O miúdo porta-se mal? Não chame a supernanny

Fevereiro 3, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Patricia Poppe (de blusa branca) convida os pais a ouvirem-se DR

Notícia do https://www.publico.pt/ de 21 de janeiro de 2018.

Não há uma receita para educar, mas há ajudas a que os pais podem recorrer. Da família à ajuda profissional. Tudo menos expor os filhos ao olhar público.

Bárbara Wong

Não é fácil educar. É raro o pai que nunca se confrontou com um dilema, com uma dúvida sobre a educação dos filhos. E agora o que vou fazer? Fiz bem? Devia ter feito de outra maneira? A culpa é minha? Se calhar tenho de pedir ajuda, mas a quem? O polémico programa televisivo Supernanny procura dar essa ajuda aos pais dos filhos mais mal comportados. O guião é simples: há uma família que precisa de ajuda e há uma psicóloga ou terapeuta familiar que tem a solução. A criança problemática deixa de o ser e os pais aprendem a gerir os problemas. Final feliz? Nem por isso. Não é na televisão nacional que se resolvem os problemas privados. Os pais têm outras alternativas.

O programa foi para o ar no último domingo e na segunda-feira de manhã já a Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Protecção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ) criticava o conteúdo por considerar que existe um “elevado risco de o programa violar os direitos das crianças, designadamente o direito à imagem, à reserva da vida privada e à intimidade”. Também a UNICEF e o Instituto de Apoio à Criança subscreveram as críticas; e a Entidade Reguladora para a Comunicação Social e a Ordem dos Psicólogos receberam queixas. No final da semana, a família do segundo episódio pedia para que este não fosse para o ar; e a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Loures exigia à SIC que retirasse as imagens da criança do primeiro episódio do ar, ao que a estação respondeu que não iria obedecer.

A SIC defende que Supernanny é um programa com “uma vertente pedagógica”, acrescentando que o objectivo “é sempre o de auxiliar pais e educadores a melhorarem a relação com os seus filhos, ajudando-os a estabelecer regras e limites e melhorando a comunicação entre todos, criando assim uma dinâmica familiar mais saudável”. Em causa está o superior interesse da criança, abalado com a exposição mediática, dizem as entidades que se mostram contra o programa e também os especialistas com quem o P2 falou para este trabalho. Portanto, é ponto assente que se os pais estiverem muito desesperados com o comportamento dos filhos, não devem recorrer a um meio onde os problemas da sua família fiquem expostos à vista de milhares de pessoas. A audiência do primeiro episódio foi de um milhão de espectadores.

Então a quem recorrer? Em primeiro lugar à família e aos amigos. Às vezes não é fácil tomar a decisão de pedir ajuda externa porque os pais têm vergonha de não serem capazes de gerir o problema sozinhos, reconhece José Morgado, especialista em Psicologia da Educação e professor e investigador no ISPA, em Lisboa. “Às vezes, os pais têm pudor em pedir ajuda porque acham que são péssimos pais. É preciso trabalhar a auto-estima dos pais”, defende.

Mas não deveria ser um problema pedir ajuda, diz por seu lado Ana Teresa Brito, da Fundação Brazelton/José Gomes Pedro. E a ajuda está em todo o lado. No médico que acompanhou o casal durante a gravidez, no pediatra da criança, no enfermeiro do posto de saúde que dá as vacinas, no educador de infância que a recebe na creche ou no pré-escolar, enumera a especialista. Há toda uma “aldeia” de profissionais que podem ajudar a família porque estabeleceram uma relação com ela, declara. “Uma aldeia cuja família respeite e confie”, acrescenta.

E se essa aldeia não funcionar? Porque o ideal é que funcione, mas pode não ser suficiente. Então há ajudas mais especializadas. José Morgado acredita que o psicólogo de educação é o profissional que pode ajudar os pais e as crianças ou adolescentes em questões de comportamento em casa ou na escola. Ao psicólogo de educação cabe “ouvir e fazer perguntas, muitas perguntas” para compreender o que se passa naquela família. “Mas quando se instala em mim a dúvida se é um problema de saúde mental, então encaminho para a pedopsiquiatria. É preciso sensibilidade no âmbito técnico, mas também ético”, defende o professor.

Pais em grupo

Muitas vezes as dúvidas dos pais só precisam de ser partilhadas, por exemplo, em grupo. Há 14 anos que a Universidade Católica Portuguesa, no Porto, tem o projecto Aprender a Educar, com sessões sobre temas de parentalidade. Para participar “basta ser pai”, informa Mariana Negrão, coordenadora do projecto, que reconhece que este chega sobretudo a pais mais informados, que vão à universidade ouvir especialistas, mas também expor as suas dúvidas. Até agora foram feitas 140 sessões para três mil participantes.

O programa tem saído de portas para a comunidade, para escolas e colégios, mas também para “contextos mais complexos” como é o dos pais com Rendimento Social de Inserção, por exemplo. Nesses casos, tratam-se questões específicas e adaptadas ao público, mas o esquema é sempre o mesmo: expõe-se o tema, ouvem-se os pais partilhar as suas dúvidas ou as suas histórias. Também José Morgado faz o mesmo, a convite de instituições de Norte a Sul do país, ilhas incluídas. “Os primeiros 20 minutos falo, depois abro espaço para debate e a coisa corre bem. No final há pais que vêm falar dos seus problemas”, resume.

O modelo de Escola de Pais de Patricia Poppe, psicóloga educacional e psicoterapeuta, é diferente. Desde 2014 que a especialista iniciou um programa para os encarregados de educação da Escola Alemã, em Lisboa, onde trabalha desde 1986. Uma vez por semana, durante 15 sessões de hora e meia, os pais reúnem-se e conversam entre si. Falam de tudo e aprendem a ouvir. Não vão ali para ouvir receitas, mas naquela partilha podem encontrar soluções para a maneira como educam, explica a psicóloga, que também faz este trabalho de grupoanálise no seu consultório privado.

Para entrar no grupo é preciso passar por uma entrevista e conhecer bem as regras: escutar os outros, respeitar a sua opinião, saber que tudo o que ali se diz é confidencial, comprometer-se a ir regularmenta e evitar encontrar-se com os outros pais fora do grupo. “São limites seguros que são criados, que permitem que se fale sobre o que se sente, sem medo, sem julgamentos”, explica Patricia Poppe.

Não há receitas

“Muitos pais querem fazer o melhor, mas não conseguem lá chegar. Por isso, [neste grupo] procuro criar um ambiente acolhedor e de segurança para que os pais possam falar abertamente e partilhar”, assim, os pais descobrem que os outros têm problemas semelhantes ou antevêem as questões com que se poderão confrontar mais tarde – porque os grupos são feitos com pais que têm filhos de diferentes idades. Esta partilha faz com que “diminua a vergonha e a culpa”. “Quando os filhos têm problemas, os pais sentem que a culpa é deles”, constata a psicóloga.

Este é um modelo em que não se privilegia a “parte cognitiva e racional”, que é o que acontece nas sessões onde um especialista fala de um tema; mas que os pais vivem porque escutam os outros. “Tudo o que se passa no grupo vai ser interiorizado e levado para casa. Esta é a grande mais-valia”, sublinha Patricia Poppe, acrescentando que “não há uma receita”. “Ninguém diz como é que os pais têm de fazer [em relação ao comportamento dos filhos], os pais descobrem sozinhos porque nada é imposto, vem do seu interior”, reforça.

 

Um conselho que Ana Teresa Brito dá aos pais é “ouvir a sua intuição”. “Acreditamos que os pais são os maiores especialistas, mesmo quando estão a falhar, porque foram eles que sonharam o seu bebé”, justifica.

Não há uma receita para educar, mas há coisas que se podem aprender, defende Mariana Negrão. Assim como há cursos de preparação para o parto também devia haver de parentalidade, considera. “Não se nasce ensinado, os pais têm de experimentar, ir aprendendo e não ter receio de expor a sua ‘incompetência'”, acrescenta.

Hoje os pais sentem a pressão para serem perfeitos, continua a professora da Católica. Mas “não precisamos de superpais”, diz José Morgado. “Se houvesse receitas, saíamos todos direitinhos, desenhados a regra e esquadro. Claro que há princípios e valores que devem ser ensinados, mas que servem para apoiar a relação da criança com o mundo. Não queremos que haja uma receita para educar porque cada criança é única e queremos que as crianças recriem o mundo!”, conclui Ana Teresa Brito.

 

 

 

 

 


Entries e comentários feeds.