Tão crescida a usar chucha, que feia!

Março 22, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do site http://uptokids.pt/

A nossa filha já foi alvo deste comentário várias vezes. Geralmente vira a cara, encosta-se a mim e tente ignorar o interlocutor; são claros os seus sinais de desconforto. Para muitos, estes sinais são interpretados como um incentivo para continuar pois estão a ter na criança o efeito desejado.

Acredito que a maior parte das pessoas profere este género de comentários com a melhor das intenções, querem que a criança se livre da chucha e acreditam que ao repreenderem-na estão a ajudar os pais nesta árdua tarefa. Contudo, tal não funciona.

Irei dividir as minhas observações em duas partes: 1) Para os outros; 2) Para os pais.

1) Para os outros

Quantas vezes fumaram um cigarro e alguém vos disse que deviam “largar isso pois faz mal à saúde”?; quantas vezes vos disseram que se deviam afastar daquele/a amigo/a pois é uma má influência nas vossas vidas?; quantas vezes comerem fast food e alguém vos alertou que dessa forma iriam engordar? Em termos concretos, que resultados isso provocou em vocês? Atiraram o cigarro fora e nunca mais fumaram? Enviaram uma mensagem ao/à amigo/a dizendo que pretendiam terminar a amizade? Cuspiram o alimento que estavam a ingerir e desde então detestam-no? Provavelmente não. Nada mudou com os comentários que vos foram feitos ou eventualmente ainda se ligaram mais “ao fruto proibido” exactamente por isso.

Não existe mudança sem motivação e esta última tem de ser intrínseca, isto é, tem de partir do próprio, caso contrário a mudança será temporária. Comentários negativos, que muitas vezes enfatizam a incapacidade de auto-controlo da pessoa e mexem com a sua auto-estima (como quando dizemos a uma criança que é feia por determinado comportamento) podem conduzir à manutenção do comportamento por o outro se sentir incapaz de mudar.

“Devo então incentivar ou ignorar?”, perguntarão alguns. Nem uma, nem outra; podemos encaminhar para a mudança num registo positivo. Quando eu digo: “acredito que vais ser capaz, levarás o teu tempo mas acredito que irás conseguir”, sobretudo quando é dito em frente aos outros, estou a deixar uma semente potente de expectativa que o outro se sentirá tentado a concretizar; mostro que o aceito, que o compreendo, que não o irei pressionar e que confio nas suas capacidades (afago-lhe a auto-estima).

Criticar de forma negativa sem deixar uma linha orientadora ou é improfícuo ou pura maldade.

2) Para os pais

Sejamos sinceros, a maior parte dos comportamentos dos nossos filhos, sobretudo quando são pequenos, resultam de escolhas nossas, ainda que nos arrependamos delas ou que não as reconheçamos a 100%, estamos na origem.

A nossa filha não escolheu usar chucha, na verdade quando nasceu ela até a rejeitava. Acabei por insistir por sentir que isso a iria acalmar e servir de consolo. Hoje, com 2 anos e meio, não a quer largar, se eu permitisse passava o dia todo com ela na boca.

Temos conversado sobre o assunto, sem pressões. Não a comparo com o menino x ou y que não usa chucha pois ela também não me compara com a mãe x ou y Mostro-lhe que vários desenhos de que ela gosta não usam chucha (sem comparar), digo-lhe que não percebo o que ela diz com a chucha posta, explico que a chucha precisa de descansar e por vezes guardamo-la.

Em momentos de crítica em público eu JAMAIS me junto ao outro para a criticar/fazer troça dela. Geralmente coloco-me ao nível dela e respondo que um dia, quando lhe apetecer, irá largar a chucha e evidencio os esforços que já faz: “ela tem usado muito menos, noutro dia até a guardou no quarto durante a manhã toda, fiquei mesmo feliz! Em breve iremos conseguir passar menos tempo com a chucha na boca, vamos com calma”; se tiverem dito que ela é feia, ainda acrescento um “estás tão crescida e LINDA, filha!”.

Não acho que tenhamos sempre de defender os nossos filhos, eles erram tal como nós. Não obstante, acredito que os assuntos se resolvem entre nós e ainda que possa dar razão à pessoa que o repreende, não é saudável juntar-me a ela numa sessão de linchamento público.

Como referi, a nossa filha não queria usar chucha, foi um hábito criado também por mim. Assim, assumo essa responsabilidade, aceito que sou parte activa na sua resolução e defendo a nossa filha de qualquer julgamento exterior feito em tom negativo, mostrando que este não é um problema só dela, é nosso, e como tal iremos resolvê-lo JUNTAS, ao nosso ritmo.

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Vem Pedalar Contra o Discurso de Ódio – 24 de março em Cascais

Março 22, 2018 às 3:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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mais informações:

http://www.dge.mec.pt/movimento-contra-o-discurso-de-odio-acao-de-24-de-marco

 

“Todas as crianças do mundo merecem avós portugueses”. Esta é a conclusão do homem que estuda felicidade

Março 22, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Responsável por colocar o Hygge nas bocas do mundo, Meik Wiking está de volta à escrita com ‘O Livro do Lykke’. Mais do que uma reflexão sobre a vida e a felicidade, esta obra debruça-se sobre os seis elementos da felicidade humana e de que forma é que a podemos alcançar através de dicas práticas. O escritor dinamarquês esteve em Lisboa para a apresentação do livro e esteve à conversa com o SAPO Lifestyle.

‘O Livro do Hygge’ focou-se no Hygge que, para além de ser uma parte importante da identidade cultural da Dinamarca, é descrito como o segredo dinamarquês da felicidade. O novo livro explora o conceito Lykke – que em português quer dizer felicidade – e revela os segredos das pessoas mais felizes do mundo. O que o motivou a escrever ‘O Livro do Lykke’?

O segundo livro fala sobre aquilo que eu faço enquanto Presidente do Happiness Institute Research e qual o meu objetivo de vida: tentar perceber o que leva à felicidade. Há cinco anos fundei este think tank porque tinha curiosidade sobre determinadas questões. “Por que é que algumas pessoas são mais felizes do que outras?”, “Como podemos melhorar a nossa qualidade de vida?”, “Por que é que a Escandinávia tem uma boa posição no ranking da felicidade?” Toda a pesquisa que fiz nessa área está neste livro. Tentei torná-lo acessível e apresentar os dados que analisámos às pessoas.

No livro afirma que é muito mais fácil para as pessoas focarem-se nas coisas negativas do que na beleza e no bem do mundo em que vivemos. Não considera que isso é uma consequência da forma como os meios de comunicação retratam o mundo que nos rodeia?

Sim, é exatamente isso. Nós vemos morte, terrorismo e desemprego nas notícias porque é assim que os meios de comunicação social funcionam. Somos expostos a conflitos diários mas se olharmos para os dados de como o mundo está a evoluir constatamos o seguinte: existem retrocessos mas, de uma forma geral, o mundo é muito melhor hoje em dia do que há 50 anos. Há mais igualdade entre géneros, menos mortalidade infantil, mais esperança média de vida e menos pessoas a viver em pobreza. Há muitas coisas boas a acontecerem mas temos tendência a focar-nos nas coisas negativas.

O Meik Wiking afirma que Portugal tem os pais mais felizes do mundo. Como é que chegou a essa conclusão?

Ter filhos é ótimo para a dimensão da felicidade que está relacionada com o nosso propósito de vida. Quando as pessoas têm filhos sentem que estes dão propósito, direção e significado à vida. Mas quando se analisam os níveis de satisfação de forma imparcial, vemos diferentes resultados dependendo dos pais. Nos Estados Unidos 12% dos pais são menos felizes do que aqueles que não têm filhos. No Reino Unido são 8% menos felizes. Do outro lado do espectro temos Portugal. Aqui, os pais são mais felizes do que as pessoas que não têm filhos. Uma das explicações centra-se no facto de os progenitores serem melhores a incorporar a geração dos avós no crescimento dos filhos. Todas as crianças merecem avós portugueses e políticas escandinavas favoráveis à família. [Risos]

Comparativamente com a Dinamarca, Portugal ainda tem um longo caminho a percorrer quando o assunto é felicidade. Que aspetos é que podemos melhorar de forma a subirmos no ranking dos países mais felizes do mundo?

Portugal é um país curioso porque ocupa a 89ª posição no Relatório Mundial da Felicidade. Há lugar para melhorias e acho que a questão da empregabilidade é um importante fator em Portugal. Mas acho que todos os países, incluindo a Dinamarca, podem ter um melhor desempenho nos seis fatores analisados no livro: convívio, dinheiro, saúde, liberdade, confiança e bondade.

O ser humano move-se em torno de um objetivo comum: ser feliz. Por que razão é que muitas pessoas acham que a fama e a fortuna são imprescindíveis para atingir a felicidade?

Nós procuramos a felicidade porque é bom [Risos]. Uma das razões pelas quais buscamos fortuna é porque entendemos que o dinheiro é importante para a felicidade. É verdade que para fugir à pobreza e à miséria é necessário dinheiro e muitos de nós pensamos que essa dependência se mantém ao longo da nossa vida. Nós não entendemos algo a que os economistas chamam de Lei da Utilidade Marginal Decrescente: quanto mais temos de uma coisa menos prazer retiramos dela. Quando comemos uma fatia de bolo sabe-nos bem, mas à quinta fatia isso já não acontece. E o mesmo se passa com o dinheiro. O facto de ganhamos mais ao final do mês não vai impactar a nossa satisfação com a vida, o nosso propósito ou as emoções que sentimos diariamente. Outra razão prende-se com o facto de o dinheiro ser fácil de comparar, deixando que isso pese demasiado na nossa vida. O terceiro fator pelo qual buscamos dinheiro mais do que devemos tem que ver com o facto de sermos seres sociais: estamos sempre a fazer comparações e queremos sempre o que os outros têm e mais.

Outro dos temas abordados no livro prende-se com o uso excessivo das redes sociais e na forma como os dispositivos eletrónicos afetam a felicidade, a satisfação com a vida e as relações sociais. De que forma é que podemos contornar este problema?

Diariamente somos confrontados com imagens editadas de vidas perfeitas. Mas a verdade é que as imagens que postamos no Instagram são highlights da nossa vida e não a nossa vida real. Talvez seja necessária mais transparência e abertura quando se fala em redes sociais pois ninguém tem uma vida perfeita e isenta de problemas. Temos de aprender a usar esta nova tecnologia de forma mais benéfica. É difícil porque estamos a falar de gratificação instantânea e a vida, de certa forma, é uma luta constante entre objetivos a longo prazo e gratificação instantânea. Gostava muito que as escolas, as famílias e as comunidades tentassem encontrar soluções para afastar as pessoas dos telefones. Há um colégio interno dinamarquês que tira os aparelhos aos estudantes que só os podem utilizar durante uma hora por dia. Ao fim de seis meses, os alunos votaram se o colégio deveria implementar este método ou se os telefones deveriam ser devolvidos. A conclusão foi que 80% optou pela permanência deste sistema porque criaram uma comunidade com as pessoas que estavam à sua volta. E acho que este caso é uma ótima inspiração para as famílias e as comunidades se juntarem durante algumas horas. Acho que este é o caminho a seguir.

Um dos estudos apresentados refere que as pessoas que trabalham por conta própria são mais felizes do que aquelas que trabalham por conta de outrem. Que conselho daria a quem não se sente realizado profissionalmente mas tem medo de arriscar?

Acho que é uma decisão difícil de tomar. Não sei se tenho um conselho para dar mas posso usar a minha história como exemplo. Durante sete anos trabalhei como diretor de um think tank direcionado para a economia sustentável. Ganhava bem mas não era apaixonado por aquilo que fazia. E para além disso senti que a minha aprendizagem tinha estagnado. Em 2012 comecei a ver o que estava a acontecer com os estudos globais sobre a felicidade, diferentes governos começaram a medir a qualidade de vida e percebi que queria trabalhar nessa área. Queria perceber como podíamos medi-la, porque é que havia pessoas mais felizes que outras e por que razão a Dinamarca se destacava no Relatório Mundial da Felicidade. Achei que alguém deveria criar um think tank sobre a felicidade e foi aí que pensei: “Eu deveria fazer isso.” Foi um risco muito grande porque não sabia se podia viver disso. Isto foi depois da recessão económica e na altura em que um amigo meu morreu com cancro, aos 49 anos. No momento eu tinha 34 e apercebi-me de que faltavam 15 anos até completar 49. Foi aí que pensei “O que é que eu vou fazer durante este tempo que me resta? Vou ficar neste emprego que não me preenche ou vou criar o think tank que, apesar de ser uma ideia louca, pode ser muito divertido”? No meu caso, a coragem para mudar a minha vida partiu da ideia de que o tempo é limitado e que temos de saber aproveitá-lo da melhor forma. Se as pessoas souberem de outro caminho, que as fará mais felizes, é uma boa direção.

No livro ressalva a importância do convívio e das relações pessoais, afirmando que “quantas mais pessoas tivermos com quem possamos falar de assuntos particulares, mais felizes seremos.” A felicidade humana é determinada pela existência de um parceiro ou pelo casamento?

Se formos dividir as pessoas que estão casadas/numa relação e as pessoas que são solteiras concluímos que as pessoas que são casadas são, em média, mais felizes. Mas isso nem sempre quer dizer que o casamento nos proporcione mais felicidade. Claro que há sempre uma causa e efeito mas quando observamos as pessoas vemos o seguinte: as pessoas mais felizes, otimistas e positivas têm mais facilidade em atrair um parceiro mas também é possível aumentar a felicidade através do casamento. Em muitos países, isto afeta mais os homens do que as mulheres porque os homens buscam o companheirismo e a partilha no casamento enquanto as mulheres conseguem isso sem um homem ao seu lado. E no caso do casamento vemos que as pessoas que sentem que o seu parceiro é o seu melhor amigo são ainda mais felizes. Mas será que podemos ser felizes sem o casamento? Claro que sim, mas acho que todos precisamos de ter alguém que nos apoie, que nos compreenda e que nos oiça. E por vezes isso vem na forma de um marido ou de outra coisa.

Aceitar que todos temos bons e maus dias é fundamental para sermos pessoas mais felizes?

Sim e isso é uma coisa que eu e os meus colegas salientamos nas nossas apresentações porque as pessoas acham que nós, pesquisadores da felicidade, estamos sempre felizes. E isso nem sempre é assim. Nós também temos preocupações, ficamos frustrados, stressados, cansados, furiosos, tristes e isso faz parte da vida. Acho que é importante que as pessoas reconheçam isso e que percebam que não existe um nível constante elevado de felicidade.

O que mais o surpreendeu durante o processo de pesquisa para escrever “O Livro do Lykke”?

Ao longo destes cinco anos uma das maiores surpresas foi o elemento genético. Nos Estados Unidos gémeos idênticos foram adotados por dois casais e a partir desses estudos conseguimos ver que os gémeos idênticos, com materiais genéticos idênticos, tem níveis de felicidade muito parecidos. Existe uma dimensão genética semelhante quando olhamos para o campo da saúde mental, como é o caso da depressão, esquizofrenia e ansiedade. Outra coisa que me surpreendeu foi ter consciência de que acima de tudo somos humanos e conseguimos ver nos dados que a mesma coisa que leva à felicidade em Lisboa é igual em Calcutá e em Tóquio. E chegar a essa conclusão é algo maravilhoso especialmente nesta altura.

A felicidade total existe ou é um mito?

Talvez exista num momento específico mas é algo bastante difícil de manter por um longo período de tempo. Na Dinamarca temos uma expressão que diz o seguinte: “Não devemos deixar que a perfeição seja inimiga das coisas boas”. E acho que isso é uma boa filosofia de vida. Vão existir sempre coisas melhores mas não devemos deixar que nada roube o nosso prazer momentâneo. É uma estratégia que devemos adotar em vez de almejar algo impossível.

O que pretende que as pessoas retirem deste livro?

Gostava que as pessoas percebessem o que leva à felicidade. Este livro explica que a Dinamarca não tem o monopólio da felicidade e que podemos encontrá-la em outras partes do mundo. É um menu com dicas e ideias que as pessoas podem implementar na sua vida. Se o leitor implementar uma dessas dicas na sua vida já ficava feliz.

 

Encontro “A Audição da Criança” com a participação de Isabel Porto do IAC, 23 de março em Lisboa

Março 22, 2018 às 9:00 am | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Drª Isabel Porto do Projecto Rua do Instituto de Apoio à Criança irá participar com a comunicação “”A boa vontade não é suficiente… “.

mais informações no link:

https://www.encontroaudicaocrianca.com/

“Até aos três anos de idade as crianças não devem dormir em casa do pai”

Março 22, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Rute Agulhas publicado no https://www.publico.pt/ de 13 de fevereiro de 2018.

Que impacto no bem-estar da criança pode ter a ausência de pernoitas com o pai durante os três primeiros de vida?

Esta é uma afirmação e premissa de base sobre a qual assentam muitos, mas mesmo muitos, processos de regulação do exercício das responsabilidades parentais. Os pais separaram-se ou divorciam-se quando a criança é ainda bebé ou em idade pré-escolar e, desde logo, parte-se do pressuposto que até aos três anos deve apenas pernoitar em casa da mãe, mantendo contactos com o pai durante o período diurno.

Estes contactos podem ser mais ou menos frequentes, o que depende de diversas variáveis como, por exemplo, a idade da criança ou a proximidade geográfica entre residências. No entanto, permanece a ideia de impossibilidade de permanência na residência paterna até aos três anos de idade.

Penso que é preciso reflectir sobre isto. Se nos focarmos nos estudos sobre a relação de vinculação entre as crianças e os seus pais/cuidadores, é na primeira infância que as crianças estabelecem essa relação, pedra basilar do seu desenvolvimento. Para que esta se estabeleça é fundamental que ocorram interacções continuadas e regulares entre a criança e os cuidadores. Estas podem ocorrer em diversos contextos de cuidados, por e.g., mudar uma fralda ou dar o leite, ou de brincadeira e lazer. O principal é que as interacções ocorram e sejam marcadas pela sensibilidade e responsividade dos cuidadores: mãe ou pai.

Se, tradicionalmente, a mãe está associada ao papel cuidador, actualmente o pai está mais investido nos cuidados e educação da criança e, tal como a mãe, o pai aprende e constrói a sua parentalidade. Estudos apontam que os pais podem ser cuidadores sensíveis dos seus filhos e que as crianças estabelecem relações seguras, quer com as mães, quer com os pais nos primeiros anos de vida.

É nesta fase do desenvolvimento infantil, mais sensível e crucial para que esta relação de vinculação possa ser estabelecida. E para que a vinculação possa ser segura é fundamental que a criança se sinta amada, protegida e cuidada, permitindo-lhe criar laços que, de uma forma gradual, irão potenciar também a capacidade em explorar o seu meio envolvente e socializar.

Ora, para que estes vínculos possam ser estabelecidos é imprescindível um convívio regular e extenso com estas figuras de referência. O que implica mais do que meras “visitas”, termo que devia mesmo ser proibido neste contexto. Implica estar com a criança, satisfazer-lhe as suas necessidades mais básicas mas, principalmente, brincar, expressar afecto, ser parte integrante das suas rotinas, ajudar nas dificuldades, estar presente quando a criança experiencia emoções positivas ou negativas. Implica também participar nos rituais do adormecimento, aconchegar na cama, consolar um sono agitado, vestir e levar à creche ou jardim-de-infância. Implica estar presente nas festas e celebrações dos familiares e amigos, levar e ir buscar às actividades diversas, explorar os sons, as cores, as imagens… ou simplesmente não fazer nada.

Como me dizia uma vez uma criança de quatro anos, “é tão bom quando estamos sentados no sofá, com uma manta, só a rir e a fazer parvoíces”. Ser pai ou mãe implica tudo isto. E para isto é necessário tempo. Tempo. Tempo que as tais “visitas” nem sempre permitem. Tempo que as pernoitas permitem e com uma riqueza inigualável. Tempo que permita o envolvimento emocional de ambos os pais na vida da criança, aprendendo a reconhecer e a satisfazer todas as suas necessidades.

Querem-se pais sensíveis, responsivos e competentes para exercer de forma adequada a função parental. Para tal, é fundamental um convívio frequente e extenso com a criança, desde que esta nasce.

Pois vejamos então os estudos que contrariam estas conclusões e que sugerem que, até aos três anos, as crianças não devem dormir em casa do pai. Procuramos estudos metodologicamente válidos, com amostras adequadas e revisão de pares, cujos resultados possam ser generalizados à população em geral. Dificilmente encontramos estes estudos.

Encontramos, sim, teorizações acerca do modelo tradicional de família, assente na ideia de uma única figura primária de referência para a criança — a figura materna. Ideias apoiadas na premissa de que a mãe é, indubitavelmente, a figura mais importante para o desenvolvimento harmonioso da criança, e que o pai desempenha um papel importante, sim, mas secundário. Complementar.

Encontramos também estudos cujos resultados dificilmente podem ser generalizados, na medida em que utilizam amostras de conveniência, não têm grupos de controlo ou, ainda, não acompanham as crianças ao longo do seu desenvolvimento (estudos longitudinais), de forma a perceber o impacto que estas pernoitas podem ter a médio e/ou longo prazo. Encontramos ainda outros estudos que não controlam diversas variáveis, como a existência de irmãos, novos/as companheiros/as dos pais, nível de conflito parental, competências de comunicação e cooperação parental.

É urgente desenvolver mais estudos sobre esta questão, sendo que uma resposta do tipo “sim” ou “não” revela-se demasiado simplista e redutora, quando se pergunta se deve, ou não, uma criança com idade inferior a três anos pernoitar em casa do pai.

Temos todos que fazer esta reflexão. Que impacto no bem-estar da criança pode ter a ausência de pernoitas com o pai durante os três primeiros anos de vida? Que impacto tem na relação de vinculação que virá a estabelecer com esse pai mais ausente?

Assim sendo, e na ausência de validação empírica desta premissa de base, importa que todos nós (pais, mães e outros familiares, técnicos das diversas entidades e peritos, advogados e magistrados) façamos um esforço no sentido de uma mudança de paradigma. Que se traduza em acordos de regulação do exercício das responsabilidades parentais mais adequados e justos, adequados a cada caso em concreto, e centrados na perspectiva da criança. E no seu superior interesse.

Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça; docente e investigadora no ISCTE-IUL


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