O maior dos perigos da adolescência são os pais – Eduardo Sá

Março 21, 2018 às 8:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Eduardo Sá publicado no site  https://www.eduardosa.com

Perante tantos e tão complexos desafios os pais são absolutamente imprescindíveis

É verdade que o início da adolescência se dá com o início das transformações psicológicas de adaptação à puberdade. E que, em função dela, um corpo que cresce “aos solavancos” e as transformações neutro-endócrinas que a acompanham “desengonçam” os adolescentes, “desarticulam-nos” e introduzem velocidades de crescimento diversas, entre si, que comprometem, em muitas circunstâncias, a sua relação com o grupo de pares e com a família.
É verdade que, logo a seguir, no salto entre os 12 e os 14 anos de idade, a emergência da sexualidade traz à cabeça dos adolescentes tantos sobressaltos e tanto mal-estar que se fecham muito mais sobre si, se tornam muito tensos em relação ao toque, parecem muito pouco simpáticos e ainda menos empáticos: quase como se fossem  “bichos do mato” ou vivessem n’ “a idade do armário”. Alguns, passam a falar em murmúrios e em “grunhidos”. O seu humor sofre oscilações diárias dignas duma “montanha russa”. Talvez por tudo isso, os grupos de pares dão-lhes o suporte que a família, em muitos momentos, regateia. A ligação entre identidade de género, identidade propriamente dita e identidade sexual começa a desenhar-se. E a sua vulnerabilidade, a este nível (e não só), aumenta, de forma vertiginosa, com toda a informação que lhes chegam via online.

É verdade, ainda, que, tal como os seus pais, os adolescentes portugueses gostam de ir para a escola, sobretudo, por causa do recreio. Colaboram, cada vez mais, em contexto escolar, uns com os outros. São quem mais valoriza o trabalho de equipa. São os alunos mais ansiosos entre os alunos dos países da OCDE, face à avaliação. E são os que mais abandonam a escola sem concluir o ensino secundário. E vivem-na como se ela lhes permitisse, sobretudo, downloads. Mais do que, propriamente, os levasse a pensar e a criar.

É verdade que, apesar de tudo isso, os adolescentes portugueses convivem entre si, eles socializam, hoje, sobretudo, online. A um ritmo diário quase absurdo – durante a manhã, no decurso das aulas, às refeições (!) e ao longo da noite – e diante da passividade gritante das famílias. E que circulam por sites, jogos online e redes sociais que – por mais que merecessem o controle, sensato e transparente, dos seus pais – aumentam, de forma exponencial, o contraditório da sua sabedoria, a forma como são manipulados em função dos dados que deixam, como rasto, nas redes e os perigos a que estão expostos.

É verdade que os adolescentes trocam 30 000 sms por ano (não contando com as caixas de conversação online). Gastam 8 dias por ano falando ao telefone, não contando que metade deles tem televisão no quarto.  Que 1/4 dos adolescentes passa mais de 6 horas por dia ligado à internet. Que focam, arrastam ou clicam no telemóvel quase 3 000 vezes por dia. E, mesmo se estiver desligado, têm, na sua presença, uma “atenção parcial” e, por isso mesmo, ficam menos inteligentes. E, se o seu comportamento for idêntico ao dos pais, fazem mais de 3 publicações por dia nas redes sociais; em 90% delas, com conteúdos de natureza pessoal. Sem se darem conta que, com 150 likes, um computador será capaz de os “conhecer” melhor que um membro da sua família.

É verdade, ainda, que a escola está, perversamente, virada, quase em exclusivo para promover a entrada no ensino superior. E que, entre mesadas, propinas, livros, dinheiro de bolso e todas as outras despesas relativas à vida de um filho, qualquer adolescente universitário tem um vencimento mensal muito claramente superior ao ordenado mínimo nacional. E que, talvez por causa de tudo isso, há em Portugal 176 mil jovens com menos de 30 anos que não trabalham, não estudam nem estão em formação.

É verdade, finalmente, que, se se tomar a autonomia de um adolescente em relação à sua família – em termos físicos, psíquicos e financeiros – a maioria dos adolescentes se torna autónoma pelos 30 anos. O que, se, por um lado, releva os aspectos acolhedores dos pais como talvez ele não existisse, de forma transversal, há uma geração atrás, por outro, os transforma numa espécie de “banco popular” e de “prestadores de serviços” que quase eterniza a adolescência.

É verdade, concluindo, que, diante de tantos e tão diversificados desafios, o maior dos perigos dos adolescentes são os pais. Quando se transformam nos melhores amigos dos filhos e se inabilitam para ser pais. Quando convivem e condescendem com comportamentos com que não concordam. Quando não repreendem nem reprimem as atitudes de altivez e de arrogância e as desconsiderações com que eles escondem as suas fragilidades. Quando não definem regras de utilização inequívocas para os telemóveis, para as redes sociais e para o jogo. Quando pactuam com a sua relação com o álcool como se fosse uma atitude de iniciação para a vida adulta sem consequências (quando mais de metade dos adolescentes que o experimentam se tornam consumidores frequentes ou de grandes quantidades e revelam, em função disso, diminuições claras dos seus córtexes frontal e temporal). Quando, à boleia do discurso populista entre drogas pesadas e drogas leves, omite opiniões firmes e regras claras sobre o consumo destas últimas, por mais que aplauda os comportamentos de saúde que os adolescentes têm, cada vez mais, com o tabaco. Quando deixam de ser “a referência” de Lei, de boa educação e de tenacidade e bom senso de que os adolescentes precisam. Quando os protegem demais e os autonomizam de menos. E, por último, quando imaginam que, num mundo em mudança, o seu papel em relação aos filhos será secundário. Quando é, mais do que nunca, imprescindível, insubstituível e indispensável. Por muito, muito tempo!

 

Sarampo – Informações da Direção-Geral da Saúde

Março 21, 2018 às 2:09 pm | Publicado em Vídeos | Deixe um comentário
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Sarampo Materiais de Divulgação

 

Seminário “Os Caminhos da Adoção” 6 Abril no Porto

Março 21, 2018 às 12:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Dentro das creches da ‘geração Autoeuropa’

Março 21, 2018 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Flexibilidade. As creches com horário alargado são um alívio para os pais que trabalham por turnos Nuno Botelho

Texto do http://expresso.sapo.pt/ de 27 de fevereiro de 2018.

Liliana Coelho Texto

Nuno Botelho Fotos

Quem tem horários menos convencionais e filhos é obrigado a encontrar soluções, caso dos trabalhadores da Autoeuropa, que para trabalhar aos fins de semana exigem ter onde deixar os filhos. Em todo o país há apenas uma nessas condições. Mas há outras onde as crianças podem passar mais de 11 horas, podendo chegar ou sair de madrugada. Fizemos uma reportagem em duas delas.

Os dias estão maiores, mas já anoitece. Passa pouco das 18h30. Apressado e sorridente, Danilo Esteban chega ao Colégio Rik & Rok, na Amadora. Operador de logística de uma loja de materiais de construção, Danilo vem buscar as duas filhas gémeas, Emma e Isabella, de quatro anos. Hoje estão com sorte, vão mais cedo para casa, mas muitas vezes têm que ficar até mais tarde na creche, devido aos turnos no trabalho dos pais. Foi por essa razão que Danilo e a mulher, María – que saíram da Venezuela há dois anos –, decidiram inscrever as gémeas neste infantário. “Esta flexibilidade facilitou a adaptação de toda a família. Emma e Isabella têm-se desenvolvido bastante ao longo destes 24 meses. Hoje são mais independentes”, conta o pai.

Criado em 2010 pela Fundação Pão de Açúcar, o Colégio Rik & Rok teve como objetivo inicial responder às necessidades dos funcionários do grupo Auchan que são pais e que trabalham por turnos. Entretanto, o espaço foi também aberto à comunidade, embora dê prioridade aos filhos de trabalhadores do grupo, de lojas do Dolce Vita Tejo ou de espaços comerciais próximos. O infantário – que recebe de bebés com poucos meses até crianças de 5 anos – está aberto sete dias por semana e num horário alargado, das 7h até à meia-noite e meia.

A pensar no bem-estar da criança foi definido um período máximo de 11 horas por dia e cinco dias por semana para cada uma poder estar no colégio. Mas há exceções. “Hoje, por exemplo, temos um menino cujo pai entra às 4h da manhã no trabalho, a mãe sai à mesma hora do seu turno e ninguém o consegue vir buscar antes, razão pela qual, excecionalmente, será ultrapassado esse limite. Não tínhamos como dizer não. Tentamos sempre dar resposta às necessidades dos pais e à conciliação da vida profissional e familiar”, explica Luís Costa, diretor pedagógico do colégio Rik & Rok.

Às 19h30, o refeitório está quase vazio. E o silêncio impera. Esta noite jantam apenas quatro crianças no colégio, incluindo um bebé, mas por vezes rondam as 15. Enquanto os outros estão em casa nas suas rotinas com as suas famílias, estas crianças jantam com as educadoras e auxiliares do turno da noite. Despem as roupas e os bibes tricolores e vestem os pijamas, para dormirem até os pais chegarem.

O relógio avança. Mal o Salvador vê a mãe, corre para os braços dela. Desde os dois anos e meio que frequenta o colégio Rik & Rok, já lá vai mais de um ano. A mãe, Tânia Mendes, trabalha numa loja no Dolce Vita Tejo. Quando soube da existência desta creche – através de amigos – não hesitou em inscrever o filho. “A proximidade e os horários alargados foram os fatores chave. E tivemos sorte em conseguir logo vaga, porque a procura aqui é enorme, tal como no outro colégio Rik & Rok, em Alfragide”, comenta Tânia Mendes, sublinhando ainda que, como qualquer outra IPSS, o custo é acessível. “O valor que pago já inclui atividades extra, como natação e Ative Kids. Não pagamos mais nada, o que é ótimo”, acrescenta.

953 CRECHES COM COMPLEMENTO DE HORÁRIO

O colégio da Fundação Pão de Açúcar é uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) com horário alargado − a única que está a funcionar ao fim de semana − , onde os pais pagam os valores normais de acordo com os rendimentos do agregado. Das 1862 creches com acordo de cooperação com a Segurança Social, 953 asseguravam horário superior a 11 horas diárias em dezembro, ou seja recebiam da Segurança Social o apoio Complemento de Horário de Creche, segundo os dados enviados ao Expresso pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. A maioria dessas creches insere-se nos distritos de Lisboa (176), Aveiro (165) e Porto (143).

Só no ano passado foram garantidos 111 novos Complementos de Horário em Creche face à assinatura do Compromisso de Cooperação com o Sector Social e Solidário. Depois de a Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa ter exigido uma solução para as famílias que trabalham por turnos ou ao sábado, na sequência dos novos horários de trabalho, o ministério de Vieira da Silva esclareceu que o complemento de horário em creche é um apoio que está disponível a todos os trabalhadores. Basta efetuar o pedido junto da IPSS, que deverá requerer à Segurança Social a sua análise.

No ensino privado a procura por creches com horário alargado também tem aumentado nos últimos anos. Segundo Marta Sobral, presidente da Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos do Ensino Particular (ACEPEEP), desde 2012 vários colégios têm alargado os horários de funcionamento. “Antes considerávamos prolongamento a partir das 17h30, agora é a partir das 18h30. Há cada vez mais pais à procura desta flexibilidade, por terem empregos exigentes”, diz a presidente da ACEPEEP.

BENEFÍCIO PARA OS FUNCIONÁRIOS

Mas há também empresas que oferecem creche gratuita com horário alargado aos filhos dos funcionários. É o caso da Jerónimo Martins, que tem dois infantários para os trabalhadores da logística, nos Centros de Distribuição da Azambuja e de Alfena-Valongo, suportados a 100% pelo grupo. Aberta de segunda à sábado e feriados, a creche da Azambuja funciona entre as 5h30 e as 18h e é frequentada por cerca de 80 crianças até aos cinco anos.

No infantário Rik e Rok da Amadora, o ambiente hoje é de festa – é dia de desfile de Carnaval, e os pais das crianças vão poder ver os filhos mascarados, ao contrário de vários outros que trabalham longe das creches. Dora Santos já está na fila para assistir ao desfile do filho Simão, de três anos. A filha mais velha, de 16 anos, também frequentou o mesmo infantário. “Sou mãe solteira e não conto com a ajuda de familiares. Por isso, a possibilidade de ter aqui os filhos veio mesmo a calhar”, confessa Dora, rececionista do centro de distribuição, que diz tentar manter a rotina do filho mesmo nas folgas. Simão fica habitualmente na creche entre as 6h e as 15h. A adaptação foi fácil, garante a mãe.

João Agina, operador de armazém, também aguarda ansioso pelo desfile dos dois filhos, de 16 meses e cinco anos. Entretanto, chega o mais pequeno. A sala de um ano é das primeiras a desfilar. Pedro vem mascarado de índio e bem-disposto. Mas assim que vê o pai salta para o seu colo e desata a chorar. “É normal, ainda é pequeno. Por isso, apesar de trabalhar aqui ao lado não costumo vir vê-lo nos intervalos para não o importunar”, conta João Agina.

Entre a azáfama das educadoras e auxiliares que ultimam as fantasias e a excitação das crianças na zona do infantário, um bebé boceja e gatinha até à porta, enquanto outro está deitado de barriga para baixo a dormir no berçário. Como se nada se estivesse a passar. “Às 10h há ainda bebés que adormecem. O dia para eles já vai longo. Almoçam todos às 11h, porque se há um atraso de cinco minutos ficam a dormir todos”, explica Cristina Santos, diretora pedagógica. Os pais trabalham por turnos que podem começar às 5h30. Alguns aproveitam o transporte disponibilizado pelo grupo em Lisboa, o que obriga as crianças a acordar às 4h e pouco da manhã. Rotinas duras para esta idade, segundo o especialistas.

“O ideal para uma criança é não ir para a creche até aos três anos de idade, pois aumenta o risco de infeção. E depois a entrada deve ser progressiva: os mais pequenos devem ficar de início só uma manhã, porque a tarde deve servir para dormir. Em termos do desenvolvimento, essa seria a situação perfeita”, defende Paulo Coutinho, pediatra e coordenador do Atendimento Pediátrico Permanente do Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF do Porto. Contudo, admite que é preciso encontrar um equilíbrio entre a vida familiar e profissional. Porque cada caso é um caso, cada família é uma família. “Idealmente uma criança não devia estar no infantário fora do seu horário fisiológico. Pelo menos isso devia ser evitado sempre que é possível”, frisa o pediatra.

COMO COMPENSAR OS FILHOS?

Opinião partilhada pela psicóloga infantil Ana Galhardo: “As crianças precisam de rotinas e de regras definidas para um crescimento saudável. Mas por vezes colocá-las numa creche com horário alargado é indispensável. Porque não há outra opção, fruto das exigências do tempo em que vivemos.”

Os pais que não contam com uma rede familiar alargada próximo de casa e que trabalham por turnos rotativos são obrigados a procurar este tipo de soluções. Apesar de não ser a situação ideal, Ana Galhardo destaca a “grande capacidade de resiliência” das crianças. “Embora existam também cada vez mais crianças com perturbações de todo o tipo, como perturbações de sono e/ou psicológicas, ansiedade ou stress infantil, que tem a ver com a pressa e as exigências do mundo em que vivemos”, observa.

Por norma, não são situações preocupantes mas, por vezes, há uma “falta de vínculo grave entre pais e filhos”. A única forma de compensar, defende Ana Galhardo, é através do investimento em tempo de qualidade. No entanto, isso é difícil por vezes, porque os “pais estão poucas horas por dia em casa” e “chegam frequentemente cansados”. É fundamental também que a família tente criar rotina dentro do caos, potenciando maior comunicação e previsibilidade. “Por exemplo, um pai que vai passar dois dias fora em trabalho deve informar com antecedência essa ausência ao filho. Uma criança possui uma grande capacidade de adaptação, mas precisa de ser informada com tempo. O planeamento é a base.”

 


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