Há cada vez mais homens a cuidar sozinhos dos filhos

Abril 3, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Mariana tem 16 anos e vive há cinco com Pedro, o pai Fotografia de Miguel Manso

Notícia do https://www.publico.pt/ de 18 de março de 2018.

ANA CRISTINA PEREIRA

Sentem as mesmas dificuldades que as mulheres na conciliação da vida laboral com a vida familiar e pessoal, mas são encarados como pessoas especiais. “Era como se valorizassem mais o facto de eu ter a dupla jornada de trabalho que quase toda a mulher tem”, diz um deles.

 A primeira vez que Mariana Faria de Oliveira se viu com o período, deu um grito. O pai já lhe tinha falado naquilo, mas ela não estava à espera daquela mistura de sangue, muco e secreções vaginais. “Assustei-me. O meu pai explicou-me o que se estava a passar, disse-me que era normal, que eu não ia morrer.”

Encontra no pai o suporte financeiro, mas também afectivo e emocional. É com ele que fala sobre conquistas e derrotas, amores e desamores, anseios e receios. E depara-se com espanto sempre que alguém descobre que vive com ele. Tem 16 anos. Percebe a reacção. “Quando os pais se separam, os filhos vão viver com as mães ou ficam uma semana com um e uma semana com outro”.

Ainda que com oscilações, está a aumentar desde a década de 80 o número de famílias monoparentais, isto é, constituídas por um pai ou uma mãe e os filhos. As masculinas seguem a tendência, mas permanecem muito abaixo das femininas, o que quer dizer que ainda não mudou o regime padrão de residência (com a mãe) e de contacto (com o pai). Em 2017, havia 387.320 famílias monoparentais femininas e 52467 monoparentais masculinas.

Que homens são estes que assumem a 100% os cuidados parentais? Os últimos censos “sugerem que a monoparentalidade no masculino tende a ser mais frequente quando os filhos já são mais velhos e numa fase mais tardia do percurso de vida”, explica Sónia Vladimira Correia, docente da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração da Universidade Lusófona. Analisando o estado civil, nota que “é menor o peso relativo dos homens que entram na monoparentalidade por via de nascimentos fora da conjugalidade ou por via da ruptura de uniões de facto, sendo maior o peso relativo dos homens que entram na monoparentalidade pela viuvez”.

O processo de Mariana foi tranquilo. O actor Pedro Oliveira estava a pensar propor à ex-mulher ficar com a guarda e ela antecipou-se. “Ela tinha um trabalho instável. Mudava de casa muitas vezes. Eu moro na casa onde a Mariana sempre viveu, em Paço de Arcos. Ela podia ter um quarto, estar perto da escola, ter mais estabilidade”, conta.

Mariana não tem grandes memórias dessa mudança. “Perguntaram-me se queria viver com o meu pai. Eu disse que sim. Passado pouco tempo, estava a viver com o meu pai. Não me fez confusão. Não era muito bom viver com a minha mãe e o com o meu irmão. Era muita pressão para a minha mãe.”

Por trás dos pais sós estará uma variedade de situações: num extremo, o reconhecimento de que um pai pode cuidar tão bem de um filho ou de uma filha como uma mãe (e aí sobressairá a guarda conjunta e a residência alternada); no outro, mães consideradas inaptas para a função.

Quando o engenheiro informático José Soares se separou, sugeriu a guarda partilhada da filha de três anos. Parecia-lhe natural que continuassem ambos a ter total responsabilidade pelos cuidados a prestar e pela educação a dar. Ficou admirado quando ouviu a juíza dizer: “Não, os filhos têm de ficar com as mães.”

De repente, a ex-mulher afundou-se no consumo abusivo de drogas. “A situação estava muito deteriorada. Já não havia electricidade dentro de casa…” A Comissão de Protecção de Crianças e Jovens acabou por remeter o caso para o Tribunal de Família e Menores, que decretou uma medida de emergência. José foi buscar a filha à creche. Quando a ex-mulher lá chegou já não a encontrou.

A menina, de quatro anos, perguntava-lhe pela mãe. Queria saber porque já não morava com ela. José dizia-lhe: “Tu estás só comigo porque a tua mãe está doente, ela vai ficar boa.” Não lhe parecia correcto dizer-lhe mais do que isso. “Os detalhes vão vindo com a idade, com naturalidade.”

Os pais sós têm as mesmas dificuldades que as mães sós em conciliar a vida profissional com a vida familiar e pessoal. O maior ou menor esforço depende da rede de apoio (formal e informal) e dos recursos económicos que têm (o que permitir ampliar essa rede), como sublinha Sónia Vladimira Correia.

José não podia partilhar qualquer responsabilidade com a ex-mulher. Naquela fase, os contactos desta com a filha estavam reduzidos ao mínimo e só podiam ocorrer com a supervisão dos avós maternos. Os pais dele não lhe podiam valer (moram no Brasil), tão-pouco a irmã (que morava em Inglaterra). Teve de fazer uma gestão muitíssimo apertada do tempo e dos horários.

Mora em Matosinhos. “Tinha de começar o dia uma hora e meia ou duas horas mais cedo e de terminar o dia duas horas mais tarde”, recorda. Despertava às 5h ou 5h30. Cuidava de si. Despertava a filha, vestia-a, dava-lhe o pequeno-almoço. Saiam às 7h. “Às 8h tinha de estar na Maia à espera que a que a creche abrisse, porque tinha de voltar para Matosinhos para começar a trabalhar às 9h.” O corre-corre repetia-se ao final do dia. “Saía do trabalho às 18h em ponto. Tinha de estar na Maia antes das 19h, porque a creche fechava. Chegava a casa às 20h.”

Naquela estafa, faltava tempo para brincar. “No início, deixava a minha filha a ver desenhos animados enquanto preparava o jantar.” “Era pesado. Nem sei como conseguia”, diz. Tudo melhorou no momento em que conseguiu encontrar uma vaga num colégio privado perto de casa.

Pedro Oliveira também tem uma vida profissional muito preenchida. Além de actor, dirige uma cooperativa, colabora com uma associação. Quando se separou, Mariana tinha nove anos. Ia nos 11 quando veio viver com ele. “Tenho muito que fazer, mas conseguia gerir. Quando não conseguia, tinha o apoio do meu pai. Havia muitas noites em que o meu pai ficava com a Mariana.”

Sempre se sentiu visto como “um homem especial” por estar a criar a filha sozinho. E, num mundo em permanente mudança, sempre foi assaltado pelos receios próprios da condição de pai. Conseguiria ter uma criança a cargo sem receber apoio financeiro do outro progenitor? Estaria a educá-la bem?

José Soares também sempre se sentiu valorizado. “As pessoas elogiavam, mostravam empatia, tinham curiosidade em saber como eu fazia”, recorda. “Deve ser o tal machismo enraizado. Era como se o meu trabalho fosse uma coisa fora do normal. Era como se valorizassem mais o facto de eu ter a dupla jornada de trabalho que quase toda a mulher tem.”

A filha está muito mais autónoma. Já completou 12 anos. No princípio deste ano, a guarda tornou-se partilhada e a residência alternada. A mãe está recuperada. E o pai tem vida própria. Há dois anos, começou a viver com uma pessoa do mesmo sexo.

O pai sozinho tem de falar de tudo, incluindo sentimentos. Tem é de adequar as palavras à idade. Antes de assumir em público uma relação com outro homem, José falou com a filha: “Tenho uma coisa para te contar. Lembras-te daquele livro Ser diferente é bom, da Sónia Pessoa? É o caso do teu pai.” A menina também lhe quis contar que gosta de um menino lá da escola. “Eu achei tanta graça nela.” Parece-lhe que está a lidar bem com o assunto. “Ela também acaba por servir de exemplo na escola, na sociedade. Pode ajudar a perceber que o importante é as pessoas serem felizes.”

 

 

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Palestra – Problemas de comportamento – “quando querer não é poder” 12 de abril na Casa da Praia em Lisboa

Abril 3, 2018 às 3:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações no link:

https://www.facebook.com/events/2047460988810643/

 

A vida sob a perspectiva “mágica e única” de uma criança com autismo

Abril 3, 2018 às 9:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Kate Miller-Wilson

Texto do http://p3.publico.pt/ de 14 de maio de 2017.

Eian é uma criança de dez anos e tem uma perspectiva do mundo “mágica e única”, descreveu a mãe ao Huffington Post. O filho mais velho da fotógrafa Kate Miller-Wilson tem aquilo que é denominado de “autismo altamente funcional” e as suas fotografias retratam a experiência de “amar alguém com autismo”. A norte-americana, residente no estado do Minnesota, considera este conjunto de fotografias um escape criativo e emocional do seu quotidiano na companhia de Eian. “Quando nos focalizamos apenas nos desafios desta condição, não conseguimos ver a beleza; por outro lado, quando nos centramos apenas nas dádivas, deixamos de conseguir compreender os progressos e conquistas feitas por indivíduos com autismo, pelos seus pais e cuidadores”, explicou. O seu trabalho fotográfico é de natureza emocional, “pretende estabelecer uma relação com o espectador e oferecer um vislumbre sobre todas matizes que compõem o quotidiano de alguém no espectro [autista]”. Miller-Wilson sente dificuldade em estabelecer contacto visual com o filho enquanto o fotografa. Para ultrapassar o problema, a fotógrafa cria barreiras visuais entre os dois: vidro, gelo, são alguns exemplos. “Existe um ditado dentro da comunidade autista: ‘se conheceste uma pessoa com autismo, conheceste apenas uma pessoa com autismo’.” Ser pai ou mãe de uma criança com autismo pode ser um verdadeiro desafio. “É normal estar preocupado, zangado ou frustrado ou desesperadamente cansado”, comenta. “[Os pais] não têm de ser santos. Estes sentimentos tornam a experiência [de educar estas crianças] mais real e permitem-nos apreciar os momentos de felicidade que surgem.” Eian gosta de números e sente-se feliz com a exposição que as fotografias da mãe têm obtido online. Kate, por sua vez, espera que no futuro estes retratos sejam por ele interpretados como cartas de amor.

 

Morreu Berry Brazelton, o médico que revolucionou a pediatria

Abril 3, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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REUTERS

Notícia do https://www.publico.pt/ de 14 de março de 2018.

Autor da obra O Grande Livro da Criança, Brazelton foi um dos clínicos e defensores mais influentes em pediatria e em desenvolvimento infantil da era moderna. Em Portugal, a Fundação T. Berry Brazelton é representada pelo pediatra Gomes-Pedro.

BÁRBARA WONG

Faria cem anos no dia 10 de Maio, mas os preparativos já tinham começado a ser feitos, não para essa data, mas para 23 e 24 de Abril, um congresso e a comemoração antecipada do aniversário, em Boston, EUA. O pediatra, cientista e perito norte-americano em desenvolvimento infantil Thomas Berry Brazelton morreu nesta terça-feira, aos 99 anos, na sua casa em Barnstable, Massachusetts, anunciou o Centro Brazelton Touchpoints. “O mundo perdeu um verdadeiro herói para os bebés, crianças e famílias”, diz o comunicado.

Antes de Brazelton, assim que nascia, “o bebé era embrulhado e esquecido a um canto”. Foi Brazelton quem descobriu a importância de, nos primeiros minutos de vida, o recém-nascido ter contacto com a mãe, “pele com pele”, resume Gomes-Pedro, pediatra que em Portugal desenvolveu a teoria dos Touchpoints do norte-americano e criou o primeiro centro fora dos EUA com o nome do especialista, a Fundação Brazelton/Gomes-Pedro para as Ciências do Bebé e da Família.

O conceito de Touchpoints consiste numa abordagem teórica e prática de um modelo de desenvolvimento focado no bebé ou na criança e centrado na família — mas também pode ser usado com adolescentes e adultos, nota Gomes-Pedro. Esta proposta explica o desenvolvimento humano e levou a uma mudança no modo de intervenção dos profissionais, não só dos pediatras mas de todos os que lidam com os mais pequenos, de modo a privilegiar a relação bebé-família. Em Portugal, a fundação faz isso mesmo: oferece formações a pediatras, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, educadores, etc..

“Quando fortalecemos as famílias, fortalecemos a comunidade. O nosso objectivo é que os pais, em todos os lugares, trabalhem com profissionais [de saúde e educação] que lhes dêem apoio, se sintam confiantes no seu papel parental e criem ligações fortes e resilientes com os seus filhos. Para ajudar a alcançar isso, os profissionais devem responder aos pais, pois são os que conhecem o desenvolvimento da criança e estão ansiosos por ver todos os pais a serem bem sucedidos”, defendia Brazelton, citado no site do centro com o seu nome.

“É uma partilha que é uma autêntica descoberta”, aponta o pediatra português, acrescentando que Brazelton esteve em Portugal mais de 30 vezes. “Não havia aldeia que não conhecesse. Ele gostava da nossa comida, da nossa cultura. Nos primeiros anos vinha fazer congressos, nos últimos já não tinha coragem para lhe pedir para vir falar”, confessa o pediatra, emocionado com a notícia da morte do seu “mestre”.

Ler e compreender a criança

Berry Brazelton, autor de O Grande Livro da Criança, e de mais de três dezenas de títulos, a grande maioria best-sellers, era professor emérito de pediatria na Harvard Medical School e pediatra emérito no Hospital Pediátrico de Boston. Foi talvez o mais conhecido especialista depois de Benjamin Spock (1903-1998), o primeiro a aplicar a psicanálise à compreensão da dinâmica familiar e considerado um “herói” por Brazelton, recorda o Washington Post. A grande mudança que Brazelton protagonizou, na década de 1970, foi a de o pediatra não ser apenas o médico que trata das doenças das crianças, mas que acompanha a família, que conhece as competências das crianças e as potencialidades dos pais.

Gomes-Pedro conta que, antes de Brazelton, os médicos e cientistas estavam convencidos de que os recém-nascidos não viam, não ouviam, não entendiam nada à sua volta; uma das inovações propostas pelo pediatra norte-americano foi precisamente fazer uma consulta pré-natal, antes de o bebé nascer, porque a interacção entre pais e filho acontece muito antes do nascimento. “Brazelton criou um modelo relacional baseado na interacção, na descoberta do outro, de significado afectivo e emocional”, define Gomes-Pedro.

Em vez de dar lições aos pais sobre como criar o bebé, o médico defendia que estes deviam ser ajudados a “ler” o filho, a compreendê-lo. “A minha missão é revelar aquela criança aos pais. Conseguir que compreendam a personalidade do filho que têm e, agindo em conformidade com o seu temperamento, sejam capazes de se ligar a ele desde o primeiro momento”, dizia o pediatra norte-americano, em entrevista à edição portuguesa da Marie Claire, em 1990.

Brazelton defendia que é preciso transmitir aos pais que são eles as pessoas mais importantes na vida dos filhos e que têm de se sentir competentes para serem pais. Para isso, têm a ajuda do pediatra e de outros especialistas, profissionais de saúde e de educação, define Gomes-Pedro. “O nosso sonho, e também o de Brazelton, é que cada bebé nasça com oportunidades. Uma das grandes mudanças nas maternidades foi trazer o bebé para junto da mãe, e isso representa o ponto de partida no sentido da felicidade”, acrescenta o pediatra português, que se orgulha de ser um discípulo do norte-americano.

As palavras do famoso pediatra continuam actuais, em 1979 apontava o dedo aos pais que se preocupavam tanto que não sorriam. “Não conseguem sorrir e passar às crianças o entusiasmo que é ser progenitor. Gostaria de saber o que é preciso fazer para que os pais relaxem e não levem a parentalidade tão a sério”, dizia então, citado agora pelo Washington Post. “Cada criança tem direito a que pelo menos um adulto esteja loucamente apaixonado por ela”, declarou à Marie Claire.

Brazelton dizia que a sociedade americana era a “menos amiga das famílias, de todo o mundo ocidental”, e lembrava os casos dos tiroteios nas escolas, levados a cabo por adolescentes. “Ainda estamos a pagar caro o facto de não darmos à família toda a atenção que ela merece”, dizia ao Correio da Manhã, em 2004. Sobre os pais portugueses, elogiava: “Sinto que ainda há uma ternura, um calor humano entre as famílias.” Contudo, dois anos antes, alertava para os malefícios da televisão e da Internet, apelando aos pais para que as crianças não tivessem acesso a estes meios nos seus quartos.

 

 

 


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