Como abordar temas sensíveis com crianças e adolescentes? – Formação em Aveiro, 2 e 3 de fevereiro

Janeiro 27, 2018 às 5:24 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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Destinatários: Terapeutas Ocupacionais; Psicólogos; Fisioterapeutas; Terapeutas da Fala; Assistentes Sociais; Professores; Educadores; Estudantes das áreas acima descritas.

Tipo de Acção: Cursos
Duração: 12 horas
Local: Aveiro

Calendário: 02-02-2018 a 03-02-2018

Horário: 18:00 às 22:00 e das 10:00 às 19:00

Preço: 60 €

Data limite de inscrição: 31-01-2018

mais informações no link:

http://www.mdcpsicologia.pt/formacao/catalogo/action-detail/como-abordar-temas-sensiveis-com-criancas-e-adolescentes-317/

Agências de barrigas de aluguer aliciam clínicas portuguesas

Janeiro 27, 2018 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Notícia do https://www.publico.pt/ de 15 de janeiro de 2018.

Em Portugal são permitidas as gestações de substituição só por altruísmo. Centros recebem contactos de agências que dão 40 mil dólares a barrigas de aluguer. Regulador está seguro de que se cumpre a lei.

Joana Gorjão Henriques

Vários centros de procriação medicamente assistida em Portugal estão a receber contactos de empresas estrangeiras que noutros países têm serviço de barrigas de aluguer — proibidos pela lei portuguesa — “a anunciar” o seu negócio.

Numa ronda telefónica feita pelo PÚBLICO por 13 centros autorizados pelo Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA), pelo menos seis disseram ter recebido contactos nesse sentido, mas a maioria não quis ser identificado — quatro não responderam e três disseram que não. Mas todos garantiram não ter dado seguimento aos pedidos.

Em Portugal, a lei permite a gestação de substituição a casais heterossexuais e casais de duas mulheres que não tenham útero ou apresentem lesões que impossibilitem gerar uma gravidez ou, ainda, em situações clínicas que o justifiquem. Mas proíbe a gestação a troco de dinheiro, estipulando “a gratuitidade do negócio jurídico e a ausência de qualquer tipo de imposição, pagamento ou doação por parte do casal beneficiário”.

O médico Alberto Barros, director do Centro de Genética da Reprodução, no Porto, e membro do CNPMA, foi dos que receberam mais do que um contacto a anunciar serviços de intermediação entre gestantes e clínicas. Diz que é legítimo retirar a conclusão de que contêm “uma componente negocial remuneratória”. O que fez? “Disse aos meus colaboradores que nem merece resposta” fora “do âmbito criminal”, porque “viola a lei”. E também “por uma questão ético-filosófica”, acrescenta: “Sempre entendi a gestação de substituição no plano de apoio e solidariedade, nunca a troco de dinheiro.”

Num e-mail a que o PÚBLICO teve acesso, e que terá seguido para mais de um director clínico, a representante de uma Agência Internacional de Doação de Óvulos e Barriga de Aluguer, sediada na Califórnia, a Extraordinary Conceptions, informa que a empresa se está a instalar no país e que procura parceiros, para que possa “recomendar clínicas e doutores especializados”, visto “que as leis foram modificadas recentemente”. Fala em “barrigas solidárias” e não “de aluguer”.

Consultando o site da empresa, esta oferece 40 mil dólares a quem se candidate a ser barriga de aluguer. Entre os vários requisitos está o de ser mãe de pelo menos um filho e ter entre 21 e 39 anos, bem como não ter qualquer doença do foro mental ou dependência de drogas e álcool. A base de dados tem mais de duas mil candidatas a doação de óvulos e muitas “disponíveis para viagens internacionais”.

Mas o CEO da empresa, Mário Caballero, garante ao PÚBLICO por email que não está a trabalhar com nenhuma clínica portuguesa. “Não fizemos nenhum contrato de barriga de aluguer em Portugal”, afirma. O interesse foi suscitado pela alteração à lei sobre a “gestação altruísta” e irão continuar a seguir a “actualidade para saber os desenvolvimentos nos próximos anos”, justifica. “Só ajudamos portugueses que vieram aos Estados Unidos para barrigas de aluguer.”

Mais explícita, uma empresa da Ucrânia, onde as barrigas de aluguer são igualmente permitidas, a Surrogate Motherhood Professor Ferskov A.M., enviou um anúncio a pelo menos um centro nacional, com vários serviços e um preçário para barrigas de aluguer e técnicas de procriação. O orçamento para um programa de barriga de aluguer que inclui a fertilização in vitro vai de cerca de 23 mil a 50 mil euros, consoante a opção. Mas, contactada por telefone, a empresa diz que só fornece serviços na Ucrânia. “Se estiver interessada numa barriga de aluguer tem que vir ter connosco”, disse um funcionário, que referiu não haver qualquer parceria com clínicas portuguesas.

CNPMA sem queixas

Ao CNPMA não chegou nenhuma referência a este tipo de aliciamento: “As clínicas sabem que essa actividade é ilegal”, diz o presidente do conselho, Eurico Reis. “Não são os centros que têm as gestantes à disposição.”

O presidente do órgão regulador está seguro de que as clínicas não lhes darão seguimento. O risco será “no aliciamento aos casais”, considera. “É um risco mas há formas de contornar” nas entrevistas, refere, dizendo que tem décadas de experiência de interrogatório como juiz e que está a treinar outras pessoas para o mesmo.

O processo para ser autorizada uma gestação de substituição é moroso: o casal tem que ir a uma clínica para a mulher do chamado casal beneficiário comprovar que tem as condições exigidas pela lei, esse pedido tem que ser avaliado pelo CNPMA, depois recebe parecer técnico da Ordem dos Médicos (que tem 60 dias para se pronunciar), regressa ao CNPMA (que tem mais 60 dias para dar o aval) e só depois é aprovado ou não. Inclui entrevistas aos três membros, onde a relação da gestante com o casal é avaliada.

A gestante de substituição tem sempre que ter uma relação de proximidade com o casal, defende o médico Alberto Barros, pois caso contrário o espírito de altruísmo “não pode estar presente”. O único caso que chegou ao fim com aval positivo da CNPMA foi o de uma “avó” que se dispôs a emprestar o útero à filha. Por outro lado, o médico alerta que tem de haver algum cuidado para “não pôr em causa o essencial”: “A gestante tem que ser escrutinada para que o legislador não volte atrás no seu parecer”, afirma.

Marcelo Rebelo de Sousa aprovou o decreto-lei que regulariza esta questão em 2016, mas antes vetou-o por considerar que havia lacunas. Por outro lado, o Tribunal Constitucional tem em análise um pedido feito no ano passado por PSD e CDS-PP de fiscalização da constitucionalidade da PMA e gestação de substituição, por considerarem que estão em causa os direitos à identidade pessoal e genética, entre outros.

Listas de espera

A lei é recente e irá levantar mais dúvidas. Mas para Miguel Oliveira da Silva, ex-presidente da Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida, tem factores que, conjugados, explicam a possibilidade de aproximação comercial: “não se exige” que “pelo menos um dos três elementos envolvidos seja residente em Portugal, a grávida de substituição já tenha pelo menos um filho vivo e exista acompanhamento psicológico obrigatório durante e após a gravidez” — este último está previsto mas na sua interpretação é “sem obrigatoriedade”.

Assim, acha que o contrato “é um mero papel para fingir ‘altruísmo e solidariedade’, que será ultrapassado por fora: pagando transportes, residência, alojamento, alimentação, roupa, dinheiro, etc., tudo impossível de controlar”.

 

Na verdade, há tantas questões que se levantam sobre a gestação de substituição que a Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução (SPMR) sentiu necessidade de as discutir com os seus associados este fim-de-semana. A presidente Teresa Almeida Santos não se espanta com os assédios de agências a clínicas: era “uma consequência previsível” da lei, diz. Agora, o risco é “explorarem as pessoas que precisam de tratamentos”. “Se o Estado abre a porta, devia também dar condições para que as pessoas não batam na parede”, defende.

Porque com a nova legislação deu-se um passo — permitir a gestação de substituição — mas fechou-se uma porta — cingir o processo a algo gratuito. Sendo a gravidez um estado que implica sacrifícios e restrições da gestante, é expectável que a sua aplicação em Portugal seja limitada a poucos casos, acredita, ou então “abre a porta ao negócio paralelo”. Não a choca que “uma mulher receba dinheiro para ter uma gravidez por outra”. É claro que a gestação de substituição “é um negócio”, acrescenta. “Desde que seja claro e transparente não me assusta.”

Um dos temas que preocupam esta sociedade é justamente o dos desafios que se colocam “aos centros públicos com o alargamento de beneficiários e a falta de resposta de dadores de gâmetas”, diz. Isto porque o banco público está com listas de espera de um ano para quem procura espermatozóides e de dois anos para quem precisa de ovócitos. Ou seja, “as técnicas de PMA estão a ser aplicadas no privado porque o público não tem condições”, afirma.

 

 

Ganhar prémios a brincar? Os estudantes do distrito de Coimbra podem, criando o cartaz do “Coimbra a Brincar”!

Janeiro 27, 2018 às 10:00 am | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
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Data limite de envio dos trabalhos a concurso – 31 de janeiro

mais informações:

http://www.apc-coimbra.org.pt/?p=6374

O segundo SuperNanny visto à lupa por três especialistas. “Aquele happy ending é uma mentira”

Janeiro 27, 2018 às 6:00 am | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto do http://observador.pt/ de 22 de janeiro de 2018.

Cátia Bruno

O Observador pediu a três especialistas que assistissem ao segundo episódio. Há críticas à exposição dos menores, à falta de profundidade da intervenção e até às técnicas utilizadas.

Um aviso em fundo negro e letras brancas começa por dizer que “a privacidade dos intervenientes” foi “respeitada” e que as imagens foram exibidas “com a sua concordância”. O trabalho “da educadora” usa técnicas e instrumentos “pedo-pedagógicos”, mas não substitui o acompanhamento de “profissionais de saúde”.

A SIC optou por iniciar assim o segundo episódio do programa SuperNanny, que foi exibido este domingo, respondendo aos avisos e recomendações por parte de entidades como a Comissão Nacional de Proteção de Direitos das Crianças e Jovens (CNPDCJ), a Unicef e o Instituto de Apoio à Criança, que apontaram violações dos direitos da criança como o direito à “imagem”, “reserva da vida privada” e “intimidade” dos menores envolvidos. Esta segunda-feira, a Ordem dos Advogados juntou-se ao coro de críticas, falando numa exposição mediática “inadmissível” das crianças.

Depois do aviso em fundo negro surgem, como aperitivo, imagens a antecipar o que será exibido neste episódio. Uma criança a chorar, deitada no chão da casa-de-banho, descontrolada, tenta pontapear a mãe. Dois irmãos batem um no outro. Uma mãe grita com a filha, que responde insultando-a. Depois, é-nos dada a conhecer a nova família que pediu ajuda à SuperNanny: dois pais que trabalham a tempo inteiro e dois filhos, uma de 13 anos e um de cinco.

O Observador pediu a três profissionais da área da psicologia e da terapia familiar que assistissem a este episódio e partilhassem as suas observações sobre as estratégias ali aplicadas e a relevância (ou falta dela) do formato. Alguns revelaram não ter assistido ao episódio por opção, como forma de “boicote” a um formato que consideram negativo. Outros preferiram não comentar para não “alimentar a polémica”.

Entre aqueles que aceitaram partilhar as suas opiniões, um consenso instalou-se: o programa poderia ser positivo, mas o facto de incluir crianças reais e expor os seus nomes, rostos e rotinas na intimidade é um grande problema. “O formato em si poderia ser positivo se a identidade das crianças fosse protegida”, resume a psicóloga clínica Raquel Martins Ferreira ao Observador.

Não é o caso. E, mesmo nessa situação, seria necessário reforçar que não há uma solução mágica que resulte com toda a gente: “Não há uma intervenção padrão. Não podemos impingir as mesmas estratégias a todas as famílias”, explica Isabel Abreu Lima, especialista em psicologia educacional e professora na Universidade do Porto. As respostas clínicas dadas nestas situações, sublinham os especialistas ouvidos pelo Observador, são dadas em consultório, respeitando a confidencialidade e intimidade dos intervenientes. E vão muito além das estratégias apresentadas no último episódio, como colocar uma criança descompensada, a fazer uma birra, num “cantinho da pausa” ou estimular a comunicação entre mãe e filha através de uma carta.

Nanny “não está ali como psicóloga”, mas usa estratégias da psicologia

Para os profissionais ouvidos pelo Observador, a polémica começa logo pelo facto de não ser claro se Teresa Paula Marques, a SuperNanny, formada em Psicologia, está ali na qualidade de psicóloga ou não. Em caso afirmativo, diz Raquel Martins Ferreira, levantam-se “questões éticas”. Teresa Paula Marques sublinhou ao Observador não estar no programa como psicóloga e o aviso emitido pela SIC define-a como “educadora”, apesar de inicialmente ter sido apresentada como psicóloga nas promoções do programa; mas Martins Ferreira não tem dúvidas em classificar as soluções apresentadas pela Nanny no programa como “estratégias da psicologia e da terapia familiar”.

João Lázaro, psicólogo clínico com 27 anos de experiência, cuja clínica inclui consultas especializadas para crianças e adolescentes, é ainda mais taxativo: “Ela será licenciada em psicologia, psicóloga não é”, resume, tendo em conta a violação de princípios éticos a que diz ter assistido. “Os papéis não se podem confundir”, diz, referindo-se às justificações apresentadas pela própria, que classifica de “desculpas de mau pagador”. “Aquele aviso inicial que a SIC apresenta no programa ilustra bem as questões da legalidade e da moralidade. As pessoas podem dizer ‘isto é legal’, mas o programa também se inscreve numa dimensão de imoralidade”, resume o clínico.

As críticas à postura de Teresa Paula Marques vão ainda mais longe. “Se ela está lá como psicóloga, há uma data de coisas que estão a falhar, como a empatia. Eu não posso fazer aquele olhar reprovador, é um juízo de valor que não pode ser feito por uma psicóloga”, atira Raquel Martins Ferreira. Já a especialista em educação Isabel Abreu Lima reforça essa mesma crítica, sublinhando a posição de “paternalismo total” da “Supernanny”, presente sobretudo no diagnóstico que Teresa Paula Marques faz aos dois pais da família em questão, depois de assistir a alguns serões em casa da família: “Ela faz acusações como ‘não há respeito’, usa um tom acusatório… Até o tipo de vocabulário que ela usa, como dizer que algo é ‘inadmissível’, não é correto.”

Os profissionais destacam ainda outro tipo de violações daquilo que deve ser uma intervenção terapêutica correta. “Uma criança que tenha estes comportamentos desafiantes acentua a birra em frente a estranhos. Não sei até que ponto isto não a intensifica, com os operadores de câmara ali, aquela gente toda à volta…”, destaca Raquel Martins Ferreira. João Lázaro, por seu lado, sublinha a confidencialidade como sendo “a base” no tratamento das questões mentais e de comportamento, que expõem “o íntimo das pessoas e não uma simples dor de estômago”. “Eu costumo dizer aos meus pacientes que estou disponível 365 dias por ano para os ouvir, mas se não me quiserem cumprimentar na rua, eu compreendo perfeitamente”, resume.

“Só vemos uma parte daqueles miúdos, que parecem uns demónios”

Neste segundo episódio, o filho mais novo da família, de apenas cinco anos, é apresentado como uma criança problemática que protagoniza birras violentas, insultando a mãe, puxando-lhe os cabelos e chegando a tentar pontapeá-la. Numa das cenas exibidas no episódio, a criança aparece a tomar banho a contragosto — deitado no chão da casa-de-banho por se recusar levantar e depois na banheira em pé, coberto apenas por uma toalha na cabeça.

Os espectadores assistem à criança a espernear enquanto lhe é vestido o pijama do Batman, a recusar-se a comer a sopa de legumes que tem à frente e a escorregar da cadeira, bem como a arrastar-se pelo chão de uma das divisões da casa, recusando-se a ir para o “cantinho da pausa”, uma das estratégias apresentadas pela SuperNanny para lidar com a sua birra. Isabel Abreu Lima aponta igualmente críticas à forma como essa solução é apresentada: “É uma estratégia totalmente errada. Ou é uma pausa ou é um tempo sozinho e ela faz um híbrido dos dois”, diz, destacando que o objetivo deve ser não um “castigo”, mas sim que a criança “aprenda a auto acalmar-se”. “Muitos daqueles comportamentos foram quase punitivos, e esses só são aplicados em situações mais graves.”

A especialista — que também não viu com bons olhos a distribuição de tarefas domésticas pelos filhos, falando numa situação “artificial” e “imposta” pela Nanny — critica ainda a obrigação de a criança pedir desculpa e dar um beijinho à mãe depois de ter estado cinco minutos no “cantinho”. “A criança teve aquele descontrolo mas não é porque é má ou diabólica, é porque não sabe como se comportar”, explica, acrescentando que “muitas vezes estas crianças não sabem o que se espera delas.” A alternativa, diz Abreu Lima, que se foca na parentalidade positiva, deveria ser ir buscar a criança calmamente e reintroduzi-la na rotina normal. “Se possível, pô-la a fazer outra coisa que possa ser positiva.”

João Lázaro prefere não comentar as técnicas aplicadas, por se inserirem na área “cognitivo-comportamentalista”, que não é a sua especialidade. Mas critica outro tipo de estratégias por parte da produção do programa, que classifica de desonestas, “como a mãe aparecer com um ar descuidado e no fim já terem tido o cuidado de a maquilhar e pentear.” “Como se o programa tivesse resolvido todos os problemas”, resume.

“Os casos clínicos não se observam numa relação causa-efeito. É preciso perceber como os pais se veem como pais, quais as memórias que têm da sua educação…”, acrescenta Lázaro, que desaprova ainda a ideia apresentada da mãe das crianças como “a general” e o pai como “simpático e bonacheirão”, para ilustrar uma dinâmica de “polícia bom e polícia mau”. “Como é que estes pais vão ser vistos publicamente depois? Aquele happy ending é uma mentira”, considera o profissional.

Também Martins Ferreira e Abreu Lima sublinharam a falta de “etapas prévias”, como a intervenção com os pais, e o foco excessivo nas crianças. Para a docente da Universidade do Porto, o programa acaba por se revelar paradoxal, porque expõe os menores mas apresenta-os de forma unidimensional: “Nós só vemos a parte negativa daqueles miúdos, que parecem uns demónios”, diz, criticando o “sensacionalismo do programa” que se foca apenas nos comportamentos inadequados. “O comportamento daquelas crianças não é só birras — há outras coisas que ali são omissas” e com as quais os profissionais de saúde também trabalham.

Efeitos nas famílias só serão visíveis a longo prazo

Se o filho mais novo é apresentado neste episódio como sendo uma fonte constante de birras, a filha mais velha, de 13 anos, também tem a sua quota de maus momentos. As discussões com a mãe são várias vezes referidas, mas apenas ilustradas duas vezes: quando a adolescente chama ‘parvalhona’ à mãe que grita com ela e quando se esconde na despensa recusando-se a aspirar a sala. Com ela, a Nanny não recorreu a estratégias como o tempo de pausa, mas apresentou várias soluções para melhorar a comunicação com a família: tirar fotos aos pais e ao irmão e escrever uma carta para a mãe que foi depois lida num momento a sós das duas, mas onde as câmaras estiveram presentes.

Raquel Martins Ferreira, que acompanha vários pré-adolescentes e adolescentes no seu consultório, considera que a exposição desta menor pode, até certo ponto, ser mais problemática, já que ela “tem muito mais consciência” do que o irmão. Isabel Abreu Lima critica o “exibicionismo” da cena (“parecia que estávamos no ‘Perdoa-me’”, diz) e o facto de a conversa não ter partido da mãe, mas ter sim sido imposta por Teresa Paula Marques. Já João Lázaro sublinha que aquele momento faz sentido, mas nunca exposto em público: “Eu não digo à minha mulher e aos meus filhos que os amo à frente de milhões de pessoas. O que vincula a relação de uma família é a porta da nossa casa”, resume.

Martins Ferreira considera que os efeitos podem ser ainda mais perniciosos por se ter aberto uma caixa de Pandora na relação entre a adolescente e a sua família que pode ser positiva, mas que necessita de acompanhamento. “Ela diz repetidamente à mãe que precisa de atenção e isso pode ser muito positivo em contexto terapêutico”, aponta a profissional, destacando que a tensão entre mãe e filha revelou ser fruto “de uma saturação que ela revela do irmão e de partilhar o quarto com ele”. “Mas neste contexto não sei até que ponto isto não pode levar a uma culpabilização dos pais e do irmão, porque a puseram numa situação de vulnerabilidade em público.”“Quando a SuperNanny introduz estratégias como a da carta e não lhes dá seguimento, fica a faltar estrutura. A família fica desamparada”, critica.

Para além de todas estas apreciações, os especialistas ouvidos pelo Observador concordam em absoluto que o formato do programa é particularmente preocupante pela exposição em público de dimensões da vida íntima de menores de idade — e acreditam que podem ter consequências nefastas a longo prazo. João Lázaro, que classifica o programa como “um Big Brother da família” e uma experiência “tenebrosa”, teme as consequências para estas crianças na escola e na própria relação com a família, com os filhos a poderem acusar os pais no futuro de terem exposto a sua “incompetência na televisão”: “Como é que esta adolescente vai encarar os seus pares agora que a viram no seu robezinho às bolinhas cor de rosa, no seu quarto? Isto é uma violência muito grande”, diz. “Vai ficar marcado. Vai acompanhá-los o resto da vida. O bullying não é só quando se bate ou quando se goza. Só daqui a muitos anos vamos ver os efeitos disto.”

Isabel Abreu Lima sublinha que estamos perante “a devassa” da intimidade de uma criança que tem vizinhos, amigos e que ali é identificada às claras. “Nunca faria aquilo com um filho meu, mas reconheço que alguns pais se identificam, pensam ‘não sou a única a sentir isto’, e a TV podia cumprir um papel muito importante ensinando aos pais o que podem fazer”, volta a sublinhar, dando como exemplo o problema apresentado neste episódio de apenas um dos pais ter o papel disciplinador. “Mas expor as crianças na sua própria cama, a tomarem banho… É inadmissível. Até custa ver.”

 

 


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