Portugal e a Participação Digital de Crianças e Jovens – 29 janeiro, Centro Cultural Casapiano

Janeiro 25, 2018 às 10:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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O Regulamento Geral de Proteção de Dados (UE) 2016/679 do Parlamento e do Conselho, aprovado a 27 de Abril de 2016, produz efeitos a 25 de maio de 2018 e visa assegurar em todos os Estados-Membros um nível equivalente de proteção dos cidadãos relativamente ao tratamento dos dados pessoais. O Artigo 8º do RGPD obriga os menores de 16 anos a obterem consentimento parental para acederem aos serviços da sociedade da informação. No entanto, o Artigo também refere: Os Estados-Membros podem dispor no seu direito uma idade inferior para os efeitos referidos, desde que essa idade não seja inferior a 13 anos. Dado que os jovens não foram ouvidos sobre este assunto, lançámos em Portugal o Manual de Ação Para Jovens visando ouvir os jovens no âmbito da iniciativa #RGPDDáATuaOpinião. Recebemos mais de 200 participações de jovens. Com este evento pretendemos debater a idade do consentimento à luz do Artigo 8º do RGPD e as implicações do mesmo ao nível da participação e inclusão digital das crianças e dos jovens portugueses, aproveitando a oportunidade para apresentarmos os mais de 200 trabalhos submetidos por jovens Portugueses em resultado da utilização do Manual de Ação Para Jovens que adaptámos, traduzimos e lançámos em Outubro de 2017 e que contou com versões em 13 idiomase com a participação de 14 países, dos quais Portugal foi o que conseguiu envolver maior número de organizações.

Programa

09:30h. Receção dos participantes

10:00h. Sessão de Abertura
Representante da Casa Pia de Lisboa*
Representantes dos Órgãos de Soberania*
Tito de Morais, fundador do Projeto MiudosSegurosNa.Net

10:15h. A Questão da Idade de Acesso à Internet: Um Debate Crucial
Representante da Comissão Nacional de Proteção de Dados*

10:30h. Mesa Redonda: Qual a melhor idade para permitir o acesso à Internet?
Teresa Sofia Castro, EuKidsOnline Portugal
Cátia Branquinho, Aventura Social / Dream Teens
Fernanda Ledesma, Presidente da ANPRI (Ass. Nacional de Prof. de Informática)
José Manuel Gonçalves, Conselho Executivo da CONFAP (Conf. Nacional das Ass. de Pais)
Moderador: Tito de Morais, fundador do Projeto MiudosSegurosNa.Net

11:30h. Vamos Tirar Partido das Oportunidades Digitais
Sofia Rasgado, Coordenadora do Centro Internet Segura, Centro InternetSegura

11:45h. Encerramento
Tito de Morais, fundador do Projeto MiudosSegurosNa.Net

12:00h. Café Com Networking

inscrição no link:

http://www.miudossegurosna.net/participacao-digital.html

A Criança e a Protecção do seu Direito à Dignidade Pessoal – Artigo de Dulce Rocha, Presidente do IAC

Janeiro 25, 2018 às 3:38 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião da Drª Dulce Rocha, Presidente do Instituto de Apoio à Criança, publicado na http://visao.sapo.pt/ de 25 de janeiro de 2018.

A presidente do Instituto de Apoio à Criança não tem dúvidas: “No Supernanny, houve violação do direito da criança” e o Ministério Público deve apresentar “uma providência cautelar no sentido da suspensão do Programa”

Dulce Rocha

Já foi há mais de três anos que tive notícias de um caso tenebroso que me fora apresentado doze anos antes, durante o meu mandato de presidente da Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens.

Creio que foi no início de 2004 que uma delegação de três técnicas especialistas, uma delas Diretora da Instituição e a outra com funções de supervisão, me procurou por ter sido arquivado o processo que tinha sido instaurado para proteger uma criança.

À data, a “Maria”, de dez anos, dotada de uma inteligência superior, mas portadora de grave deficiência motora, e com dificuldades de comunicação, conseguira contar os abusos sexuais que sofria por parte do pai e como tudo era filmado pela mãe para ser comercializado.

No Tribunal, não acreditaram nela, nem nas profissionais que a acompanhavam e a criança continuou entregue aos seus carrascos que até a retiraram da instituição especializada que frequentava.

Acreditei na criança e fiquei como as técnicas: destroçada, mas sem nada poder fazer…

Mais de dez anos depois, já enquanto representante do Instituto de Apoio à Criança, tomei conhecimento durante uma reunião na Polícia Judiciária, onde entidades públicas e privadas procuravam cooperar para ajudar as dezenas de vítimas de um professor escuteiro em cuja casa foram apreendidos igualmente milhares de ficheiros com imagens de abusos sexuais praticados contra crianças entre os três e os dez anos, que soube que o abusador da infeliz menina que entretanto atingira a maioridade, se suicidara na cadeia na sequência da apreensão pela Polícia Judiciária de milhares de ficheiros pornográficos, muitos deles produzidos pelo próprio que assim vivia à custa da exploração sexual da filha.

A Polícia Judiciária tinha sabido da existência deste predador sexual por informações da Interpol, já que dez anos antes ninguém acreditara na criança.

Foram decerto casos como este que conduziram à redacção da Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o Combate contra os Abusos e a Exploração Sexual de Crianças e também a diversas directivas europeias sobre esta matéria.

Tenho-me apercebido que há sempre uma altura em que tudo é permitido, ou em que a Lei parece não conseguir penetrar e que depois surge um momento em que as normas melhoram um pouco, devagar, devagarinho, mas nasce uma convenção ou vem uma diretiva e a lei vai mudando, com leves transformações, é certo, mas chega e entra em vigor e tal e é nessa altura que ficamos com expectativas mais fortes e que renasce a esperança.

Na semana passada, soubemos também daquele caso muito chocante em que um casal manteve treze filhos sequestrados, cheios de fome e acorrentados, sem assistência médica e sem escolaridade, sujeitos a crueldades e sevícias que prejudicaram de forma séria o seu desenvolvimento.

Estes tratamentos degradantes são maus tratos condenados na maioria dos Estados. Fazem parte do que consensualmente se considera tortura, pelo que em quase todas as nações do Mundo são comportamentos censuráveis e considerados criminosos.

E porquê? Porque estes factos são extremamente devastadores para as vítimas que sofrem não apenas lesões corporais, mas que ficam com consequências graves a nível da sua saúde mental, designadamente com stress pós-traumático. De forma que, avaliando a natureza dos múltiplos danos causados, passou a entender-se que estava em causa um conjunto de bens jurídicos violados como a integridade pessoal e a própria dignidade humana, que mereciam uma proteção mais robusta.

Na verdade, quando os bens jurídicos violados assumem natureza pessoal, temos de analisar tudo com redobrado cuidado, porquanto sabemos que muitas vezes até pode não estar em causa a integridade física, mas antes ações que sabemos podem ter efeitos nefastos para a estabilidade psíquica das crianças, afetando o seu desenvolvimento integral.

Ou seja, nem todas as violações de direitos atingem de forma tão severa a dignidade das crianças, mas todas provocam sofrimento e são ilícitas. Por isso, costumo dizer que existem vários graus de perversidade nas violências exercidas sobre as crianças e só relativamente aos graus mais elevados há consenso. As outras violências, designadamente as de natureza psíquica nem sempre reunem unanimidade, sendo portanto mais difícil combatê-las, não obstante o sofrimento que causam às crianças vítimas.

Estão neste caso, as violações aos direitos de personalidade, como o direito à imagem, em que a devassa da sua vida privada pode causar danos graves e persistentes para as crianças e os jovens e que por isso hoje já são tutelados pela ordem jurídica quer a nível nacional, quer internacional.

Nem sempre foi assim. Os direitos das crianças foram desconsiderados durante muito tempo. Só em 1989, dez anos depois do Ano Internacional da Criança, na Organização das Nações Unidas, os Estados acordaram num conjunto de princípios e de Direitos de que as Crianças deviam ser titulares e entre eles está o Direito à reserva da vida privada, no seu artº 16º.

A Convenção contém normas inovadoras e esta é, indubitavelmente uma norma muito forte, que torna abusiva a intromissão na vida privada das crianças mesmo com consentimento dos pais, porque como tenho vindo a referir, os direitos não são absolutos, em especial os direitos dos pais relativamente aos filhos, que têm um fim de proteção e segurança da criança.

Ou seja, se os pais não prosseguirem esse fim de proteção, temos a figura do abuso do direito, pelo que pode haver uma prestação de consentimento consistente em utilização abusiva do direito, mais frequente quando este tem natureza eminentemente pessoal, e passando a ser ilegítima a representação da criança.

Vem isto a propósito do programa que a SIC já transmitiu duas vezes e que insiste em passar outra vez, em que exibe crianças em situações negativas que prejudicam a sua imagem e em que são filmadas na sua intimidade, em violação do seu direito de reserva.

O Comité dos Direitos da Criança da ONU chegou a fazer recomendações ao Reino Unido no sentido de criticar a exibição livre do programa Supernanny, justamente por entender que o formato do Reality show em causa violava o direito à privacidade das crianças.

Temos poucas decisões sobre estas matérias, até porque as normas legais se têm preocupado mais com a criança espectador e não tanto com a criança que participa em programas, pois embora já haja legislação que visa proteger a criança que participa em espectáculos e em novelas, a atenção do legislador dirigiu-se mais à questão do bem-estar, do repouso e da frequência escolar.

O Tribunal da Relação de Évora produziu um acórdão em Junho de 2015 no sentido de considerar legítimo que no âmbito de uma ação de regulação das responsabilidades parentais tivesse sido decidido provisoriamente não permitir a partilha de imagens de uma criança nas redes sociais.

Esta decisão corresponde a uma nova perspetiva da criança, como titular de direitos, num mundo em que a segurança a nível do ciberespaço é também muito relevante, pelo que não podemos ficar indiferentes perante situações que envolvem riscos acrescidos que decorrem da partilha de imagens de crianças.

Estou convencida pelo estudo, análise e pesquisa que fiz, que neste caso, o MºPº tem legitimidade para, no cumprimento do seu dever estatutário de representação das crianças, defender o seu direito à dignidade, bem maior em que assenta a República Portuguesa, como estatui a Constituição logo no seu artº 1º, e também o seu direito à privacidade e à intimidade, nos termos do artº 16º da CDC, através da propositura de uma providência cautelar no sentido da suspensão do programa.

No caso do programa Supernanny, houve ainda violação do direito da criança a uma boa imagem, visto que a repetição das imagens, que se vão manter na Net e nas redes sociais podem prejudicar em elevado grau, o seu direito a uma consideração social que não a humilhe e desvalorize junto dos seus pares.

Manter o formato do programa é, pois, persistir na desproteção das crianças envolvidas, desrespeitando o seu superior interesse.

Tenho esperança que este clamor, quer de entidades com responsabilidades na defesa da criança, como a Comissão Nacional de Proteção de Crianças e Jovens, o Instituto de Apoio à Criança, ou o Comité Português para a Unicef, quer de outras estruturas e personalidades de mérito, como a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados, e Professores Universitários de referência como os Professores Doutores Reis Monteiro, Mário Frota, Manuel Sarmento ou Mário Cordeiro possa ainda dissuadir os decisores da SIC.

Mas se continuar a não haver abertura por parte da estação, não me parece que reste outra alternativa que não seja a providência cautelar. Pela Dignidade das crianças!

E para que não vejamos mais casos, idênticos aos que lamentamos no Estrangeiro de adolescentes que não conseguem lidar com a exposição e com a devassa da sua vida privada e que acabam com a decisão suicida e irreversível.

 

Há alunos que nos chegam à alma…

Janeiro 25, 2018 às 12:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Texto de Carla Machado publicado na http://visao.sapo.pt/ de 7 de janeiro de 2018.

O T. tem um caderno pequenino tipo Moleskine de capa dura que usa para todas as disciplinas do 11º ano num curso de Ciências. A J. descreve-se como preta e alta e no dia do seu aniversário teve um bolo de aniversário. E afirmou, num português hesitante: a professora fez mim feliz

O T. tem dezasseis anos e quer mudar o mundo. Já mo disse várias vezes e insiste que tem um plano meticulosamente delineado para esse efeito. Quando lhe propus que se candidatasse ao prémio do concurso lançado pelo Centro Nacional de Cultura “Vamos mudar o Mundo” (com o apoio da Revista EGOíSTA e da Organização das Nações Unidas e o Alto Patrocínio de Sua Excelência o Presidente da República de Portugal), respondeu-me, hesitante, que ia pensar. E pensou e pensou e pensou (o T. pensa muito). Este concurso pretende isso mesmo: levar os portugueses – sem restrições de idade – a refletir, na tentativa de ser encontrada uma ideia original para tornar este mundo melhor. Quando, dias mais tarde, lhe perguntei se já tinha começado a escrever a sua proposta para mudar o mundo (as regras impõem um texto até 5.000 carateres cujo prazo de entrega termina dia 21 de Janeiro de 2018), o T. fitou-me com ar sério e penetrante. Não, stora. Não sei se vou conseguir fazer isso. Claro que vais! – respondi-lhe. E podes mesmo ganhar uma viagem a Nova Iorque para entregares a tua ideia de como mudar o mundo no Gabinete do Secretário Geral das Nações Unidas. O meu plano para mudar o mundo é individual – disse-me convicto. Como? Individual? Mas se não o partilhares, como vais conseguir que as tuas ideias se espalhem? – insisti. Não, a stora não me compreende. Só eu é que sei como posso mudar o mundo. Tenho já várias ideias escritas (nisto mostra-me um caderno repleto de apontamentos nesse sentido). Mas a mudança do mundo parte de dentro de mim e só depois se poderá espalhar aos outros…

O T. não gosta de cadernos diários e não tira apontamentos nas aulas. De facto, não precisa assim tanto deles pois consegue melhores resultados sem caderno do que outros alunos com vários, um para cada disciplina. O T. tem um caderno pequenino tipo Moleskine de capa dura que usa para todas as disciplinas do 11º ano num curso de Ciências. Pedi-lhe, numa das últimas aulas do primeiro período, se mo deixava ver. Deixou. Fiquei alguns minutos parada e perdida num mundo de gatafunhos e desenhos e setas e poucas, muito poucas palavras. Diria mesmo que apenas as que ele considera essenciais para mudar o mundo. Ao longo das aulas, olha-me atenta e fixamente, presenteando-me sempre nas suas intervenções com uma ideia, pergunta ou resposta que me fazem parar. E pensar. Na última aula do primeiro período, pedi ao T. para fazer a sua autoavaliação. Respondeu-me apenas, imperturbável: – Mereço um vinte. E se calhar merece. Mas a escola pública não está preparada para lho dar.

A J. veio da Serra Leoa e com apenas dezassete anos já viu o seu mundo mudar várias vezes. Fugiu. Do ébola. Da circuncisão. Da dor. Da morte. Passou pela Guiné e pelo Senegal, primeiro. Chegou a Portugal e a Lisboa, depois. Tem saudades de Freetown mas diz que Lisboa é uma boa cidade e que em Portugal se come muitas vezes e há muita comida. E frequenta uma escola pública T.E.I.P. (território educativo de intervenção prioritária) que a recebeu mesmo sem ela falar português. A J. perdeu os pais e toda a família. Chegou até nós através de um Centro de Refugiados e mesmo sem falarmos a mesma língua, comunicamos como se nos conhecêssemos desde sempre. Contou-me da sua vida de antes. A vida difícil que os pais levavam. O esforço que fizeram para que ela frequentasse a escola diariamente. O almoço que era sempre o mesmo e que consistia em pão com manteiga. O desaparecimento dos pais que saíram para trabalhar e nunca mais voltaram. A fuga à circuncisão que lhe era imposta. E contou-me da sua vida de agora: as pequenas compras que faz no supermercado, o seu prato favorito de arroz com feijão e folha de mandioca que cozinha para si própria, as longas extensões com caracóis que ambiciona poder comprar. A J. descreve-se como preta e alta e no dia do seu aniversário teve um bolo de aniversário. E afirmou, num português hesitante: a professora fez mim feliz. Na última aula que tivemos, a J. confessou-me, com os seus olhos negros penetrantes: Portugal mudou minha vida.

E se calhar mudou. A escola pública, afinal, vai ainda conseguindo mudar vidas…

Carmo Miranda Machado é formadora profissional na área comportamental e professora de Português no ensino público há vinte e sete anos, tendo trabalhado com alunos do 7º ao 12º anos de escolaridade. Possui um Mestrado em Ciências da Educação (Orientação das Aprendizagens) pela Universidade Católica Portuguesa e tem como formação base uma Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade Nova de Lisboa. Tem dedicado a sua vida às suas três grandes paixões: o ensino, a escrita e as viagens pelo mundo. Colabora na Revista Mais Alentejo desde Fevereiro de 2010 como autora da crónica Ruas do Mundo, tendo ganho o Prémio Mais Literatura atribuído por esta revista nesse mesmo ano. Publicou até ao momento, os seguintes títulos pela editora Colibri: Entre Dois Mundos, Entre Duas Línguas (2007); Eu Mulher de Mim (2009); O Homem das Violetas Roxas (2011) e Rios de Paixão (2015).

 

 

SuperNanny, a nova Casa dos Horrores

Janeiro 25, 2018 às 9:00 am | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo de opinião de Laurinda Alves publicado no http://observador.pt/ de 23 de janeiro de 2018.

A SIC aposta nesta mulher e nos seus supostos conselhos porque sabe muito bem os frutos que quer colher. E o que quer é aproveitar-se das fraquezas humanas para a devassa da vida privada.

Acho o conceito do programa SuperNanny uma aberração total. Sei que não estou sozinha, mas também sei que a direcção de programas da SIC insiste em manter a série no ar. Contra tudo e contra todos, assume publicamente que só lhe importam números, shares, lucros, likes e afins. Dinheiro, montra e casa cheia, quero dizer. Mais nada.

As crianças e os seus direitos pouco importam. Aliás, não importam rigorosamente nada, e a prova é a surdez total perante vozes como as de responsáveis da Unicef e do IAC, bem como a de Rosário Farmhouse, presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos das Crianças e Jovens (CNPCJ) e de Eduardo Sá, psicólogo, entre tantos outros que tentam a todo o custo sensibilizar a direcção de programas para os maus tratos que as crianças sofrem durante a exposição televisiva e se podem perpetuar depois, no seu quotidiano, quando estão em família, na escola, na rua ou no centro comercial, onde passam a ser reconhecidas e apontadas a dedo.

A lógica implacável dos donos da SIC e dos (ir)responsáveis por estes programas é: tudo o que concorra para aumentar as audiências, a SIC quer e a SIC faz. Acham, naturalmente, que a SIC pode. Se calhar até pode, mas não deve. Mesmo quando os patrocinadores desistem logo após o primeiro episódio e deixam de apoiar o programa, a estação não recua nem vacila. Muito pelo contrário, redobra a aposta.

Corine de Farme, a marca que tinha o patrocínio principal do programa SuperNanny retirou todo o apoio argumentando que “o tumulto social em torno do mesmo não é compatível nem com a imagem da nossa empresa, nem com os nossos objectivos comerciais”. Ainda bem que há marcas destas, com gestores como estes. Ainda bem que nem todos são como estes senhores da SIC, que investem em arenas inconcebíveis em que os novos gladiadores são pais e filhos a lutarem entre si (em lutas desiguais, note-se) ultrapassando muitas vezes todas as fronteiras racionais.

Tal como na Roma antiga o fenómeno colectivo despertava paixões e ódios, convocando para as bancadas legiões de voyeurs adeptos de lutas sangrentas de contornos bizarros, também programas como SuperNanny atraem a pior de todas as faunas. Por um lado os mesmos voyeurs, numa versão aparentemente mais sofisticada, agora confortavelmente sentados à distância, bovinamente apetrechados de comandos e televisões de ecrã gigante com nitidez extrema; por outro lado os mesmos indigentes (a)morais que tudo toleram e nada condenam porque gostam de ‘ver sangue’. Sobretudo quando sentem que estão em multidão, massivamente, passivamente a assistir aos massacres.

A violência emocional e psicológica tem tantos contornos quantos aqueles que a cometem. Sei e todos sabemos de casos sinistros deste tipo de violência. Basta andar uma semana para trás, quando se descobriram os tenebrosos pais de 13 filhos que os mantinham acorrentados e seviciados em casa, sem poderem dormir nem comer, ou ir à casa de banho. Todos falamos na ‘casa dos horrores’ e o epíteto parece consensual, mas há muitas outras casas de horrores onde as crianças não passam fome nem são obrigadas a permanecer semanas, meses a fio sobre os seus próprios dejectos, nem tão pouco são forçadas a marchar para trás e para a frente durante noites sucessivas, mas onde são igualmente maltratadas.

Digam o que disserem, argumentem o que argumentarem, programas como SuperNanny estão mais próximos da ‘casa dos horrores’ do que do consultório de bons psicólogos, onde de forma discreta e eficaz se ajudam pais e filhos a viver com mais qualidade, a ultrapassar as suas dificuldades e a superar as suas desavenças sem verem as suas fraquezas devassadas e expostas ao mundo.

Se acham que exagero, tentem imaginar a balbúrdia mundial que gerariam todos os pais e mães que à face da Terra são confrontados com filhos que fazem birras porque não gostam de obedecer nem de comer, de dormir, de tomar banho ou de acordar cedo para ir para a escola (e todos nós, pais, nos confrontamos com isto e muito mais), se decidissem ir a correr para a porta de uma televisão, arrastando os filhos consigo e oferecendo (vendendo!) a sua história a troco de um suposto conselho prático.

Se em vez de procurarem perceber as razões das birras ou a natureza das suas próprias falhas pedindo ajudas coerentes, consistentes e consequentes em gabinetes de educadores, de psis e de outros especialistas, desatassem a exibir os filhos e as suas dificuldades perante gente viciada em programas tóxicos. Seria a loucura total pois ao contrário do que dizem aqueles que advogam a bondade de programas manipuladores e perversos como SuperNanny, nada do que possa ser dito ou feito num contexto de exposição e violação de privacidade tem efeitos construtivos e resgatadores.

Não vi os programas no ar nem nunca os vou ver. Googlei toda a polémica internacional a propósito das séries feitas noutros países, depois passei para o caso nacional e bastou-me ver fragmentos, mais os vídeos promocionais, para perceber a extensão da miséria humana de quem se vende a si e aos seus a troco de mil euros, bem como a vacuidade dos conselhos da mulher que faz de supernanny. Só diz banalidades. Só debita o que todos já sabemos e já experimentamos. Não só não acrescenta absolutamente nada, como o seu discurso está ultrapassado. Mais, a sua pose é ridícula. Toda ela é a caricatura de uma ama atavicamente atrasada, provinciana, pretensiosa e cheia de artificialismos. Nem nos filmes antigos, nem nos romances de cordel se encontram figurões destes.

Apesar de não acrescentar nada a ninguém, a SIC aposta nesta mulher e nos seus supostos conselhos porque sabe muito bem os frutos que quer colher. Sob uma aparência de bem, de quem quer contribuir para ajudar pais e filhos a lidarem melhor uns com os outros, aproveita-se das fraquezas humanas para a devassa da vida privada. Os donos da SIC e os (ir)responsáveis por reality shows e séries como esta sabem que espreitar pelo buraco da fechadura é uma tentação universal e, por isso mesmo, derrubam portas e paredes para exporem as vidas dos outros, especialmente dos mais frágeis, que nem sequer compreendem que estão a ser vítimas de maus tratos.

Concordo em toda a linha com Eduardo Sá, quando fala em maltrato, e sinto repugnância pelos critérios adoptados pela direcção, produção e apresentação de SuperNanny. Tenho pena dos pais e mães que precisam desesperadamente de mil euros e vendem os filhos na esperança de que eles tenham medo de um papão penteado com rabo de cavalo, óculos de massa e dedo acusador. Tenho pena das crianças que ficam famosas pelos seus defeitos e, por isso, marcadas para a vida (qual destas crianças se orgulhará mais à frente de ter ido à televisão e se ter tornado célebre por fazer birras, dar pontapés na mãe ou levantar a mão ao pai?), tornando-se presas fáceis entre pares mal intencionados que apanham as suas fraquezas e redobram os actos de bullying. Tenho, acima de tudo, pena desta gente que inventa e protagoniza programas de mau gosto e má fama.

Não sou psicóloga, mas sou há muitos anos voluntária em instituições que funcionam em comunidades vulneráveis e dão suporte moral, emocional, psicológico e educativo a crianças e jovens que vivem com graves dificuldades ou são filhos de famílias muito disfuncionais. Sei de casos terríveis de pais que batiam nos filhos com chicotes eléctricos só porque eles próprios estavam sob efeito de álcool ou drogas; conheci e conheço pessoalmente pais e mães vítimas de espancamentos dos próprios filhos, mas também muitos jovens que foram condenados a penas desproporcionadas por trazerem más notas para casa.

Há mais de uma década um destes jovens era literalmente pendurado na corda da roupa, suspenso sobre o vazio de uma altura de três andares, sempre que as notas não conferiam com as expectativas do pai. Pendurado como um Cristo, ali ficava sozinho com os seus pavores e vertigens até o carrasco voltar a abrir a janela para o retirar do castigo.

Todos estes casos de que falo foram acompanhados por especialistas que nunca revelarão nomes nem detalhes que permitam saber de quem estamos a falar. Por isso mesmo e porque foi possível guardar e manter o anonimato, todos foram resgatados e conseguem agora viver uma vida mais normal e menos adversa. As marcas continuam lá e guardam todas as cicatrizes, mas não terão que lidar nunca com feridas expostas ao mundo.

Foram reabilitados (falo dos pais e dos filhos, por incrível que isso pareça, pois uns e outros foram sujeitos a tratamentos e todos foram capazes de superar traumas incrivelmente profundos) e isso foi possível graças a bons especialistas e a um tempo demorado, em que se trabalharam competências e se converteram fragilidades em forças. Se estes casos tivessem chegado à televisão teriam certamente rebentado a escala das audiências e dado muito dinheiro a ganhar aos poucos que dividem os lucros, mas nunca teriam sido acompanhados com a dignidade, a competência e a coragem com que foram acompanhados e resgatados.

Por conhecer estes e outros casos, termino como comecei: abomino o conceito do programa SuperNanny, acho-o uma aberração total e uma fraude em toda a linha. Está a um passo de se tornar a nova casa dos horrores, insisto.

 

 

Conhecimento, Género e Cidadania no Ensino Secundário : Guião de Educação

Janeiro 25, 2018 às 6:00 am | Publicado em Livros, Recursos educativos | Deixe um comentário
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descarregar o documento no link:

https://www.cig.gov.pt/wp-content/uploads/2017/12/Conhecimento_Genero_e_Cidadania_Ensino_Secundario.pdf

 


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