer que, apesar de Silvina Lopes descontar para a Segurança Social, não pode receber o abono de família, os filhos não têm escalão do serviço de acção social que lhes permite ter acesso a refeições e manuais escolares grátis mas sobretudo não podem usar o SNS sem pagar elevadas taxas.

Segundo o SEF, o prazo de instrução para estes casos é de três meses mas pode ser prorrogado. É o que está a acontecer a Silvina Lopes. O preço do processo não é baixo: os valores para os pedidos variam de um mínimo de 38,60 euros (para nacionais de países com os quais Portugal celebrou acordos de isenção de taxas) até um máximo de aproximadamente 300 euros, acrescenta aquele organismo.

A espera é, assim, o grande drama da família neste momento porque, entretanto, já em Portugal, foi diagnosticado a um dos filhos de Silvina Lopes um problema de saúde — que diz não saber o quê é. Desde os dez anos que ele vivia sem a mãe.

Internado três vezes

O jovem já foi internado três vezes e a mãe recebeu várias contas em casa, a ascender os 300 euros, quase o que paga pela casa. Sem cartão de utente, o filho não pode ter acesso aos hospitais de forma gratuita.

Ela já explicou várias vezes na Segurança Social o problema: já tem a autorização. Mas de nada lhe serve. “Por que é que tenho que fazer a marcação, se o SEF já deu autorização?”, questiona-se.

Subtraindo ao seu vencimento o custo do passe social (na sua zona, 70 euros) e a renda da casa, pouco lhe sobra para alimentar os filhos. “Não tenho ajuda.”

Recebe pouco mais de 500 euros, mas basta chegar uns minutos atrasada, ficar doente, ter uma consulta, ter algum problema que a impeça de trabalhar para esse valor descer porque é paga à hora, queixa-se. Por isso, em oito anos, “nunca” foi a um hospital. Tem uma dor no joelho há muito tempo mas está a adiar a consulta. Não se pode dar ao luxo de ficar doente. “Senão não ganho”, diz. “Não quero ter dívidas.”

O processo, no SEF, já está completo. O longo período de espera deverá estar prestes a chegar ao fim. Marcaram-lhe a entrega oficial da autorização de residência do filho para fim deste mês. Só as dívidas no SNS que foi acumulando é que continuarão a aparecer na sua conta.

 

 

 

Açorianos recorrem ao SOS-Criança para ‘falar com alguém’ – Entrevista de Manuel Coutinho do IAC

Abril 9, 2018 às 1:30 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista do Dr. Manuel Coutinho (Secretário–Geral do Instituto de Apoio à Criança e Coordenador do Sector SOS-Criança do Instituto de Apoio à Criança).

Notícia do http://www.diariodosacores.pt/ de 8 de abril de 2018.

Escrito por A Redacção

Manuel Coutinho, psicólogo clínico, Coordenador do SOS-Criança

Diário dos Açores – O SOS-Criança acaba de divulgar os números da actividade de 2017. Relativamente aos Açores o que é que mais destaca?

Manuel Coutinho – O SOS-Criança é um serviço do Instituto de Apoio à Criança, anónimo e confidencial e de âmbito nacional.

Este serviço de prevenção funciona, desde 1988, nos dias úteis entre as 9h00 e as 19h00, através do número telefónico gratuito 116111, do Chat online (www.iacrianca.pt) e do e-mail (soscrianca@iacrianca.pt Este endereço de email está protegido contra piratas.  tem como objectivo:

– Ouvir e dar Voz à Criança; Promover o desenvolvimento harmonioso e integral da criança; Apoiar a Criança e a Família; Prevenir situações problema; Garantir à criança o direito à palavra, protecção em situação de risco e/ ou mau trato, quando privada de afeição, isolada, abandonada, ameaçada de agressão física, sexual, negligenciada ou obrigada a trabalhar prematuramente; Sensibilizar as estruturas comunitárias e a sociedade em geral, para a problemática da criança em risco e em perigo.

No ano de 2017, o Serviço de Atendimento Telefónico SOS-Criança recebeu um total de 1841 chamadas, das quais, 1389 referiram-se a apelos efectivos que resultaram numa intervenção por parte dos técnicos, no sentido de informar, apoiar, orientar e/ou encaminhar os apelantes consoante as situações-problema expostas.

Em termos gerais, constatou-se que os apelos recebidos  pelo SOS-Criança, em 2017, vieram de todas as regiões de Portugal. Sendo a maioria dos apelantes residentes no distrito de Lisboa (26%), no do Porto (20%) e na Região Autónoma dos Açores (8%).

No que diz respeito à Região Autónoma dos Açores, em 2017, destacou-se a problemática “Falar com alguém”. Os apelantes nestas situações, recorrem ao Serviço para receber apoio psicológico, conversar sobre os seus problemas e expor situações da sua vida, procurando no SOS-Criança um suporte que as possa ajudar a ultrapassar as situações.

Há muitas chamadas por causa de casos de pedofilia, mas existem outros casos para os quais é pedida ajuda do SOS-Criança. Certo?

Em 2017, o SOS-Criança recebeu 24 situações de suspeita de abuso sexual e pedofilia. Situações essas que deram origem à abertura de um processo interno e ao respectivo encaminhamento para as autoridades competentes, para que pudessem analisar a veracidade das suspeitas.

O SOS-Criança é um serviço específico para situações inespecíficas. A nível nacional o SOS-Criança, para além da escuta empática que proporciona às crianças, registou um elevado número de  situações de negligência, crianças em risco e em perigo.

Todos temos o dever de apresentar ao SOS-Criança, através do telefone 116111 situações que cheguem ao nosso conhecimento e que possam colidir com a promoção e a defesa dos direitos da criança.

Comparando com anos anteriores qual é a sua percepção relativamente aos Açores? Há mais chamadas agora, mantém-se no mesmo ritmo ou diminuiu?

Em relação à Região Autónoma dos Açores, o número de apelos registados no Serviço SOS-Criança, através da linha nacional de atendimento, com o telefone nº 116111, comparativamente a 2016 diminuiu.

É de salientar que o Instituto de Apoio à Criança, Açores, criado em 1993, tem  entre as suas valências, o número de telefone regional – SOS Criança Açores, 296283383, serviço anónimo e confidencial que tem atendimento entre as 09:00 e as 17:00 e que também dá resposta às múltiplas situações da Região Autónoma dos Açores. O SOS – Criança nos Açores, é uma linha de apoio de situações para a qual, todos poderemos recorrer para fazer denuncias, ou até mesmo, para pedir aconselhamento e orientação.

Com a participação cada vez maior de jovens nas redes sociais certamente que será maior o número de casos de aliciamento, ameaças etc. Como combater este fenómeno?

Temos todos muito a aprender. Há sempre quem possa aproveitar-se “ilicitamente” nas redes sociais dos nossos dados e das nossas informações, em boa verdade, há muitos perigos. Urge prevenir.

As redes sociais têm modificado a forma como nos relacionamos uns com os outros e a sua utilização tem trazido muitos benefícios desde que  utilizadas de forma segura. No entanto, todos temos de ter algumas precauções. Uma das precauções a ter em conta, prende-se com o cuidado que devemos ter em não divulgar informações pessoais, nomeadamente local onde reside, escola ou outros dados que nos possam identificar a nós e à nossa família, etc., principalmente se forem crianças os protagonistas.

As fotografias de crianças não devem ser expostas nas redes sociais. Esta prática pode ser lesiva para a criança. Os pais não  devem divulgar fotografias dos filhos nas redes sociais, devem sim, assegurar o direito à sua imagem e à reserva da intimidade da  vida privada dos seu filhos menores de idade.

Gostava ainda de salientar que por desconhecimento e sem noção  que estas situações podem colidir com os direitos da criança, muitas pessoas fizeram e por vezes, ainda fazem, uma má utilização das redes sociais.

Agora que já todos sabemos o perigo que  corremos, temos de minimizar as  práticas que não são favoráveis ao superior interesse da criança. É tempo de parar, de informar e de proteger de riscos desnecessários todos os utilizadores directos ou indirectos das redes sociais, principalmente as crianças e jovens.

Que mensagem final gostaria de deixar às famílias açorianas?

Ninguém se pode alhear da realidade que actualmente ainda cruza a vida de muitas crianças inocentes. Realidade amarga, dura e cruel, sempre tão injusta e cobarde.

Os direitos das crianças têm de ser sempre uma prioridade.

Através da educação temos de igualar as oportunidades de crescimento e de desenvolvimento saudável das crianças.

Cada um de nós tem de ser atuante.

Ninguém pode silenciar situações que colidam com o Superior Interesse da Criança.

Ninguém se pode esquecer que em pleno século XXI ainda há crianças em risco e em perigo que sofrem em silêncio.

Ainda há crianças que não brincam e que não vêm os seus direitos reconhecidos.

Cada um de nós pode ser o seu defensor, o seu farol de esperança se não permitir que as crianças tenham os seus direitos beliscados ou violados.

jornal@diariodosacores.pt

 

 

Carta aberta – Pedido de ajuda aos youtubers portugueses

Abril 9, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no https://observador.pt/ de 29 de outubro de 2017.

Deparo-me cada vez mais com crianças e pré-adolescentes com sintomas de ansiedade, insónias a despertares nocturnos, pesadelos e medos que estão, de alguma forma, relacionados com os vossos vídeos.

Caros youtubers, sejam aqueles com mais ou menos subscritores e seguidores e cujos vídeos têm mais ou menos visualizações, esta carta é um pedido de ajuda feito a todos vós.

Enquanto mãe e psicóloga, tenho acompanhado de perto o vosso trabalho. Sei os vossos nomes, conheço muitos dos vossos vídeos e insta stories, sei o que gostam de publicar e de que forma se distinguem uns dos outros. Já estive presente em 3 meets (é assim que se diz, certo?) e, ao longo das várias horas de espera (sentada no chão) pude observar quem vos segue. Centenas de crianças e pré-adolescentes, rapazes e raparigas. Uns pintam o cabelo de azul ou fazem totós no alto da cabeça para ficarem parecidos com os seus ídolos. Outros levam presentes ou desenhos para vos oferecer. Muitas raparigas choram ou gritam, ou ambos. Os rapazes, ainda fiéis aos bons estereótipos de género, controlam as lágrimas, mas é visível toda a emoção que sentem.

Em consulta, tenho-me deparado com uma frequência crescente com crianças e pré-adolescentes que apresentam sintomas de ansiedade, desde insónias a despertares nocturnos, pesadelos e medos variados. Na mente de muitas destas crianças os conteúdos destes sintomas estão, de alguma forma, relacionados com os vossos vídeos, sejam porque estes apresentam jogos de computador com conteúdos mais agressivos, ou porque testam a veracidade da história da Maria Sangrenta, ou porque abordam palhaços assassinos, ou porque… ou porque….

Naturalmente, a responsabilidade em supervisionar aquilo a que as crianças assistem na internet é dos pais e cuidadores. É destes o dever de estar atentos, filtrar os conteúdos em função da idade e nível de desenvolvimento dos filhos. No entanto, e por motivos diversos, nem todos os pais o conseguem fazer. Uns por falta de tempo e atenção. Outros porque acreditam que os filhos têm já essa capacidade de análise crítica. Outros porque são enganados pelos filhos, que navegam na internet quando os pais já dormem. E há ainda os pais que, embora atentos e com capacidade de supervisão, não conseguem, de todo, controlar aquilo a que os filhos assistem quando estão na escola, através dos telemóveis dos colegas.

Face a isto, surge o meu pedido de ajuda. Não vos peço, naturalmente, para alterarem a vossa estratégia ou o tipo de vídeos que, no fundo, vos caracteriza.

Peço-vos sim para, enquanto modelos a que estes jovens aspiram, ajudarem-nos a ultrapassar algumas dificuldades e a desenvolver algumas competências.

Como?

Antes de mais, explicar como funcionam os modelos. Os modelos têm um impacto muito importante nas aprendizagens que fazemos, na medida em que muito do que aprendemos é fruto daquilo que observamos. E ao observarmos modelos pelos quais sentimos empatia e simpatia, e com os quais nos identificamos, de forma natural e, muitas vezes, de forma inconsciente, estamos a aprender. Ora, será então natural que, quando os nossos modelos são reforçados ou punidos (por exemplo, quando se assustam, quando gritam, quando expressam medo ou alegria), também nós podemos experienciar essas mesmas emoções.

Ora, face a isto, de que forma imagino a vossa ajuda?

Imagino vídeos onde possam expressar dificuldades em algumas situações, em que não desistem, e em que pensam na melhor forma para ultrapassar todo o tipo de obstáculos. O que chamamos de modelos de confronto, ou seja, modelos que não são perfeitos (e com quem mais facilmente todos nos identificamos), mas que encontram estratégias adequadas para lidar com os problemas. São estes modelos que apresentam uma maior probabilidade em ser seguidos e imitados.

Imagino vídeos a que as crianças possam assistir e aprender essas mesmas estratégias.

Como lidar com os medos? Sim, porque todos temos medos.

Como lidar com a ansiedade? Sim, porque todos nós sentimos ansiedade.

O que fazer perante uma dificuldade? Como tomar uma decisão mais adequada? Sim, porque todos temos dúvidas em relação à forma como lidamos com a adversidade.

Mas há mais. Se me permitem, imagino ainda algo adicional. Imagino que nos vossos meets sugerem aos fãs que levem, por exemplo, comida ou ração para os animais abandonados, roupa ou calçado para as pessoas que vivem na rua, livros para as crianças que não os têm. E ao imaginar isto, visualizo centenas de crianças e pré-adolescentes ao rubro, por poderem ouvir, falar, abraçar e tirar fotografias com os seus ídolos mas, também, por sentirem que contribuem para o bem-estar de alguém.

É este o meu pedido de ajuda.

Até ao próximo meet,

Psicóloga clínica e forense, docente universitária

 

Investigadora alerta: “quando estão sobre-estimuladas, as crianças perdem o interesse em aprender

Abril 9, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da http://activa.sapo.pt/ a Catherine L’Ecuyer no dia 19 de maio de 2017.

Foto da http://activa.sapo.pt/

Estamos a matar a curiosidade das crianças à força de querermos ensinar-lhes imenso o mais cedo possível? A investigadora canadiana Catherine L’Ecuyer, autora do livro ‘Educar na Curiosidade’ (Planeta) explicou-nos qual é o melhor método para não destruir a capacidade de aprendizagem dos mais pequenos.

Catarina Fonseca

Afinal, estamos a matar a infância?

Não estamos a matá-la, mas estamos a queimar ou adiantar etapas imprescindíveis. Queremos que as crianças aprendam muitas coisas antes de tempo, quando não poderiam aprendê-las. Quando transformamos a brincadeira numa etapa de educação formal, estamos a matar a capacidade que a criança tem de descobrir o mundo.

Porque é que a curiosidade é tão importante?

As crianças nascem com o desejo de conhecer, e isso é que é o motor de toda a aprendizagem. O que acontece é que a curiosidade nasce espontaneamente. Se forçamos a aprendizagem, se levamos a criança pela mão, essa curiosidade deixa de vir de dentro e desaparece e a criança não aprende, porque o desejo de aprender não nasceu dela, foi-lhe imposto.

Destruir a curiosidade é fatal para a aprendizagem?

Sim, mas não o fazemos por mal, porque os pais querem o melhor para os filhos. O que acontece é que temos muitos ‘neuro-mitos’, ou seja, pensamos que quanto mais estímulos, mais esperta vai ser a criança, e não é assim. Em vez de encher a criança de ipads e e brinquedos educativos, os pais têm de escolher brinquedos que precisem de ‘ser brincados’, não que puxem pela criança. A criança é que tem de brincar com eles. Então, quanto menos botões e pilhas, melhor. E há mil exemplos de brinquedos destes, como Legos ou bicicletas.

Se damos tudo às crianças, não nos arriscamos a criar filhos ‘aborrecidos’, que já não ‘vibram’ com nada?

Totalmente. Esse aborrecimento é a consequência da sobre-estimulação. Quando estão sobre-estimuladas, as crianças perdem o interesse em aprender, porque passam a depender dos estímulos. Quando estão sobre estimulados e regressam ao mundo real – a casa, a escola, o parque – tudo aí lhes parece lento e monótono. Portanto, o importante é voltar a ligá-los à realidade. Em vez da palavra ‘estimular’, prefiro a expressão ‘criar um ambiente’ em redor da criança, onde ela é que descobre a realidade. Quer dizer, pode haver um ‘maestro’ que esteja presente, que planeie esse ambiente, que brinque com a criança, mas não são precisas luzes nem programas nem filmes nem ipads.

Queremos que as crianças tenham todas essas coisas, mas a verdade é que não podemos prever o futuro…

Claro que não. Por exemplo, estamos a educar as crianças com tablets, mas o mais provável é que quando sejam adultos, os tablets já não existam. Então, estamos preocupados com equipamentos digitais que já não serão pertinentes no momento em que entrarem no mundo laborar. Além disso, não há nenhum estudo que ligue as competências tecnológicas das crianças com o seu êxito académico ou profissional.

As crianças não aprendem com dvs?

Não, porque uma criança pequena não tem pensamento abstracto. Um adulto pode aprender com um dvd. Uma criança pequena aprende com a realidade, com o toque, com o cheiro, com a voz, com a presença das pessoas. E com o silêncio, que é tão necessário à construção da sua interioridade. E um écran não lhe dá nada disto.

Então qual deve ser o papel das novas tecnologias na vida dos mais pequenos?

Educativo é que não. Se usarmos um tablet para ver um filme de vez em quando, tudo bem. Aliás, eu não sou contra o seu uso. O que quero é que se conheçam os estudos e o que dizem sobre cada idade. O que a Associação Americana de Pediatria recomenda é que as crianças até 2 anos não tenham acesso a absolutamente nenhum écran. E mais tarde, também não há nenhum estudo que relacione o seu uso com o sucesso escolar, ou outro.

Mas tentar controlar o uso de tablets e afins não é uma batalha perdida?

A expressão ‘batalha perdida’ é o princípio de todos os desastres educativos (risos). Não podemos desistir, porque somos os principais cuidadores. O que acontece é que temos de dar alternativas e não controlar. Se damos a escolher entre ir à pesca com o pai ou passar o dia inteiro sozinho agarrado a uma consola, que acha que a criança prefere?

Bem, alguns preferem de certeza ficar na consola…

Os mais crescidos, sim. Por isso é que eu digo que não devemos perder o comboio enquanto são pequeninos. Mas como o cérebro é plástico, podemos sempre fazer marcha-atrás e há sempre oportunidade para mudar.

Também há pais que vão no sentido oposto e proíbem tudo…

Acho melhor que uma criança pequena não tenha écran nenhum do que termos de transformar-nos em polícias digitais e passar o dia a dizer ‘não’. E note: não se vai passar absolutamente nada se negar um tablet ao seu filho. Não vai ficar para trás, não vai ficar traumatizado, não vai ser ostracizado, não lhe vai acontecer nada de mal. O pior que pode acontecer: uma grande birra. É uma escravatura ter tantos écrans em casa, portanto simplifiquemos a educação. Os écrans são bons: mas tudo tem o seu tempo. E a melhor preparação para o mundo digital é o mundo real. Primeiro temos de educar a criança para o mundo real: sensatez, força interior, consciência de si próprio, auto-controle, tudo isto são qualidades que a criança tem de ter antes de ter um tablet, antes de entrar no mundo digital.

Se não fiz isto e o meu filho cresceu, é possível voltar atrás?

Sempre. Mas eu não gosto de dar conselhos, e cada pai e mãe fará o que achar melhor segundo a informação que tem. O que eu ensino é o que dizem os estudos. Mas não pode ser nem a indústria nem a escola nem a criança a mandar em casa. Quem manda em casa são os pais, e a sua sensibilidade em relação ao conhecimento que têm dos seus filhos.

Se quero ter uma criança esperta, que devo fazer?

Espertas já elas nascem. Não estrague isso. Mas se quer ter uma criança amorfa, então basta entupi-la de estímulos. Achamos que é essa a chave do êxito mas é o contrário: vamos adormecê-los. Resultado: criamos adolescentes cínicos, que já não se encantam com nada, que já viram tudo, que desprezam tudo. Uma criança pequena olha para a mãe e encanta-se porque pensa: ‘Que sorte que tenho porque tu existes’. Eles vêem o mundo com encantamento. E todos nós podemos fazer isso, encantar-nos com a realidade e com os seus mistérios e a sua beleza. Porque sem encantamento não há interesse, e sem interesse não há aprendizagem. Se queremos que as crianças sejam atentas, vamos rodeá-las de coisas belas, de coisas que fazem sentido.

Tem 4 filhos. Qual foi a parte mais difícil da ‘profissão’ de mãe?

Aprender a ser mãe, mesmo. Ou seja: dar-me conta da beleza e da importância da maternidade. Há tantas tarefas esgotantes a cumprir dia após dia que às vezes nos esquecemos da grandeza que é ter tanta influência na alma de outro ser humano. Ultrapassar o óbvio foi difícil, passar do como e do quê, para o porquê e para quê. Não percam a oportunidade maravilhosa de se encantarem com as crianças.

Que nos ensinam elas?

Ensinam-nos a ver tudo como se fosse a primeira vez. E são agradecidas por tudo.

CATHERINE L’ECUYER

Canadiana mas a viver em Espanha há 13 anos, é mãe de 4 filhos, investigadora de novas formas de aprender, e colabora com o grupo de investigação Mente-Cérebro da Universidade de Navarra. O seu blog (apegoasombro) tem meio milhão de seguidores. É autora do livro ‘Educar na Curiosidade ‘ (Planeta) e dá palestras por esse mundo fora, onde defende que estamos a destruir a capacidade de aprendizagem das crianças de tanto querermos que aprendam.

 

 


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